Passado e futuro do Sporting por entre tiros nos pés

Carlos Carvalhal não será o treinador do Sporting na nova época. Não é propriamente uma novidade mas agora é oficial. Trata-se do enésimo tiro no próprio pé dado por este Sporting. Há muito se sabia que Carvalhal era um treinador a prazo, com um contrato curto e com validade bem fixa, percebendo-se que muito dificilmente estaria à frente da equipa para além do período para o qual foi contratado. A fase de maior fulgor, em que o Sporting readquiriu parte da sua alma e deixou de ser o elo mais fraco, conseguindo explanar o seu futebol e reconciliando-se com os adeptos tem dedo de Carlos Carvalhal. Por isso o treinador disse esperar ser recompensado pelo trabalho abnegado que desenvolve desde o primeiro dia em Alvalade. Poderia ter funcionado para lhe ser dado algum crédito. Mas a decisão há muito estava tomada.

Depois de uma recuperação com sete jogos seguidos a ganhar e antes do melhor ciclo da época, o Sporting perdeu as possibilidades de lutar por qualquer prova interna. Oscilou entre o bom e o mau. Foi fatal e o destino de Carvalhal ficou marcado logo aí. A equipa teve capacidade para reaparecer mas já nada tinha para vencer. Não se pretende com isto dizer que o treinador devesse continuar. Só o tempo será capaz de mostrar se a mudança favoreceu ou não o clube leonino. No entanto, não faz qualquer sentido que num dia a saída de Carvalhal seja desmentida categoricamente pelo presidente, José Eduardo Bettencourt, e quatro dias depois seja oficializada. É paradoxal. Há, para além disso, uma questão fundamental: que motivação encontrará Carlos Carvalhal para cumprir o seu contrato até final?

O Sporting tem seis jogos para disputar até encerrar definitivamente a temporada de 2009-10. São, no entanto, seis partidas importantíssimas para salvaguardar o quarto lugar – o objectivo que José Eduardo Bettencourt, a certa altura, estabeleceu como prioritário -, pressionado pelo Vitória de Guimarães que está apenas a dois pontos. Ver-se ultrapassado nesta recta final, caindo para um negro quinto lugar, será o pior que poderá acontecer a qualquer sportinguista. Culminará uma época de verdadeiro pesadelo. Para Carlos Carvalhal será uma contagem descrecente até ficar desempregado. Aconteça o que acontecer, ganhe ou perca, jogando bem ou não, o treinador já tem o seu destino traçado. E, mais importante do que isso, anunciado publicamente. Não terá, portanto, qualquer motivação. Não é um tiro no próprio pé?

Carlos Carvalhal não pareceu em momento algum um treinador seguro. Procurou implementar as suas ideias, fez por agarrar a oportunidade que o Sporting lhe dera, mas nunca se livrou do estatuto de ser apenas uma ponte entre o passado e o futuro. Foi isso, então, que aconteceu: o treinador entrou num período conturbado, conseguiu juntar algumas peças, ressuscitou a equipa mas, olhando somente aos números, aumentou as distâncias para o topo e foi eliminado das provas em que o clube estava inserido. É herói num sentido, vilão noutro. Ao Sporting interessa ssquecer o que de mau foi feito nesta época e preparar os alicerces para um futuro mais risonho. Carvalhal está fora do próximo projecto de Bettencourt e Costinha porque nunca foi verdadeiramente pensado para liderar os leões. O Sporting quer mudar. É legítimo.

Só um volte-face totalmente imprevisto irá impedir André Villas Boas de ser o treinador do Sporting em 2010-2011. É um namoro antigo de José Eduardo Bettencourt e, antes de Carvalhal ser anunciado – mais uma prova de como foi uma solução momentânea -, o jovem treinador da Académica esteve perto de rumar a Alvalade. Não se concretizou na altura, será agora. Villas Boas fez escola com Mourinho, do Porto a Milão, tal como já recolhera conhecimentos de Bobby Robson. Já mostrou ter qualidades e essas experiências jogam a seu favor. Foi o suficiente para a aposta de Bettencourt. Por outro lado, porém, André Villas Boas começou a sua carreira de treinador principal há pouquíssimos meses, além de que ainda não alcançou a manutenção na Académica. Será sempre uma aposta de risco de quem quer uma ruptura com o passado.

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Cá se fazem e cá se pagam, Fergie!

O futebol é um jogo vingativo. Leva os vencedores ao céu, coloca-os num pedestal, dá imenso prestígio. No momento seguinte, contudo, pode destruir tudo isso. É cruel. Há sempre alguém que fica mal, o sucesso de uns é a frustração de outros. Faz parte do jogo. Custa a aceitar, ainda assim. Perder um jogo no final é brutal. Perder uma final de Liga dos Campeões, o cume da glória dos clubes europeus, custa ainda mais. A dor pela derrota ganha proporções gigantescas, marca, deixa resquícios inapagáveis. Em 1999, o Bayern de Munique experimentou a sensação. Em Camp Nou, cheio como um ovo, jogou contra o Manchester United. Mas foi mais do que um jogo de futebol. Tornou-se uma lenda. Todas as regras foram quebradas. Ficará para sempre a imagem de uma recuperação épica. E de que no futebol só os golos contam.

O Bayern marcou cedo. Fê-lo aos seis minutos. Poderia ter sido um passo fundamental para vencer. Ou, pelo menos, para partir para uma exibição confiante, superior, subjugando o adversário. Os alemães conseguiram-no em parte. Jogaram melhor, criaram oportunidades, mas falharam mais golos. Peter Schmeichel, devidamente ajudado pelos ferros da sua baliza, impediam que o Bayern de Munique conseguisse acomodar-se no resultado. Contudo, o tempo era cada vez mais escasso para o Manchester ambicionar dar a volta. Ottmar Hitzfield, no banco germânico, pensava que nada lhe tiraria a vitória. Era legítimo. Todos os adeptos bávaros assim entendiam. A fé inglesa mantinha-se. Enquanto há jogo, há vida. É um lema dos ingleses: nunca desistir até ao apito final do árbitro. Tempo de compensação dado por Pierluigi Collina.

Os festejos dos adeptos do Bayern de Munique já tinham começado, a loucura já começara a ganhar corpo, preparavam as gargantas para gritarem que eles eram os senhores da Europa. Mas ainda havia jogo. Tudo poderia acontecer. Um golpe de sorte, qualquer coisa assim, algo que atirasse a bola para o fundo da baliza de Oliver Khan. Era isso que esperavam os ingleses. Até o outro guarda-redes, Peter Schmeichel, subira à área alemã. Era agora ou nunca. Matar ou continuar a viver. Beckham cobrou o canto, desvio aqui e ali, remate de Teddy Sheringham. Para o golo. Um minuto depois dos noventa, dava para continuar a acreditar. Viria um prolongamento. Não! O estado de graça esticaria até ao limite, a reviravolta estava ao virar da esquina. Marcou Solskjaer. Alex Ferguson rejubilou. Os homens que lançara deram-lhe o triunfo.

Passaram onze anos. Manchester United e Bayern de Munique já se defrontaram depois dessa final. A Liga dos Campeões desta época, 2009-10, voltou-os a colocar frente-a-frente nos oitavos-de-final. Começou a ganhar o Manchester United, golo de Rooney, o cliente habitual, falharam-se oportunidades para aumentar a vantagem. O segundo golo inglês esteve mais próximo do que o empate alemão até ao intervalo. Os red devils não chegaram à tranquilidade mas interiorizaram-na. Baixaram a guarda. O Bayern cresceu. Aos setenta e sete minutos dispôs de um livre. Eficácia fenomenal, golo de Ribéry com um desvio em Rooney. Vidic acertaria, depois, na trave. Tal como Nani na primeira parte. E tal como os alemães em 1999. Já depois dos noventa, Olic fez o golo da vitória do Bayern. Uma pequena vingança. Serve para o ego, se não servir para a passagem…

Opinião: Quando Givanildo não é Hulk


Pega na bola, leva-a no pé esquerdo, parte para cima do adversário. Faz fintas sucessivas, troca os olhos a quem o segue, explode para a linha de fundo. É possante, veloz, tem grande capacidade para continuar com a bola controlada. Parece intocável, mais forte do que tudo, capaz de derrubar qualquer muralha que lhe apareça à frente, ganha poderes que só estão reservados a predestinados. Dá bom resultado. Mas, infortúnio, também pode chegar à linha de fundo e cruzar mal. O lance perde-se, o ataque não tem frutos, a baliza não ficou em perigo, o guarda-redes respira de alívio. Nesse momento, Hulk volta a ser Givanildo Vieira de Souza. Deixa os atributos que fazem dele um jogador acima da média, cai na realidade: é um homem sujeito ao erro, nem tudo lhe sai bem, por vezes pode não resultar. Por mais que tente, não dá. Entra numa panóplia errante.

A analogia é sempre a mesma. Imaginemos um barco. Em pleno naufrágio. Onze remadores que se vêem cada vez mais numa situação aflitiva, o tempo passa e não conseguem sair do sítio, a tempestade, o grande adversário, leva vantagem. É preciso agir. Como em tudo, há sempre quem se destaque. Há um remador forte, capaz de incentivar os outros, que sozinho tem atributos que escapam aos dez restantes. Tenta a sua sorte, faz de tudo para mudar a situação, não dá o seu lugar, quer mostrar que é capaz. Todos o sabem, ele precisa de o mostrar a si próprio. Mas, vá lá, quem é que sozinho consegue sempre, em todas as circustâncias, fazer a força de onze? Ninguém. Nem o remador nem o jogador de futebol. São tantos, tantos, tantos os que o querem. Seria melhor unir as forças de onze.

Esse é um defeito que se aplica a Hulk. O brasileiro tem um inegável talento genuíno, é capaz de decidir jogos, mas falta-lhe cabecinha. Precisa de perceber que não pode querer resolver sempre, o apelido não permite a Givanildo segurar a equipa nos ombros, torna-se mais fácil de travar quando pretende enfrentar os onze adversários sem apoio. É um jogador com uma qualidade imensa, sim, mas precisa dos colegas. Tal como o remador. Se assim não for, não conseguirá passar à primeira. Nem à segunda, nem à terceira. Irá tentar, tentar, tentar, enfim, provar que consegue. Começa a ficar com um nervosinho interior, vai aumentando à medida que o rival é mais forte, torna-se inconsequente. O público não gosta, reclama, passa a bola!. Ele mantém-se confiante: há-de conseguir por mais que custe.

Ora, leitor, este não é um problema associado a ene jogadores que vão passando pelos melhores relvados? Têm talento, mas não o canalizam para a equipa, antes mostram que consegue fazer tudo bem sozinhos. Resulta nalgumas situações. O público curva-se, agradece a oportunidade. É um regalo para a vista. Noutras não. Perdem-se as oportunidades, os possíveis golos, uma eventual vitória. Tudo causado pela teimosia. Hulk já foi anjo e diabo para os portistas. Destroça os adversários, deixa-os pelo caminho, remata com uma potência descomunal para dentro da baliza. Golo, vitória, glória. Títulos. É anjo o Hulk. Noutras parece que nada o travará, mas não passa pelos defesas, o guarda-redes agiganta-se, perde as ocasiões e reclama. Entra numa ânsia de marcar. É diabo o Givanildo.

Hulk começou a temporada como sendo o principal jogador do FC Porto. Hulk-dependência, disse-se que afectava a equipa portista. A pré-temporada deixara indicações de que este seria o ano da sua explosão definitiva. Começou mal, porém. Em Paços de Ferreira apareceu o Hulk individualista, envolvendo-se em picardias constantes, parado por faltas dos adversários, a melhor forma de o travar quando está inspirado, expulso no primeiro jogo. Não pensou na equipa, na falta que poderia fazer, ficou arredado dois jogos. Apareceu mais calmo, ponderado, percebendo que são estas as leis do jogo. Quis justificar os elogios iniciais. Até ao jogo da Luz, com o Benfica. Foi bem anulado nas quatro linhas, não conseguiu soltar-se da teia e deixar o relvado triunfante. Perdeu-se no túnel.

As consequências dos incidentes no final do jogo com o Benfica já são bem sabidos, leitor. Hulk falhou dezoito jogos em Portugal. Pelo meio, apareceu ante o Arsenal. No Dragão e em Londres. Entrou decidido a provar que a paragem não o afectara, que mantinha as qualidades intactas, que tinha sido uma baixa de vulto para o FC Porto. Não conseguiu. Acusou a falta de ritmo, a vontade de querer fazer tudo. Obviamente. Que se poderia esperar de um jogador sem jogo há dois meses? Entre trapalhadas jurídicas, Hulk terminou o castigo. Jesualdo Ferreira utilizou-o à primeira oportunidade. Sinal claro da sua importância na equipa. Jogou no Restelo ao seu melhor nível: duas assistências e um golo de bandeira, devorador de uma defesa tenrinha. Foi uma libertação de raiva pela pausa.

Poderia o campeonato do FC Porto ter sido diferente se Hulk não tivesse entrado no túnel da Luz com os nervos à flor da pele? É uma pergunta incontornável, tão incontornável como olhar para David Seaman, nos tempos do Arsenal, e não reparar no bigode que o imortalizou. Ou Freddie Mercury. A resposta permanece no segredo dos deuses. Ninguém a pode dar, portanto. O melhor Hulk é uma peça fulcral. Não é, contudo, sempre assertivo. Por isso, nunca se saberá o que poderia ter acontecido se o brasileiro tivesse jogado a maior parte do campeonato. Mas é inegável que Hulk, o melhor, a versão genuína em que Givanildo Vieira de Souza se transforma, fez imensa falta a este FC Porto. E ao futebol português. Afinal, os melhores jogadores estão cá para isso. Se foi por isso que a época azul falhou? Não!…

Liga Sagres: A revolta dos últimos na jornada do Benfica

ANÁLISE

O Benfica ganhou ao Sp.Braga, aumentou a vantagem para seis pontos, há dezoito em disputa até final. O mesmo é dizer, portanto, que os benfiquistas têm tudo para voltarem, cinco anos depois, a chegar ao trono de campeão nacional. Só uma ponta final desastrada, aliada a seis jogos triunfantes e históricos do Sp.Braga, poderá inverter a situação. É imperativo, contudo, que o Benfica não interiorize que tem desde já o título assegurado. Aí, sim, poderá dar-se mal. E o que dizer desta equipa bracarense? Está na sua melhor época de sempre, tem muito mérito no que conseguiu até agora, fez jus ao seu estatuto diante do Benfica, provou ter qualidade. No entanto, o FC Porto, ao vencer no Restelo, conseguiu encurtar a distância para cinco pontos. É o que separa os dragões do segundo lugar.

Foi o jogo do título? Talvez, mas só os seis encontros que faltam darão a resposta. Dizer que o campeonato ficará decidido à vigésima quarta jornada será sempre arriscado. No entanto, ao vencer o Sp.Braga, o Benfica deu um passo fundamental. Dispõe de uma boa margem, é a equipa mais completa, possui argumentos que faltam aos minhotos, apostou as fichas todas para ser feliz nesta temporada enquanto o Sp.Braga está a superar-se a si próprio. Irão lutar até final, disso ninguém duvide. O Benfica está mais confortável e tem o caminho do título aberto, sim, mas terá que manter a mesma intensidade para chegar à glória. Jogo lutado, limites da adrenalina, vontade de qualquer um deles sair fortalecido. Um golo de um herói revisitado: Luisão. A fazer lembrar 2005, quando decidiu um jogo… do título, contra o Sporting, na Luz Clique para ler a crónica do jogo

Hulk é um jogador portentoso. Tem técnica, explosão, potência. Capacidades inatas para um futuro auspicioso. Falta-lhe, contudo, ser mais racional, controlar os nervos, jogar em prol da equipa e não decidir ser ele contra o Mundo. Nesse duelo desigual, geralmente, perde. Como acontece com todos os que pretendem fazê-lo. Quando consegue anular esses defeitos, salientando as virtudes, Hulk torna-se temível, ganha poderes que lhe permitem carregar a equipa, aniquila os adversários. Por estes dias, pelo processo disciplinar que o envolveu, Givanildo de Souza é um homem revoltado. Quer-se recompor, mostrar que está vivo, que fez uma enorme falta. É aí que aparece Hulk. No Restelo, o brasileiro foi fundamental para a vitória do FC Porto: assistiu Rolando no primeiro golo – em posição irregular -, fez um golaço e cruzou para Falcao fechar as contas.

O Sporting é imprevisível. Oscila em demasia, consegue atingir patamares de grande qualidade, deita tudo a perder num ápice, volta a entrar numa curva descendente. É mau para qualquer equipa, grande ainda mais. Os leões estão no seu momento mais vivo, com boas exibições e vitórias, uma retoma com os adeptos mas que nada trará para o museu do clube. O jogo com o Atlético de Madrid, a eliminação da Liga Europa, poderia ser um abalo. Foi mesmo. O Sporting voltou à sua fase má, tristonha, sem consistência. O Marítimo fez um bom jogo, com os olhos postos na baliza de Rui Patrício, ganhou com justiça. Por um golo, num 3-2 ditado pelos minutos finais, mas que poderia ter sido mais amplo. A derrota do Sporting deixa estampada a falta de soluções. Sem João Moutinho, sem Miguel Veloso e sem Izmailov, o Sporting parou a retoma. Pior do que isso: reviveu o passado.

A emancipação de um trio de aflitos. Leixões, Vitória de Setúbal e Olhanense são equipas que terão de lutar até final para alcançarem a permanência. Nesta jornada todas venceram. Os leixonenses alcançaram a primeira vitória desde a chegada de Fernando Castro Santos, bateram a Naval por 1-0, mas nem por isso reduziram diferenças para a primeira posição que lhes garante sossego. Há dois culpados: o Vitória bateu, em casa, o Nacional (2-1, vida complicada para os insulares na luta pela Europa), confirmando uma subida substancial na segunda metade da temporada, somando, aqui e ali, pontos importantes para a concretização do objectivo; o Olhanense, trinta e seis anos depois, voltou a triunfar fora em jogos do principal campeonato português: venceu o Rio Ave, ainda sem confirmar a permanência mas tranquilo, por concludentes 5-1. Juntamente com os sadinos, mantém cinco pontos de avanço para o Leixões.

Dos últimos quatro classificados, só o Belenenses foi derrotado. Mas, convenhamos, defrontava o FC Porto e era, por isso, quem tinha tarefa mais complicada. A derrota deixa o campeão nacional de 1945-46 com a corda na garganta, sem horizontes cor-de-rosa, antes cada vez mais invadidos pela penúria de cair no segundo escalão do futebol português. São nove os pontos de atraso, ou seja, metade dos que há para discutir. Embora tenha ganho, também o Leixões, pelos triunfos dos rivais, se mantém numa posição delicada. No acesso aos lugares europeus, nomeadamente o quinto, última posição para entrar na Liga Europa, o Vitória de Guimarães (com uma vitória, 1-0, sobre a Académica salvaguardou a sua posição, ao passo que os estudantes reentraram, quando se esperava que alcançassem a manutenção rapidamente, no lote de equipas ainda em perigo de descida), acossado pelo União de Leiria – venceu, em casa, o Paços de Ferreira (2-1).

Análise: O número seis que dá conforto ao Benfica

Seis. O número de jornadas que separam o Benfica do título, cinco anos depois, uma conquista anunciada e próxima como nunca no passado recente. E o número de pontos que serve de almofada aos benfiquistas e trava o sonho do Sp.Braga em concretizar a sua melhor época de sempre com um inédito triunfo no campeonato nacional. Por tudo aquilo que fez nas vinte e três jornadas que se disputaram, pelo momento que vive, dificilmente o título fugirá ao Benfica. O jogo de ontem, considerado como sendo decisivo, poderá ter uma importância crucial. Será o jogo-chave se os encarnados conseguirem manter a distância alcançada, se aproveitarem a margem que têm, embora sem nunca poderem festejar por antecipação. O Benfica está próximo de ser o futuro campeão nacional, é incontornável. Contudo, terá de se manter em alerta máximo.

Ao Sp.Braga fica, após a derrota na Luz, uma consolação: mantém a vantagem no confronto directo com os encarnados. Pode não valer de muito, é certo, mas também poderá fazer toda a diferença. Em caso de empate pontual, os bracarenses saem por cima. As próximas seis jornadas, longas para o líder e um espaço demasiado diminuto para o perseguidor, terão de ser atípicas para que o Benfica ceda, pelo menos, duas derrotas. Tem jogos complicados, entre eles com o Sporting, em casa, e com o FC Porto, fora, mas não é crível que falhe num momento em que dispõe de todas as premissas para ser bem sucedido. Seria necessário, para além dos tropeções do líder, uma série de seis jogos verdadeiramente perfeitos por parte do Sp.Braga. Não é impossível, mas é improvável. No entanto, nenhum guerreiro baixa a guarda.

Benfica e Sp.Braga estão no topo por mérito próprio, não é ao acaso que discutem o título, são actualmente as duas melhores equipas nacionais. Está longe de ser uma surpresa, contudo o jogo de ontem fez questão de o deixar bem vincado. Mesmo não sendo um jogo de deslumbrar, teve grande emoção e intensidade, apostas dos treinadores, vontade de ganhar. Qualquer uma das equipas percebeu a importância que esta partida poderá ter nas contas finais do campeonato. O Benfica, favorito por jogar em casa, por ter mais recursos e por viver uma fase de extrema motivação, estaria sempre mais próximo da vitória. Percebeu-se desde o primeiro minuto. O Sp.Braga interiorizou que seria suicídio entrar na Luz com descaramento total, preferiu servir-se da sua grande força: a coesão defensiva.

O golo do Benfica surgiu num momento crucial. Marcar mesmo em cima do intervalo, no período de descontos, é um contributo fundamental para tranquilizar a equipa para a segunda parte e, com isso, obrigar o adversário a apostar no recomeço. A importância do jogo, sempre com emoções fortes, eleva o relevo que o tento de Luisão teve. O Benfica partiu para a segunda parte mais confiante, com um golo de vantagem, teve oportunidades para ficar mais confortável no marcador. Seria uma machadada final. Não o conseguiu. Domingos Paciência, primeiro obrigado pela lesão de Mossoró que o fez lançar Luís Aguiar, depois por sua opção jogando Matheus e Rafael Bastos como trunfos em substituição dos apagados Rentería e Hugo Viana – a equipa sentiu a falta do criativo -, modificou a forma de jogar do Sp.Braga.

Com as alterações efectuadas, o jogo da equipa bracarense melhorou de forma substancial: tirou a posse de bola ao Benfica, conseguiu avançar no terreno, obrigou os encarnados a concentração máxima para impedir que a resposta ganhasse forma. Também Jorge Jesus leu bem o jogo. Lançou Aimar, depois Rúben Amorim: duas apostas para voltar a ter bola, deixar o jogo em ritmo baixo, diminuir a intensidade e não dar espaços para os bracarenses explorarem a rapidez de Alan e Matheus. Tanto Domingos como Jesus estiveram bem nas alterações e na forma como, cada um com os seus interesses, fizeram entrar jogadores frescos. O Sp.Braga,porém, apesar da subida registada, mantinha as dificuldades para chegar com perigo à baliza de Quim. Não virou a cara à luta, deixou uma boa réplica, deu seguimento ao campeonato que tem feito. Mas o Benfica já marcara. E, já se sabe, raramente deixa a vantagem fugir…

Benfica-Sp.Braga, 1-0 (crónica)

UM PASSO DE GIGANTE PARA O TÍTULO

O Benfica vive sedento de conquistar o título de campeão nacional. É algo que lhe foge desde 2005. Há cinco anos quebrou um jejum de mais de uma década mas faltou juntar-lhe brilhantismo. Era uma equipa pragmática: ganhou, aproveitando as oscilações dos rivais, mesmo tendo lapsos que um campeão não costuma cometer. Só festejou na última jornada. Contudo, o jogo com o Sporting foi decisivo. Primeiro contra segundo. Tal como agora. Em 2005, Luisão marcou, aos oitenta e quatro minutos, levou a Luz à loucura, deixou o Benfica com o título na mão. Restava confirmar. O central benfiquista ficaria para sempre marcado como o herói da conquista. Hoje, contra o Sp.Braga, voltou a sê-lo. O Benfica tem seis pontos de vantagem. E todas as condições para ser campeão.

Foi o jogo do título? Talvez, mas só os seis encontros que faltam darão a resposta. Dizer que o campeonato ficará decidido à vigésima quarta jornada será sempre arriscado. No entanto, ao vencer o Sp.Braga, o Benfica deu um passo fundamental. Dispõe de uma boa margem, é a equipa mais completa, possui argumentos que faltam aos minhotos, apostou as fichas todas para ser feliz nesta temporada enquanto o Sp.Braga está a superar-se a si próprio. Irão lutar até final, disso ninguém duvide. O Benfica está mais confortável e tem o caminho do título aberto, sim, mas terá que manter a mesma intensidade para chegar à glória. Sessenta mil adeptos, um estádio na ânsia de uma vitória, procurando cimentar a liderança. Jogo lutado, limites da adrenalina, vontade de qualquer um deles sair fortalecido. Oportunidade que não dá para desperdiçar.

Jogando em casa, respirando confiança num momento tão importante da temporada, o Benfica seria sempre favorito. Assumiu, por isso, o jogo, foi mais incisivo no ataque, fez circular a bola no meio-campo contrário. Não criou, no entanto, situações de golo. Faltava o clique que fizesse aquecer o jogo. Chegou, por fim, aos vinte e quatro minutos. Vindo do inimigo: Filipe Oliveira mediu mal um passe para o centro da defesa, Saviola, afinal titular, percebeu, ganhou a bola, mas faltou-lhe astúcia e foi bem travado por Eduardo. O guarda-redes agigantou-se, impediu a festa benfiquista, salvou a pele do colega. Havia respeito mútuo, era bem notório que nenhuma as equipas pretendia correr o risco de dar um passo em falso. Viria, depois, um cabeceamento de Cardozo, estorvado por Eduardo, para fora. O Benfica começava a apertar o cerco.

LUISÃO: DECISIVO, OUTRA VEZ!

Se o Sp.Braga se mantinha certinho na defesa, salvaguardando a sua imagem de marca, também denotava dificuldades em conseguir partir para o ataque. Começou por tentar explorar as faixas laterais, com a velocidade de Paulo César e Alan, mas faltava-lhe Hugo Viana. Aos poucos, os bracarenses conseguiram soltar-se das amarras procurando alcançar a baliza de Quim. Mantinha-se o nulo. Pensou-se que o jogo iria empatado para o intervalo. Não foi. Culpa de Luisão. O Benfica marcou um canto curto, Carlos Martins cruzou para a área, Javi García desviou e Luisão, aproveitando o ressalto no meio de tantos adversários, rematou certeiro. Erupção do vulcão da Luz, o reaparecimento do central nos momentos decisivos. Só depois viria o descanso. Com os encarnados em vantagem. Afinal, havia sido quem mais procurara o golo.

Um mal nunca vem só. É uma frase que se repete. E faz sentido. O Sp.Braga acabara a primeira parte com um golo sofrido, poucos minutos depois de ter recomeçado a partida ficaria sem Mossoró. O médio, talvez a estrela maior desta equipa bracarense que vale sobretudo pelo colectivo, lesionou-se com gravidade. Domingos Paciência lançou Luís Aguiar. Por esta altura, o Benfica vivia a sua melhor fase. Anunciava-se o segundo golo. Di María e Cardozo, com incursões de Maxi Pereira pela direita, tiveram a oportunidade de trazer a tranquilidade. Ao fim de dez minutos de puro domínio benfiquista, Domingos sentiu necessidade de voltar a agir. Lançou Matheus e Rafael Bastos, fez sair Rentería e Hugo Viana, a equipa melhorou muito: arriscou mais no ataque, trocou a bola em zonas adiantadas do terreno, procurou o empate.

JOGO ABERTO, INTENSO, LUTADO

O Sp.Braga crescera, tentara contrariar o domínio do Benfica, queria ser feliz. É legítimo para uma equipa que tão boa conta tem dado de si ao longo de todo o campeonato. Jorge Jesus percebeu que os minhotos haviam subido com as alterações, soltando-se para espaços ofensivos, quis recompor o seu meio-campo. Lançou Aimar, por isso. O mago entrou bem, disposto a pautar o futebol encarnado, colocando-o ao seu ritmo, aproveitando espaços para desmarcações de ruptura. O jogo estava mais aberto, mais vivo, mais intenso. O Sp.Braga dispôs, aos setenta minutos, da melhor oportundidade: Moisés desperdiçou, num livre de Luís Aguiar, cabeceando ao lado. Era nas bolas paradas e nas transições que o Sp.Braga dava mostras de estar mais afoito. Mas já se sabe quão forte é o Benfica em vantagem.

Homens de barba rija de um lado e do outro, lutando até final, suando por uma vitória. Ninguém ousou virar a cara à luta. O Benfica já tinha o ouro, não poderia querer ser demasiadamente guloso, precisava, isso sim, de guardar o que conquistara. Jesus recorreu a Rúben Amorim para impedir que os bracarenses ainda tentassem ganhar novo alento. A partida abrira, um golo poderia ter acontecido em qualquer das balizas: Cardozo dispôs de oportunidades, Di María deu sempre um toque a mais e a equipa não concretizou; Paulo César teve uma soberana ocasião a um quarto de hora do final. No entanto, o Benfica mantinha a vantagem e tinha o relógio consigo. Tem mais força, estava por cima, foi consistente e rentabilizou o golo de Luisão. Ganhou. Com sacrifício. E, assim, deu um passo fundamental rumo ao título.

A época de metamorfoses do Sporting

A época do Sporting tem diferentes metamorfoses. É má, na globalidade, já que nesta fase nada resta que faça os leões sonharem com sucesso: precocemente esquecidos na luta pelo título, onde têm sido o principal concorrente do FC Porto nos últimos anos, caídos sem glória da Taça de Portugal e da Taça da Liga, aos pés dos maiores rivais, eliminados nos oitavos-de-final da Liga Europa. O mesmo é dizer, pois, que o Sporting terminará esta temporada sem nada de palpável. No entanto, apesar disso, houve períodos positivos e alguns em que a equipa atingiu até um nível de algum brilhantismo. Não é difiícil perceber que os leões revelaram demasiada irregularidade para uma equipa grande. Foram frágeis, sim, mas tiveram capacidade para sair da crise. Contudo, não fizeram o necessário para evitar recaídas. É também o preço por um mau planeamento, com pouca ambição e quase nenhum investimento.

O Sporting começou a temporada envolto num pesadelo. A chegada de Carlos Carvalhal teve efeitos motivacionais, fez com que os jogadores reagissem, deixassem a passividade que os havia invadido. Por essa altura, porém, já os leões estavam longe do título. Esperava-se, acima de tudo, uma melhoria no futebol apresentado, um requisito indispensável para atacar as provas que ainda poderiam ser conquistadas. Sete jogos sem perder foram um bálsamo para os sportinguistas. A equipa estava claramente numa fase ascendente. Viviam o melhor período. Em Braga, todavia, perderam definitivamente a esperança de sonhar com o campeonato. Entraram, de novo, numa depressão: seguiram-se sete jogos sem vencer, crença de vencer alguma coisa internamente caídas como um baralho de cartas. Nesse período negro, ainda mais do que no início, o futuro parecia não trazer nada de bom.

Foi no pior período da temporada leonina que o Sporting reagiu verdadeiramente. Venceu o Everton, seguindo em frente na Liga Europa, tirou ao FC Porto a esperança de sonhar com o pentacampeonato. Duas vitórias por três-zero, inteiramente justas. É irónico, é paradoxal, é estranhíssimo. É futebol, acima de tudo. Onde andava aquela equipa? A pergunta foi repetida vezes sem conta. Era a emancipação sportinguista, o momento encontrado para dizer basta. Seguiu-se ainda mais uma vitória frente ao Belenenses, um empate ante o Atlético, jogando uma hora em Madrid com dez jogadores, e um regresso aos triunfos com o Vitória de Guimarães, suportada em vinte minutos infernais, com uma força atacante capaz de impressionar, uma raiva contida que se transformara numa enorme alegria em jogar e mostrar algo positivo. O regresso à dura realidade foi trazida pelo Atlético de Madrid.

Embora não tenha perdido nenhum dos jogos com os colchoneros, o Sporting, pelo facto de ter sofrido dois golos em casa que constrastam com o nulo da primeira mão, foi eliminado da Liga Europa. Terminou a época, ficou sem mais o que disputar, mesmo com a sensação de que poderia ter ido mais além na segunda competição internacional e entregou-se a um campeonato há muito perdido. A melhor fase da época, no seguimento de um ciclo absolutamente nefasto, foi abalada. A tremenda melhoria no futebol apresentado, agora com consistência, agressividade e lucidez, fora insuficiente para um brilharete internacional. Ontem, jogando para o campeonato, os leões tiveram um retrocesso. Perderam na Madeira, ante o Marítimo, por 3-2. O resultado é, contudo, algo lisonjeiro perante a superioridade manifestada. O Sporting voltou a ser a equipa do passado. Só ontem ou para o futuro?

A questão fica, para já, sem resposta. A derrota e má exibição ante os maritimistas poderá ter sido somente um reflexo da falta de soluções que o plantel tem. Carlos Carvalhal foi obrigado a improvisar, por não contar com jogadores fundamentais como João Moutinho, Miguel Veloso e… Izmailov e isso, obviamente, foi decisivo. Uma das explicações poderá residir aí. Ou, por outro lado, poderá ser um segmento da época de metamorfoses: os leões alternam o bom com o mau num curto espaço de tempo, são intermitentes e não existem projecções que resultem a longo prazo. O tempo encarregar-se-á de confirmar se foi uma excepção ou a imposição de uma nova regra. Para além do défice qualitativo existente, sendo que Pedro Mendes, sobretudo, e João Pereira conseguiram dar maior dinâmica ao plantel, existem problemas internos que abalam o grupo de trabalho.

O caso Sá Pinto/Liedson antecedeu a série de sete jogos sem vencer. A entrada de Costinha coincidiu com o melhor momento do Sporting nesta temporada. O conflito entre Izmailov e o Sporting, resultando na exclusão de um jogador com importância elevada na retoma da equipa e consolidação da filosofia de Carlos Carvalhal, embora o russo tenha sido convocado para o jogo com o Marítimo (viu o jogo da bancada), poderá ter sido mais um golpe numa estrutura que pretendia deixar de vez os fantasmas do passado. Coincidência ou não, o Sporting perdeu. Acresce ainda que, à medida que a época se aproxima do final, ganham maior relevo os rumores sobre a próxima temporada. Essencialmente sobre o treinador: Carvalhal não deverá continuar, muito dificilmente lhe será proposta a renovação, confirma-se que tem um prazo. Tudo isso se reflecte no relvado.