Hora de confirmar a teoria (antevisão)

O jogo, longe de decidir o que quer que seja, tem uma elevada importância quer para o FC Porto quer para o Atlético de Madrid, no que toca à passagem aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Ambas as equipas possuem aspirações legítimas em seguir em frente mas vêm de resultados negativos, isto é, os portistas foram derrotados pelo Chelsea enquanto os colchoneros, mesmo não tendo perdido, cederam um empate ante o APOEL Nicósia. O nome do Atlético traz boas recordações aos portugueses porque, na época transacta, foi o adversário que o FC Porto ultrapassou nos oitavos. Mesmo não ganhando nenhum jogo, é bem verdade, mas com toda a justiça do planeta. Desta vez, os portistas voltam a ser favoritos. Mas não esperem facilidades…

Para o FC Porto, a partida vem numa boa altura: venceram o Sporting, contornando uma série de duas derrotas, e encontram uma equipa com falta de vitórias. No entanto, Jesualdo Ferreira terá um sério problema pela frente porque o médio Fernando, titularíssimo e fundamental nesta formação portista, não poderá fazer parte da equipa que defrontará o Atlético de Madrid. Quem o substituirá é a questão que mais importa fazer nesta altura. Há, à primeira vista, mais do que uma hipótese mas a mais provável deverá passar por nova titularidade de Freddy Guarín, agora na posição seis, que nem lhe é estranha, com Raul Meireles e Belluschi mais adiantados. No entanto, não é de descartar um possível recuo de Meireles, abrindo uma vaga que poderá ser ocupada por Tomás Costa ou Guarín.

O Atlético está, como já foi referido, algo fragilizado. Atravessa mesmo uma crise no campeonato espanhol: somou apenas três pontos em quinze possíveis, fruto de três empates – o último deles, na passada jornada, frente ao Valencia. Abel Resino é, por isso, um treinador cada vez mais contestado e poderá também ele ter a sua continuidade em jogo no Dragão. Ora, a Liga dos Campeões é uma excelente escapatória para desanuviar esse cenário e, tal como afirmou Jesualdo Ferreira, os espanhóis nem por isso deixarão de ser um opositor forte. Diego Forlán e Kun Agüero são, independentemente do estado do clube onde também sobressai Simão Sabrosa, jogadores de grandíssima qualidade que merecerão todos os cuidados.

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O ópio do povo


Golos. É atrás deles que os jogadores correm, lutam e dão tudo o que têm. O golo é a essência do futebol, é por ele que multidões são arrastadas a um estádio ou ficam coladas à televisão. Por muito bom que um jogo possa ser, perde o sentido se não tiver golos. Quase como ir ao cinema, gostar do filme mas não compreender como acaba a trama. Num jogo de futebol acontece o mesmo. Sem golos, perde dimensão. Perde a magia que só um Ronaldo, um Messi ou um Ibrahimovic podem dar quando fuzilam os guarda-redes. Quem gosta dos jogos tácticos, sem espectáculo e sem golos? Serão poucos, com certeza. Apenas os fanáticos pelas tácticas. Se o futebol é um verdadeiro ópio, o golo é o seu expoente máximo.

Marca-se um golo, segue-se uma euforia total. Principalmente quando se trata de um golo decisivo, capaz de colocar um jogador ou uma equipa a tocar o céu. Uns correm desenfreados tentando fugir de todos aqueles que os tentam agarrar, outros ficam quase imóveis e agradecem ao divino pela ajuda. Há ainda aqueles que gostam de tirar a camisola, talvez num sinal de raiva, e acabam por ser castigados. Não tem nexo que os principais artistas do espectáculo não possam extravazar os seus sentimentos nos melhores momentos das suas carreiras. No entanto, os senhores que mandam futebol não querem saber disso para nada.

Já lá vão cinco anos mas não há como esquecer aquele sprint louco de José Mourinho em Old Trafford. O FC Porto tinha um jogo decisivo ou, como diria Scolari, um verdadeiro mata-mata. Aos portistas bastava um empate para juntar à vitória sensacional da primeira mão. Paul Scholes fez questão de ser desmancha-prazeres e colocou o Manchester United em vantagem na eliminatória. Foi assim que o jogo chegou ao minuto 89. Apareceu uma bendita falta à entrada da área, descaído para o lado esquerdo. Era o agora ou nunca para o FC Porto. Os adeptos ingleses puseram as mãos na cabeça, alguns nem quiseram ver, como que antecipando um possível empate.

O sul-africano Benni McCarthy encarregou-se da marcação do livre: tomou balanço, esperou pelo apito de Valentin Ivanov e rematou em jeito. Tim Howard, o guarda-redes do United, foi melhor e conseguiu defender. Defendeu para a frente, porém. Surgiu Costinha, no sítio certo à hora certa, chutando para dentro da baliza do Manchester. Nenhum português ficou parado naquele momento, ninguém aguentou naquele estádio. José Mourinho lá estava no banco. Viu o golo, saiu disparado, correu ao longo da linha lateral. Saltou até chegar onde estavam os jogadores portistas. Alguém conseguiu ficar indiferente? Claro que não!

Esse lance é uma boa amostra de como um golo pode ser festejado. Com a adrenalina nos píncaros, quase como um Axl Rose quando sobe ao palco, com toda a energia que tem dentro de si. Para terminar, tem que se falar também de quem relata um golo em directo. Não existe forma de conter a alegria, não há como despir a camisola. Impossível ficar indiferente quando um relator de rádio grita a plenos pulmões um goooolo!, impossível. Arrepiante mesmo. Futebol, espectáculo e golos têm de andar sempre de mãos dadas, sem nunca se largarem por coisa alguma. Um golo tem a capacidade de colocar um país parado e um país emocionado, não é Jorge Perestrelo?


Dois pesos, duas medidas

Ponto prévio: como consequência do clássico de sábado, Paulo Bento foi suspenso por doze dias ao passo que Duarte Gomes voltou a merecer a confiança de Vítor Pereira. Resulta daqui uma conclusão clara: não há medidas iguais para os intervenientes no espectáculo. Esta é, aliás, uma tese defendida por uma larga franja de adeptos. Facilmente se reconhece que quer o treinador do Sporting quer o árbitro estiveram mal no Dragão. Paulo Bento extrapolou nos protestos, foi bem expulso e, evidentemente, castigado. Duarte Gomes também cometeu erros, e seguindo essa lógica deveria ser penalizado por isso. Pelo contrário, vai voltar a poder exercer a sua parte no jogo como se nada tivesse acontecido.

O objectivo do que foi escrito acima não é, de forma alguma, colocar em causa as capacidades do árbitro Duarte Gomes. Nem muito menos desculpabilizar Paulo Bento pela atitude que teve nos minutos finais do clássico – e que, reitero, foi bem sancionada pois levou a sua insatisfação longe de mais. Porém, penso que é claro que não há uma medida igual para ambas as partes. Deixando de lado este caso, frequentes vezes assistimos a arbitragens completamente tendenciosas que levam a que, na primeira reacção, os jogadores ou responsáveis de uma determinada equipa mostrem o seu desagrado para com essa situação. Veja-se, por exemplo, o Chelsea-Barcelona, das meias-finais da Liga dos Campeões da época passada, em que o norueguês Tom Henning claramente prejudicou os londrinos. Bosingwa, lateral português, no final da partida disse que a sua equipa tinha sido roubada. Foi castigado. É justo?

Talento à solta ou escondido

Anderson Polga e Raul Meireles são dois jogadores que qualquer adepto de futebol se habituou, em temporadas anteriores, a ver como referências das suas equipas. Dois pêndulos, tal como se convencionou chamar, absolutamente cruciais para os seus treinadores. Agora, o panorama é diferente. O brasileiro, campeão mundial pelo seu país, na Ásia, não tem velocidade, falha no jogo aéreo e perdeu capacidade de antecipação. Transfigurou-se. O mesmo acontece com Meireles: não possuiu a capacidade para abrir espaços nas defesas contrárias ou para fazer as transições rápidas como outrora, e parece algo desgastado – estamos ainda no início da época. Não perderam talento, obviamente. Mas é estranho, não é?

Pablo Aimar e Óscar Cardozo vivem na perfeita antítese dos dois casos de cima: estão ene vezes melhores do que na temporada transacta. Aqui, também, Quique Flores deve ser chamado à razão porque não colocava El Mago a jogar na sua posição e preferiu sempre a mobilidade de David Suazo aos golos de Tacuara. Jorge Jesus resolveu o problema. Não estranha, por isso, que este Benfica seja Aimar e mais dez, sendo ele o centro do jogo atacante, e que Cardozo, apesar de paradão, mostre os seus dotes de goleador. O talento que ambos têm já todos nós conhecíamos. Não estava era bem potencializado.

Daniel Carriço e Rui Patrício têm apenas vinte e um anos de idade mas são actualmente, tal como Liedson, as figuras maiores do Sporting. Chegaram da formação do clube leonino e tiveram ascensões diferentes. Pior o guarda-redes que ficou, sem que nada tenha feito para isso, no meio de uma guerra entre Paulo Bento e Stojkovic. Devo dizer, leitor, que fui dos que muitos desconfiei da sua qualidade. Evidente que ainda precisa de evoluir bastante, no entanto é inegável que está cada vez mais completo e melhor. Carriço chegou na temporada transacta: aproveitou uma ausência de Tonel para se juntar a Polga no centro da defesa. Somou exibições de grande nível, conquistou a titularidade e agora é um verdadeiro líder da equipa. Inquestionável mesmo. Lá está: é preciso tempo para o talento se ir aprimorando.

Teimosia

Paulo Bento é, já se sabia, teimoso. Em termos técnicos e tácticos, claro: não se trata de um treinador facilmente flexível, insiste nas suas ideias até ao final e não troca a sua filosofia por nada. Não raras vezes ouvimos comentários críticos ao seu losango, o esquema preferido e habitual desde que assumiu o comando do Sporting, há quatro anos, acusado de estar demasiado gasto e rotinado. Outro exemplo dessa forma de ser, também totalmente frontal e sem rodeios, foi a aposta em Rui Patrício. Na altura, todos torceram o nariz à titularidade do jovem guarda-redes em detrimento de Stojkovic. Aos poucos, Bento foi ganhando a aposta. A exibição de Patrício, no Dragão, mostra bem a forma como o jogador cresceu.

Continuam a haver, porém, opções bem difíceis de entender. A titularidade de Polga é, porventura, a maior de todas elas. É certo que o central brasileiro foi um dos principais esteios da defensiva leonina e fulcral em muitas ocasiões mas também não é menos verdade que atravessa, desde meados da temporada transacta, uma fase negativa. Está diferente, não parece sequer o mesmo jogador que se assumia como um verdadeiro líder – esse, agora, é Daniel Carriço, outro jovem da formação que se transformou num senhor jogador. Não se entende a razão por que não tem Tonel uma oportunidade para mostrar o seu valor. Agora, com a ausência de Polga devido à expulsão no clássico, irá tê-la. Paulo Bento também.

Liga Sagres: O que vale este Sp.Braga?

COMENTÁRIO

Respondendo, desde já, à pergunta: muito! Em jornada de clássico, ganho justamente pelo FC Porto, o outro Sporting, o de Braga, alcançou um feito que está, grosso modo, apenas destinado aos grandes: venceu pela sexta vez consecutiva, somando assim por vitórias todos os jogos realizados. Mantém-se, por isso, na liderança. Com todo o mérito, aliás. Na perseguição mais directa está o Benfica que, mais uma vez, voltou a marcar muitos golos (cinco) num triunfo confortável. Realce, também, para as primeiras vitórias de Naval e Paços de Ferreira. Pela negativa, a série de três derrotas do Marítimo e a falta de vitórias em Coimbra.

Entrada fulgurante, progressiva desaceleração, alguns sustos e vitória. Assim, de forma sintética, se pode resumir a vitória do FC Porto no primeiro clássico da época. Para o Sporting foi precisamente o contrário porque começou mal e ficou sufocado pelo quarto de hora frenético que os portistas tiveram. Sofreram um golo, a frio. Depois, contudo, houve oportunidades para um empate que bem poderia ter acontecido. Na segunda etapa, quando era preciso dar o tudo por tudo em busca do golo, o início voltou a ser fatal. Oito minutos depois do descanso, a equipa ficou reduzida a dez e as esperanças de ainda conseguir a vitória caíram no vazioClique para aceder à crónica do FC Porto-Sporting

Sexta vitória consecutiva, única equipa que ainda não cedeu qualquer ponto nas seis jornadas iniciais, e consequente liderança. Assim se resume a prestação do Sp.Braga até este momento. Uma equipa absolutamente notável na forma como é coesa, unida e consegue ultrapassar as dificuldades que o destino lhe coloca no caminho. Depois de vencer o FC Porto, sem qualquer tipo de contestação, os bracarenses alcançaram uma vitória complicada, embora justa, frente ao Olhanense. Pode-se dizer, recorrendo a um lugar comum, que foi mesmo arrancada a ferros. Alan, o mesmo que havia dado o triunfo com os portistas, teve esperança e arte para contribuir ainda mais para euforia que os adeptos minhotos vivem… com um golo aos noventa e quatro minutos, é bem verdade.

Foram oito, depois quatro, agora cinco. O Benfica continua com um brutal poder de fogo, letal na hora de acertar nas balizas contrárias. Não precisa, para isso, de ser sempre exuberante mas é inquestionável que o ataque é o sector mais bem apetrechado desta equipa encarnada. Frente a um Leixões mais preocupado em não deixar jogar do que em alcançar a baliza de Quim e demasiado cedo reduzidos a dez jogadores, a vitória do Benfica surgiu de forma natural. O jogo ficou sentenciado dez minutos depois do intervalo: Cardozo marcou o segundo golo na sequência de uma grande penalidade que terminou na expulsão de Nuno Silva, ou seja, deixou a equipa de José Mota com apenas nove elementos. A partir daí, o resultado engordou, até à mão cheia, tal como era de prever. Tão diferente que está este Leixões, também.

Sem estar terminada a jornada – faltam ainda jogar, hoje, o Vitória de Guimarães-União de Leiria e, apenas no próximo dia doze, o Belenenses-Nacional -, destaque para a primeira vitória da Naval (frente ao Marítimo, na Madeira, resultando em contestação para Carlos Carvalhal) e do Paços de Ferreira que saiu vitorioso de Setúbal. No outro jogo, Rio Ave, que está agora à frente do Sporting na tabela classificativa, e Académica empataram sem golos. Contrariamente ao que acontece com os vila-condenseses, imbatíveis, os estudantes ainda não venceram qualquer partida deste campeonato.

O rastilho de Pereira, a bomba de Bento

Estava escrito, assim que foi conhecido o nome do árbitro nomeado, que o clássico de ontem traria polémica. Não poderia ser de outra forma, aliás. Por isso mesmo, por ser uma situação com probabilidades enormes de acontecer, Vítor Pereira errou ao escolher um árbitro, Duarte Gomes, que tem conflitos com o Sporting, um dos clubes em causa na partida. Não poderiam ficar eternamente sem se cruzarem mas, convenhamos… regressar num jogo tão importante quanto este nunca poderia ser bem aceite por nenhum dos intervenientes. Pode parecer algo paradoxal que o presidente do Conselho de Arbitragem, por norma uma figura pacificadora e que espera sempre o melhor dos seus elementos, tenha sido o primeiro a condicionar o jogo.

Paulo Bento manteve-se fiel ao seu estilo e não teceu qualquer comentário, em vésperas do clássico, sobre um árbitro que, dias antes, afirmara não poder passar impune devido ao incidente com Ricardo Peres, seu adjunto. Era, no entanto, e todos o sabiam, uma bomba prestes a explodir logo que Duarte Gomes errasse. É verdade que não foi uma arbitragem de topo mas também não me parece que tenha sido a equipa de arbitragem a impedir uma possível vitória do Sporting. Duarte Gomes esteve intranquilo e a verdade é que cometeu dois erros com prejuízo dos leões que fizeram Bento explodir: mostrou mal um primeiro cartão amarelo a Miguel Veloso – simulação de Hulk, junto à linha lateral -, e mostrou falta de um critério uniforme, exemplificativo quando não admoestou Meireles (seria a sua expulsão, por acumulação de amarelos).

Há muito que deixou de ser novidade este clima hostil que o treinador sportinguista tem para com os árbitros. Chega, por vezes, a estar isolado no meio de tanta confusão mas leva as suas ideias até ao fim. Faz parte, também, da forma como se comporta enquanto treinador e nos é bem conhecida. Após o jogo de ontem, voltou, tal como tinha feito num Sporting-FC Porto, da Taça de Portugal da época passada, a dizer que o Sporting é demasiado benevolente para com os árbitros – Vamos ganhar o Prémio Nobel da Paz, afirmou. Contudo, mesmo tendo deixado críticas a Duarte Gomes, focou-se principalmente em Vítor Pereira aquele que é, também na minha opinião, o maior culpado do clima de nervosismo com que o árbitro lisboeta iniciou a partida. Mesmo que a atitude de protestos, mesmo em cima do apito final, lhe tenha ficado mal, na reacção ao jogo, foi coerente.