Futebol: risco, loucura, paixão, garra, querer


Ponto prévio: o futebol tem que ter risco. Risco, loucura, paixão, garra, querer. Só assim poderá haver um jogo memorável, gravado para a eternidade, recordado em qualquer compêndio, algo verdadeiramente especial. Pragmatismo em demasia, zero risco e segurança total poderão dar um bom jogo? Não, claro que não. Muitas vezes é essa a fórmula do sucesso, as equipas deixam de lado o espectáculo, jogam um futebol cínico e matreiro, buscam a vitória. Se não der para juntar o agradável, não há problema, importa é garantir o essencial. Certo, afinal é de vitórias que se alimentam e quem pretende sucesso tem de ganhar, não ser espectacular. Para os adeptos, é diferente.

Nenhum adepto gostará de ver a sua equipa ganhar sem convencer. A vitória está garantida, o clube cumpriu o objectivo para aquela partida, mas não foi totalmente bom, faltou alguma coisa, o treinador foi calculista, os jogadores tiveram receio de errar. Um mínimo erro, já se sabe, poderá muito bem ser fatal e deitar a perder todo o trabalho desenvolvido até então. Assim, por essa lógica, não terá sido bom jogar pelo seguro? Sim, mas o futebol dispensa qualquer tipo de lógica. Nada é exacto, um jogo é capaz de desmentir qualquer teoria que se conceba. Para o amante de futebol pouco se jogou. Não houve risco. Por aí, se percebe que a essência do futebol ficou para trás, esquecida.

Em muitos desses jogos resulta um empate. Um nulo. Um jogo de futebol sem golos é o mesmo que um filme de Western sem tiros. Se o leitor ainda não está bem convencido, se ainda pensa que um jogo de paciência, além de bom para a equipa que o vence, favorece o futebol: quantos jogos sem loucura, sem paixão, sem emoções fortes ficaram na História? O futebol-espectáculo tem que ter duas equipas em busca da vitória, procurando ser superiores ao adversário, jogando melhor. Por isso mesmo, por aliar tão bem a eficácia ao brilhantismo com que os seus jogadores se apresentam, o Barcelona é a equipa que enche as medidas ao amante de futebol. Percebe-se porquê.

A Liga dos Campeões coloca em confronto as melhores equipas dos mais variados países. Inglaterra, Itália, Espanha, gigantes, dominadores do futebol europeu, com os seus representantes frente a frente. Há magia, há paixão, há a vontade de triunfar e chegar ao trono de melhor equipa do continente. Proponho-lhe, então, leitor, que recuemos até Maio de 2005. Um ano depois de o FC Porto ter tocado o céu na Alemanha. Em Istambul, Liverpool e AC Milan, colossos mundiais, com os olhos postos no troféu. Um representante inglês, vindo do campeonato mais apaixonante do planeta, frente a um italiano que previligia o resultado em detrimento do bom futebol. Mundos desiguais.

O Milan entrou a ganhar. Paolo Maldini, eterno capitão, marcou no primeiro minuto. Estava aberto o caminho para a glória. Crespo marcou mais dois, tudo rosas, antes do intervalo o Liverpool estava vergado, derrotado, sem forças. Três-zero, nada tiraria a vitória aos matreiros italianos, jogo resolvido. Calma! Estamos a falar da Liga dos Campeões, onde tudo acontece, onde a magia é superior a qualquer táctica, onde o resultado é imprevisível. Estavam ali duas das melhores equipas mundiais. O Liverpool ainda teria uma palavra, quanto mais não fosse para atenuar o resultado, para não deixarem os adeptos corados de vergonha. Mas… recuperar de três-zero?

Só seria possível com uma ambição enorme, com uma auto-estima elevadissíma e, acima de tudo, uma fé inabalável. A diferença no resultado pesava, grande como a distância entre Inglaterra e Itália, mas os jogadores ainda acreditavam ser possível. Podiam ser os únicos, não importa. E chegaram somente seis minutos. Entre os cinquenta e quatro e os sessenta, tudo mudou: Gerrard reduziou as diferenças, Smicer encurtou para um golo, Xabi Alonso empatou. Num ápice, louco e mágico, estava tudo do avesso. Chegou o prolongamento, depois os penaltis. Seria demasiado cruel que uma equipa que conseguiu tal feito, perdesse na lotaria. Ganhou! A sorte também lá esteve.

A final de Istambul ficou marcada. Ou melhor: imortalizada, foi a melhor da década, uma final onde uma vitória fácil de uma equipa deu lugar a uma recuperação soberba de outra. Um jogo louco, verdadeiramente incrível, cheio de querer. Derrotados por três golos ao intervalo, poucos se manteriam convictos de que ainda era possível virar o sentido da vitória. Muitos terão pensado: não resultou, fica para a próxima. Numa final de Liga dos Campeões? Nada disso, ainda há quarenta e cinco minutos pela frente, ainda há hipóteses, mostraram-se firmes os reds de Liverpool. A crença resultou. No futebol, por vezes, acreditar no próprio valor é a melhor táctica. A Hard Day’s Night.

O mercado dos grandes a seu tempo

Ao Sporting chegaram Mexer, João Pereira e Sinama Pongolle. Têm ainda sido referidos os nomes de Del Horno e Manuel Fernandes, ambos actualmente ao serviço do Valencia. O Benfica voltou a investir no mercado brasileiro: acertou as contratações de Kardec e Airton, que teroricamente não deverão entrar directamente na equipa titular mas procurarão contribuir para aumentar a competitividade interna, sendo também já uma certeza que o atacante Éder Luís rumará à Luz. A reabertura do mercado está, por isso, a ser aproveitada para apetrechar os planteis. Com sentidos diferentes, é certo: os leões precisam mesmo de combater o défice de qualidade, os encarnados querem um conjunto de jogadores que dê todas as garantias. E o FC Porto?

Nos portistas, até ao momento, a paragem natalícia não trouxe ainda qualquer reforço para Jesualdo Ferreira. Apenas o nome do avançado argentino Eduardo Salvio foi veiculado como sendo um potencial jogador que interessasse portistas. Nada concreto. Pinto da Costa já o dissera, aliás: o FC Porto não iria fazer qualquer reajustamento no seu plantel. No entanto, os dragões chegam a esta fase no terceiro lugar, nada comum no passado bem recente, e com algumas lacunas no seu futebol. Neste FC Porto falta alguém que construa e assuma o futebol ofensivo, que não se esconda, que seja decisivo. Pode-se dizer que ainda falta quem entre no papel que pertenceu a Lucho González. O que mais se aproxima de El Comandante é Belluschi.

O médio argentino, contudo, tem sido utilizado com alguma irregularidade. Nos jogos com equipas de valor igual ou superior ao do FC Porto é preterido, invariavelmente, por Guarín, algo que demonstra bem que Jesualdo Ferreira ainda não o considera como um valor seguro. Apesar disso, Pinto da Costa mantém a sua opinião de que não são necessários reforços nem, acima de tudo, o treinador lhe pediu qualquer novo jogador – no Porto não há petróleo, disse o presidente portista, crítico, sarcástico para os rivais. Contudo, ainda como resquícios do clássico com o Benfica, o FC Porto poderá deixar de contar com Sapunaru e, sobretudo, Hulk. Quando os castigos forem conhecidos, os portistas atacarão o mercado. Obrigatoriamente.

Investimento tardio

Depois de João Pereira, é o avançado francês Sinama Pongolle, até aqui no plantel do Atlético de Madrid, a reforçar o Sporting. Nas duas contratações, gastaram-se cerca de oito milhões de euros (três mais cinco, respectivamente). Acresce ainda a chegada de Mexer, jogador moçambicano, que, embora não tenha obrigado os leões a desembolsar tanto, também teve o seu custo. Pode ser paradoxal, no entanto, que o investimento apenas tenha sido feito na reabertura do mercado, ou seja, quando já foi jogada a primeira metade do campeonato português. É que nem João Pereira nem Pongolle poderão ser utilizado na Liga Europa, pois já actuaram pelos seus anteriores clubes. Serão, então, somente para consumo interno.

Nesta altura, é absolutamente indiscutível que o Sporting necessita de reforçar o plantel e de aumentar a qualidade para poder ainda ambicionar, até Maio, algo positivo que apague o péssimo arranque de temporada. Importa recordar, também, que o clube está integrado nas quatro competições a que ficou habilitado. Contudo, é habitual apetrechar os planteis em Agosto, para assim atacar a época na plenitude das forças, e a reabertura do mercado serve somente para preencher eventuais lacunas que possam surgir. No Sporting, no Verão, pouco se investiu: Matías Fernández foi o único que se impôs na equipa titular, Angulo e Caicedo rapidamente se percebeu não passarem de contratações falhadas. Não havia crédito para mais.

A primeira metade da época, já se sabe, foi decepcionante: pelo futebol apresentado, claro, mas sobretudo pelo quinto lugar em que os leões se encontram na paragem do campeonato. As soluções escassearam. Agora, com possibilidades utópicas de discutir o título, o investimento do Sporting visa terminar na melhor posição possível, sendo a qualificação para a Liga Europa o mínimo que se pode exigir. É precisamente nesse contexto que entram João Pereira e Pongolle. Não deixa, porém, de ser estranho que cheguem só nesta fase a um clube que optou por uma política de contenção – e onde são bem conhecidas as debilidades financeiras – para atacar uma competição… onde o objectivo prioritário já está perdido. Chegam tarde? Certamente!

O melhor momento de 2009

O ano do tetracampeonato do FC Porto, em Portugal. O ano sensacional do Barcelona, em Espanha, na Europa e no Mundo. O ano em que Cristiano Ronaldo tocou o céu como melhor do planeta, Nélson Évora trouxe ouro para o atletismo português. Mas também o ano em que Usain Bolt espantou todos com a sua velocidade, Jenson Button conquistou um título de Fórmula Um verdadeiramente louco, Alberto Contador mostrou todos os créditos numa Volta a França que voltou a ter Lance Armstrong ou o ano em que Michael Phelps ganhou um estatuto de imortal. E para si, leitor, qual foi o momento mais marcante de 2009?

Quatro cores na primeira metade

Um vermelho mais forte do que nunca. O Sp.Braga chega, pela primeira vez no seu historial, à paragem natalícia como líder do campeonato. Não deixa de ser uma surpresa, mas fá-lo com todo o mérito de quem leva dez vitórias, três empates e apenas uma derrota nos catorze jogos disputados até aqui. Há muito que os bracarenses fazem por merecer um papel de maior relevo no futebol português, destacando-se de equipas de menor dimensão e colando-se aos grandes. Para que essa afirmação seja definitiva é necessário conquistar títulos, algo que se junte à Taça de Portugal ganha no longínquo ano de 1966. O sonho de ser campeão nacional vai crescendo com as prestações da equipa.

Um encarnado bem vivo. O mais vivo dos últimos anos. Nem mesmo na época do título, em 2004-05, o Benfica chegou ao Natal em tão boa posição. Em alta com a vitória no clássico frente ao FC Porto, categórica e inteiramente justificada, quatro anos depois do último triunfo sobre os portistas, estão em igualdade pontual no topo com o Sp.Braga. Para trás ficou o tempo em que os encarnados finalizavam a primeira metade do campeonato quase sem possibilidades de discutir a liderança. No ano passado, a equipa estava também na frente mas já davam mostras de pouca regularidade. Agora, contudo, parece ser diferente. O Benfica está bem, a aposta no título é mais alta que nunca.

Um azul mais esbatido do que é habitual. Olhando aos pontos, comparativamente com a época passada, o FC Porto até está melhor, conta com mais um do que em igual período da temporada transacta. Os portistas estão, porém, no terceiro posto e com um atraso de quatro pontos para o primeiro lugar. A equipa demonstrou alguma irregularidade, demorou a arrancar, fê-lo a meio gás e perdeu alguns pontos importantes. Depois disso, passada essa fase má, conseguiu reencontrar-se, subiu claramente de rendimento. Até ao jogo da Luz, os dragões cresceram. Todavia, no clássico nada correu bem: o FC Porto nunca se conseguiu impor, não teve capacidade para evitar a vitória do Benfica.

Um verde pálido. O Sporting chega à décima quarta jornada no quinto lugar. Por aí, é fácil de perceber que a época não corre bem para os leões. Além da modesta colocação na tabela classificativa, existem ainda inúmeras dificuldades que têm sido apanágio nesta temporada: a equipa nunca se encontrou, denota grandes problemas na ligação do seu futebol, não houve nenhuma partida em que realmente tenha impressionado pelo futebol apresentado. Falar-se de título, em Alvalade, é quase uma utopia, um sonho cor-de-rosa impossível de realizar. O mercado de Inverno servirá, por isso, para aumentar a competitividade da equipa. Para reencontrar a equipa e conseguir algo de positivo, portanto.

As consequências de uma contratação acertada

João Pereira é o primeiro reforço de Inverno para o Sporting. O lateral, vindo do Sp.Braga, assinou um contrato válido para os próximos quatro anos e meio e custou três milhões de euros. Trata-se, indiscutivelmente, de um bom reforço para o plantel leonino. No entanto, a aquisição tem prós e contras. À primeira vista, o negócio dificilmente poderia ser melhor: os leões conseguem preencher uma lacuna importante na zona defensiva; o Sp.Braga obtém um encaixe financeiro que lhe permitirá atacar a reabertura do mercado. Há, todavia, para além disso, aspectos negativos. O Sporting quase nada investiu no Verão passado, optou por uma política de contenção, tem agora condições para reforçar o plantel mas fá-lo, talvez, demasiado tarde. Do outro lado, os bracarenses perdem um jogador-chave para Domingos Paciência.

Abnegado, com garra, cem por cento profissional, nunca dando um lance por perdido, sempre em busca do sucesso. João Pereira é assim. O lateral, muito provavelmente o melhor do campeonato português, foi uma das imagens do Sp.Braga de 2009. Com a sua saída, os bracarenses perdem um elemento fundamental, quer a defender quer a atacar. É certo que a candidatura ao título não é assumida, mas nos horizontes minhotos está bem presente a ideia de que poderá mesmo ser possível a equipa ser campeã nacional. A conjuntura actual quase obriga a que se pense dessa forma. Depois de uma passagem fugaz pelo Benfica, onde se formou como jogador, o percurso de João Pereira levou à cobiça de clubes de renome, tanto a nível nacional como internacional. Poderia ter saído no Verão, o Sp.Braga conseguiu segurá-lo no plantel.

Olhando para a tabela do campeonato, João Pereira deixa o primeiro classificado para entrar no quinto. Deixa uma equipa que tem surpreendido positivamente, que constrói o sonho de ser campeão nacional, para entrar noutra que vive diversas dificuldades. Contudo, naturalmente, o Sp.Braga não atingiu ainda o nível dos leões. O Sporting é, a par de FC Porto e Benfica, o topo do futebol português, independentemente do lugar que ocupam. Para Carlos Carvalhal, a chegada de João Pereira é uma excelente notícia: terá à disposição um jogador de qualidade indiscutível para o lado direito da defesa, uma zona onde nem Abel nem Pedro Silva se têm conseguido impor. Com condições para tornar o plantel mais competitivo, o Sporting procurará recuperar o seu estatuto e conseguir algo de positivo no que resta da temporada.

O regresso da escuridão dos túneis

A Liga suspendeu preventivamente Hulk e Sapunaru por, alegadamente, terem agredido um membro da segurança no túnel de acesso aos balneários da Luz. As versões, naturalmente, são contraditórias: o steward queixa-se de ter sido agredido por Sapunaru, uma acção que terá tido também o contributo de Hulk; do lado dos portistas, embora sem uma reacção oficial, refere-se que o jogador romeno reagiu a uma provocação. Independentemente das causas, nada justifica as atitudes dos jogadores. São profissionais, não devem ter descontrolos emocionais que levam a uma extrapolação daquilo que sentem. Está, por isso, aberto um inquérito para que se apure a realidade daquilo que realmente aconteceu no final do clássico – algo a que o sistema de vídeo-vigilância dará um contributo fundamental.

Os problemas ocorridos nos túneis não são, contudo, de agora. Esta temporada tem, inclusivamente, sido fértil em conflitos já fora do relvado. O caso mais mediático até então, que tanta polémica deu, aconteceu no intervalo do Sp.Braga-Benfica e culminou nas expulsões de Óscar Cardozo e André Leone, um jogador de cada equipa. Terão havido agressões junto aos balneários, Jorge Sousa assim decidiu. Nada a apontar, por isso. Todavia, as imagens televisivas vistas posteriormente, onde se registam agressões de Ney Santos e Mossoró a Cardozo, deveriam ter servido para que fosse instaurado um processo aos jogadores. No entanto, apenas foram assumidos os castigos aos jogadores expulsos pelo árbitro da partida. Agressões claras, captadas pelas câmaras, não mereceriam castigo?

Antes disso, na ronda anterior, o Benfica já havia tido alguns problemas no túnel. Também no intervalo. Ruben Micael e Manuel Machado, jogador e treinador do Nacional, afirmaram, após o final do jogo, que elementos da equipa madeirense, em especial o médio português, haviam sido pressionados e até agredidos. Vejam as imagens, afirmou Ruben Micael. Até hoje, ninguém está esclarecido sobre o que se passou ao intervalo do Benfica-Nacional. Nem do jogo de Braga, nem no fim do clássico. A única certeza é que os túneis voltam a ganhar, infelizmente, protagonismo no futebol português. Que pena é que a verdadeira essência do jogo, o futebol jogado dentro do campo em noventa minutos de disputa cordial, seja esquecida…