Tour de France: Análise

O REI CANTADOR

Bem vistas as coisas, este Tour foi ferido de previsibilidade. Os Pirinéus transpunham-se demasiado cedo para serem influentes, o Tourmalet e o Aspin foram remetidos para o papel de meras passagens. O fim das bonificações em tempo matou a relevância competitiva das etapas de transição, o Mont Ventoux no penúltimo dia ameaçou o carisma dos Alpes e assim sucedeu. Alberto Contador anunciava-se como favorito e foi o justo vencedor. Então, o que conferiu afinal espectacularidade e interesse a esta edição da prova?

O regresso de Armstrong. Por alguma coisa o sal e a pimenta vão juntos à mesa. A variedade do condimento permite a um prato sensaborão ganhar versatilidade, personalidade a gosto de quem o consome. E, nestes dias do ciclismo in vitro, Armstrong deu ao Tour um paladar irrepetível. Na perspectiva de Contador, Armstrong foi sempre uma ameaça. Porque sem ele o Tour seriam favas contadas, com ele ia-se a hegemonia na equipa, nas atenções, no protagonismo mediático, na admiração dos fiéis seguidores da maior prova do mundo velocipédico.

Faça-se um exercício. Se Armstrong não tivesse regressado, Contador não seria para todos o mais-que-tudo da prova, o sucessor seguro do americano e de Indurain ao mesmo tempo? Reparem na forma única de pedalar do espanhol, quando explode, montanha acima. Não viram já aquela técnica em algum lado? Ironia das ironia. É a forma de pedalar, de se insinuar perante a maioria num exercício que ninguém mais alcança a prova provada da mentira de Contador. Ele admirou Armstrong, sim, ao ponto de o tentar repetir, igualar, imitar.

O que ele não perdoa ao americano é o facto de ter regressado neste Tour, dividindo com ele as primeiras e segundas páginas, os gregários e o amor do técnico e da equipa. Foi incapaz de descortinar que a colagem aos feitos de Lance lhe era possível neste Tour, mais que em qualquer outro. Mas este campeão tinha um plano feito há tanto tempo, tão pensado ao pormenor que já não havia espaço para um improviso.

No desenho feito por Contador, Armstrong foi a moldura que, irritante, resolveu entrar no quadro. Alberto é um corredor formidável, merece este e vai merecer os próximos triunfos. Faltam-lhe algumas peças do puzzle, é verdade. Nunca há-de entender que não se é gigante gritando a pequenez que vê nos outros. Alberto rasgou a tela e nem percebeu que, regressando, Armstrong lhe deu de mão beijada a oportunidade de uma vida: ser o seu sucessor e herdeiro na admiração de todos os que, no Mundo inteiro, amam o Tour. Em Pinto, no seu mundo pequenino, todos lhe deram razão e ele ficou satisfeito por já ser galo. Trocou o pódio por um poleiro.

JOÃO PEDRO MENDONÇA (Jornalista da RTP, narrador do Tour)
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