Sporting-FC Porto, 3-0 (crónica)

O REGRESSO DO SENHOR LEÃO

Senhor leão, por favor. O Sporting temerário, errático e desnorteado ficou para trás. O momento, agora, é outro. A partida com o Everton já o anunciara, o clássico com o FC Porto confirmou: os leões jogam como ainda ninguém vira nesta temporada. Pode custar a crer, é verdade que sim, mas a vitória sobre os dragões não deixa dúvidas: consistência, entreajuda, redução de espaços, golos em momentos marcantes. Três tiros num dragão impotente, uma equipa que nunca se conseguiu encontrar, mergulhada num mar de indecisões e de más opções. O título é, agora, uma possibilidade cada vez mais remota. É a razão que o diz. Mantém-se a crença de que ainda há hipótese. Os papéis do jogo não estarão trocados? Não, claro que não. Acreditem!

Um clássico entre dois gigantes fora do seu sítio. Chegados a esta fase da época, com dez jogos pela frente, FC Porto e Sporting costumam ocupar os primeiros lugares do campeonato. Nas últimas épocas tem sido assim, sempre. Desta vez, contudo, é diferente: o FC Porto não chega com a via aberta para ser campeão, o Sporting está afundado numa temporada de pesadelo. Vida ou morte. É assim, sem meios termos ou contemplações, que os dragões, em terceiro, procurando manter as distâncias para Benfica e Sp.Braga, na esperança de continuar na perseguição e obrigar os rivais directos a um tropeção, encaram o clássico. Um deslize ser-lhes-á fatal. E o Sporting? Para que conta, então, este jogo? Sobretudo para a honra da equipa: é necessário recuperar o quarto lugar. Esse é o objectivo actual dos leões.

Está nos livros, em qualquer um deles onde o assunto seja futebol, que marcar cedo é meio caminho andado para se ser bem sucedido. A equipa tranquiliza-se, ganha confiança para enfrentar o jogo, passa a pressão para o lado do adversário. E precisa de estar preparado para a reacção, para que não tenha sido um esforço em vão, só interessa se o golo puder ser rentabilizado. O Sporting fez tudo isso: entrou em força, pressionante, marcou cedo, assumiu o controlo do jogo e preparou-se para qualquer eventualidade. Pode-se dizer, resumindo tudo isso, que deu continuação à exibição perfeita ante o Everton. Já se sabia que ganhara confiança com esse triunfo europeu, o golo de Yannick, aos seis minutos, confirmou que este Sporting sofreu uma alteração profunda. Não se explica, são coisas do futebol.

ELES ESTÃO EM QUINTO?

Alguém que tivesse caído agora no futebol português e estivesse atento ao jogo de Alvalade, diria que morava ali uma equipa de grande potencial. Aquele Sporting não poderia, em momento algum, ser um quinto classificado: os leões instalaram-se no relvado, superiorizaram-se no meio-campo, impediram que os portistas, com Rúben Micael e Raúl Meireles, tivessem bola no pé. Tiveram, logo a seguir ao golo, uma nova oportunidade para marcar: Liedson entrou na área, rematou forte, Helton negou-lhe a vontade. O FC Porto ainda não se encontrara, estava perdido no domínio do Sporting. Ninguém se lembrou do leãozinho frágil e desorientado que esteve sete jogos sem vencer. O jogo com o Everton foi a pedra de toque, agora estava ali um leão forte, confiante e bem centrado no objectivo de ganhar.

À medida que Varela foi ganhando espaço, os portistas conseguiram equilibrar o jogo. Passaram a ter mais bola, rondaram a área de Rui Patrício e criaram algum perigo para a defesa leonina. Não foi, porém, uma resposta incisiva, incessante pelo golo, uma vez que nunca os dragões conseguiram criar uma oportunidade de golo iminente. O intervalo aproximava-se, Jesualdo Ferreira teria de mudar algo, a equipa necessitava de se tornar mais agressiva e ganhar ofensividade. O Sporting não deixou, agiu antes que o FC Porto apostasse qualquer coisa, fez um segundo golo, por Izmailov, antes do descanso. Os leões juntaram à consistência e união do seu futebol, uma matreirice das grandes equipas, um atributo desaparecido, foram mortais nos momentos-chave. Tão diferentes que eles estão.

PERFEIÇÃO QUE MATOU O DRAGÃO

Sem perceber muito bem como, o FC Porto deixou a primeira parte com dois golos de atraso. Um sofrido no início, outro no final. Por entre um apagão generalizado, numa equipa incapaz de dominar a força revoltosa do leão, descaracterizada e impotente, faltou também felicidade na forma como foram consentidos os golos. Mas não se ficou por aqui. O intervalo foi uma pausa, serviu para o Sporting recuperar o fôlego, para voltar com toda a energia. Era a hora de desferir o golpe final no adversário. Foram precisos dois minutos, somente: Izmailov rematou ao poste, a defesa azul foi passiva, Miguel Veloso encheu-se de fé e acertou bem no coração do dragão. Três-zero, reacção do FC Porto deitada por terra, mérito total do Sporting. Não tinha sido isso que acontecera, com os papéis invertidos, no jogo do Dragão?

Recapitulemos, então, para que não fiquem dúvidas: o Sporting marcou um golo no início do jogo, outro antes do intervalo, fez o terceiro nos momentos iniciais da segunda parte. Pode-se dizer que atirou as responsabilidades para o lado do FC Porto, impediu uma reacção forte para alcançar o empate rapidamente nos segundos quarenta e cinco minutos e, por fim, acabou com o jogo numa altura em que Jesualdo Ferreira já trocara Raúl Meireles por Belluschi com o intuito de aumentar a capacidade de criar futebol ofensivo na sua equipa. A exibição leonina foi perfeita, abrilhantada por um portentoso jogo de Yannick, um prolongamento à altura do exibido na quinta-feira, uma mostra de que o futebol não tem lógica que resista. O campeão tombou, sem forças, entre erros em catadupa, tudo lhe saiu mal. Terá sido o fim?

Anúncios

Sporting-FC Porto (antevisão)

Habituados a discutir o título a dois até aos últimos momentos, ocupando os lugares mais altos do pódio no final, Sporting e FC Porto chegam à vigésima primeira jornada com uma sensação de que algo de estranho lhes aconteceu. Contrariamente às épocas recentes, não estão no topo. Os leões já perderam essa possibilidade, ninguém fala em título, foram estabelecido outro objectivo imediato: o quarto lugar. É pouco, sim, mas nada mais resta do pesadelo. Por outro lado, os dragões estão em recuperação, tentando dizimar a distância para o primeiro lugar, com a plena noção de que um passo em falso deitará tudo a perder – sabem que a concorrência venceu. O clássico é fundamental. Seja para manter a esperança no penta ou para evitar uma queda ainda maior. E, ainda, uma chence para a redenção da goleada sofrida, para a Taça, no Dragão.

É incontornável: o jogo com o Everton, na quinta-feira, que o Sporting ganhou de forma incontestável, poderá ter repercurssões no clássico com o FC Porto. A equipa quebrou uma série de sete jogos sem triunfos, conseguiu a melhor exibição da temporada, anulou a vantagem que os ingleses traziam do jogo da primeira mão. Devido ao momento dos leões, poucos seriam os apostadores numa vitória. O Sporting provou, porém, que consegue surpreender pela positiva e que é bem mais do que um conjunto de jogadores ansiosos e com um receio inexplicável de errar. A equipa jogou com alegria, como não se vira antes, transformou-se no seu interior, foi um exemplo de união. Pode parecer paradoxal, contudo, que o melhor Sporting tenha surgido num momento tão delicado. Mas quem disse que o futebol tem lógica?

Caso o Sporting não tivesse feito tal exibição ante o Everton, seria mais do que justo reconhecer uma clara superioridade do FC Porto. Mesmo sendo um clássico, onde por vezes a equipa que está em pior momento se destaca, os leões pareciam não encontrar soluções para sair do abismo em que haviam caído. Os portistas chegariam , então, a Alvalade no melhor momento, após um triunfo categórico sobre o Sp.Braga, reduzindo as pretensões de vitória dos bracarenses a uma simples ilusão, com cinco golos marcados à melhor defesa do campeonato. Foi, além disso, uma prova de que o campeão se mantém na luta, não encolheu os ombros. Nem poderia, tão pouco, pois há um estatuto a defender. No entanto, para continuar a perseguição, é imperativo vencer em Alvalade. Os rivais já cumpriram o seu trabalho.

Jesualdo Ferreira não poderá contar com Fernando, lesionado no jogo com o Sp.Braga, devendo colocar Tomás Costa no seu lugar, mas já terá Cristian Rodríguez nas opções. Todavia, não é provável que o uruguaio entre directamente para o onze titular, já que não tem o melhor ritmo e, além disso, Mariano González se apresenta em bom nível. No Sporting, já com João Pereira e a confirmação da continuidade de Izmailov é na formação táctica que se concentra a dúvida maior: manter o 4x2x3x1 da partida com o Everton ou regressar ao 4x1x3x2? Yannick foi um dos jogadores em maior destaque a meio da semana e, por isso, deverá continuar na equipa titular, encaixando em qualquer esquema: no tridente ofensivo ou parceiro de Liedson. Carvalhal tem a palavra. Jogo com crónica no FUTEBOLÊS.

EQUIPAS PROVÁVEIS:


SPORTING:
Rui Patrício; João Pereira, Tonel, Daniel Carriço e Grimi; Miguel Veloso, Pedro Mendes, João Moutinho, Izmailov e Yannick; Liedson

FC PORTO: Helton; Fucile, Bruno Alves, Rolando e Álvaro Pereira; Tomás Costa, Rúben Micael e Raúl Meireles; Varela, Mariano e Falcao

A mostra dos candidatos

Querem ser campeões? Provem-no! O campeonato entrou nessa fase decisiva, quem quer sucesso não pode vacilar, necessita de ser regular até final. Faltam dez jogos. Dez finais, se assim lhes quiserem chamar. E as finais, já se sabe, são, antes de qualquer futebol de deslumbramento, para ganhar. Agora com ordem invertida, é no Benfica e no Sp.Braga que estão as maiores probabilidades de sucesso. E nos bracarenses, um ponto atrasados para o primeiro lugar, a expectativa para perceber qual seria a reacção à goleada sofrida no Dragão, a segunda derrota no campeonato. Ante o FC Porto, o Sp.Braga abalou, encolheu-se, ficou reduzido a cinzas, não teve argumentos para alimentar o sonho do título. Seria, então, o princípio do fim de uma equipa sensação?

Não, claro que não. Por tudo aquilo que tem feito, pelos maquinismos que tem mostrado e, essencialmente, pela coesão que apenas no Dragão foi colocada em causa, não pode esquecer-se a força dos bracarenses devido ao pior jogo da sua temporada. Pelo menos não com tamanha facilidade. A resposta não deixa dúvidas: vitória clara, em casa, sobre o Olhanense. O Braga deixou para trás a derrota, voltou ao que era, começou o jogo em falso, pairou um espectro negativo, mas conseguiu empatar ao vigésimo primeiro minuto. Depois disso, assumiu inteiramente o controlo e conseguiu dar a volta. Fê-lo com mérito, ganhou com justiça. A equipa bracarense sabe para o que joga, não procura atingir níveis de brilhantismo, basta-lhe ser prática para chegar à vitória. O candidato voltou.

Pressionados para vencer, ultrapassados provisoriamente pelo Sp.Braga, jogando num estádio onde os dois adversários directos na caminhada pela glória perderam pontos, só restava uma solução ao Benfica: vencer. Convencendo ou não, é indiferente, interessavam os pontos. Nem os encarnados necessitaram de puxar dos galões: fizeram um jogo consistente, sem abusar de altivez de um líder que defronta o penúltimo, o suficiente para uma goleada. A estratégia de Castro Santos, bem sucedida contra o FC Porto, desta vez não teve efeito, o Leixões revelou-se demasiadamente inofensivo, foi presa fácil. O Benfica ganhou por 4-0, manteve tudo como até então, voltou a colocar o Sp.Braga para trás das costas. Foi espectacular? Colectivamente pode nem ter sido, mas Di María abrilhantou a noite.

O extremo argentino é assim: tanto aparece como desaparece, ora deixa Jorge Jesus à beira de um ataque de nervos, ora delicia os adeptos. Falta-lhe maior regularidade para ser um verdadeiro portento. Em Matosinhos, Angelito prolongou a genialidade que o invadira no jogo com o Hertha de Berlim, suportou a equipa, foi um regalo para a vista e, mais importante do que tudo isso, decidiu o jogo. Marcou três golos, algo inédito na sua carreira, por entre um espectáculo contínuo. Tudo saiu como ele quis. Decidira fazer um chapéu a Diego: não conseguiu à primeira, irritou Jorge Jesus, haveria de o conseguir depois. A teimosia, por vezes, pode ser uma virtude. Aí está o exemplo, o Benfica agradece. Os dois primeiros cumpriram a sua parte, resta esperar pelo FC Porto. É a mostra dos candidatos.

Ministro do Sporting

José Eduardo Bettencourt tem tomado, enquanto presidente do Sporting, medidas surpreendentes. Assim que se viu privado de Paulo Bento e Pedro Barbosa, treinador e director-desportivo, dois elementos que pretendia que permanecessem no clube e na estrutura do futebol profissional, escolheu Carlos Carvalhal e Ricardo Sá Pinto, respectivamente, para ocupar as vagas deixadas. Surpreendeu: sobretudo com Carvalhal, um nome pouco consensual entre os adeptos e esquecido num rol de vários candidatos que foram surgindo, mas também na colocação de Sá Pinto, por um lado um ídolo leonino e, por outro, um ex-jogador marcado pelo seu forte temperamento, na liderança da equipa principal do Sporting. O risco das decisões aumentou em virtude do momento desastroso que se vivia em Alvalade.

Se Carlos Carvalhal se mantém à frente da equipa, com altos e baixos, com sete vitórias consecutivas que contrastam com uma série de sete jogos sem ganhar, onde se perdeu a possibilidade de o Sporting discutir o campeonato, a Taça de Portugal e a Taça da Liga, interrompida ontem, sensacionalmente, por uma vitória clara e categórica sobre o Everton, Sá Pinto, em Dezembro, demitiu-se do seu cargo – após uma troca de agressões com Liedson, exemplificando na perfeição a elevada emotividade que continua a demonstrar. Após a promoção, ainda que interinamente, de Miguel Salema Garção a director para o futebol do Sporting, Bettencourt anunciou ontem, poucas horas antes do jogo com os toffees, a contratação de Costinha, o Ministro, para assumir essa pasta fundamental.

Mais uma vez, o presidente do Sporting surpreendeu com o nome escolhido. Não se pretende com isto dizer que Costinha será uma má aposta, a essa questão só o tempo poderá responder. No entanto, tal como acontecera com Sá Pinto, falta experiência de dirigente ao agora director-desportivo dos leões. O melhor exemplo disso é que o ex-jogador apenas rescindiu o seu contrato com a Atalanta, onde estava desde 2007 mesmo somente tendo realizado um jogo oficial pelos italianos, na última terça-feira. A passagem dos relvados para os gabinetes foi, portanto, supersónica. Assumidamente sportinguista, conhecedor do futebol, sóbrio e pouco extravagante, concentrado ao máximo no seu trabalho, Costinha foi um futebolista de classe. O futuro dirá se poderá ser um dirigente do mesmo nível. O Sporting bem precisa.

PS: No dia seguinte à entrada de Costinha na estrutura leonina, o Sporting confirmou a permanência de Marat Izmailov em Alvalade. É, obviamente, uma notícia importante para os adeptos sportinguistas, pois o russo tem sido, desde que recuperou da lesão que o afectou quase toda a primeira metade da temporada, um jogador preponderante. Contudo, nesta altura da época, além da Liga Europa, nada mais resta ao Sporting e, em termos financeiros, perde-se uma oportunidade para compor os cofres leoninos. Daí que a permanência de Izmailov deva ser encarada como definitiva, isto é, com vista para a nova temporada e não apenas um adiamento até ao Verão. A partir de agora, o Ministro tem a palavra.

Liga Europa: Agora, sim, o leão rugiu!

COMENTÁRIO

Sete jogos sem vitórias, um mês negro e sucesso nas provas internas caído por terra não são bons presságios. Antes do jogo com o Everton, era esta a conjuntura interna do Sporting: uma equipa debilitada em termos anímicos, em verdadeira queda livre, perante um adversário num ciclo ascendente, culminando com vitórias sobre Chelsea e Manchester United, os dois primeiros do campeonato britânico. Acresce, ainda, que os toffees traziam vantagem da primeira mão, da vitória por 2-1 em Goodison Park. Com tal cenário, mesmo jogando em Alvalade, dificilmente não se diria que o Everton era favorito à passagem. Seja como for, contra as expectativas, o Sporting superou-se, mostrou um futebol desaparecido nesta temporada, teve audácia e foi feliz. Ganhou por 3-0. E ganhou bem.

Em Liverpool, na primeira mão, depois de uma boa primeira parte, o Sporting baixara muito o seu rendimento e, em sentido contrário, o Everton crescera, conseguindo vantagem e tivera a oportunidade de sentenciar a eliminatória. Deixou-a escapar, foi perdulário. Em cima do final, Miguel Veloso marcou um golo fundamental. Não tirou a vantagem aos ingleses, mas teve o condão de alimentar a réstia de esperança. Deixou tudo em aberto para Alvalade. Apesar de os ingleses chegarem na frente, ficou a certeza de que não seria missão impossível, nada disso, até porque um golo garantiria a passagem. Os toffees, talvez deslumbrados com a partida de Goodison Park, abusaram da altivez com que prepararam este jogo. Estiveram vários níveis abaixo do que têm produzido recentemente.

Não se pretende, porém, retirar qualquer mérito ao Sporting. Pelo contrário. Os leões transformaram as fraquezas em forças, atingiram o pico exibicional desta época, venceram e têm maior motivação para os jogos seguintes. Três-zero a um adversário inglês, incluído no grupo que se segue aos big four no seu campeonato, anima qualquer um. É caso para perguntar: onde estava escondido este leão? A mesma equipa que tão mal tem estado internamente, lutando agora para manter o quarto lugar, objectivo declaradamente prioritário nesta altura da época, foi capaz de um jogo perfeito contra o Everton. Depois dos dias de pesadelo, dos jogos com pouca alegria e organização, ao Sporting tudo correu de feição: aproveitou as oportunidades, soube aguentar o forcing contrário, teve coesão.

Nesta vitória do Sporting é incontornável que não se fale em Carlos Carvalhal. O treinador leonino encarou bem o jogo, apostou num 4x2x3x1, com Pedro Mendes e Veloso como pivôs defensivos e lançou Yannick para o tridente de apoio a Liedson – com Moutinho e Izmailov. A equipa jogou bem, houve ligação, tudo bem planeado. Na primeira parte faltou marcar, contudo. Aqui, mais uma vez, Carvalhal acertou no alvo. Noutros jogos comedido e pragmático, o treinador leonino arriscou, trocou Grimi por Saleiro, aos 62′, recuando Miguel Veloso para a lateral esquerda. Dois minutos depois, já com uma ameaça de Pienaar pelo meio, Saleiro combinou com Veloso e o lateral marcou. Tal como fizera em Liverpool, foi por ele que começou a reviravolta leonina. O segundo golo chegaria num remate de Pedro Mendes, a um quarto-de-hora do final. Já Patrício guardara o resultado.

Outro exemplo de como, nesta partida, uma estrelinha acompanhou Carlos Carvalhal? Matías Fernandéz foi lançado aos noventa minutos, mais para tirar tempo de reacção ao Everton na procura de um golo que trouxesse o prolongamento, e teve efeitos práticos. No quarto minuto de compensação, o chileno recebeu um passe de Yannick, um autêntico diabo à solta que correra meio-campo com a bola no pé, e fechou o jogo. Com chave de ouro. Por fim, não há como não referir a alergia do Everton a Lisboa. A equipa de David Moyes, depois de ter sido cilindrada pelo Benfica, em Outubro, num 5-0 concludente, foi eliminado pelo Sporting, também sofrendo um resultado algo pesado. Em Alvalade, o jogo era mesmo dos leões. Diriam os Beatles: A Hard Day’s Night.

NOTA: Devido a problemas informáticos, o comentário ao Sporting-Everton só pode ser colocado hoje.

A vigésima jornada – Opinião de Rogério Azevedo

1. SP.BRAGA CANDIDATO? SIM. SUPERCANDIDATO…

Que mudou entre 4 de Novembro de 2009 e 24 de Fevereiro de 2010? Que se passou nestes 112 dias? Bom, a 4 de Novembro escrevi, neste blog do Ricardo Costa, que era preciso esperarmos pela vigésima jornada da Liga para vermos se, de facto, o Sp. Braga era candidato à vitória na prova. Mais de dois meses depois, novamente a pedido do Ricardo, aqui estou. E a resposta é a mesma: sim, o Sp. Braga é candidato. À décima jornada tinha os mesmos pontos (25) do Benfica e cinco de avanço sobre o FC Porto. Agora, 900 minutos de futebol depois, a equipa de Domingos Paciência mantém a distância para os dragões de Jesualdo Ferreira e perdeu, apenas, um ponto para as águias de Jorge Jesus.

Ou seja, é muito consistente. Sim, há escassos dias perdeu no Dragão. Aliás, não só perdeu como foi goleado: 5-1. E, pela primeira vez desde a jornada de abertura da Liga 2009/10, está atrasado na corrida pelo título. Há um ano, com Jesus na liderança, o Sp. Braga somou 50 pontos no final do campeonato; agora, à vigésima ronda, soma 48 e está a um ponto do líder, não tendo já de defrontar a equipa mais poderosa do futebol português dos últimos 20 anos: o papão FC Porto. Está muitíssimo mais forte. Pode ser campeão? Sim. Basta esquecer o 5-1 e voltar a concentrar-se naquilo que o Sp. Braga sabe fazer: jogar muito bom futebol e… ganhar.

2. BENFICA? O MAIS FORTE, CLARO…

Dez jogos, 30 pontos em disputa, um de avanço sobre o Sp. Braga e seis sobre o FC Porto. Não parece mau de todo, pois não? Não, pensará Jorge Jesus e os muitos milhões de benfiquistas. Há um ano, na mesma vigésima jornada, o Benfica de Quique Flores tinha menos 9 pontos, menos 18 golos marcados, mais oito sofridos e estava já a dois pontos do líder FC Porto. Agora, um ano depois, a ‘estória’ é outra: o Benfica está a jogar muito, continua a golear e está em primeiro lugar. Tem, talvez, um calendário ligeiramente mais complicado que os dois rivais, mas não assustadoramente mais complicado. É, obviamente, o candidato mais candidato de todos os candidatos. E aqui entre nós: a 2 de Maio há um FC Porto-Benfica. Ui, ui…

3. FC PORTO? A SURPRESA DE SER TERCEIRO…

Há um ano, na mesma vigésima jornada, o FC Porto tinha 42 pontos. Agora tem 43. Ou seja, está melhor. O problema do FC Porto, em 2009/10, não é interno, é duplamente externo: chama-se Benfica e chama-se Sp. Braga. O dragão não está habituado a que, nesta fase da prova, não dependa de si próprio para ser campeão, pois não bastará ganhar os últimos dez jogos: é preciso que os dois da frente percam mais pontos. A última vez em que o dragão esteve nesta situação foi em 2001/02, quando na mesma jornada estava a sete pontos do líder (e futuro campeão nacional) Sporting. Acontece que o FC Porto do último mês não é o FC Porto que jogou até Dezembro. A explicação é fácil e fala com sotaque madeirense: Rúben Micael. O homem de Câmara de Lobos deu uma dimensão-extra do dragão de Jesualdo Ferreira e agora, a dez jornadas do final, parece estar no ponto. Mas não basta. É preciso que Benfica e Sp.Braga vacilem…

4. SPORTING? SIMPLESMENTE DESASTROSO…

Algo de que ninguém discordará: a época do Sporting é desastrosa. Desastrosa com Paulo Bento, desastrosa com Carlos Carvalhal e, sobretudo, desastrosa com José Eduardo Bettencourt. O leão parece ser, agora, um clube (quase) sem rei nem roque, perfeitamente à deriva e à espera do milagre que, em minha opinião, não surgirá. Está a 14 pontos do terceiro classificado e tem cinco equipas (U. Leiria, V. Guimarães, Marítimo, Nacional e P. Ferreira) a dois ou três pontos de distância. A diferença para o terceiro (FC Porto) é igual à diferença para o penúltimo (Leixões)!

5. VILLAS BOAS? TEMOS TREINADOR!

Há 112 dias escrevi, no blog do Ricardo, o seguinte: “Belo sexteto de novos treinadores: Domingos Paciência, Lito Vidigal, Mitchell Van der Gaag, Paulo Sérgio, Jorge Costa e André Villas Boas. Na crista da onda está Domingos, mas os cinco restantes parecem ter condições para belíssimas carreiras. Depois de tantas clonagens imperfeitas, a Académica tem agora o clone perfeito de Mourinho. Parece ter muitos argumentos para singrar. Mas, para o enquadrarmos com Sp. Braga, Benfica, FC Porto e Sporting, aguardemos pela vigésima jornada. Tem seis pontos. Aposto que chega aos vinte”. Falava, claro, da Académica.

Mas errei. Não muito, mas errei: a Académica, à 20.ª jornada, não tem os tais 20 pontos de que falei: tem 23.Desde que André Villas-Boas entrou na Académica (8.ª jornada), os estudantes somaram 6 vitórias, 2 empates e 5 derrotas. Ou seja, 20 pontos em 13 jogos. O Sporting, por exemplo, entre as mesmas jornadas (8 a 20) somou 18. Melhor que os 20 pontos de André Villas-Boas nas mesmas jornadas (8 a 20) apenas quatro equipas: Benfica (30), Sp. Braga (27), FC Porto (27) e V. Guimarães (21). Temos treinador!

Crónica escrita pelo jornalista Rogério Azevedo para o FUTEBOLÊS

Entrevista dos leitores a Pedro Sousa: Parte 2

Quando o assunto é o jornalismo desportivo, particularmente em termos radiofónicos, Pedro Sousa é um dos nomes que mais facilmente associamos: sobretudo pelos seus relatos na Rádio Renascença, onde também edita o programa Bola Branca. Além disso, também pelas narrações de partidas de futebol internacional na Sport TV e ainda por ser a voz dos comentários do novo Pro Evolution Soccer, um dos mais famosos simuladores de futebol. Nove leitores do FUTEBOLÊS aproveitaram a oportunidade para entrevistar um dos mais conceituados jornalistas português.

O MEIO JORNALÍSTICO
JOSÉ REIS: Como credenciado jornalista, que opinião manifesta sobre a crescente subalternização da imprensa desportiva aos poderes futebolísticos dominantes? Crê que a ética jornalística se encontra em risco?
PEDRO SOUSA: Essa questão sempre se colocou, mas não foi por isso que deixou de existir boa informação desportiva. Mas tal como em outras profissões, há bons e maus profissionais.

JOSÉ REIS: Já alguma vez foi vítima de algum tipo de pressão?
PEDRO SOUSA: Já. Mas mais: sei que vou continuar sujeito a um certo tipo de pressão. Quem disser o contrário não fala verdade. Temos que saber viver com isso sem qualquer drama.

ANTÓNIO SILVA: De que forma vê o facto de os clubes se fecharem à comunicação social?
PEDRO SOUSA: É cíclico mas também sinal dos novos tempos. Os clubes têm sites, há um clube com um canal televisivo, provavelmente um dia destes haverá uma rádio. A minha única dúvida está relacionada com a pouca exposição que os principais clubes dão aos patrocinadores, sem que estes reajam. Mas mesmo aí, só quando um dos “grandes” for patrocinado por uma empresa sem “Golden Share”, poderemos verdadeiramente aferir esse relacionamento.

JORGE COSTA: Qual a sua opinião sobre a crescente dificuldade verificada pelos jornalistas para se imporem no mercado de trabalho?
PEDRO SOUSA: Uma preocupação para todos. Mas, infelizmente, não acontece apenas nesta área. Ainda assim, a qualidade e competência acabam sempre por se impor.

PEDRO MAGALHÃES: Um bom jornalista necessita de uma personalidade extrovertida no seu quotidiano?
PEDRO SOUSA: Uma coisa não tem a ver com a outra. Um jornalista, extrovertido ou não, tem é que ser um bom profissional na “arte” de trabalhar factos, acontecimentos e conhecimentos, de forma a conseguir transmitir uma mensagem objectiva.

ADRIANO TAVARES: Cabe a si a escolha dos jogos que relata em cada jornada? Tem preferência por algum clube ou estádio?
PEDRO SOUSA: Actualmente sou eu que escolho e não tenho preferência por qualquer clube ou estádio. Depende do momento das equipas e outras variáveis.

O ACTUAL PANORAMA DO FUTEBOL PORTUGUÊS


VÍTOR FERREIRA: O que espera de Portugal no Mundial 2010?
PEDRO SOUSA: Costuma-se dizer que “espero o melhor, preparo-me para o pior e aceito o que vier”. Na verdade, numa competição deste tipo, o primeiro jogo é sempre fundamental, embora no Euro’2004 isso nem tenha tido grande importância. Se Cristiano Ronaldo estiver ao seu melhor nível, se Pepe recuperar, se for bem sucedida a adaptação a uma realidade completamente diferente, a selecção portuguesa é sempre candidata a acabar nos oito primeiros.

VÍTOR FERREIRA: Quem é o principal favorito, na sua opinião, a vencer o campeonato português? Porquê?
PEDRO SOUSA: Olhando para a classificação, Sporting de Braga e Benfica. Ainda assim, Benfica e FC Porto deverão discutir o título. O Benfica porque ganhou uma boa embalagem, porque joga bom futebol e porque tem uma mole humana sedenta de um título. O FC Porto porque é o campeão em título, porque as equipas de Jesualdo Ferreira terminam melhor do que começam e porque acredito em exemplos anteriores, quando perante adversidades, jogadores e treinadores, impulsionados pelos dirigentes, superam as expectativas.

RICARDO SILVA: Que opinião da arbitragem portuguesa?
PEDRO SOUSA: Sinceramente acho que é igual, nem melhor nem pior, do que no resto da Europa. O problema, no meu ponto de vista, está na ausência de critério. Isto é, em situações semelhantes os mesmos árbitros tomam decisões diferentes.

A ENTRADA NO FUTEBOL VIRTUAL

ADRIANO TAVARES: Durante a gravação dos comentários no Pro Evolution Soccer, não sugeriu usar o seu conhecido já está?
PEDRO SOUSA: Se estiver atento, o “já está” aparece algumas vezes no jogo, mas não de forma massificada, até porque estamos a falar de um projecto novo, que para mim foi uma completa novidade. Esperemos que no Pro Evolution Soccer 2011 possa estar melhor.

RICARDO SILVA: Qual o feedback que obteve dos seus comentários no Pro Evolution Soccer 2010?
PEDRO SOUSA: Como disse anteriormente, sou um “maçarico” nesta matéria, mas os comentários foram globalmente positivos, embora exista muita coisa para melhorar. Acredito que será melhor o de 2011.