O sonho nerazzurro: quarenta e cinco anos depois

Mourinho dispara do banco. Corre, atravessa o relvado, vai até junto aos seus adeptos. O Inter está na final da Liga dos Campeões. Passaram quarenta e cinco anos desde a última conquista. É um momento histórico. Victor Valdés esbarra com Lo Speciale. É afastado, Mourinho continua a sua caminhada, quer festejar com os apoiantes da equipa. Rosto fechado, sem sorrisos, altivo como nunca, indicador em riste na direcção dos adeptos nerazzurros. Cambiasso cai sobre o relvado, Lúcio e Samuel ajoelham-se, o expulso Thiago Motta junta-se aos colegas após os ter obrigado a unir esforços. São os festejos de quem não pode mais correr. Os jogadores do Inter estão exaustos, deram tudo o que tinham. Mas valeu a pena. O Inter tombou o Barcelona e seguiu para Madrid. O Barcelona atacou, insistiu, circulou a bola, sufocou e voltou a insistir. Uma, duas, três vezes. Ene.

De Milão, o Inter trouxera uma vantagem de dois golos. O golo sofrido em casa poderia ser, contudo, importante no final. Era encorajador ao Barcelona. Jogando com tudo, como se fosse a vida na roleta, acreditando ser possível deixar o Inter para trás. Guardiola dissera que ao Barcelona bastava ser igual a si próprio. Era esse o objectivo: se o Barça conseguisse o seu melhor, aquele encantamento de melhor equipa da actualidade, o futebol trabalhado que resulta quase sempre. Não bastou. José Mourinho preparou uma táctica defensiva, fechou-se sobre o ouro, o Inter fizera o seu papel no Giuseppe Meazza e havia noventa minutos para resistir. A ideia era tapar os caminhos ao Barcelona, tirar espaço, impedir a progressão dos catalães. Defender. A expulsão de Thiago Motta, à meia-hora, complicou. Foi o mote para o Inter não mais se desunir.

O Barcelona dominou, teve posse de bola avassaladora, instalou-se no meio-campo do Inter. Valdés jogou como líbero. Nada teve que fazer na baliza, adiantou-se, foi uma ajuda para empurrar os colegas. Tudo fazia parte do plano, rigoroso e frio, de Mourinho. Ninguém gosta de ver, o futebol perde, o espectáculo não agrada e o jogo torna-se num verdadeiro monólogo: vocês ataquem, precisam, nós, Inter, vamos defender. Não é, porém, qualquer equipa que resiste ao futebol incisivo, ritmado e descompensador dos blaugrana. É preciso saber fazê-lo, não cair em tentações fatais, utilizar um rigor exaustivo para secar a criatividade a Xavi, a Messi e impedir que Pedro Rodríguez ou Ibrahimovic sejam matreiros. Mourinho fá-lo como ninguém. O Inter nunca incomodou Valdés, passou o tempo no seu meio-campo. Nem precisava de mais, foi realista.

Era ao Barcelona que estava entregue o jogo. E eram os catalães quem necessitavam de marcar para seguir em frente. Afinal, o Inter já tinha cumprido a sua parte. O Barça terminou com Messi, Pedrito, Jeffren e Bojan no ataque. Ainda Piqué. Como fizera em Milão, sem que se tenha percebido muito bem a razão, Guardiola retirara Ibrahimovic. O golo surgiu. A cinco minutos do final. E foi Piqué, um central transformado em avançado, na vontade de fazer um golo a qualquer custo, quem deu esperança ao Camp Nou: recebeu a bola de Xavi, tirou Córdoba e Júlio César do caminho com uma habilidade apreciável, rematou para o fundo da baliza de nerazzurra. Estava ligeiramente adiantado mas passou. O Inter abalou. Subiu a placa com quatro minutos de descontos. Podia ser uma morte inglória. Não foi. Os italianos estão na final. Mourinho está na final.

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Made In Engand: O duelo final entre reds e blues

A duas jornadas do fim tudo continua em aberto na corrida pelo título inglês, apesar de ser agora uma corrida a dois. O Chelsea é lider apenas com mais um ponto do que o Manchester United, segue-se o Arsenal em terceiro – onde seguramente irá terminar. Depois, mais emoção na luta pelo derradeiro lugar na Liga dos Campeões com quatro equipas ainda com legítimas aspirações: Tottenham, Aston Villa, Manchester City e Liverpool. No que resta da tabela, em particular na zona de descida, parece estar tudo praticamente definido. As casas de apostas é que ganham com tudo isto. Emoção não falta, tal como no resto da Europa onde ainda não há campeões antecipados nos principais campeonatos. Será por ser ano de Mundial?

De uma derrota em White Hart Lane, por 2-1, a uma tremenda vitória, por 7-0, frente ao Stoke City, o Chelsea tremeu mas logo se reafirmou como maior candidato a ganhar o campeonato. A derrota frente ao Tottenham complicou as contas de Carlo Ancelotti, que se havia destacado com quatro pontos, entretanto reduzido para um pelo jogo ante os spurs. Todavia, os sete golos marcados ao Stoke mostram que esse ponto pode ser suficiente para o título. Na próxima jornada, os blues deslocam-se a Anfield Road para uma prova de fogo, apesar de o Liverpool estar muitos furos abaixo do que é habitual. Não deixará, contudo, de ser uma partida muito difícil. Se o Chelsea passar em Anfield, o último jogo em casa frente ao Wigan não deverá causar problemas.

O Manchester United arrancou a ferros uma vitória frente ao Manchester City nos últimos segundos de jogo, com um golo solitário do veterano Paul Scholes, que poderá ser fulcral nesta fase do campeonato. No passado fim-de-semana, os red devils ganharam categoricamente frente ao Tottenham, por 3-1, com um fantástico golo de Nani – renasceu e está no seu melhor plano desde que chegou a Manchester, isto talvez porque já não esteja na sombra de Ronaldo. Mesmo sem Wayne Rooney, os homens de sir Alex Ferguson foram dominantes, marcaram e mativeram o sonho do tetra vivo.

O Arsenal continua a desiludir ao falhar a aproximação ao líder, perdendo com o Wigan (em caso de vitória, os gunners teriam ficado a três pontos) e empatando com o Manchester City. A equipa de Wenger está seguros no terceiro lugar mas arredados da luta pelo título. Depois, bem, está a confusão: quatri equipas, uma vaga na Liga dos Campeões e duas na Liga Europa (ou três de tão confusa que é a situação em Inglaterra!…). O Liverpool parte em desvantagem nessa luta pelo lugar milionário: não só tem menos pontos (62) como tem já 36 jogos disputados. Tem à sua frente, por esta ordem ascendente, o Manchester City com 63 pontos e 35 jogos, o Aston Villa com 64 e 36 jogos e, finalmente, o Tottenham com 64 pontos e 35 jogos. Confuso? Também todos nós estamos.

MADE IN ENGLAND é um espaço quinzenal, assinado por Armando Vieira, sobre o mais fascinante campeonato do panorama futebolístico

Da Gália para Madrid: eis o Bayern de Munique

O Bayern de Munique está na final da Liga dos Campeões. Com maior conforto do que seria expectável, aliás. Os bávaros já possuíam uma vantagem de um golo, fruto de um tento de Arjen Robben na primeira mão, mas não poderia considerar-se como vencedores da eliminatória. O Lyon, jogando em casa, tinha todas as condições para mudar o rumo dos acontecimentos e, então, superiorizar-se. O resultado não estava, nem pouco mais ou menos, trancado. O Bayern conseguiu, contudo, um triunfo claro e expressivo. Venceu por três golos, um hat-trick de Ivica Olic, o autor do golo decisivo ante o Manchester United na primeira mão dos quartos-de-final, deitou por terras as aspirações gaulesas e garantiu a presença dos alemães na final. Oito anos depois da última conquista. Com pragmatismo, consistência e qualidade. Fica à espera do adversário.

O sorteio das meias-finais da Liga dos Campeões foi, pode-se dizer, curioso. Colocou frente-a-frente, tanto no Inter-Barcelona como no Bayern-Lyon, equipas completamente diferentes. Os italianos e os alemães são equipas mais pragmáticas, frias, situando a táctica acima da magia; pelo contrário, os espanhóis e os franceses são equipas mais criativas, com um futebol mais atractivo e trabalhado. O futebol deste Bayern de Munique, uma equipa em crescendo desde o início da época, começando titubeante mas conseguindo estabilizar e superar-se, é uma imagem perfeita de Louis Van Gaal, o seu treinador: disciplinado, rígido, pouco dado a espectáculos, trabalhando para alcançar vitórias. Esse é, afinal, o objectivo do futebol e não pode ser alvo de críticas. Arjen Robben, jogador dispensado pelo Real Madrid, tem sido a maior figura.

O Bayern de Munique não caiu, contudo, na tentação de jogar para o empate em França. Seria um enorme risco se o fizesse. Ao invés, os germânicos procuraram assumir o jogo, manter o Lyon longe da sua baliza, marcar um golo que aumentasse as probabilidades de regressar a casa com o bilhete para Madrid no bolso. Falhou-o logo no início: Thomas Muller desperdiçou um golo feito. Aos vinte e seis minutos, vinte e quatro depois da perdida de Muller, Ivica Olic bateu Hugo Lloris. Foi um passo fundamental para assegurar a vitória na eliminatória. O Lyon precisava de marcar três golos. Jogava sob brasas, além disso, com pouca imaginação, sem conseguir abrir brechas na defesa alemã para assustar Hans-Jorg Butt. O golo de Olic foi o corolário de um domínio que o Bayern de Munique exercera desde o apito inicial de Massimo Busacca. E acentuar-se-ia.

O futebol quando se apresenta como uma prova de contra-relógio assume um grau de dificuldade gigantesco. Tudo estava do lado do Bayern: o resultado, o domínio, o relógio. Ao Lyon, sempre manietado pelos germânicos, restava reagir, manter a crença, procurar um golo que relançasse o jogo. Mesmo sendo difícil, não seria impossível. No entanto, quando algo corre mal tudo o resto vem por acréscimo. É a chamada Lei de Murphy. Em futebol é fatal. Os franceses, à hora de jogo, viram Cris ser expulso. A tentativa de reacção do Lyon ficou por aí. O Bayern aproveitou, manteve-se senhor do jogo, partiu em busca de um segundo golo: sete minutos depois da expulsão, Altintop abriu para Olic e, de novo, golo. O Bayern de Munique ficara com caminho aberto para o Santiago Bernabéu. Ivic Olic, avançado croata, voltou a deixar a sua marca já no final. Foi o três-zero.

Liga Sagres: O clássico do título com o Belenenses condenado

ANÁLISE

Os festejos do Benfica estão oo aquecimento. Após a vitória sobre o Olhanense, os benfiquistas desejaram um desaire do Sp.Braga, frente à Naval, para poderem, então, declarar-se como novos campeões nacionais. Os bracarenses, contudo, estão empenhados em levar a luta até ao fim, são guerreiros na verdadeira acepção da palavra, não encolhem os ombros e dão-se por vencidos. Há que lutar. Sempre, até que não mais seja possível. O papel do Sp.Braga foi cumprido na íntegra. Na próxima jornada, sem depender de deslizes alheios, o Benfica pode carimbar o seu trigésimo segundo título de campeão nacional. No Dragão. O clássico será vivido com papéis invertidos relativamente a épocas anteriores. Estará a ferro e fogo. Até porque o FC Porto acendeu a revolta em Setúbal e não terá Radamel Falcao para discutir com Cardozo. Nem Jesualdo.

Pode uma equipa que luta para não descer, vive com o fantasma dos últimos lugares a apoquentar, resistir a um duplo hara-kiri se jogar perante um rival forte, com uma tremenda confiança que lhe invade a alma e contagia o universo a ela ligado e está um passo de se sagrar campeão nacional? Não, claro que não. O Olhanense não resistiu a duas asneiras brutais de Delson. Em apenas nove minutos, o médio brasileiro cometeu uma grande penalidade tonta e acertou feio em Di María. Resultado: o Benfica marcou aos dois minutos, aliou a vantagem no marcador à númerica aos nove. Os algarvios ficaram por aí. O Benfica aproveitou as benesses, ainda nem tinha tido tempo para assentar o seu jogo, ganhou desde logo a tranquilidade que procurava. Marcou por Di María, mais dois de Cardozo e fechou através de Aimar. O terceiro golo, metade feito por aquele passe de letra de Angelito, é uma obra que merece honras…

Tracção atrás na Naval, equipa construída para conceder poucos espaços ao Sp.Braga, arrastar o nulo, deixar o jogo numa intensidade baixa e procurar sair para o ataque, através da velocidade de Fábio Júnior, elemento importante na pequena surpresa com o Benfica, e Michel Simplício. Respondeu o Sp.Braga com circulação de bola, futebol ligado, incisivo, coeso em todos os sectores, equipa rematadora. Entre dois golaços de Luis Aguiar, um aos vinte e cinco e outro aos oitenta e cinco minutos, passou uma hora de jogo. Nessa hora, iniciada com um livre superiomente colocado no ângulo da baliza de Peiser e um chapéu ao guarda-redes da Naval, o Sp.Braga construiu uma vitória sólida, justa e gorda por quatro golos. Não precisou de ser intensa, foi consistente e geriu o jogo de acordo com as suas pretensões. Os figueirenses não criaram uma verdadeira oportunidade para marcar. Desistir é palavra proibida em Braga.

Se Jesualdo Ferreira tivesse uma bola de cristal à disposição, acompanhando as saídas de Fucile e Raúl Meireles, pouparia Radamel Falcao para o jogo com o Benfica. O FC Porto tinha o jogo perfeitamente controlado, ganho, o Vitória de Setúbal estava inconsequente e sem forças para anular a vantagem de três golos portistas. A vitória azul não iria fugir. O jogo fluía sereno, com poucos motivos de interesse, com golos de Guarín e Belluschi para abalar a monotonia e se juntarem a três de bola parada: Falcao e Maicon haviam marcado para o FC Porto, Henrique reduziu e deu uma fugaz esperança aos sadinos. Nada mais havia para contar. Chegou o minuto oitenta. A temperatura subiu ao extremo. Falcao foi apertado por Ricardo Silva e Bruno Ribeiro, lutou para se soltar e atingiu o adversário com a mão. Viu o amarelo. E falha o clássico com o Benfica. Novos golos de Henrique e Falcao, magoado e triste, ficaram em segundo plano.

Não há nada em jogo: o Sporting terminará em quarto lugar, nem mais nem menos, é o objectivo que os dirigentes leoninos traçaram após terem percebido que o pesadelo inicial já havia deixado a sua irreparável marca na temporada leonina. O Sporting terminará sem nada conquistado. No campeonato, sem possibilidade de ser mais ambicioso, limita-se a cumprir os seus jogos, esperando rapidamente pelo final da época, abrindo horizontes e preparando correctamente o que se avizinha para que os erros não se repitam. É natural, por isso, que os jogos dos leões tenham pouca história. Em Leiria, ante uma União ainda esperançada em chegar ao quinto lugar, Liedson marcou, adiantou o Sporting, traduziu o ascendente no marcador. Não chegou, porém, para resolver. Foi gritante a ineficácia leonina. Cássio, cada vez mais uma figura nos leirienses, empatou no início da segunda parte. O empate prolongou-se. Até ao apito final.

O Belenenses desceu de divisião. Foi a confirmação de uma morte há muito anunciada, um ciclo negro só com duas vitórias pelo meio, uma época para séria reflexão de um histórico, um dos cinco campeões, do futebol nacional. A derrota ante o Vitória de Guimarães, por 2-0, carimbou matematicamente a descida às trevas. Também o Leixões está às portas da despromoção: os leixonenses perderam, em casa, ante a Académica (1-3), mantendo os quatro pontos de atraso para o primeiro lugar de salvação – a equipa de André Villas Boas assegurou a permanência, assim como o Rio Ave, após o nulo com o Marítimo. Caso perca ante o Olhanense, num duelo de verdadeiros aflitos, o Leixões desce ao segundo escalão do futebol português. Na luta pela Europa, o empate caseiro do Nacional com o Paços de Ferreira (1-1), poderá ter entregue definitivamente o quinto lugar ao Vitória de Guimarães – tem três pontos de vantagem.

Os inatacáveis méritos do Sp.Braga

As guerras são para se levar até ao fim sem tréguas. Nunca se pode esperar uma fácil entrega. O Sp.Braga, caso tivesse cedido na Figueira da Foz perante uma Naval que mantém o estatuto de ter sido a única equipa a sair com pontos de Braga, assinaria a sua rendição. Terminaria a luta pelo primeiro lugar, definitivamente nas mãos do Benfica, passaria a ter de se preocupar em consolidar a vice-liderança, uma consolação pela época soberba, sentindo o aproximar do FC Porto. Verdadeiros guerreiros não se vergam assim facilmente. Seria, aliás, paradoxal que uma equipa que nunca esteve em situação tão, tão privilegiada de se intrometer e superar aos grandes desistisse da luta. É a História que está em jogo. Não há como baixar os braços, assumir a derrota e felicitar os vencedores. Até porque este Sp.Braga nunca sairá a perder.

A vitória do Sp.Braga frente à Naval, clara e justa, adiou os festejos benfiquistas. Na próxima jornada, no Dragão, o Benfica pode confirmar a conquista do seu trigésimo segundo campeonato nacional. Os encarnados só dependem de si próprios para o fazer. Esse adiamento é outra boa vitória do Sp.Braga: deixar as decisões para o final, impedir ao máximo a coroação dos adversários, manter-se bem firme. Os bracarenses cumpriram a sua parte de dificultar a vida ao Benfica, portanto. Para além disso, o jogo na Figueira da Foz, cimentou o segundo lugar do Sp.Braga. Cinco pontos de vantagem com dois jogos para disputar é uma margem que muito, muito dificilmente os minhotos perderão. Ficar em segundo, às portas da fase de grupos da Liga dos Campeões, será o momento mais alto do seu historial. É uma grandíssima vitória.

Luis Bernardo Aguiar Burgos é um jogador de enorme potencial. Começou por ser actor secundário nesta campanha do Sp.Braga, a lesão de Márcio Mossoró, impedido após o duelo com o Benfica de jogar até final do campeonato, fê-lo saltar novamente para a ribalta. Nos últimos jogos tem mostrado os seus atributos, o melhor do seu futebol, a qualidade que demonstrou na Amadora e em Coimbra e não foi aproveitada pelo FC Porto. Ante a Naval, extremamente fechada e contida no seu meio-campo, também pouco ágil nas incursões ofensivas, o médio uruguaio foi decisivo, brilhou intensamente, levou a equipa consigo para o vigésimo primeiro triunfo no campeonato. Abriu com um golo sensacional de livre directo, pelo meio fez duas assistências para Matheus e Paulão, até fechar com chave de ouro num chapéu espectacular.

O Benfica ganhara e ficara às portas do título; o FC Porto ganhara e fixara a distância para o segundo lugar em dois pontos. A pressão estava, agora, do lado do Sp.Braga, habituado a jogar primeiro do que os rivais, beneficiando desse factor psicológico. A equipa arsenalista não abalou. Entrou na Figueira confiante, procurando vencer para manter o sonho, cumprindo mais um capítulo da belíssima história que está a escrever nesta temporada, verdadeiramente empurrado por uma multidão bracarense que bateu o record de assistências no José Bento Pessoa. Há uma ligação forte da cidade Braga ao clube Sp.Braga. Percebe-se perfeitamente e é da mais elementar justiça e naturalidade que assim seja. A vitória da equipa de Domingos Paciência foi fácil. Ou pareceu. Jogando à grande, equipa crescida, motivada, empenhada e dominadora.

A magia de Di María num Benfica com licença para matar

Um salto de cinquenta e três minutos no Benfica-Olhanense. Dois golos de vantagem dos encarnados, superioridade também nos elementos em campo, um público sedento de glória, desejando como nunca a certeza do título. O Benfica está no ataque. Di María recebe a bola de costas para a baliza, tem jogadores do Olhanense atrás de si, não são incisivos na pressão efectuada, seguem-no. Angelito tem tempo para pensar. Fá-lo em grande. E executa. Um passe sensacional, de letra, isola Cardozo para o segundo golo de Tacuara, antes em desvantagem e agora igual a Falcao. O toque do argentino é uma obra prima, uma magia imensa, um passe de morte para a finalização da praxe. Antes disso, já Di María marcara de pé direito, com um drible extraordinário, trocando as voltas aos defesas algarvios. E Cardozo iniciara a vitória.

O Benfica está perto, pertíssimo de cofirmar a conquista do título, está em alta e criou uma simbiose perfeita com os adeptos. Agora e antes. A equipa encarnada não esteve em momento algum longe dos seus, isolada, sem sentir apoio e aquele embalo especial que leva os jogadores a lutarem até ao último segundo para que possam retribuir a confiança que neles é depositada. Por vezes essa vontade de querer fazer tudo bem e depressa, garantir o título e deixar as preocupações de lado pode ser um inconveniente trazendo ansiedade indesejada. O Olhanense é uma equipa que pratica um bom futebol, vive acossada pela descida mas provou ter qualidade e jogou de peito aberto com os primeiros. É, contudo, uma equipa ingénua. Na Luz, Delson deu licence to kill ao Benfica: cometeu grande penalidade e foi expulso. Em nove minutos!

O jogo ante os encarnados dificilmente se apagará da memória do médio brasileiro do Olhanense. Terão sido os nove minutos mais infelizes da sua vida enquanto futebolista. Arruinou a sua equipa, matou-a precocemente, deu ao Benfica permissão para se superiorizar, galvanizar e dominar. Aos dois minutos, Weldon cruzou e Delson, dentro da área, tirou a bola com o braço. Lucílio Baptista assinalou a infracção, deu amarelo ao jogador ao brasileiro, Óscar Cardozo fuzilou Bruno Veríssimo. Foi o melhor que podia ter acontecido aos encarnados. Sete minutos depois, travou Di María com uma falta duríssima, o árbitro poupou-lhe o vermelho directo mas deu o amarelo. O segundo e, por isso, recebeu ordem de expulsão. Esteve nove minutos em campo e foi fatal para as aspirações da sua equipa. Não mais o triunfo benfiquista esteve em questão.

A partir da expulsão, já em desvantagem, o Olhanense percebeu que nada mais poderia fazer para contrariar o curso natural dos acontecimentos. Se ainda se mantinha alguma esperança nos algarvios, o golo de Di María, aos dezoito minutos, de novo com uma assistência saída dos pés de Aimar, foi o golpe final. O Benfica iria ganhar, ponto assente. Restava saber por que margem. Chegou ao terceiro por Cardozo, agora já empatado com Falcao nos melhores marcadores, após esse passe de Di María que merece ser emoldurado. Passaram três minutos e tudo voltou a resultar: Angelito assistiu, Tacuara marcou. É a sociedade perfeita. O Benfica chegou ao quarto golo com naturalidade, mesmo sem ser sufocante ou brilhante, Cardozo recuperou o estatuto de rei dos marcadores. Aimar concluiu a mão cheia de golos. Falta um ponto para o título.

Uma goleada agridoce do FC Porto

O FC Porto chegou à sexta vitória consecutiva. É a confirmação do melhor período da temporada azul. Vale de pouco neste momento, contudo. Isso deixa um profundo vazio na equipa, como seria de esperar. Os dragões nada têm a perder, ambicionam ganhar o segundo lugar mas é uma esperança reduzida e ténue, tem somado vitórias, golos e, em certos períodos, exibições confiantes e sólidas. Terminar bem serve de consolação até para preparar as bases para readquirir o sucesso na época que se aproxima. Importa começar já, por isso. Há as quinas de campeão para defender até final. Quanto mais não seja alimenta o ego e a crença em derrubar o Sp.Braga da vice-liderança. O FC Porto goleou por 5-2 no Bonfim sem que para isso tenha precisado exibir brilhantismo. Ganhou com naturalidade. Mas perdeu Falcao. Fica a mágoa.

Radamel Falcao foi sempre o jogador mais deste FC Porto. Corre, batalha, esforça-se, deixa tudo o que tem em campo e marca golos. No campeonato português, em dois mil duzentos e trinta e um minutos, leva vinte e três golos marcados. Dois deles foram no Bonfim. Levar El Tigre ao trono de melhor marcador do campeonato, lugar que partilhava com Óscar Cardozo empatando em vinte e um tentos, é um objectivo colectivo do FC Porto para ajudar o colombiano a colocar a cereja no topo do bolo na sua primeira época em Portugal. Teve uma adaptação supersónica. Perante uma permeável defesa do Vitória, com mais cinco golos cravados pelo FC Porto na fragilidade sadina, Falcao bisou. Tinha motivos para estar satisfeito por isso. No entanto, pelo meio, perdeu a oportunidade de jogar com o Benfica. No seu duelo com Cardozo.

Falcao recebeu a bola, Ricardo Silva fez pressão por trás, cometeu falta, Bruno Ribeiro deslizou no relvado e ajudou o colega sadino na tentativa de travar a marcha do portista. O avançado colombiano do FC Porto tropeçou, não caiu, tentou afastar os adversários, utilizou os braços para o conseguir. Com isso atingiu Bruno Ribeiro na cara. Foi em frente ao árbitro assistente, Ricardo Silva logo pediu cartão amarelo. Pedro Henriques mostrou-o. Falcao ficou incrédulo, desesperou por perceber que estaria de fora do próximo jogo. Do jogo com o Benfica. Do Benfica de Cardozo. Jesualdo Ferreira saltou do banco, galgou metros, dirigiu-se ao local da infracção, interpelou o árbitro e pediu explicações aos jogadores do Vitória. Ficou fora de si, protestou, irado como nunca, perdeu a sobriedade que o marca e a calma que lhe é característica. E foi expulso.

O jogo ficou automaticamente para plano secundário após esse minuto oitenta. Já pouco dizia ao FC Porto. O pentacampeonato falhou e, por isso, a época é negativa. Os dragões venceram, reaproximaram-se do Sp.Braga, têm o segundo lugar a dois pontos de distância, esperam para ver o que os minhotos farão. Mas olhar para cima e ver mais alguém, ver o Benfica, é uma dor profunda para os azuis. Por isso ganharam, de novo por goleada, mas o sabor é agridoce. E marcado pela polémica. O resultado já estava numa vantagem de quatro-um, tudo tranquilo, os minutos finais iam chegar para confirmar mais um triunfo. Esse tal minuto oitenta, essa expulsão do goleador Falcao, ausente do clássico com o Benfica, ficou marcada nos portistas. A vitória assenta como uma luva. Há pressão no Sp.Braga, luta até final. E veio a revolta no fim.