Taça de Portugal: Lisandro também resolve

Durou apenas até ao sexto minuto o ambiente de euforia criado pelos adeptos do Paços de Ferreira. Foi aí, de forma precoce, precoce de mais, que Lisandro López fez jus ao seu estatuto. Selou a vitória, entregou mais uma dobradinha ao FC Porto, a primeira de Jesualdo Ferreira. O Paços lutou mas ficou-se pelo sonho. Um golo madrugador na final é como que colocar uma mão no troféu. O Porto volta a estar na rua!

Jesualdo Ferreira tinha na final do Jamor uma oportunidade única de juntar mais um título ao seu currículo, conquistando a décima quarta Taça de Portugal do historial portista. Confirmada que estava a ausência de Lucho González e a presença de Hulk, a equipa foi a habitual, apenas com a troca de Helton por Nuno, o guarda-redes da Taça. Já Paulo Sérgio decidiu mexer no seu onze-base: sentou William, o goleador da equipa, no banco e optou por um reforço do meio-campo, surpreendo com a inclusão de Prieto. Era, sem dúvida, uma estratégia de contenção que pretendia segurar os azuis-e-brancos. De certa forma, até fazia sentido que assim fosse.

Não durou mais de seis minutos, no entanto. Raul Meireles pressionou, aproveitou um erro da defesa do Paços e cruzou para Lisandro. O argentino, no seu estilo de antes quebrar que torcer, correu e picou a bola sobre o guarda-redes Cássio. O golo representou um corte na esperança dos pacenses em fazerem história, encaminhou a vitória do FC Porto, enfim, tirou emoção à final. Se a tarefa dos castores já era difícil, ficou quase homérica. Porém, reagiram partindo em busca do golo do empate. E chegaram a estar perto, há que dizê-lo: primeiro num remate de Pedrinha, ao quarto de hora de jogo, que passou perto da barra da baliza de Nuno; mais tarde, aos 23 minutos, foi Jorginho a tentar a sua sorte rematando ao lado. Contudo, era na defesa que estava o maior mal do Paços de Ferreira, com muitos erros e nervosismo. Assim, Lisandro e Hulk estiveram perto de aumentar a vantagem portista. Não passou da intenção.

EM VANTAGEM, ELES SABEM O QUE FAZER

A primeira parte não tinha sido, nem de perto nem de longe, um regalo para a vista. O grande calor que se fazia sentir era uma atenuante, contudo. Se calhar por isso, o clima também resolveu dar um contributo, mudando bruscamente no que toca à temperatura – o sol deu lugar a um estranho nevoeiro. O FC Porto entrou com mais vontade em busca do golo da tranquilidade, que fosse como uma machadada final. Cinco minutos após o reatamento, Raul Meireles acertou no poste, se bem que a bola tenha ainda sido tocada pela ponta dos dedos de Cássio. Mais quatro minutos jogados, mais uma boa ocasião: passe de Mariano, remate de Rodríguez e enorme defesa do guarda-redes brasileiro do Paços. Os dragões, mesmo sem jogar a um grande ritmo, estavam por cima e justificavam a vantagem.

Por fim, já dentro do minuto sessenta, Paulo Sérgio decidiu arriscar. Lançou William, o artilheiro-mor, para o lugar de Prieto que não foi um verdadeiro corpo estranho. Seguiu-se Ferreira. A intenção com a inclusão de ambos era abrir a frente de ataque mas nenhuma das alterações resultou. O FC Porto continuou no seu ritmo, procurando o segundo golo, mas o que é certo é que Jesualdo Ferreira preferiu gerir os últimos minutos lançando Tomás Costa e, mais tarde, Guarín para os lugares de Mariano e Rodríguez. O jogo entrou numa fase de algumas picardias, mais violento, com algum desnorte de Paulo Costa que até aí tinha feito uma arbitragem impecável. Com naturalidade, veio o apito final. E mais uma festa dos portistas.

Més que un club

Aquilo que o Barcelona conseguiu nesta época foi, a todos os níveis, notável. Foi notável a maneira como jogou e como chegou ao triplete: Liga dos Campeões, Liga espanhola e Taça do Rei. É uma equipa com uma atitude alegre, descontraída, que se recusa entrar em jogos demasiado tácticos com estratégias defensivas. O Pep-team joga sempre da mesma forma. Sempre com paixão e com o melhor do futebol, o espectáculo em grande plano. O treinador, de 39 anos e no seu ano de estreia, surpreendeu todos e mais alguns.

Més que un club é a imagem de marca do Barcelona. É quase como um grito de guerra. O clube tem uma paixão muito própria, existe uma enorme mística. Guardiola, depois de ter sido um grandissímo jogador, é um portador dessa forma de sentir o clube. Além disso, em campo, há Puyol, o capitão e imagem perfeita do garra catalã. Há Xavi e Iniesta, uma dulpa de médios soberba que não têm qualquer paralelo no futebol mundial. Na final de Roma, viu-se bem a importância de ambos pois foram os autores dos passes para os golos de Eto’o e Messi. Ora, Lionel Messi. Não há muitos adjectivos para o definir, a não ser uma repetição de tudo aquilo que já sabemos. Será, muito provavelmente, o melhor jogador do Mundo em 2009 e isso diz tudo.

No entanto, fazendo agora uma retrospectiva fica bem claro que as coisas nem sempre correram pelo melhor. O início de campeonato não foi fácil para o Barça porque a uma derrota com o Numancia seguiu-se um empate caseiro frente ao Racing Santader. Os artistas não entraram bem em cena. O jogo com o Sporting, para a Liga dos Campeões, foi talvez o ponto de viragem. Depois disso, a equipa consolidou-se, garantiu o acesso aos oitavos-de-final da prova milionária e assumiu o controlo da Liga espanhola. Esteve dezoito jogos sem perder, até ser derrotado pelo Shakthar Donestk. Isso nada abalou, diga-se. O resto da história todos conhecem. Chapeau! para eles.

A final esperada… ganha pelo argentino

Roma, 27 de Maio de 2009. O jogo era o esperado e desejado por todos. O duelo entre Messi e Cristiano Ronaldo, pelo estatuto de melhor do Mundo, foi visto como prato forte. Não foi tão intenso como esperado. Ganhou o Barcelona e ganhou Messi, portanto. Cristiano Ronaldo não esteve no seu melhor, à semelhança da equipa, mas foi o que mais tentou contrariar a vitória natural dos espanhóis. Em Roma, o Barça foi ele próprio.

Até no banco havia um choque curioso entre Alex Ferguson e Pep Guardiola. Choque de ideias e, sobretudo, de gerações: Ferguson é traquejado nestas andanças, tem aquele ar sóbrio e experiência de inúmeras conquistas enquanto Guardiola surpreendeu todos, no ano de estreia, criando uma dream-team capaz de tirar o melhor da arte do futebol. As equipas são as imagens perfeitas dos treinadores. Um Manchester matreiro, conquistador e um Barcelona jovem e alegre, jogando para o espectáculo. Porém, quer o escocês quer o espanhol tinham baixas importantes: no Manchester não havia Fletcher o que levou Ferguson a colocar Carrick, Anderson e Giggs no meio-campo com Rooney, Park e Ronaldo à frente; do lado dos espanhóis, Guardiola teve de remodelar a defesa em virtude das ausências de Abidal e Daniel Alves, colocando Puyol na direita e Sylvinho na esquerda recuando Touré para o centro da defesa.

Se a ideia era fazer um duelo entre Cristiano Ronaldo e Messi, e não havia como não o fazer, o português deixou bem cedo a sua vontede num livre característico, cheio de efeito estranho mas Valdés, ainda que de forma não muito segura, conseguiu defender. Voltou a repetir por duas vezes os ameaços à baliza blaugrana, era o elemento mais perigoso. Nos primeiros minutos as equipas estudaram-se mutuamente, a expectativa e o medo de errar era grande. Vejam lá as coisas do futebol, tão famosas: o Manchester United estava por cima, marcou o Barcelona, no seu primeiro remate. Estavam jogados dez minutos quando Eto’o, após passe genial de Iniesta, bateu Van der Sar. Numa final, ainda para mais sendo da Liga dos Campeões, marcar um golo tão cedo é o que qualquer equipa precisa para colocar uma mão na taça.

O GOLO MADRUGADOR QUE MUDA TUDO

O golo foi como um rude golpe ao United, teve a capacidade de mudar tudo. A estratégia dos ingleses tinha tombado. Faltavam ideias, faltava aquela chama característica de verdadeiros diabos e nem as transições, que costumam ser letais, resultavam. O Barcelona aproveitou, passou a controlar sem dar espaço de manobra. Apenas Ronaldo conseguia criar perigo para Victor Valdés mas a defensiva do Barça resolvia bem – aquela que mais se pensava que podia falhar, esteve melhor do que a outra. O ritmo não era alto, nem pensar, mas era aquele que os catalães queriam. A noite não era, definitivamente, para o Manchester. Chegou o intervalo, num ápice, sem que tenham existido ocasiões realmente gritantes de golo.

Alex Ferguson tinha que mudar: retirou Anderson para lançar Tevez, procurando alargar a frente de ataque. Porém, entrou melhor o Barcelona. Primeiro Henry, obrigando Van der Sar a uma defesa apertada; depois Xavi, num remate parado pelo poste, estiveram perto do segundo golo. O Barcelona justificava a vantagem, plenamente. Ferguson lançou Berbatov para o lugar de Ji-Sung Park, aos 66 minutos. Quatro minutos depois, golo. O segundo do Barcelona. Marcado por Messi, o génio argentino. A final acabou aqui. Setenta e dois minutos jogados. Nem foi preciso contar mais nada. A vitória assenta como uma luva.

Estará tudo terminado?

Terminado o campeonato é hora de balanço. Desde logo dar os parabéns a quem ganhou, até porque o faz pelo quarto ano consecutivo. Melhor equipa (só com duas derrotas), melhor ataque (61 golos), melhor defesa (18 golos) chegam para justificar a regularidade dos pupilos de Jesualdo Ferreira. Mérito para o treinador que esta época construiu uma equipa, juntando seis novos jogadores no onze aos repetentes: Helton, Bruno Alves, Lucho, Raul Meireles e Lisandro. Equipa a crescer de jogo para jogo e sempre respondendo bem ao facto de não poder contar com alguns jogadores influentes em jogos importantes. Jesualdo venceu e convenceu adeptos e críticos e a sua continuidade no Dragão não está em causa.

Chegou aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, venceu o tetra e pode ganhar a Taça de Portugal. Mais? Se calhar era pedir o impossível.

O Sporting foi também tetra, segundo classificado pelo quarto ano consecutivo. Uma equipa treinada por um treinador jovem, com muitos jovens e com alguma inconstância exibicional em algumas alturas da época. Fica no entanto um trabalho de lançamento de alguns jovens com largo futuro, e que com continuidade, pode formar uma equipa fortíssima, se houver capacidade financeira para recrutar os jogadores que sejam mais-valias para o plantel de Paulo Bento. Também aqui não há tabu, Paulo Bento será o treinador leonino porque Bettencourt será o próximo presidente.

O Benfica fez o habitual, prometeu muito, não cumpriu, e ano após ano vai gastando dinheiro sem sucesso, apesar da conquista da Taça da Liga. Equipa mal construída e sem sentido colectivo. Urreta e Balboa foram um fracasso. Suazo uma má insistência de Quique no ataque. Aimar com mais lesões que golos marcados e Reyes com intermitências exibicionais que não se entendem, foram duas desilusões. Se juntarmos a este estado de coisas a não utilização de Cardozo como titular, foi só o melhor marcador dos encarnados nas duas últimas épocas, está explicada a época do Benfica. Falta um tabu por resolver, Quique ou Jesus. A acreditar no comunicado para a CMVM, Quique fica, mas no caso de Ramirez a situação foi assim mesmo, num dia o Benfica confirma à Comissão de Valores que não há nada quanto à sua contratação, para no dia seguinte anunciar que o jogador foi contratado. Um único óbice, rescindir com Quique custa quase quatro milhões de euros, resgatar Jesus ao Braga custa mais um milhão. O que é isso para quem gastou 60 milhões nos últimos anos?

Excelente a época do Nacional, com mais um bom trabalho de Manuel Machado, um saboroso quarto lugar e mais uma vez a colocar uma equipa na Europa. No Nacional nascem goleadores, Adriano antes, agora Nené. Anda tudo cego, que ninguém consegue ver que o rapaz é mesmo goleador? O golo de livre ao Sporting é de compêndio.

Boa época do Sp. Braga, embora creio que prejudicada pela boa prestação na Taça UEFA, mas pesem algumas “bocas” mais ousadas ou atrevidas de Jorge Jesus, parabéns ao rei das tácticas, pela excelente época protagonizada.

Boa época também do Leixões e de José Mota, a aquecerem os lugares cimeiros da classificação durante grande parte da época e parabéns para a Académica e para Domingos Paciência, com um campeonato muito forte em casa, que lhe valeu o sétimo lugar na tabela, melhor classificação dos últimos dez anos.

Bom trabalho de recuperação para Carlos Brito (Rio Ave) e Carlos Cardoso (V. Setúbal), os bombeiros de serviço de clubes a que estão umbilicalmente ligados. Parabéns ao Paços de Ferreira, que conquista lugar europeu via final da Taça, num trabalho muito contestado de um técnico jovem (Paulo Sérgio) que soube acreditar nas suas capacidades, e que teve alguém que quis acreditar no seu trabalho, o presidente Fernando Sequeira, apesar das opiniões (muitas) em contrário.

Desilusão, porque se esperava bem mais, para o Vitória de Guimarães, e para a descida do histórico Belenenses, mas casa onde não há pão…

Na Amadora também não houve pão, mas houve jogadores briosos e competentes que souberam responder a um presidente que promete e não paga.

Assim fecha a cortina sobre mais um campeonato, sendo necessário aguardar mais uma semana para saber se a classificação será esta, pois até ao final do mês há que ter tudo em dia com os jogadores. Será que, quem não teve dinheiro durante o ano, vai agora conseguir arranjá-lo em oito dias? Afinal poderá ainda não estar tudo acabado.

BERNARDINO BARROS


The final countdown

ANÁLISE JORNADA 30 – LIGA SAGRES


Jornada de múltiplos sentimentos. Alegria, tristeza, alívio e desilusão. Foi a última desta temporada. Para uns, foi a consagração. Para outros, a impotência por não terem conseguido os objectivos. É assim o futebol.

Consagração. Do FC Porto, no Dragão, frente ao Sp.Braga. O título já estava garantido, era tempo de os adeptos voltarem a saudar os campeões. A quarta conquista seguido, estava lá marcado na relva o número. Tiraram-se fotografias em conjunto, os jogadores foram chamados um a um, pintados de azul e branco, o ambiente estava fantástico. Andreia Couto, directora-executiva da Liga, entregou o troféu de campeão. Mais uma ovação. Chegou o jogo. Para os portistas pouca coisa havia em disputa, para o Sp.Braga existia ainda, em caso de vitória, a possibilidade de chegar ao quarto lugar. Avancemos até ao minuto 42 porque até aí o jogo não teve grande interesse, tirando uma perdida incrível de Matheus. Foi aí, a três minutos do intervalo, que os adeptos do Dragão tiveram mais um motivo de festejo, com o golo de Farías. A festa ganhou proporções ainda maiores. Para o reatamento, o ritmo não mudou. O mais importante era festejar. O Sp.Braga conseguiu empatar mas nada estragou a festa. O público ovacionou, os jogadores responderam. Jesualdo Ferreira agradeceu com um rasgado sorriso no dia do seu sexagésimo terceiro aniversário. É a festa do campeão, pronto.

Confirmação. O quarto lugar estava ainda em jogo, tanto poderia ir para o Nacional como para o Sp.Braga. A equipa de Manuel Machado fez-se valer dos dois pontos de vantagem e confirmou ser a melhor equipa logo após os grandes. Os arsenalistas só com uma vitória poderiam lá chegar. Não conseguiram, já vimos. Quanto ao Nacional, jogou em Alvalade, frente a um Sporting com o segundo lugar há muito garantido. Havia uma questão a decidir: o melhor marcador do campeonato, se Nenê se Liedson. O Sporting entrou de rompante, marcou dois golos nos primeiros dez minutos. Não foi o levezinho, foi Derlei. Respondeu o goleador-mor da Liga Sagres, Nenê, com um golo de levantar o estádio. Uma bomba de fora da área. Estava decidido o melhor marcador. Ponto final.

Tristeza. Enorme tristeza, aliás. Belenenses e Trofense desceram à Liga Vitalis, ou seja, não conseguindo o feito heróico de se salvarem na última ronda. O Belenenses não tinham tarefa facilitada. Jogava na Luz, ante o Benfica. Porém, começou da melhor forma com um golo de Silas, aos quatro minutos. A vantagem belenense durou até ao minuto 21: golo de Cardozo., empate. Se a vitória da equipa de Rui Jorge já era pouco provável, ficou impossível, a três minutos do descanso: Saulo, numa atitude inacreditável, agrediu Di María e foi expulso. Começou aí a derrocada do Belenenses. Com superioridade numérica, o Benfica avançou para a baliza de Júlio César. Voltou a marcar, num golaço monumental de Felipe Bastos. Depois, em cima dos noventa, Mantorras fixou o resultado. E o Belenenses desceu. Assim como o Trofense, derrotado em Paços de Ferreira. Ora, à equipa de Tulipa, estreante no campeonato principal, era difícil pedir muito mais. Serão substituídos por Olhanense e União de Leiria – recuperação notável da equipa de Manuel Fernandes.

Alívio. Tiveram o Vitória de Setúbal e o Rio Ave. Os sadinos empataram na Figueira da Foz, num estádio-talismã sempre que toca a lutar pela manutenção. Porém, nem precisavam de somar qualquer ponto devido aos resultados de Trofense e Belenenses. O mesmo se pode dizer dos vila-condenses que venceram, em casa, o Estrela por 2-1. Contudo, existe mais uma semelhança entre ambas as equipas: os treinadores, quase dois bombeiros de serviço. Carlos Cardoso e Carlos Brito chegaram quando os clubes viviam momentos complicados mas terminam como vencedores.

Destaque de forma positiva para a Académica e para o Leixões pelo belíssimo campeonato que conseguiram. No pólo oposto encontram-se o Vitória de Guimarães e o Marítimo, equipas de quem se esperava mais até por aquilo que alcançaram na temporada anterior. Tudo dito, tudo contado ao longo destas 30 jornadas. Para o ano, a Liga Sagres está de volta. Com novos artistas.

Foi um prazer, Quique!

Foi um prazer, Quique. É o que apetece dizer no momento de despedida do treinador espanhol do Benfica. Apesar de tudo, foi diferente. Quique não se queixou dos árbitros, não arranjou desculpas fáceis, provou ser um verdadeiro senhor. Porém, isso não chega para quem treina um clube da dimensão do Benfica. A verdade, pura e dura, é que não conseguiu o título. Por isso, a porta da saída abriu-se a partir do momento em que o FC Porto assumiu a liderança. Mesmo tendo à disposição um dos melhores planteis da última vintena de anos, Quique Flores falhou. Perdeu-se em experiências, não conseguiu recolocar o Benfica na rota do título. É indiscutível. Mas será que a sua saída será o melhor para o clube? Luís Filipe Vieira tem a decisão tomada, quer Jorge Jesus.

Porém, para já, não há como responder à pergunta. Só os próximos tempos servirão para tirar isso a limpo. Importa ressalvar que adeptos estão ao lado de Quique Flores. Ficou provado, mal terminou o jogo com o Belenenses, o último da época, quando se uniram num aplauso ao treinador. Quique gostou, aproximou-se dos adeptos, pegou numa tarja que pedia a sua continuidade.
Agradeceu, emocionado. Antes disso, já tinha dado provas de enorme carácter ao cumprimentar, um a um, os adversários impotentes e frustrados perante a descida de divisão. Num momento assim, poucos treinadores se lembrariam ou importariam de fazer coisa semelhante. Quique Flores, mais uma vez, deu uma verdadeira lição de humildade. Foi bom tê-lo no nosso campeonato, por isso.

Tu, guarda bem as redes

A baliza é um misto de sensações. Pode trazer uma alegria imensa ou uma profunda desilusão. Um avançado pode lá viver momentos de sonho ou de pesadelo, todos sabemos. Mas a relação entre a baliza e o guarda-redes é diferente, é intimista. Ali, entre os postes, não pode haver qualquer erro. Será fatal se acontecer. Por mais pequeno que seja tem o poder de destruir a imagem de qualquer um. E as defesas que foram feitas esfumar-se-ão como se nem tivessem sequer existido. Por isso, o que se pede a qualquer um que vá para a baliza é simples: não pode deixar a bola entrar. Que guarde bem as redes que defende.

Guarda-redes: o próprio nome da posição diz tudo, é aquele que tem que guardar as redes. Não sei muito bem porquê mas desde cedo me tornei um admirador deles. Admirava-lhes a coragem, o sangue frio e a concentração que tinham que manter, muito mais do que qualquer um dos seus companheiros. Tornam-se heróis ou vilões num instante, passam de bestiais a bestas num abrir e fechar de olhos. O momento da marcação de um penalty é talvez o mais angustiante na vida de um guarda-redes. Assim como é para o jogador que o vai tentar marcar, é certo. Não, é ainda pior: está entre os postes, naquela imensidão de espaço, com a bola a onze metros. A diferença entre um sentimento heróico e outro de total impotência é pequena: a defesa ou o golo.

Vi guarda-redes fantásticos como Oliver Kahn, Peter Schmeichel ou David Seaman. Cada um à sua maneira, com o seu estilo, com as suas manias. Foi uma defesa deste último, um senhor com um visual algo estranho, que me ficou marcada na memória. Aconteceu há já seis anos, num Arsenal-Sheffield United para a Taça de Inglaterra. Foi um lance às três tabelas: canto, cabeceamento para a entrada da pequena área, toque acrobático, novo cabeceamento mesmo em cima da linha de baliza. O golo era evidente, a bola ia entrar. Não! Apareceu David Seaman, contrariando todas as leis da Física ao vencer a inércia, numa estirada espantosa. Os adeptos levaram as mãos à cabeça perante tal defesa, boquiabertos. My god!, o que foi aquilo?

Houve certamente defesas como as de David Seaman, se calhar até melhores. Para mim, aquela foi a melhor que vi. Fiquei espantado, quis voltar a ver, não me cansei. É nestes momentos que um guarda-redes vive a sua glória, com estas defesas impossíveis, tal como acontece a um avançado quando marca um daqueles golos de antologia. É isso que se deve recordar. Erros existirão sempre, os frangos são uma constante. Essa sensação atroz, cruel e injusta todos experimentam, por mais categoria que possuam. Agora, defesas como a de Seaman só os predestinados têm direito.