Opinião: O motor deixa que se quebre a monotonia?


Vamos ver, jogo a jogo, procurando sempre a vitória, não querendo sair do conforto do primeiro lugar. A mensagem, mudando uma palavra aqui, abrindo os horizontes depois, nunca colocando a fasquia demasiado alta sob risco de o estrondo da queda ser maior, é passada pelo Sp.Braga. Nas mentes bracarenses, nos jogadores, em Domingos, em Salvador, nos adeptos, não há quem não pense: podemos ser campeões!. Ninguém o quer assumir, já se disse porquê. Por um lado, fazem bem: o carro minhoto é bom, regular, mas desconhece-se se terá motor que aguente o ritmo até final. Contudo, já que se fala em carros, quem se lembraria que Jenson Button poderia ser campeão mundial de Fórmula Um? Se o próprio piloto tivesse uma auto-estima insuperável, havia um crente.

Em qualquer competição, é saudável que apareçam novos protagonistas capazes de lutar pelos objectivos mais ambiciosos. Não devem ser sempre os mesmos a sorrir, é preciso que se apresentem candidatos sem receio de serem felizes. Ninguém lhes pede que mudem o planeta, apenas que contribuam para aumentar o interesse que algo desperta em nós. Há dominadores em tudo, senhores quase indestrutíveis, que não dão hipóteses a quem quiser fazer-lhes frente. Por isso, por parecerem intocáveis, os adversários desmoralizam. Há alguns anos, quem mais esperaríamos ver sorrir no final de um Tour de France, senão Lance Armstrong? Ou quem punha em causa o reinado de Michael Schumacher?

Deixando o aparte e voltando ao futebol português. Aqui, leitor, vive-se uma situação semelhante: os grandes dominam, têm os melhores jogadores, as atenções, as vitórias e os títulos. É bom que, por vezes, haja quem afaste a monotonia. Por mais que gostemos dos nossos clubes, queremos uma competição saudável e onde os clubes com menos recursos sejam capazes de jogar olhos nos olhos com os mais fortes, procurando a vitória, sem ter medo de arriscar, deixando na bagagem a obrigação de recorrer a estratégias defensivas. O futebol só tem a ganhar. O Sp.Braga merece, portanto, todos os elogios: é líder, pratica um futebol agradável e consistente, está cada vez mais acomodado ao lugar.

Pormenor deveras importante: não se pode justificar este primeiro lugar dos bracarenses com os percursos alheios. Nem se poderá argumentar com frases-feitas e sem sentido: o Sp.Braga é líder porque os adversários estão fracos. Nada disso, totalmente errado. Há quanto tempo não se via um Benfica ainda tão candidato nesta altura da temporada? Para responder, leitor, é necessário recuar uma boa série de anos. E o FC Porto está mal? Está, não há dúvidas, o futebol apresentado não deslumbra ninguém, a equipa abalou após o jogo na Luz, perdeu a capacidade de ser letal. Mas só tem menos um ponto do que no ano passado, liderava nessa altura. O argumento está destroçado, pois.

Pode até nem ganhar nada, é bem verdade que sim, até porque foi precocemente afastado da Liga Europa e da Taça da Liga, mas o Sp.Braga desta temporada merece ser levado em conta. Ainda não o é verdadeiramente, há-de ser. Ainda não está no grupo dos melhores, cá não temos big four, são apenas três. Ainda há o medo de assumir uma candidatura ao título. Já se disse que será necessário perceber, nesta segunda metade da temporada, a resistência da equipa. No entanto, o verdadeiro porquê da recusa dos bracarenses em falarem de ganhar o campeonato está na História: a tendência dominadora dos grandes, será assim facilmente posta em causa? A ousadia poderá custar caro.

Nas setenta e duas edições do campeonato português, só por duas vezes houve excepções a esta regra de que os grandes dominam: Belenenses e Boavista foram os autores da proeza. Para Braga, não só clube, esse é um aliciante, mas também um risco de viver um acontecimento isolado. Os bracarenses querem o campeonato. Mas há sempre o risco de morrer na praia, de quebrar. Ninguém quererá isso. Importa, sim, dar passos seguros para o futuro, para que esteja tudo preparado para o Sp.Braga chegar a um novo estatuto que já faz por o merecer há algumas temporadas. Mais importante do que tocar o céu e descer ao inferno, é conseguir escalar cada degrau. O Braguinha, esse, já ficou lá atrás.

Voltemos à metáfora inicial. Lembra-se, leitor? Falamos de carros, da resistência. Na memória ficou-me há muito marcada uma imagem. Ia Mika Häkkinen, o maior rival para a hegemonia de Schumacher, ao volante do seu McLaren-Mercedes na recta da meta quase em pré-festejo, quando, de súbito, o motor cede. O carro parou, simplesmente, impotente para fazer o que quer que fosse. Faltavam algumas centenas de metros, nada mais. O campeão alemão seguia atrás, venceu facilmente a corrida. Na campanha do Sp.Braga existe esse risco: ser ultrapassado em cima da meta. É a exigência para o sucesso. Preciso crença, muita vontade de triunfar e… esperar que o carro dê garantias.


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