O jogo acaba no último apito, não é?

É somente quando se escuta o apito final que um jogo deve ser dado por terminado. Até aí, as equipas terão de manter a concentração e o ritmo. Só depois, quando o tempo estiver esgotado, a missão está cumprida. Estará, por esta altura, o leitor a pensar que se trata de um princípio básico. Quantas são, porém, as equipas que enrolam a bandeira e, mesmo ainda dispondo de tempo para o fazer, não acreditam ser possível mudar o rumo dos acontecimentos? A teoria vale para quem está em desvantagem, mas também para quem está por cima e pensa ter a vitória consumada. Em futebol, para um resultado ser invertido, é preciso pouco. Basta um golpe de sorte, um azar do adversário, um erro do árbitro. O jogo acaba com o apito final, nunca com o resultado.

Começou, ontem, a Taça das Nações Africanas. Manchada pelo ataque à comitiva de Togo, em vésperas de se iniciar a competição, é nos relvados angolanos que deverão estar centradas as atenções, procurando ver o que há para oferecer. Angola e Mali disputaram o jogo de abertura. E, pelo prenúncio, pode-se esperar algo de bem positivo. A selecção anfitriã, comandada pelo português Manuel José, chegou ao minuto 78 com quatro golos de vantagem. Partida resolvida, portanto. Se o leitor assim pensa, é porque se insere no lote que não espera pelo apito final. No tempo que restava, o Mali reduziu, atenuou a derrota, ameaçou os angolanos, empatou. Incrível, louco, verdadeiramente épico. Manuel José, claro, disparou contra os seus jogadores. Relaxar em alta competição é proibido.

Ainda se jogava a abertura da CAN, enquanto, no Dragão, FC Porto e União de Leiria recomeçavam o campeonato para encerrar a primeira volta. Já o Mali havia espantado meio mundo, estava o FC Porto pela terceira vez em vantagem. Justificada mas tremida: por duas vezes havia marcado, com chances para engordar o resultado, em ambas vira os leirienses chegarem ao empate. Agora, o cronómetro já alcançara os noventa minutos, os portistas esperavam pelo final, gerindo um golo de avanço perante um adversário com menos um elemento. Três minutos depois da hora, Fernando comete falta dentro da área. O Dragão fica em suspenso, quedo, mudo. Helton agiganta-se, impede Ronny de marcar. O Dragão respira, por fim. A vitória ficou garantida com o último apito. Nunca antes.

Um primeiro classificado que defronte em casa o último, à partida, tem todas as condições para um jogo tranquilo. Certo? Nem sempre. Inter de Milão e Siena, extremos da classificação do campeonato italiano, frente a frente no Giuseppe Meazza. O último marca no casa do primeiro, Maccarone bate Júlio César. Responde o Inter, vira o resultado. O Siena, sem nada a perder, volta a colocar o jogo a seu favor. Papéis trocados, então, a teoria fica de fora. Ao minuto 89, Sneijder empata. Mourinho deixa os festejos, quer mais, quer a vitória, ainda há tempo. Walter Samuel, limite do fora-de-jogo, bola no pé esquerdo, golo. Tudo virado outra vez, o primeiro superior ao último. Tão curto espaço temporal, tamanha diferença no jogo. Agora sim, Mourinho festejou. Como se ganhasse o campeonato.

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