Comentário: Toque de magia

Foram precisos setenta e cinco minutos para que o Dragão explodisse de alegria e quebrasse uma estratégia do Atlético de Madrid, claramante conservadora e fechada, que vinha dando resultado até aí. Foi esse, também, o tempo que os adeptos necessitaram para assistir a um momento sublime. Após uma jogada de insistência de Hulk, na direita do ataque portista, Falcao fez um golo extraordinário de calcanhar. Marcar de taco era mesmo a única solução, disse o colombiano. Não houve quem não se recordasse do que o argelino Rabah Madjer havia feito, já lá vão vinte e dois anos, no Parker de Viena. Dois toques geniais, memoráveis, históricos. O original, de Madjer, deu um título europeu. Agora, em 2009, Falcao quebrou uma série de dez anos sem ganhar a espanhóis em casa.

Antes disso, nos tais setenta e cinco minutos, houve pouco que realmente tenha justificado o preço do bilhete. Sobretudo na primeira parte: desinspirada, demasiado centrada no meio-campo, quase sem oportunidades de golo se retirarmos um lance de Raul Meireles em fora-de-jogo e uma defesa de Helton após remate de Agüero. O Atlético preocupou-se principalmente em tapar os caminhos para a sua baliza, aniquilando as investidas do FC Porto com superioridade no meio-campo mas sem nunca se atrever a explorar um ataque carregadinho de estrelas. A impaciência e a intranquilidade começavam a tomar conta dos adeptos portistas. Claro porque, de facto, a exibição não era a que os portistas já provaram ser capazes de fazer.

Os primeiros dez minutos da segunda etapa foram precisamente o melhor período dos colchoneros. Aqui, sim, o Atlético resolveu deixar-se de receios e adiantar-se no terreno. Criou duas situações que poderiam ter deixado os portistas numa má situação. Por dois defesas, veja-se como são as coisas: Helton defendeu com categoria um remate perigoso de Ujfalusi e, na sequência do pontapé de canto, Juanito deixou os adeptos portistas com os cabelos em pé. Deve ter sido por esta altura que soou o alarme para o FC Porto. A equipa portuguesa aproximou-se da baliza de De Gea mas, mesmo que de forma pouco convencional, o guarda-redes de dezanove anos que substituiu Roberto aos vinte e seis minutos, manteve sempre o resultado acorrentado a um nulo que se arrastava como uma bola de chumbo.

A entrada de Freddy Guarín, a pouco mais de vinte minutos do final, foi a pedra de toque que mudou tudo. Tão criticado noutras situações, desta vez o colombiano foi fulcral porque, com a sua entrada e o recuo de Mariano González para o meio-campo, o FC Porto combateu a superioridade que os espanhóis haviam demonstrado até aí. Tal como num jogo de xadrez, é no centro que a batalha se decide. A equipa portista cresceu, mostrou as suas capacidades ofensivas, não mais permitiu que o Atlético se aproximasse da baliza de Helton e arrancou para uma ponta final de grande qualidade. Faltava um quarto de hora para os noventa quando Falcao deu sentido a toda a magia do jogo. Rolando, poucos minutos depois, apenas confirmou uma vitória justa. Numa noite que começou com confiança, passou por uma terrível apreensão e terminou com olés.

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