"O FC Porto irá iniciar uma nova era" (Pedro Azevedo)

Demasiado irregular no percurso para alcançar o pentacampeonato, estrondosamente eliminado da Liga dos Campeões, resta ao FC Porto discutir as outras provas internas, Taça de Portugal e da Liga. Algo a que os portistas não estavam já habituados desde 2001-02, quando entraram numa fase de verdadeiro pesadelo que somente a chegada de José Mourinho conseguiu esbater, preparando as bases para épocas de glória. Daí para cá, apenas o título de 2005 lhes fugiu, foi conquistado pelo Benfica, mas a disputa estendeu-se até final. Esta temporada, contudo, o dragão falhou. Por culpa dos adversários que encontraram o antídoto para travar a cavalgada de superioridade azul e por culpa própria. Levantam-se, então, inúmeras questões. A primeira sobre o treinador, o réu de quando os resultados desiludem. Jesualdo Ferreira deverá estar de malas aviadas do Dragão. Anuncia-se uma nova era. Com mudanças estruturais.

O FUTEBOLÊS falou com Pedro Azevedo, editor de Desporto da Rádio Renascença, sobre o actual momento do FC Porto. Para o jornalista, os dragões preparam um novo projecto… que, naturalmente, se iniciará na mudança de técnico: “O FC Porto vai ter que recomeçar uma era, com novo treinador, novos jogadores e nova política de contratações”, afirma. “Acho que o actual momento do FC Porto tem muito que ver com o que dizia, com lucidez, Fernando Santos na Bola Branca: ciclicamente as equipas passam por estes momentos, com estas quebras depois de períodos de grandes conquistas. É o que está a acontecer este ano no FC Porto. Recordo-me do momento em que chegou Mourinho às Antas, o clube vinha de uma fase não vencedora e recomeçou um projecto com uma aposta em jogadores portugueses, fundamentalmente, e alguns brasileiros que já jogavam há muito no campeonato nacional”, relembra.

UM CLUBE VENDEDOR POR NATUREZA

No entanto, antes de qualquer aposta, é necessário olhar para as finanças. Sem Champions à vista, a solução passará pelas vendas. Algo que, para Pedro Azevedo, não será difícil de alcançar. Afinal, a África do Sul está à porta: “Há jogadores com muito mercado. Estarão na montra no Mundial e estou convencido que os pesos-pesados vão mesmo sair, casos de Bruno Alves e Raúl Meireles, até pela erosão que a sua marca já provocou no clube”, adianta. Mas há mais: “Ainda ninguém o terá assumido assim de forma tão dessassombrada, mas, na minha opinião, Rúben Micael é um indiscutível na selecção nacional: não há um jogador em Portugal com a mesma versatilidade, qualidade e raça. O Bruno Alves e o Rolando são duas soluções para a zona central da defesa, a par de Pepe, que provavelmente recuperará, e Ricardo Carvalho. E, além destes três, há Fucile e Álvaro Pereira na selecção uruguaia”, garante.

Apesar dos possíveis encaixes que poderá fazer com os seus activos, assegura Pedro Azevedo, “o FC Porto vai ter que rever o seu orçamento, é impensável que tenha um orçamento como o deste ano, que é de 81.5 milhões de euros. É óbvio que, sem o suporte financeiro da Liga dos Campeões, tenha de ser emagrecido”. Os alvos no mercado terão de ser bem identificados, procurando prevenir eventuais erros: “A política de contratações deste ano não resultou. Vou enumerar alguns casos: 5 milhões de euros custou Belluschi, 2,3 custou o empréstimo de Valeri por três anos, 1,1 custou Maicon, 4,2 custou Prediger. Estamos a falar em jogadores que não acrescentaram absolutamente nada”, explica, adiantando que a chegada de um novo técnico obrigará os dragões a comprar: “Provavelmente irá ter uma nova filosofia de trabalho, um novo sistema de jogo, um novo modelo e, naturalmente, quererá novos jogadores”.

O ARSENAL: TIROS DE CANHÃO EM JESUALDO?

Impõe-se a pergunta: terá sido o desastre europeu com o Arsenal a marcar definitivamente o final do consulado de Jesualdo Ferreira? Pedro Azevedo opina que não. “Mesmo que o FC Porto venha a passar por mais vexames como o de Londres, eu estou convencido, aposto dobrado contra singelo, que a ligação apenas irá terminar no fim da época. Será no dia da final da Taça de Portugal, pois creio que o FC Porto irá conseguir a qualificação para o Jamor (tem o Rio Ave nas meias-finais e é claramente favorito). E porque terá de apostar de uma forma muito forte nesse objectivo, já que não tem muitos mais esta época”, atira Pedro Azevedo de forma convincente. Esgotou-se o ciclo, contudo, ficam os títulos: “É uma era positiva de Jesualdo, pois é tricampeão, conseguiu os oitavos e os quartos da Liga dos Campeões, tornou-se no treinador com maior longevidade na era Pinto da Costa e com mais jogos europeus no clube”.

Seja como for, apesar de Jesualdo Ferreira “deixar a sua marca no FC Porto”, devido ao reconhecido mérito que tem nos títulos conquistados pelos dragões, o jornalista da Rádio Renascença entende que o treinador deveria ter abandonado o clube… no final da época anterior. “Na minha opinião, Jesualdo Ferreira deveria ter saído no último Verão. Sairia em ombros. E tinha convites muito tentadores do estrangeiro – falo com absoluto conhecimento de causa -, mas quis aceitar o desafio de permanecer por mais dois anos, embora, com certeza, apenas irá cumprir este”, revela.

A PEDRA DE TOQUE QUE FOI O JOGO COM O BENFICA

O jogo com o Benfica, em Dezembro, marcou o FC Porto. Travou a recuperação azul, numa fase em que os dragões estavam no seu pico: “Não terá sido o momento-chave, mas foi importante. Os jogos entre grandes do futebol português têm sido determinantes nas contas do título. É um dado histórico e irrefutável. O Benfica-FC Porto nunca fugiria à regra. Digamos que foi o primeiro pé fora do comboio”, diz Pedro Azevedo. Neste particular, há culpas a apontar a Jesualdo: “Na minha opinião, não esteve bem nas apostas iniciais. Não tem sido um treinador muito feliz em jogos decisivos, também não o foi no jogo de Londres, frente ao Arsenal, colocando Nuno André Coelho a trinco sem qualquer rotina de lugar e de jogo – embora, como é óbvio, não tenha sido por ele [NAC] que o FC Porto perdeu. Na Luz, o jogador que estava em melhor forma, Varela, ficou no banco e poderia ter sido um elemento importante”, refere.

Os acontecimentos que se seguiram ao clássico ganho pelo Benfica também têm, para Pedro Azevedo, importância no desenrolar do campeonato: “Dois jogadores, Sapunaru e Hulk, principalmente este pois era titular indiscutível e uma das principais estrelas do futebol português, ficaram fora dos relvados nacionais desde essa partida. Não que tenha sido decisivo para esta época negativa, mas o resultado e as consequências disciplinares desse jogo contribuíram muito. Faltou liderança a Jesualdo Ferreira, quando permitiu que a equipa abandonasse o balneário para reagir a determinadas provocações, o que acabou por ser nefasto para o FC Porto”, explana. E as razões do insucesso que se seguiu? “Pura e simplesmente, não apresentou soluções. O banco do FC Porto é, entre os quatro primeiros classificados, manifestamente o pior”, adianta.

UMA EQUIPA CAPAZ DE TUDO: COMO EXPLICAR?

O céu no jogo com o Sp.Braga, as trevas ante o Sporting. Em duas jornadas consecutivas, o FC Porto foi capaz do melhor e do pior, passou do oitenta para o oito, hipotecou as esperanças que alimentara em ser campeão. “Cada jogo é um jogo, dizem os treinadores. É um lugar-comum, mas tem uma certa lógica. No jogo com o Sp.Braga tudo correu bem ao FC Porto, que chega ao intervalo com cinco remates e três golos, o Braga não foi feliz e também não teve um jogo muito conseguido. Na partida seguinte, oscilou do bom para o mau. E ainda não conseguiu sair da cepa torta!”. Sobrecarga de jogos? Nada disso. “Já ouvi alguns treinadores, nesta época, falarem de rotatividade para que tenham melhores performances. Não concordo: o jogador quer jogar e não descansar na bancada. Noutros países joga-se duas vezes por semana e não há qualquer tipo de desculpa com essa situação”, afirma

LIDERANÇA INATACÁVEL, CLARO!

Numa época em que os resultados não são os esperados, sendo as contratações pouco produtivas, a administração do clube poderá ser colocada em causa. Esse não é, porém, um problema que afecte o FC Porto, pois Pinto da Costa mantém-se inatacável para os adeptos. Pedro Azevedo entende que este será, também, um novo ciclo para o presidente portista: “Por mais que se continue a ventilar a sua sucessão, penso que está para lavar e durar à frente do clube. Na longevidade, na qualidade do mandato e nos títulos conquistados, goste-se ou não, é, sem dúvida nenhuma, o melhor presidente de sempre no futebol português”, narra. “Apesar da época negativa, penso que continua a merecer um crédito enorme. O FC Porto falhou o objectivo principal, o penta, e, de forma verdadeiramente humilhante, a tábua de salvação que era a Liga dos Campeões, mas vai ser ele a comandar este novo ciclo. Não tem oposição à altura”, conclui.



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