Opinião: Um escorpião imortal

Defender uma baliza não está ao alcance de todos. Um bom guarda-redes, para além do dom natural, tem que saber manter a concentração total durante os noventa minutos, sem um segundinho que seja para admirar o ambiente que o rodeia. É imperativo que possua uma coragem do tamanho dos Himalaias, sem temer mazelas ou arranhões. Há mesmo quem diga que todos os guarda-redes precisam de um bocadinho de loucura. René Higuita é um nome que figurará para sempre nos melhores momentos do futebol mundial. Não que tenha sido um jogador de grande dimensão. Mas porque teve um momento delicioso, de pura loucura.

Com um visual ao jeito de um Demis Roussos, com cabelo e barba longos, se bem que não tão efusivo como o mítico Carlos Valderrama, Higuita não representava a forma mais sensata e formal de defender uma baliza: era por demais arrojado, jogava fora da sua área, tentava fintar os adversários. Colocava os adeptos da sua equipa com o coração nas mãos, em jogadas de cortar a respiração. Ganhou a alcunha de El Loco e é fácil perceber porquê. Foi em Setembro de 1995 que espantou o mundo do futebol num jogo amigável entre a sua Colômbia e a Inglaterra. Aí nasceu a defesa de escorpião, digna de qualquer compêndio.

Esse lance, passado no estádio de Wembley, foi qualquer coisa de extraordinário. Ninguém sabe o que se terá passado pela cabeça do guarda-redes colombiano, se calhar nem ele próprio. A bola rematada pelo médio Jamie Redknapp, no seu jogo de estreia pelos ingleses, foi mais ou menos para o meio da baliza. Higuita estava bem colocado, no caminho da bola, o lance não geraria grande perigo. Seria uma defesa fácil, portanto. Para Higuita não, ele não era assim tão simples. Gostava de arriscar, jogar nos limites. Qualquer um teria levantado os braços e defendido.

Higuita não era qualquer um. Lá do alto da sua loucura e ousadia, deixou a bola passar-lhe por cima. Foi totalmente inesperado. Quando estava mesmo em cima da linha de golo, lançou o corpo para a frente, defendendo-a com os dois pés num salto fantástico. Num salto de escorpião, como lhe convencionaram chamar. O seu corpo ficou quase como uma ponte invertida. Os adeptos levantaram-se e aplaudiram aquele instante mágico que um colombiano desconhecido tinha alcançado. Higuita agradeceu, sereno, como se fosse algo que fizesse todos os dias.

O salto de escorpião será para sempre recordado como a mais espectacular defesa alguma vez feita por um guarda-redes. Foi irreverente e inesperada, à semelhança de Higuita. Se calhar foi por essa razão que não se tornou num jogador de categoria mundial, por ser um verdadeiro louco na forma como se comportava em campo. Só um louco, um homem sem medo de ultrapassar todos os limites seria capaz de nos proporcionar momentos assim. Hoje, com quarenta anos, despede-se da competição. Obrigado por essa tua loucura, René!

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