A linguagem do futebol

Há uma linguagem própria para o futebol. São aquelas palavras que se ouvem todos os dias quer pela televisão quer pela rádio ou mesmo no estádio e que qualquer apaixonado por futebol conhece. É engraçado ouvir dizer que um jogador é a arma-secreta, que estava acampado ou que levou uma traulitada. Ou ainda que foi um passe de bandeja feito com régua e esquadro. É isto o futebolês.

O futebolês é um jogo de palavras, de imaginação e criatividade. Os relatos de futebol pela rádio estão recheados de metáforas e dessas expressões da gíria. Para um adepto fanático, não há dificuldade nenhuma em saber que a zona do agrião é aquela parte da área junto à marca do penalty e que um buldozer é um jogador que joga com tudo, com toda a garra. Mas para quem anda um pouco desligado destas coisas, percebe-se o porquê de, por vezes, não conseguirem perceber o que o relator ou narrador quis dizer quando afirmou que a equipa estava a usar o chuveirinho para a área ou que foi um golo de antologia. Mas não são só os jornalistas e comentadores que cultivam o futebolês. José Maria Pedroto falou, enquanto treinador do FC Porto, num roubo de igreja. Mourinho no autocarro em frente à baliza.

Eu confesso que sou daqueles que acompanha os relatos dos jogos, mesmo estando a ver na televisão. Não só pela emoção e intensidade que a rádio tem mas porque é aí que o futebolês mais é usado. Ouvir dizer que um jogador é um autêntico passador e tem uns pézinhos que parecem dois ferrinhos de engomar é algo delicioso – para quem ouve, claro. É isto a linguagem do futebol. Ou então que uma equipa está a dar um festival ou um bigode a outra que não consegue sair do ferrolho e pode levar uma cabazada. Confusos? O que se quis dizer foi que uma determinada equipa está a dominar o jogo e o adversário não consegue sair da zona defensiva e arrisca uma goleada. Simples.

Todos aqueles que gostam mesmo de futebol conhecem estas expressões de cor e salteado. Quando é para falar de uma boa jogatana não há ninguém que não use o futebolês. Mesmo sem querer.

Taça de Portugal: A lei do mais forte

Paços de Ferreira, FC Porto e Nacional estão apurados para as meias-finais da Taça de Portugal. Falta ainda o vencedor do jogo entre o Vitória de Guimarães e o Estrela da Amadora, adiado para 17 de Fevereiro, para ficar completo o quadro de equipas. Equipas essas da Liga Sagres, portanto. Porque o Atlético de Valdevez, sensação da prova, ficou pelo caminho. De forma cruel, mas imperou a lei do mais forte.
Os quartos-de-final começaram bem, no Paços de Ferreira-Naval. Um jogo emotivo, sem aquela monotonia a que estamos habituados e, sobretudo, com golos. Muito golos. Oito, para ser preciso. O Paços marcou cinco, a Naval ficou-se pelos três. Ninguém, certamente, esperaria tal resultado. Quer pela morfologia das duas equipas quer pelas condições metereológicas, com intensa chuva e um relvado pesadão. Não costumam ser as melhores condições para jogar. Rui Miguel foi o herói da tarde, com um hat-trick. Quem dera que fosse sempre assim.

Com o Paços já apurado, entraram em campo o FC Porto e o Leixões. Havia grandes expectativas, quanto mais não fosse pela vitória que os leixonenses conseguiram no Dragão para a Liga Sagres. Porém, este jogo tinha características bem diferentes: primeiro porque era a eliminar, um mata-mata como diria Scolari; depois porque os momentos das duas equipas não tinham nada de parecido em relação ao jogo do campeonato, com uma subida de rendimento dos portistas e uma quebra do Leixões. O jogo começou da melhor maneira para o FC Porto, com o golo. Por Mariano González, depois de uma boa jogada com Lucho e Lisandro pelo meio. Estavam decorridos cinco minutos. O Leixões tentou, depois, o tudo por tudo e assistiu-se, até final, a um jogo de grande qualidade. Disputado, intenso, vivo e recheado de oportunidades. Só foi pena não terem havido mais golos. O de Mariano chegou para levar o FC Porto para as ‘meias’. E com caminho aberto para a conquista da Taça. Na teoria, pois.

Tempo também para o Atlético de Valdevez-Nacional da Madeira. A equipa sensação da Taça, depois de afastar quatro equipas da Liga de Honra – Olhanense, Gil Vicente, Oliverense e Santa Clara – recebeu o Nacional. E perdeu, foi eliminado nos penaltis. Que forma tão cruel de sair de cena! O Atlético (com salários em atraso, é bom lembrar!) bateu-se de forma quase heróica. Esteve pertinho de ganhar quando, a dois minutos do final do tempo regulamentar, Cara obrigou Bracalli a uma enorme defesa para a barra. O jogo foi para prolongamento e, finalmente, para os penaltis. Aí notou-se a inexperiência desta equipa da II Divisão. O Nacional levou a melhor. Está apurado. Mas há que tirar o chapéu ao Valdevez e ao seu treinador, Micael Sequeira.

Em resumo, Paços de Ferreira, FC Porto e Nacional são os apurados. Falta um, ou Guimarães ou Estrela. Saber-se-à a 17 de Fevereiro. Até lá regressa a Liga Sagres. Ah, e a Taça da Liga – se os problemas sobre quem são os apurados forem resolvidos, claro.

O tema do costume e Mesquita Machado

O futebol em Portugal precisa de uma reflexão profunda. Foi mais ou menos isto que disse Mesquita Machado, quando apresentou as razões da sua demissão do cargo de presidente da Assembleia Geral da FPF – estive quase, quase a escrever um texto sobre isso mas mudei de ideias. Porém, eu acrecento que para além de uma reflexão, o futebol português precisa é de uma autêntica revolução. Desde baixo.

Os últimos meses têm sido passados a falar sobre arbitragem. Começou com Bruno Paixão no Sporting-FC Porto, da Taça, e agigantou-se com Pedro Henriques no Benfica-Nacional e o famoso caso da mão na bola ou bola na mão. Desde aí tem sido uma enxurrada de erros, com os jogos de Sp.Braga com Benfica e FC Porto em grande destaque. São erros a mais. Erros graves. Mas temos que reconhecer que os árbitros estão sob pressão e estas situações só o pioram. Porque sabem que ao mínimo erro terão o Mundo em cima. Os árbitros e Vítor Pereira, o presidente do Conselho de Arbitragem. De que todos se querem ver livres. E alguém gosta de trabalhar sob pressão? Não me parece.

Contudo, muitos adeptos de futebol têm a ideia que só os grandes é que jogam em Portugal (eu também o faço, por vezes). Ora vamos ver os últimos jogos de que tanto se fala, o Benfica-Sp.Braga e o Sp.Braga-FC Porto. Duas arbitragens medonhas de Paulo Baptista e de Paulo Costa – este último que, segundo Mesquita Machado, estaria nomeado para o jogo da Luz – que para além de beneficiarem dois grandes, prejudicaram o Sp.Braga. Duas jornadas consecutivas. Alguém pensou nisso? Talvez, porém interessa mais dizer que o Benfica e o FC Porto foram ajudados. E foram, sem dúvida. Os prejudicados foram os bracarenses. E isso é que importa. Pois se não fossem esses dois jogos, o Sp.Braga estava bem mais acima na classificação. Como disse Mesquita Machado – e essa foi uma das razões da sua demissão – e sem ser preciso Playstation.

De tudo isto fica uma ideia: os árbitros precisam de ser blindados, de estarem protegidos da crítica e não terem pressão. Isso não acontece, infelizmente. Porque cada um rema para o seu lado e não há união. Pelo menos é o que parece.

Este líder também teve mãozinha

ANÁLISE JORNADA 15 – LIGA SAGRES


Está confirmado que há alguma alergia ao primeiro lugar e não há que lhes valha. O que quer dizer que o líder voltou a mudar. Na última jornada da primeira volta, chega o FC Porto, o campeão, à liderança. Que vem direitinha das mãos do Benfica, depois de uma semana de interregno para os portistas. Também com uma mãozinha do árbitro, tal como tinha sucedido na passada ronda. Mas isso já não é notícia, pois não?

Invertendo a ordem dos acontecimentos, comecemos pelo jogo do novo líder, o FC Porto. Que jogou fora, com o Sp.Braga. O que é sinónimo de grande emoção, disputa e incerteza. Esta vez não foi excepção. A equipa de Jorge Jesus, que já havia feito uma excelente exibição na Luz, entrou com tudo e teve vinte minutos com uma intensidade enorme onde empurrou o FC Porto para a sua área, completamente encostado às cordas. Os portistas limitavam-se a defender, impotentes para mais. Conseguiram depois equilibrar e aos poucos sacudir a pressão inicial. Surgiu o golo de Rodríguez, para o FC Porto. Injusto. E beneficiando de uma posição irregular, é verdade – no fim vamos ao árbitro, para não variar. De um momento para o outro, o jogo mudou totalmente. Marcou a seguir, à meia-hora de jogo, Lisandro num presente da defesa bracarense. Foi uma machadada no jogo. O Sp.Braga atarantou-se um pouco, desorganizou-se e o FC Porto continuou mais perigoso, com mais oportunidades para aumentar. A segunda parte confirmou isso mesmo. Com dois golos de vantagem, os portistas entregaram a iniciativa ao Sp.Braga que, verdade seja dita, falhou no último passe, na finalização. Os arsenalistas tinham mais posse, mais ataques e coleccionaram cantos mas não foram perigo iminente para Helton. Acabou o jogo com a vitória do FC Porto. E com a liderança do campeonato. Vamos agora ao árbitro, ou melhor, à equipa de arbitragem. Com muitos erros. Parece estar a tornar-se um hábito. Paulo Costa e os assistentes contribuíram. O primeiro golo do FC Porto é precedido de fora-de-jogo de Hulk que assistiu Rodríguez; depois há o golo mal anulado a Tomás Costa, pouco antes do intervalo e ainda queixas do Sp. Braga em dois penaltis (ou terão sido três?) por marcar a favor do Sp.Braga: um puxão de Cissokho (boa estreia) a Alan, um derrube de Helton a Meyong – difícil análise- e uma mão de Guarín num cruzamento de João Pereira. Paulo Costa não marcou nenhum. Um fartote!

Agora, o jogo do ex-líder, o Benfica. A jogar no Restelo, frente ao Belenenses, a equipa de Quique Flores não mostrou os argumentos que lhe eram exigívies. Quanto mais pela condição de líder. Ok, é verdade que o estado do relvado não ajudava nada a jogadores tecnicistas como os encarnados mas isso não pode ser desculpa para tudo. Até porque o jogo do Benfica não se pode limitar a ser pontapé para a frente à espera que Suazo resolva. Apenas os primeiros quartos de hora, tanto da primeira como da segunda parte, demonstraram intensidade e vontade de vencer. Di María fez figura de corpo presente, Suazo desperdiçou até dizer chega e aquelas não eram condições para Aimar. Faltou atrevimento a este Benfica, com cautelas defensivas a mais. Mas houve também o árbitro. Entre penaltis por marcar (o Benfica reclama dois, o Belenenses um) e outros disparates, foi fraquinho. Para variar.

O jogo da equipa que poderia ser líder mas falhou, o Sporting. A formação de Paulo Bento jogou um dia depois do Benfica e sabia que em caso de vitória dobraria o campeonato em primeiro lugar. Era preciso ultrapassar o Nacional, na Choupana. Não é tarefa fácil para quem quer que seja. Falhou. Num jogo bem dividido, com oportunidades e um resultado justo. Marcou primeiro Nenê para o Nacional (atenção a este jogador) num chapéu sensacional a Rui Patrício, empatou Vukcevic para o Sporting. Os leões tiveram um antes e um depois de Vuk, que saiu por lesão. A equipa ressentiu-se dessa saída e perdeu o poder ofensivo que tinha até então. O Nacional equilibrou também a balança depois da entrada de Mateus e já depois de ter estado muito próximo de ganhar – Patrício defendeu um penalty de Nenê. Qualquer das duas equipas estiveram perto de ganhar e de perder. Empataram. E bem. Palavra para a prestação de Artur Soares Dias, o árbitro. Do melhor que se tem visto nos últimos tempos. Fosse sempre assim.

Animação no topo, animação no fundo. Destaque para a vitória do Estrela da Amadora, 2-0, sobre o Rio Ave que demonstra que mesmo sem dinheiro e com todas as dificuldades que se conhecem, o Estrela consegue resultados bem positivos. Um exemplo. Na enésima estreia de Carlos Cardoso como treinador do Vitória de Setúbal em jogos do campeonato, os problemas na finalização mantiveram-se. Resultado: vitória 1-0 da Naval, no Bonfim. O Paços de Ferreira quebrou a boa série de resultados do Trofense, com uma vitória por 3-1, depois da vitória sobre o Benfica e o empate no Dragão. O Leixões empatou, pela terceira vez consecutiva, a zero. Na Madeira, ante o Marítimo, a única equipa a querer vencer. Está diferente a equipa de José Mota. Mas é normal.

Na última jornada da primeira volta, o líder voltou a mudar. Até quando?

O Benfica e as críticas de Quique

É mais um texto sobre o Benfica. Quase um anexo do outro, o real Benfica de Quique. Porque algo não está bem com os encarnados. Não tanto pelos resultados – empatou a zero no Restelo o que lhe pode tirar a liderança – ou pelas exibições que também não têm sido nada famosas. São pelas opções e declarações de Quique Flores. O treinador espanhol mudou o seu discurso de forma radical e, contrariamente ao que fazia no príncipio, decidiu disparar contra os jogadores. Em público.

Primeiro foi o caso de Quim. O guarda-redes português, considerado por muitos o melhor, saiu da equipa depois de um erro contra o Vitória de Setúbal. Um erro que custou dois pontos aos encarnados. Cedeu a baliza a Moreira, ele que também falhou na derrota com o Trofense e a Moretto (na Taça da Liga) que não é nem de perto nem de longe guarda-redes para o Benfica. Para mim, Quim é o melhor guarda-redes que Quique tem à disposição. Regressou ontem, no Restelo, à convocatória mas foi para o banco. Até quando? Sim, porque Moreira e Moretto já tiveram erros parecidos aos de Quim. Ou piores.

A seguir foram as palavras para Balboa. Quique disse não gostar do rendimento do extremo espanhol e que não sabia se era jogador para o Benfica. Tem razão. Balboa tem sido uma autêntica nulidade. Porém, criticar publicamente não me parece a melhor opção. Os adeptos gostam, é sinal de disciplina. O jogador não, perde motivação. E foi Quique quem o quis contratar. Paradoxal.

No final do jogo com o Belenenses, ontem, o visado foi outro: Jose Antonio Reyes. Quique Flores afirmou que ‘se o jogador não joga é porque há algum problema’ e que ‘tem muitas manchetes nos jornais mas rendimento zero’. Volta a ter razão o treinador, pois Reyes não tem tido a importância que dele se esperava. Mas daí a dizer que são machetes a mais… Também as indirectas a Sidnei ficaram expressas no final da partida. Podem dizer que Quique é frontal e não arranja desculpas, não se queixa do árbitro (que prejudicou os encarnados no Restelo) e chama os “bois pelos nomes”. Contudo, essas situações causam mal-estar nos jogadores. Até que ponto não tivesse sido melhor Quique ter assumido a sua responsabilidade, a exemplo de Mourinho no passado jogo com a Atalanta e ter protegido os jogadores?

Quique tem razão. Mas parece-me que não está a escolher o melhor caminho para exigir mais à equipa. Até por serem jogadores bem conhecidos e escolhidos por si. Assim como Aimar que não tem estado nos melhores dias. Mas também Di María e Suazo. O argentino não tem dado uma para a caixa e o hondurenho tem apenas quatro golos no campeonato. Quando há Cardozo, que na época passada, de pesadelo, marcou mais de vinte golos. Ou ainda Nuno Gomes. Quique Flores já tinha dito que o Benfica não ia jogar bonito, porque o que interessa são os resultados. Mas também não pode ser só pontapé para a frente e esperar que Suazo resolva.

Duas entrevistas exclusivas com Pedro Azevedo

Pedro Azevedo nasceu, na Póvoa de Varzim, a 29 de Novembro de 1967. Fez o primeiro relato de futebol em 1985, numa rádio local, um jogo entre o Varzim e o Gil Vicente. Esteve, depois, um curto tempo na TSF mas não recusou o convite de Ribeiro Cristóvão para entrar para o Departamento de Desporto da Rádio Renascença. Já lá vão vinte anos. Esteve nos grandes momentos internacionais do FC Porto, em Sevilha e na Alemanha. Diz que para alguém ter sucesso numa profissão precisa de ter gosto nela e não se sente um bom relator – Clique aqui para ler esta entrevista (Setembro de 2008)

Falta ainda mais de uma hora para a última edição de Bola Branca no dia 21 de Agosto de 2009. A última da semana, marcada para as 22h30. Em ponto, sem qualquer atraso. Pedro Azevedo procura novidades e ultima os textos para que tudo corra bem. Será mais uma edição na carreira, ultrapassada que está a barreira das vinte mil. No entanto, os cuidados têm de ser sempre os mesmos. Afinal, nada pode escapar ao ouvinte. Pelo meio, com um olho no jogo que dá na televisão e outro no gravador, ainda há tempo para uma entrevista. De cerca de quarenta minutos que voaram. Já está tudo?! Clique aqui para ler esta nova entrevista exclusiva, realizada em Agosto de 2009

NOTA: As fotografias presentes na entrevista têm créditos de José Luís Moreira e datam dos dias 28 e 29 de Maio, aquando do workshop Informação Desportiva na Rádio.

"Se não acreditam no futebol, não vão ao futebol"

Quem o diz é Vítor Pereira, presidente do Conselho de Arbitragem da Liga. E foi infeliz. Disse-o numa altura em que cada vez mais os árbitros estão expostos e em que tanto se debate sobre a profissionalização. É uma afirmação paradoxal àquilo que esta Liga de Hermínio Loureiro defende: melhor futebol e estádios cheios. Sporting e Sp.Braga foram dos mais queixosos, pedindo imediata demissão de Vítor Pereira. O presidente do CA respondeu que ‘obviamente não me demito’. E fez bem, pois não é caso para isso.

Vítor Pereira não mediu o impacto das suas palavras. Não foram felizes, como também não foram quando disse que não podia contratar árbitros no mercado de Inverno. Mas percebe-se o desabafo.