Análise: O que falhou em Liverpool, Benfica?

Jorge Jesus caiu na tentação de mudar a sua equipa em função dos perigos do adversário. Fê-lo na base da equipa, remodelou uma defesa que tão boa conta de si tem dado mas que, estranhamente, denotara uma passividade pouco vista na Figueira da Foz. Pode ter sido um prenúncio. Em Anfield Road, para manter uma vantagem curta e com o enorme inconveniente de ter sofrido em casa, o treinador benfiquista colocou David Luiz na lateral esquerda, desfazendo a dupla de Luisão e lançando Sidnei, jogador com qualidade mas raramente utilizado em toda a temporada, a que se juntou a inclusão de Rúben Amorim na direita. Maxi Pereira e Fábio Coentrão, habituais donos das laterais, foram suplentes. Na baliza, continiou rotatividade. Há muito Quim é o guarda-redes do campeonato, Júlio César o da Liga Europa. Tinha resultado.

Quim foi o guarda-redes na Figueira da Foz. Júlio César, como esperado, assumiu a baliza em Liverpool. O brasileiro já provou ter capacidades. Em Anfield Road, contudo, falhou. Um guarda-redes não o pode fazer: erro é sinónimo de golo. Não conseguiu transmitir a segurança que a equipa necessitava, mostrou-se intermitente e intranquilo, deixou que Kuyt marcasse o primeiro golo na sua zona de acção e hesitou em lançar-se aos pés de Lucas no segundo tento dos reds. Teve uma noite infeliz, culminante numa lesão que o afastou dos minutos finais. Já com Moreira na baliza, o Benfica sofreu o quarto golo. Foi uma machadada nas aspirações dos encarnados, numa altura em que iria preparar-se para um cerco final à baliza de Pepe Reina, fazendo de tudo para um golo que valesse o apuramento. Até isso correu mal.

Maxi Pereira na direita, Fábio Coentrão à esquerda e a dupla Luisão-David Luiz no centro. Tem sido este o quarteto defensivo do Benfica em grande parte da temporada – a princípio, sob o lado esquerdo, jogava César Peixoto. Os encarnados são a melhor defesa do campeonato português, sofrem habitualmente poucos golos. Ou seja: não havia razões para mudar, até porque, embora com o Liverpool reduzido a dez jogadores, Kuyt e Torres haviam sido bem travados no jogo da primeira mão. Em Anfield, Jorge Jesus quis prevenir possíveis estragos que o holandês fizesse no lado direito. Fábio Coentrão ainda não é um lateral bem consolidado? Certo, mas tem sido titular, ganhando o duelo com César Peixoto, e merecido elogios na nova posição. Jesus optou por descair David Luiz. Ao fazê-lo, o Benfica perdeu uma referência central.

David Luiz é um jogador de enorme valia, ainda com margem de progressão para se consolidar e tem-se revelado fundamental para a consistência defensiva do Benfica. É bom, sem dúvida. Mas a central. Jogando a lateral esquerdo, tal como fazia na época anterior com Quique Flores, o brasileiro baixa o seu rendimento. Natural, está fora de posição. Em Anfield, não conseguiu ofuscar Dirk Kuyt, sentiu dificuldades para parar o atacante holandês e acabou por perder a bola que daria origem ao último golo do Liverpool. Foi esse o maior pecado de Jorge Jesus: com David Luiz na esquerda não ganhou um lateral e, mais do que isso, perdeu um excelente central. Sidnei denotou falta de rodagem e sua dupla com Luisão, tal como se viu no lançamento de Gerrard para o golo de Lucas Leiva, não resultou. Rúben Amorim foi outra adaptação.

Jorge Jesus falara em cansaço acumulado. Terá sido a intensa carga de jogos num curto período temporal a ditar as alterações na defesa? É uma hipótese. Não pela opção de colocar David Luiz à esquerda (mesmo que Coentrão não estivesse a cem por cento, havia César Peixoto) mas pela ausência de Maxi Pereira. O lateral uruguaio já denotara alguma fadiga. No entanto, no relvado, o Liverpool, em termos tácticos, superiorizou-se ao Benfica: começou expectante, não teve receio em deixar os encarnados circularem a bola, tapou os caminhos para a área de Reina e apostou forte no contra-ataque para ser letal – o primeiro golo nasce de um canto, todos os outros após transições rápidas. Não foram precisas muitas oportunidades, os reds tiveram grande eficácia: em oito remates, metade entrou na baliza do Benfica. Afinal, era o jogo da época.

Ao Benfica faltou sempre quem desse o toque final, quem assumisse o jogo sem receio e arrancasse com a bola controlada para a colocar em boa posição. O Liverpool jogou com os seus dois pivôs defensivos, Lucas e Mascherano, nas costas do tridente (Kuyt, Benayoun e Gerrard) de apoio a Fernando Torres. O meio-campo do Benfica não teve espaço nem imaginação para se soltar da teia: Javi García não conseguiu parar Steven Gerrard, Carlos Martins não pegou no futebol encarnado, Ramires demonstrou debilidades físicas e Di María foi uma sombra de si próprio. Sem Saviola, tal como na Luz, voltou a ser Aimar o parceiro de Cardozo. El Mago não é, contudo, a melhor escolha para auxiliar Tacuara: o paraguaio esteve sempre desapoiado. Fez o golo que deu esperança, ainda assim. Mas não chegou. Torres certificou-se disso.

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