Haja futebol!

Frio na temperatura, cinzento e sem sinais de meteorologia agradável. Fevereiro é assim, aborrecido e triste. Quente como nunca, decisivo, seja para o bem ou para o mal. No futebol português, este Fevereiro será assim. Túneis e polémicas para trás, jogo de bastidores em segundo plano, role a bola. Nos grandes, o tudo ou nada. Nove jogos para Sporting, oito para Benfica e FC Porto, menos para Sp.Braga. Os leões, quinze pontos atrasados em relação ao primeiro lugar, têm o campeonato como uma miragem. Verdadeiramente utópico que a equipa de Carlos Carvalhal ainda consiga recuperar de tão grande desvantagem – tem jogos com Académica (C), Paços de Ferreira e Olhanense (F), terminando com a recepção ao FC Porto. Será, então, quem mais terá em jogo durante este próximo mês.

Campeonato para trás, na procura de salvar a temporada e de ainda conseguir algo de positivo, resta que o Sporting conquiste alguma das provas internas em que está inserido. Terça-feira defronta, no Dragão, o FC Porto para a Taça de Portugal; dia 9 joga em Alvalade a presença na final da Taça da Liga, ante o Benfica. Um clássico e um derby. Pelo meio há a eliminatória com o Everton, adversário da Liga Europa (17 e 24 de Fevereiro, começando em Liverpool). Uma época em jogo, portanto. Benfiquistas e portistas, ambos com os olhos bem postos no campeonato, terão somente menos um jogo do que os leões neste frenético mês: o Benfica por ter sido afastado da Taça de Portugal, o FC Porto por jogar a primeira mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões já em Março.

Para os encarnados, Fevereiro começará na próxima quarta com a partida antecipada frente ao União de Leiria, prosseguirá com a ida a Setúbal, recepção ao Belenenses e findará com deslocação a Matosinhos. Pelo meio, para a Taça da Liga, há a referida eliminatória com o Sporting. Na Liga Europa, o Benfica terá de defrontar, a 18 e 25, os alemães do Hertha de Berlim. Do lado dos dragões, inseridos em todas as provas propostas, há também um mês de altas rotações. Depois de começar por receber o Sporting, para a Taça de Portugal, no campeonato, onde mantém um atraso de seis pontos para o topo, o FC Porto jogará com Naval (C), Leixões (F), Sp.Braga (C) e Sporting (F). Pelo meio defronta a Académica, no Dragão, para a Taça da Liga. Testes decisivos à valia da força portista.

Por fim, o Sp.Braga tem apenas o campeonato e a Taça de Portugal com que se preocupar, pois foi precocemente afastado da Europa e não conseguiu ir além da terceira fase da Carlsberg Cup. Poderá, indiscutivelmente, centrar-se num objectivo e daí retirar vantagem. Líder da Liga, correndo atrás do sonho de se sagrar campeão nacional, os bracarenses ultrapassaram o teste com o Sporting, e terão agora um quadro de jogos bem mais leve do que o dos concorrentes directos: joga fora com Belenenses e FC Porto, recebendo Marítimo e Olhanense. Para a Taça de Portugal, no primeiro jogo do mês de Fevereiro, encontrará o Rio Ave (em Braga). É esta a altura de se apresentarem os candidatos, de se perceber quem realmente possui condições para ganhar.

Um mês que poderá ser meio caminho andado para o sucesso, um mês que poderá deitar uma época por terra. Haja futebol!

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Um diabo imaturo

Há algo em Carlos Martins que o impede de ser um jogador acima da média. Falta-lhe maturidade. No futebol, o talento é apenas uma parte, a mais importante, a que é imperativo juntar uma grande capacidade mental, imune à pressão e que não inflame com elogios. Carlos Martins é daqueles jogadores capazes do melhor e do pior, satisfaz os adeptos agora, desilude-os logo de seguida. Viu-se no triunfo sobre o Vitória de Guimarães: marcou dois excelentes golos, desbloqueou um empate que os vimaranenses já haviam ameaçado, deixou o Benfica com a vitória na mão. Pouco depois, infantilmente, colocou a mão na bola, viu o segundo cartão amarelo e fez com que a equipa jogasse vinte minutos em inferioridade. Um verdadeiro diabo.

Ainda antes disso, de tocar no céu com os golos e descer ao inferno com a expulsão, Carlos Martins já havia sido protagonista. Na área, Cardozo recebeu a bola, demorou a fazer a rotação, perdeu espaço e tempo para fazer o remate à baliza do Vitória. Carlos Martins, isolado à entrada da área, desesperava. Queria a bola, queria o golo, estava em boa posição para o fazer. Disse-o ao colega, trocaram palavras, Luisão, elevando o seu estatuto de capitão, sanou os conflitos. Os remates certeiros que surgiriam na segunda parte tinham lá toda a raiva, a vontade de Martins em mostrar serviço. Fora chamado devido à ausência de Ramires, pretendia justificá-la na plenitude. Conseguiu-o. Foi o homem do jogo. Pena ter manchado um belo quadro.

Esta partida mostra, portanto, na perfeição como é Carlos Martins. Para sempre irreverente. É isso que o prejudica e impede de chegar mais alto na carreira, quiçá a ser presença na selecção nacional. Saiu de forma algo letigiosa do Sporting, de costas voltadas com Paulo Bento, criticado pelo então treinador pela referida falta de maturidade. Vingar-se-ia, na época passada, na final da Taça da Liga: marcou a grande penalidade decisiva, deu um título ao Benfica perante o clube de onde saíra antes de ingressar no Huelva, teve uma vitória muito particular sobre quem o dispensara. Foi esse, talvez, o seu ponto mais alto desde que, no Verão de 2008, ingressou nos encarnados. Falta-lhe amadurecer para chegar mais além.

Gladiadores do Minho

Onze guerreiros em força, onze leões procurando reerguer-se após terem batido no tapete. A vitória como objectivo comum. Há, porém, muito mais do que três pontos em jogo: os guerreiros querem provar sem espaço a dúvidas que têm capacidade para lutar com qualquer adversário, os leões necessitam de recuperar o estatuto superior que deixava os outros com poucas hipóteses de sobrevivência. Um coliseu, a casa dos lutadores, composto por aqueles que anseiam saber com quem realmente podem contar e desejosos de assistir ao golpe de misericórdia nas aspirações do felino, eliminando-o do confronto e reduzindo o número de adversários. É assim, com um passo de cada vez, nenhum em falso, que as surpresas poderão acontecer. Não é fácil contrariar a lógica que favorece os mais fortes.

Em casa, mandam os que lá estão. Se os residentes liderarem o campeonato, ainda mais força ganha essa ideia. Sem complexos, os bracarenses chamaram a si o favoritismo, depois do pleno de triunfos grandes na primeira volta, cada vez mais solidificados no topo. Carlos Carvalhal, todavia, alertou para as qualidades dos seus: sete vitórias consecutivas, registo puramente triunfador após a paragem, clara subida de rendimento e, portanto, uma palavra a dizer. O início do jogo deu-lhe razão: o Sporting entrou com vontade de leão, pressionante, encurtando espaço ao Sp.Braga, remetendo-o ao seu meio-campo, jogando mais junto da área adversária. A estratégia baralhou os minhotos, inabituados a serem empurrados na sua própria fortaleza. Aos poucos, a pressão alta do Sporting foi diminuindo.

O Sp.Braga soube esperar, conseguiu soltar-se do ímpeto inicial e aliar alguma posse de bola para procurar explorar as transições rápidas que tanta mossa fazem. Chegou ao golo, batida a meia-hora de jogo. Na primeira real ocasião de que dispôs para o fazer, antes havia sido o outro Sporting mais incisivo, embora, de igual forma, também não criando problemas de maior para Eduardo. O Sp.Braga foi feliz. Paulo César passou sobre Miguel Veloso, iludiu João Pereira, contou com um desvio em Tonel, enganou Rui Patrício. Em vantagem, tudo seria diferente. A equipa estabilizou, assentou o seu jogo, entregou-se à magia de Mossoró, explorou as faixas laterais do terreno na velocidade. É aí que eles são temíveis. O golo podia ser um knock-out no Sporting, toalha no chão, entregando o controlo absoluto ao Sp.Braga.

As verdadeiras lutas, contudo, não são assim tão fáceis de resolver. Nem esta foi. O leão rugiu, obrigado a correr atrás do prejuízo, nunca poderia virar a cara à luta. Houve mais espaço, claras melhorias, com o marcador a favor, de uns bracarenses que não tinham começado bem. Os guerreiros, fiéis à sua máxima de nunca se desunirem, não deram chances para que a reacção leonina tivesse efeitos práticos. Protegeram bem o seu forte, é sua imagem de marca. Houve necessidade de endurecer a disputa, maior agressividade nos confrontos, atitudes de grande garra de qualquer um deles. Um final emocionante: uns nunca perdendo a esperança de como era possível algo mais, outros com enorme coesão para segurarem o que já haviam conquistado. Luta de gladiadores, vitória dos guerreiros de Braga. Mais uma.

Fluxos dos grandes

A possibilidade de contratar novos jogadores, devido à produtividade obtida até então pelos grandes, faria mais sentido para o Sporting. Por isso mesmo, os leões, depois de terem gasto pouco no Verão, fizeram um esforço financeiro para dar maior qualidade à equipa. Chegaram João Pereira e Sinama Pongolle: o primeiro já está mais do que integrado na equipa, havendo mesmo quem o aponte como um dos maiores responsável melhoria do Sporting; o avançado pouco se mostrou ainda, atormentado desde logo por uma lesão. Agora é a vez de chegar Pedro Mendes – o Glasgow Rangers já confirmou o acordo com o Sporting. Em sentido contrário, Caicedo abandonou o clube, tal como Angulo há muito havia feito – ainda André Marques, cedido aos gregos do Iraklis. Está fácil de perceber quão falhadas foram as contratações de Agosto.

A primeira metade da temporada serviu, também, para deixar a nu algumas fragilidades da equipa do FC Porto. Essencialmente na construção de jogo. Não houve quem assumisse o futebol portista, quem o comandasse. Faltou um substituto para Lucho González, algo que Belluschi não conseguiu de forma convincente. O mercado, embora Pinto da Costa sempre afirmasse que o plantel dava todas as garantias de sucesso, tornou-se imprescindível. Acertada a contratação de Rúben Micael, será no jovem médio madeirense que estará a batuta da equipa. Para além do médio, chega também um novo avançado: Kléber, ex-Cruzeiro, namoro antigo, em troca com Ernesto Farías – um jogador que viveu na sombra, sem espaço no onze-tipo, mas autor de golos decisivos. Sebastian Prediger, erro de casting, saiu para o Boca Juniors.

Com um rendimento bem superior a outras épocas, colocado acima dos rivais directos, perdendo apenas para o Sp.Braga no topo, o Benfica pretendeu também reforçar o plantel. Não que exista algum desiquílbrio, quantitativo ou qualitativo, mas é necessário precaver qualquer indisponibilidade e, por outro lado, aumentar a competitividade interna. Alan Kardec, Éder Luís e Airton, três brasileiros, entraram no plantel encarnado. Sem espaço de manobra, com perspectivas irreais de serem chamados, tal como acontecera com Urretaviscaya de saída para o Peñarol, Jorge Ribeiro ficou com Guimarães no destino, Shaffer foi colocado no Banfield (Argentina) e Balboa, experiência verdadeiramente fracassada, rumou ao Cartagena (segunda divisão espanhola). Franco Jara, avançado argentino, é ainda uma hipótese para chegar à Luz.

Um futebol que caminha para o abismo

O futebol português vive uma das piores fases do seu passado recente. Se é facto que, até ao momento e comparativamente com a temporada anterior, não apareceram casos de irregularidades no pagamento de salários em nenhuma equipa, ressurgiram, de súbito, inúmeras suspeições envolvendo a face oculta do futebol. Esquecendo a parte do espectáculo, essencial, capaz de arrastar multidões em massa por uma única paixão: o jogo. Olhamos para a Europa, os jogadores são os protagonistas, há magia, encanto de ir ao estádio ver duas equipas cordialmente na busca da vitória. Com garra, com querer. E em Portugal? Quem são os protagonistas do futebol português, leitor? Tentativa de resposta: não os jogadores.

A discussão e a polémica fazem parte da essência do jogo. Existem erros, falhanços, oportunidades perdidas de tocar o céu, por vezes uma vida inteira de desgraças. Outros, pelo contrário, alcançam a glória com facilidade, tudo lhes corre bem, são bem sucedidos no que fazem. É a lei do futebol: uns ficarão felizes, outros frustrados por não terem alcançado o objectivo. O espectador, desligado de clubismos, quer ver os seus ídolos em campo, ter um tempo bem passado, noventa minutos que passam como se fossem cinco, um espectáculo que lhe agrade. Actualmente, não é necessário sair de casa. Basta colocar a televisão no canal certo. Vê os melhores jogadores, o encanto dos outros futebóis. Outros, pois.

O futebol português, para os verdadeiros amantes do desporto no seu estado mais simples, fica relegado para outro plano. Porquê? É simples: em Portugal, os jogadores não são os protagonistas, até o próprio futebol fica atrás das rivalidades que extravazam a esfera desportiva. Não há competição, há guerras. Não há adversários, há inimigos. Não há espectáculo, há a ânsia de ganhar para mostrar ao rival que se é superior. Por isso, os túneis ganham destaque, iniciam-se lutas verbais para hostilizar tudo e todos, a suspeição instala-se, o fantasma da corrupção regressa bem forte, os clubes esquecem o jogo dentro do relvado. O futebol português, a cada dia, torna-se menos interessante. Deixa de ser futebol. Para onde caminhamos?

A decisão que não sai e um enorme ruído de fundo

Túneis, suspensões, atrasos nas decisões, escutas, apedrejamentos, parada e resposta sem fim. Em duas palavras: interminável polémica. Com efeito bola de neve, surgindo novas revelações a cada dia, mas no final tudo se mantém na mesma. E o futebol, leitor, onde está? Em segundo plano, apenas surgido depois de se debaterem todas as questões de bastidores, fora das quatro linhas, chegando até à esfera judicial. É assim desde o dia 20 de Dezembro de 2009, dia do clássico entre Benfica e FC Porto. No relvado, os encarnados ganharam bem. Ponto final. O assunto encerrou aí, com o apito final de Lucílio Baptista, certo? Pelo contrário: esse foi apenas o início de todo o clima de conflitualidade que se instalou a partir de então.

No meio de todas as questões que têm surgido, nada mais do que um novo capítulo na saga entre portistas e benfiquistas, arrufos conhecidos, inimigos para a vida, importa olhar ao que mais mossa tem feito. Hulk e Sapunaru, profissionais do FC Porto, estão suspensos preventivamente. Desde a data da partida, passaram-se sete jogos. A pena a ser aplicada tarda em ser conhecida, os jogadores continuam num impasse, sem saber se poderão ainda jogar nesta temporada ou qual o castigo a que estarão sujeitos. Neste tipo de situações, a decisão tem necessariamente de ser célere. Se existirem provas em como as agressões acontecerem, e após ser apurada a gravidade do acto, os protagonistas de ser castigados conforme a lei. Simples.

Sabe-se, agora, que as imagens captadas pelas câmaras de vigilância não poderão funcionar como meio para comprovar a existência de conflitos. Só em termos penais serão aplicadas, nunca com interferência na justiça desportiva. Assim, tudo aquilo que acontecer no túneis, não sendo presenciado por um elemento da equipa de arbitragem ou pelos delegados da Liga – o que aconteceu neste caso -, é absolutamente nulo nas questões desportivas. As imagens podem provar que existiram agressões, não têm utilidade. Não faz qualquer sentido que assim seja, obviamente. No entanto, esquecendo todo o burburinho criado, é importante que se faça uma reflexão. Para encontrar o rumo do futebol português, enquanto não é demasiado tarde.

Duas entrevistas exclusivas a Pedro Sousa


Pedro Sousa é um nome incontornável da rádio e considerado por muitos como o melhor relatador português. Em Agosto de 1986 fez o primeiro relato, Torrense-Académica, durante o período das chamadas rádios piratas. Dois anos depois, estreou-se na Rádio Renascença num Benfica-Vitória de Guimarães. Começou como colaborador mas logo passou a fazer parte da equipa desportiva liderada por Ribeiro Cristóvão. Tem uma forma única de relatar e o já está!, claro. Além disso, colabora com a Sport TV na narração de jogos de futebol internacional. Uma entrevista FUTEBOLÊS em jeito de uma conversa informal Clique aqui para ler esta entrevista (Maio de 2008)

Quando o assunto é o jornalismo desportivo, particularmente em termos radiofónicos, Pedro Sousa é um dos nomes que mais facilmente associamos: sobretudo pelos seus relatos na Rádio Renascença, onde também edita o programa Bola Branca. Além disso, também pelas narrações de partidas de futebol internacional na Sport TV e ainda por ser a voz dos comentários do novo Pro Evolution Soccer, um dos mais famosos simuladores de futebol. Nove leitores do FUTEBOLÊS aproveitaram a oportunidade para entrevistar um dos mais conceituados jornalistas português Clique aqui para ler a entrevista aberta a Pedro Sousa (Fevereiro de 2010)