Opinião: Especial, ele!


Desconcertante, mordaz e sarcástico. José Mourinho é assim. E é um vencedor, sobretudo. Ninguém lhe fica indiferente, não há termos médios, paninhos quentes, ama-se ou odeia-se. Pode não se gostar do tipo que tem sempre uma resposta à altura, espontânea mas que parece preparada com pormenor, contudo o trabalho supera tudo isso. Olha-se para o currículo, para os jogos ganhos, pela expressão da máxima de que em casa mandam os que lá estão, percebe-se que está ali alguém com muito valor no que faz. Mesmo que seja um extraterreste que caia de paraquedas saberá. Outros mais cépticos dirão que só é bom porque tem bons jogadores. É óbvio. Um treinador, por muito valor que tenha, não faz nada sozinho. Nem os jogadores seriam bons se não tivessem um comandante forte.

Perde-se a conta a tantos exemplos de boas equipas sem sucesso. Mourinho é bom. Os seus jogadores também. Ambas as partes são dependentes uma da outra. Para além desses méritos como treinador, reconhecidos de todos e o que realmente importa a quem paga loucuras para o ter junto dos seus, Mou é um mestre a moldar as mentes dos outros. Não é psicólogo, mas parece. Primeiro fortalece o seu interior, alimenta o ego, coloca os jogadores no topo, diz que são os melhores. Motiva e pressiona, obriga-os a jogar nos limites. Com os seus em alerta, mais do que moralizados, é necessário fragilizar o rival, ataque cerrado sem tréguas até ao objectivo, impiedoso para quem ouse contrariá-lo ou colocar-se no seu caminho. Há a identificação dos alvos, como numa missão de alto risco, tudo é estudado.

Seja em Portugal, em Inglaterra ou em Itália, o feitio é o mesmo. Foi treinador a prazo no Benfica, deu nas vistas no União de Leiria, chegou ao FC Porto em 2002. Nada ganho, ar de desconhecido, de quem se quer afirmar, um estudioso, confiança máxima: no próximo ano tenho a certeza de que vamos ser campeões nacionais. Os portistas estavam em quinto no campeonato, tinham visto Octávio Machado sair pela porta dos fundos, precisavam de ser reanimados. Mas, calma, como é que alguém chegava ali assim, com toda a força, a prometer logo o título? Outros, no seu lugar, teriam dito que trabalhariam no seu máximo, cem por cento profissionais, para ganhar. Mourinho não. Para ele, trabalho é sinónimo de glória. Surpreendeu, na altura. Agora, olhando para trás, foi apenas o início.

Conquistas internas, Liga dos Campeões como cereja no topo do bolo, um FC Porto demolidor, sem concorrência à altura, demasiado forte para os rivais portugueses. Trabalho cumprido. Era tempo de partir para outra. Mourinho percebeu-o: nada mais teria a fazer em Portugal, os desafios haviam sido ultrapassados com brilhantismo, os portistas tocaram o céu, o treinador foi catapultado. Os adeptos azuis não entenderam assim, imaginaram que Mourinho pudesse continuar a fazê-los sonhar, sempre, sem cortes. Não o queriam ver partir, a saída foi letigiosa, os dragões não perdoarão a Mourinho que não tenha festejado a conquista mais importante da sua vida, após chegar da Alemanha. Fica essa marca. Mas era preciso sair. Havia um desafio inglês à espera. Mourinho não gosta de problemas fáceis.

Discutia com Lucílio Baptista ou Pedro Proença em Portugal, lançava farpas ao Benfica e ao Sporting, dava murros na mesa e terminava as conferências de imprensa dizendo que ia ser campeão. Tinha essa certeza bem interiorizada. Ganhar cá é uma coisa, em Inglaterra é outra: certo? Não. Não para Mourinho. O Chelsea marcou-o. Foi bicampeão, recolocou a equipa nos big four, colou-se ao Manchester United como principal potência inglesa, teve duelos excitantes na Europa. Os blues eram um clube com largo historial, não foi Mourinho quem os transformou de um momento para o outro. Não vencia o campeonato há meio século, contudo. Sim, cinquenta anos. Mou deu mais uns goles na poção dos imortais. E no ego, ora. Wenger e Benítez por entre um ror de inimigos de estimação. O professor dos mind-games.

Mas isto dos bons tempos no futebol não dura para sempre. Em Inglaterra, o trabalho de Mourinho também estava concluído, apenas não chegou a uma final da Champions. Deixou os adeptos com saudades, também, o nome de Jose continuou a ser ecooado em Stamford Bridge. A vida continua. Qual o novo desafio? Itália. Os anos passam, o desconhecido que fez furor nas Antas desapareceu, a pressão aumenta sobre um treinador que está no centro do Mundo. Ou coloca-o na sua mão. O Internazionale era tricampeão, tinha Roberto Mancini no cargo, tudo estava sobre rodas, para quê contratar um novo treinador? Para ganhar a Liga dos Campeões, respondeu-se. Para testar Mourinho, ainda. Chegar e vencer: tem sido o lema. Mudou de país, entrou numa concepção futebolística completamente diferente.

Em Itália impera o pragmatismo, deixa-se o espectáculo para trás. Mourinho entrou de rompante, atacando todos, foi campeão, mas o Inter ficou aquém na Europa. Foi contestado. Afinal, não fizera mais do que Mancini. Respondeu no seu estilo, cada vez mais incisivo, para sempre desconcertante. Tem um plantel curto para a Champions: não faço milagres, não sou o Harry Potter, avisou no início da época. No campeonato italiano, no entanto, o Inter não tem concorrência. Mourinho ganha, bate recordes, está há oito anos sem perder em casa nas três ligas por onde passou, preenche o currículo. É isso que lhe interessa. Coloca o dedo nos lábios, vira-se para os críticos, cerra o punho: ganhei! Tem uma estrelinha, a que distingue os campeões, em serviço permanente. O resto, bom, serve para se divertir a irritar os rivais…

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