Opinião: Preparem o próximo assalto, faz favor…


Imagine-se um boxeur combalido, visão turva, com pouco crédito para ousar colocar em causa reis como Rocky Marciano ou Muhammad Ali. No ringue, no final do terceiro assalto, tem a derrota certa e continua a levar pancada. Lá está, encostado às cordas, sem esboçar reacção. Este martírio nunca mais acaba, pensa ele. E pensa o treinador que baixa a cabeça, já sem a energia do início quando se colocava no canto e batia no tapete. Também quem investiu nele, quem ainda pensava que poderia estar ali um novo vencedor, um novo héroi a emergir. Agora as dúvidas estão desfeitas, nada há a ganhar, só a perder, as nódoas negras ficam para combates futuros. Não há lugar a compaixão. É a hora do golpe de misericórdia. Knock-out.

Começa a contagem decrescente por parte do árbitro. O boxeur está no tapete. O adversário quer continuar a servir-se dele como cobaia para aprimorar as suas técnicas, não pode ir já embora. Mas vai acabar. Não restam forças. É o adversário intransponível que o arrasou, é o desalento do treinador que já não consegue dar um choque reactivo, são os apoiantes desiludidos com as apostas. Deixemos o boxe por um instante, transportemos a situação para o Sporting. Aí está o boxeur derrotado, Carlos Carvalhal é o líder que poucas soluções tem para fazer com que os seus comandados se levantem, José Eduardo Bettencourt quem não sabe que mais há-de fazer, os adeptos já há muito se desligaram. Afastado das provas a que concorreu, sem qualidade de jogo, cada vez em baixo.

Para o boxeur, é humilhante ver que o seu adversário está de braços no ar, bem abertos, com uma multidão a louvar-lhe o esforço e a forma como venceu o combate. Mas, por outro lado, é sinal de que acabou. Fim, nada mais acontecerá, o corpo agora vai ao sítio. Mais dia, menos dia e venha outra. Para o Sporting também é assim. Os sportinguistas anseiam pelo final da temporada, já passaram por muito, não querem mais três meses de desilusões, a servirem de saco de pancada, motivo permanente da chacota de quem ganha. O final apenas confirmará tudo aquilo que de mau vem acontecendo. Podia ser já. Afinal, o campeonato está perdido, as outras provas internas também, sobra apenas a Liga Europa. Mas quem acredita num brilharete?

O Sporting está a viver uma das mais difíceis épocas dos últimos tempos. É nos resultados, é nas exibições, é nos troféus que já se perderam. Há ainda outros golpes, fortes e arrasadores do pouco que restava, vindos de dentro que servem somente para acentuar a superioridade que os outros mostram. Não há estabilidade. E não há sucesso. É uma causa e um efeito, ao mesmo tempo. É, por isso, que se diz que o final é o melhor remédio: terminarão as decepções, as surpresas teóricas mas que na prática não espantam ninguém, haverá tempo para ver e rever os erros, corrigi-los e preparar um novo assalto. Esquecer o passado tristonho, preparar um futuro alegre. Com sucesso à vista. Deixando o papel de derrotado por antecipação para outro.

Não é, como o leitor sabe, o que tem sido feito no Sporting. Nos leões há uma aposta na juventude. É errado? Não, é esse o caminho. Mas é pouco. Uma equipa que quer ser campeã, conquistar as outras provas nacionais e fazer boa figura no estrangeiro precisa de outros recursos. Por mais qualidade que os jogadores da formação tenham, sente-se sempre a inexperiência, nos momentos capitais há alguma falha que deita tudo a perder. Os últimos anos do Sporting têm sido assim, sem mexer uma palha. A equipa falha o título, mas fica à frente de um grande rival, o Benfica, e soma alguns troféus. Contenta-se, é melhor do que nada. A concorrência, contudo, melhora e encontra outras soluções. Está fortalecida.

Benfica e FC Porto haverão de ser sempre como Mike Tyson e Evander Holyfield naquele célebre combate de 28 de Junho de 1997, em guerra permanente, ataque cerrado por todos os meios, duas trincheiras num registo bélico sem tréguas. Por vezes parecem isolados, até os próprios rivais se esquecem que há mais alguém para além deles. Poderá dizer o leitor: o Sporting, não que isso valha de muito, nas últimas quatro temporadas foi vice-campeão, tem sido o principal rival do FC Porto no campeonato, tem mais títulos do que o Benfica nesta década. Sem discussão. Mas não tem o historial dos encarnados ou a força dos azuis na última vintena e meia de anos. Nem o mesmo fervor guerrilheiro. É um clube diferente.

Agora e até Maio, a única coisa que resta aos jogadores do Sporting é que defendam a camisola com brio e joguem sempre para a vitória. Os títulos serão de outros, é um dado garantido, mas estamos a falar de um grande, de uma equipa que quer continuar a ter um nome superior no futebol português. Em Maio, leitor, poderemos recuperar este texto e perceber se, apesar de tudo, houve alguma melhoria ou se continuou a sina decadente. Independentemente do que acontecer, o mais importante é que se saiba o que falhou, que se preencham esses buracos, fique tudo tratado atempadamente. Para quando chegar um novo ano, um novo assalto, o boxeur esteja preparado para a vitória. Com todas as condições. Sem que seja missão impossível.


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