O campeão tratou a imagem

Um empate e uma derrota depois, o FC Porto regressou às vitórias para o campeonato português. Fê-lo frente ao Rio Ave, no Dragão. Não se pense, porém, que foi um triunfo fácil. Pelo contrário, pois o Rio Ave é uma equipa que se sabe fechar e defender sem necessitar de colocar uma muralha junto à área. A vitória do FC Porto baseou-se, sobretudo, no esforço, na persistência e na crença que os jogadores mantiveram. Foi justa. E sofrida: o golo vitorioso demorou a chegar, por algum desacerto dos atacantes portistas mas, sobretudo, por uma magnífica prestação do guarda-redes Carlos. A prova maior à personalidade dos dragões surgiu após um penalty desperdiçado por Falcao, nos minutos inciais da segunda etapa. Foi ultrapassado, atitudo bem diferente das últimas mostras. O FC Porto está longe ainda da equipa que conhecemos mas melhorou.

Oitenta e dois minutos: canto de Raul Meireles, toque de Farías para a entrada da pequena área e desvio precioso de Varela para o fundo da baliza do Rio Ave. Suspiraram de alívio os adeptos portistas, o FC Porto desfez o empate e ficou com tudo para somar os três pontos. Foi uma recompensa pela insistência, para a equipa de Carlos Brito um castigo. Imperou a lei do mais forte. Antes disso, o jogo tinha sido entretido, bem dividido, sempre com maior poderio do FC Porto mas sem um Rio Ave encolhido ou demasiadamente encostado à baliza de super-Carlos – um guarda-redes que o jogo transformou em herói. Nem Carlos Brito joga assim. As suas equipas não se intimidam com o adversário, têm ambição (realista) e tentam explorar todo o relvado.

Faltavam, então, oito minutos para os noventa quando o empate foi desfeito. Não o nulo, porque antes disso, dentro da primeira vintena de minutos, já ambas as equipas tinham marcado. Aos vinte e três, Hulk furou a defesa do Rio Ave, tabelou com Falcao e atirou a contar. Pensou-se que o FC Porto teria aí facilitado a sua tarefa de vencer, que esse golo lhe poderia dar a tranquilidade que a equipa tanto tem procurado. Não. Jogaram-se somente mais dois minutos até João Tomás, elevando-se entre os defesas azuis-e-brancos, fazer voltar tudo ao início. O golo sofrido foi um bom mote para a reacção do FC Porto: pressionante, trocando a bola junto da baliza contrária, procurando marcar o quanto antes. Veio o penalty, Falcao falhou. Foi preciso esperar até Varela, salvador, fazer o golo tão desejado.

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As duas faces do derby

O derby de ontem, entre Sporting e Benfica, não deixou ninguém totalmente satisfeito mas também não desiludiu. Faltaram os golos, o essencial de um jogo de futebol. Um resultado recheado é atractivo, nunca um nulo casmurro. O jogo não foi brilhante, porém foi bem disputado e intenso. Sobretudo em termos tácticos, onde houve um duelo bem interessante de seguir. Nenhuma equipa ousou arriscar na tentativa de chegar à vitória, sob pena de deixar o sector defensivo fragilizado. Os treinadores foram racionais, realistas e não correram o risco de dar um passo que fosse em falso. Deveriam ter sido mais astutos? A bem do espectáculo, sim. No entanto, poderiam pagar caro por isso. Assim, cada um à sua maneira, ficaram contentes: Carvalhal com o progresso da equipa, Jesus com o empate que mantém o Sporting onze pontos atrás – embora possa permitir que o Sp.Braga se distancie de novo.

Primeiro preocupar em suster o ímpeto do adversário e só depois partir para lances de futebol ofensivo. Foi assim, exactamente da mesma forma, que Carlos Carvalhal e Jorge Jesus montaram as suas estratégias. O Sporting apresentou-se em 4x2x3x1: Adrien Silva e João Moutinho à frente da defesa, Miguel Veloso, Simon Vukcevic e Matías Fernandéz num trio de apoio a Liedson. A colocação de dois pivôs defensivos comprova as preocupações que o treinador do Sporting teve para impedir que o Benfica criasse superioridade. Em termos defensivos, o xadrez produziu efeitos, pois os leões taparam bem os caminhos para a sua baliza. Ofensivamente, a equipa criou lances de perigo e teve ocasiões de golo. Fica a ideia de que Carvalhal poderia ter arriscado mais qualquer coisa. Porém, caso a equipa ficasse demasiado exposta, poderia ser fatal. Aí, sim, diria já adeus definitivo ao título.

No lado oposto, Jorge Jesus começou com o 4x4x2 losango que implementou no Benfica desde o início da temporada. Tem dado excelentes resultados, aliás. Porém, com o desenrolar da partida e para responder à superioridade inicial que o Sporting demonstrara, deslocou Pablo Aimar para o lado direito em troca com Ramires e recuou Saviola para as costas de Cardozo. A equipa ficou formatada num 4x4x1x1, com maior coesão na zona onde se desenrolou quase toda a acção deste derby: o meio-campo, sector nevrálgico para qualquer equipa. Contudo, o mago argentino não esteve particularmente inspirado e, sem ele, o Benfica perdeu a magia para criar lances perigosos para Patrício. À medida que o jogo se foi encaminhando para o final, Jorge Jesus percebeu que um ponto ganho na casa do rival é sempre positivo. O Benfica jogou pela certa, não abdicou de atacar mas fixou-se essencialmente em garantir o resultado. Teve sucesso.

Sporting-Benfica, 0-0 (crónica)

ONDE ANDA A ARTE DE MARCAR?

Um jogo equilibrado e dividido tinha que dar num empate. Mesmo sendo um derby. O Sporting-Benfica teve intensidade, boas oportunidades para ambas as equipas chegarem ao golo, mas terminou a zeros. O Sporting esteve muitíssimo acima daquilo que havia feito até aqui, o Benfica não teve a criatividade necessária para marcar nem foi pressionante e incisivo como se esperaria. Em teoria, o empate seria sempre mais favorável aos encarnados, pois jogaram fora de casa. Na prática, também foi assim: não só por terem pertencido aos leões as melhores chances para quebrar o nulo mas também porque os onze pontos de distância se mantêm.

Um Sporting com dificuldades, um Benfica pleno de força. Dois grandes do futebol português que vivem agora em mundos diferentes. Um derby tem uma magia que não se explica, são noventa minutos onde tudo pode acontecer e onde o favoritismo nem sempre dá bons resultados. Lado-a-lado, Sporting e Benfica juntos num objectivo comum: ganhar. Nos leões, uma obrigação para iniciar uma recuperação que ainda lhes permita chegar ao título. Nas águias, para se manterem agarrados ao primeiro lugar e, ainda, deixaram o eterno rival definitivamente para trás. Carlos Carvalhal em busca de um tónico que faça a equipa recuperar a sua condição, Jorge Jesus atrás da afirmação. Tudo isso num ambiente extraordinário. A convidar uma grande noite de futebol.

Hora do jogo, momento de desvendar as incógnitas que ainda restavam sobre os onze escolhidos. No Benfica, o regresso de César Peixoto à esquerda e a confirmação de Saviola com todas as condições para ser utilizado. Mais revolucionário foi Carlos Carvalhal: colocou o Sporting em 4x2x3x1, com Marco Caneira no lado esquerdo da defesa, Adrien Silva no meio-campo junto a Moutinho e ainda um tridente ofensivo com Vukcevic, Matías Fernandéz e Veloso. O novo treinador prometera atitude de leão nos seus jogadores e o início da partida trouxe um Sporting determinado, disposto a assumir o jogo. Liedson foi o primeiro a criar algum perigo, Cardozo respondeu com um remate que passou ao lado. Afinal, este era também um confronto de grandes goleadores.

BALANÇA EQUILIBRADA, OCASIÕES E… DESPERDÍCIO!

Porém, acabaria por pertencer a um defesa a grande ocasião de golo da primeira parte: Anderson Polga recebeu um passe teleguiado de Adrien, dominou a bola, encarou Quim, mas atirou muito por cima da trave da baliza encarnada. Seguir-se-ia, quase na jogada imediata, um remate de Liedson que o guarda-redes benfiquista parou bem. Na resposta, Patrício viu-se obrigado a sair da baliza para anular um lançamento longo para Cardozo. Estavam jogados vinte e cinco minutos, o jogo finalmente teve um abanão. Até aí fora disputado, dividido e intenso, contudo jogado longe das áreas. O equílibrio esteve por detrás do espectáculo, a zona central do relvado foi o palco principal e os guarda-redes quase meros figurantes.

Após esse período em que o jogo se abriu, tudo voltou a ser como antes. Assim se prolongou pelos primeiros minutos da segunda parte. Pelo meio apareceu um remate forte de David Luiz que não teve consequências para a baliza de Rui Patrício. O momento de maior espectáculo que o derby de Alvalade ofereceu chegou, enfim, no minuto cinquenta e sete: Miguel Veloso rematou de longa distância e Quim opôs-se com uma monumental defesa. No canto que daí derivou, Moutinho teve um bom remate que passou perto do posto. Nunca uma equipa estivera tão próxima do golo. O Sporting era mais perigoso, o Benfica precisava que Aimar pegasse no jogo mas o argentino ficou demasiado preso ao lado direito. Jorge Jesus não teve gula, percebeu que um ponto ganho na casa do rival é sempre positivo e preferiu jogar pela certa.

O relógio apressava-se, a toada do jogo mantinha-se e um golo, fosse para quem fosse, parecia cada vez mais longe de surgir. Já dentro dos vinte minutos finais, com Rúben Amorim no lugar de Pablo Aimar, o Benfica voltou a aparecer num lance em que Di María viu Patrício negar-lhe o golo. A partida ganhou outro ânimo mas nenhum dos treinadores decidiu arriscar mais qualquer coisa em busca da vitória. Na parte final, a sete minutos dos noventa, os encarnados voltaram a estar próximos do golo: Ramires, junto à linha de golo, desperdiçou uma ocasião soberana de dar uma machadada final no Sporting. Seria injusto, há que dizê-lo, por aquilo que os leões fizeram. O jogo terminou, então, tal como começara: empatado a zero.

Sporting-Benfica (antevisão)

Decisivo? Carlos Carvalhal diz que não, é sim importante. Jorge Jesus discorda, para o Sporting é o tudo ou nada. A ideia do treinador do Benfica entede-se perfeitamente: quer colocar toda a pressão do lado do adversário e tranquilizar os seus jogadores. Carvalhal pretende precisamente o mesmo. No entanto, o actual momento de ambas as equipas dá razão a Jesus. Para o Sporting este é mesmo um jogo decisivo. Os leões estão, à décima jornada, no oitavo lugar e com um atraso de onze pontos para o primeiro lugar. É significativo, nada condiz com a condição de um grande. É decisivo, obviamente. O jogo frente ao Benfica, o eterno rival, poderá ser um bom tónico para iniciar uma recuperação. Ou, por outro lado, um ponto final nas aspirações que restam de chegar ao título.

Num derby, geralmente, não há favoritos. É um jogo, noventa minutos onde tudo pode acontecer e a vitória pode sorrir a qualquer um deles. Hoje, em Alvalade, será um pouco diferente: o Benfica, mesmo jogando fora, parte como favorito a triunfar. As posições que as equipas ocupam na classificação e, sobretudo, o que fizeram até aqui sustentam essa tese. Existem, porém, contra-argumentos que importa ressalvar. O Sporting irá estrear, em jogos do campeonato, Carlos Carvalhal e essa troca de treinadores poderá ter um efeito moralizador. Os encarnados já deixaram as goleadas para trás, têm sido menos exuberantes, e sofreram, no último jogo, uma eliminação da Taça de Portugal. Também por isso há uma nota importante: o regresso de Óscar Cardozo, o jogador de quem os benfiquistas esperam golos.

Jorge Jesus tem essa boa notícia mas, pelo contrário, ainda não poderá contar com Luisão, o esteio defensivo. Sidnei será, como já fora na última partida, o seu substituto. Também Ramires e Saviola chegam a Alvalade condicionados em termos físicos mas, não sendo totalmente certo, deverão estar em condições de jogar. Para completar o rol das dúvidas, há ainda o lado esquerdo da defesa: preferir César Peixoto, que regressa de lesão, ou Fábio Coentrão, que tem dado boa conta de si mas denota ainda algumas falhas (naturais) em termos defensivos? O mistério só ficará desfeito bem próximo da hora do encontro. Essa é, de resto, uma preocupação comum aos dois treinadores: Caneira ou Veloso no lado esquerdo da defesa leonina?

O médio português deverá ser mesmo o eleito para desempenhar esse lugar – parece certo apenas que Grimi ficará de fora. Outra incógnita: ante o Pescadores da Costa da Caparica, Carlos Carvalhal inovou ao colocar a equipa em 4x3x3 mas, à medida que o jogo foi correndo, viu-se obrigado a regressar ao 4x4x2. Frente ao Benfica, como será? À primeira vista, é crível que opte pelo segundo sistema, pois os jogadores estão totalmente adaptados e houve pouco tempo para mudar todos os processos. Ainda sem poder contar com Izmailov nem com o castigado Tonel, Carvalhal tem Carriço de volta e é sobre Liedson que recairá a maior responsabilidade de condimentar este jogo com golos para o Sporting. Às 21h15, em Alvalade, joga-se o derby dos derbis. Com crónica no FUTEBOLÊS.

EQUIPAS PROVÁVEIS

SPORTING: Rui Patrício; Abel, Polga, Daniel Carriço e Miguel Veloso; João Moutinho, Pereirinha, Vukcevic e Matías Fernandéz; Postiga e Liedson

BENFICA: Quim; Maxi Pereira, David Luiz, Sidnei e Fábio Coentrão; Javi García, Ramires, Di María e Aimar; Saviola e Cardozo

Milão sem ser Internazionale

Olhemos ao jogo de terça-feira, em Camp Nou. Um clássico do futebol europeu entre Barcelona e Inter de Milão. O jogo, importante para clarificar as contas do grupo, teve apenas um sentido. O Barça construiu uma vitória fácil na primeira parte, depois geriu o tempo e baixou o ritmo – outro jogo grande, este frente ao Real Madrid, se aproxima. Pelo contrário, o Inter foi sempre incapaz de criar lances de verdadeiro perigo, de jogar no meio-campo adversário e pressionar em busca de uma vitória que lhe garantiria a passagem aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. A pressão alta e consistente do Barcelona contrastou com a apatia e incapacidade do Internazionale. Uma equipa que se viu quase vulgarizada, sem ter como ripostar e impedir o desenrolar dos acontecimentos.

Guardiola deixou, por precaução, Messi e Ibrahimovic no banco. Logo aí, sem poder contar com dois dos maiores génios do futebol mundial, o jogo perdeu alguma cor. Temeram os adeptos blaugrana que, por isso, a sua equipa partisse com alguma desvantagem. Do lado do Inter, faltou Wesley Sneijder, jogador que Mourinho recebeu in extremis mas se tem revelado fundamental na equipa italiana. Fazendo agora uma retrospectiva, a ausência de Sneijder é que teve real importância. Não que sirva de justificação para a má imagem deixada pelos nerazzuri mas pesou claramente. No Barcelona, os golos de Piqué e Pedro Rodríguez deixaram as ausências para trás. Que poderia fazer o Inter? Aquele que jogou em Camp Nou, quase nada.

José Mourinho, enquanto treinador do Inter de Milão, tem tido sucesso internamente mas ficado aquém na Liga dos Campeões. Conquistar a prova maior de clubes é um objectivo declarado. Veja-se que Roberto Mancini fora tetracampeão mas saiu por não ter triunfado internacionalmente. Por isso mesmo foi contratado Mourinho. Na época passada, a equipa caiu nos oitavos, derrotada pelo Manchester United. Agora, em 2009-10, tem sido demasiado intermitente na fase de grupos e o jogo de Barcelona complicou a tarefa. O Inter poderá mudar, chegar à próxima eliminatória e ter uma prestação de sucesso. Claro que sim. No entanto, à primeira vista, parece estar alguns furos abaixos da maior concorrência. O exemplo de cima é perfeito.

Barcelona, Manchester United e Chelsea têm estado, nas últimas temporadas, presentes em finais da Liga dos Campeões. Para esta época, voltam a ser os principais candidatos a erguer o troféu. Junta-se ainda o renovado Real Madrid, embora necessite de afirmar definitivamente, e até o Arsenal pode completar o lote. O Inter está junto a estes, sem que seja um dos principais favoritos. As soluções são menores, José Mourinho sobrevive essencialmente do tal talento de Sneijder, dos golos de Milito e Eto’o, das defesas de Júlio César. Uma equipa que pretenda chegar ao título de campeão europeu tem de ser mais do que isso: mais colectivo, mais consistente, mais regular. Só assim poderá ambicionar a Champions.

Menos azul do dragão

É uma evidência incontornável: este FC Porto está mais fraco do que no passado. A equipa não tem a mesma eficácia nem a coesão que tantas alegrias lhe valeu. O FC Porto de Jesualdo Ferreira não foi nunca uma equipa que impressionasse pelo futebol apresentado mas fazia uma gestão perfeita do jogo e sabia ser decisivo nos momentos cruciais. Esta época, porém, tem sido diferente: os portistas apresentam um futebol demasiado trapalhão, pouco pressionante e já perderam pontos importantes – dois empates, com Paços de Ferreira e Belenenses, juntam-se a duas derrotas, em Braga e nos Barreiros. No campeonato nacional, à décima jornada, são cinco os pontos de atraso para o primeiro lugar.

Poder-se-á argumentar que, na mesma altura da época anterior, o Leixões liderava com três pontos de vantagem. Também que o Benfica era líder na pausa natalícia e chegou a contar com mais cinco pontos, tantos quantos dispõe actualmente. Tudo isso faz sentido, corresponde à realidade. No entanto, é necessário compreender cada especificidade: uma delas, talvez a maior, é que os encarnados, os rivais mais director, estão mais fortes, e também o Sp.Braga tem demonstrado que se poderá intrometer entre os grandes. Qualquer escorregão poderá, então, para os portistas, ter mais importância do que nas épocas anteriores devido ao aumento da qualidade da concorrência.

Em termos internos, uma das explicações para a pouca consistência do futebol do FC Porto é o desgaste do sistema táctico. Jesualdo, desde que chegou ao Dragão, preferiu sempre o 4x3x3. Época após época viu sair jogadores importantes, mudou as peças mas manteve o desenho do xadrez exactamente da mesma forma. A ideia que fica, actualmente, é que este sistema conta pouco dinamismo e os jogadores estão demasiado presos às suas funções, sem se conseguirem soltar para criar lances de perigo para as balizas contrárias. O 4x3x3 está gasto? Sim, de certo modo, pois torna-se até previsível para os adversários. Frente a equipas com superioridade no meio-campo, o FC Porto sente dificuldades de progressão.

Quando uma equipa não consegue fazer valer o seu jogo colectivo, ter boa ligação entre os sectores médio e ofensivos e colocar todos os maquinismos defensivos em funcionamento, costuma socorrer-se das individualidades. Porém, é extremamente perigoso que uma equipa espere por um golpe de génio que lhe dê a vitória. Este FC Porto, a princípio, valeu-se do talento de Falcao e Belluschi, do instinto de Farías. São jogadores que têm aparecido, no entanto, com alguma intermitência. Os novos ainda não estão totalmente sincronizados, El Tecla já mostrou que é uma boa arma-secreta mas não obtém o mesmo rendimento quando joga de início. Teriam obrigação de decidir quando o colectivo não funciona?

Depois, há Hulk. No início da temporada, após as perdas de Lucho e Lisando, os adeptos centraram as suas esperanças no Incrível. O brasileiro é um jogador de qualidade, indiscutivelmente. Mostrou na primeira temporada em Portugal uma capacidade excepcional de aliar a velocidade à boa técnica que possui. Este afigurou-se como o ano da sua afirmação. Contudo, até este momento, Hulk não tem sido um jogador fundamental como se esperaria. As suas jogadas não fazem tremer as defesas contrárias, em 2009-10 ainda não teve um momento de verdadeiro inspiração. A equipa ressente-se disso, da mesma forma que se ressente do facto de Raul Meireles estar bem menos interventivo do que em temporadas anteriores. Ante o Chelsea, o médio português esteve bem acima do que tem feito. Será, talvez, um sinal de mudança.

Comentário: Sina traçada

O mesmo resultado de Londres, o mesmo carrasco: o Chelsea voltou a vencer o FC Porto, graças a um golo de Nicolas Anelka. Sem a pressão de ter de olhar aos pontos para o apuramento, o primeiro lugar era a meta que qualquer das equipas pretendia atingir. Não houve, porém, na primeira parte, quem tenha conseguido desatar o nó. O jogo foi dividido, enrolado até: começou melhor o Chelsea mas, depois de ter estabilizado, o FC Porto conseguiu superiorizar-se. As melhores ocasiões de golo pertenceram, aliás, à equipa portista. Em dois remates de longa distância de Belluschi: primeiro, aos vinte e dois minutos, Cech defendeu bem e ainda negou a recarga de Falcao; em cima da meia-hora, o argentino acertou com estrondo na barra.

Foi precisamente após esta última tentativa que o FC Porto mudou a toada da partida que, até aí, fora marcada pela boa troca de bola do Chelsea, conseguindo assim o controlo das operações. Os portistas levaram perigo à baliza de Petr Cech, conquistando espaços no meio campo e na defesa blue, mas sem conseguir um futebol bem apoiado e explorar a velocidade de Varela ou Rodríguez – por opção, Hulk cedeu o seu lugar ao extremo português que regressou de uma paragem de dois meses. O jogo do FC Porto continuou trapalhão, com passes errados. O Chelsea, sobretudo através de jogadas de Florent Malouda pela esquerda, levava algum perigo à baliza de Beto, embora sem nunca colocar à prova o guarda-redes portista.

Contudo, numa das muitas vezes em que Malouda escapando a Sapunaru, o Chelsea chegou ao golo. Anelka escapou-se aos centrais portistas e empurrou para o fundo da baliza. Tudo tão simples, tão eficaz. Aos sessenta e nove minutos, um golpe frio desferido num momento crucial. O resultado ficou feito aí: a equipa portuguesa não baixou os braços mas não teve força para apoquentar a vantagem do Chelsea, que teve um controlo perfeito da bola. O FC Porto, já se disse, está diferente e não tem a mesma fluidez e rapidez na execução de processos mas deixou uma imagem bem melhor do que nas últimas partidas .Não ganhou, porém, e o primeiro lugar está entregue.