Opinião: Vai uma partidinha de xadrez, Pep?


Diego Milito marcara há cerca de um minuto. O Inter estava com três golos contra um do Barcelona. Numa meia-final da Liga dos Campeões, entre equipas de tal qualidade, é meio caminho andado. Mas há o inconveniente de ter sofrido um golo em casa e isso pode fazer toda a diferença no final. Antes do jogo recomeçar, substituição. No Barcelona. Tudo bem, natural, Guardiola queria mudar as coisas. Mais um golo marcado e, apesar da vantagem, o Inter iria tremer. Na eliminatória, sobretudo. Jogaria em Camp Nou impedido de perder. Vê-se Zlatan Ibrahimovic na imagem. Esteve apagado, seco como as areias de um deserto numa defesa que não lhe deu um palmo. Regressou a Milão, nem se reparou. É o sueco que Guardiola vai tirar. A imagem foca Abidal. Um defesa pronto para entrar. Avança Maxwell para o meio-campo.

Páro para reflectir. Tento perceber a substituição. Faz tanto sentido como um canguru na Noruega. Nem encaixa no que se pretendia, nem no que os adeptos esperariam nem na filosofia de Guardiola. Um treinador ofensivo, apreciador de espectáculo, comandante da equipa que melhor joga e é um regalo para vista, com Bojan e Henry no banco, jogando em casa do rival lança um defesa? O leitor entende? Qué pasa, Pep? Passam os minutos do jogo, o Barcelona procura um golo. Insiste, insiste, insiste. O Inter fecha-se. Sabe o que faz, é uma equipa solidária Balotelli à parte, faz das tripas coração para guardar a riqueza. A vantagem é uma fortuna. Não me sai da cabeça a substituição daquele minuto sessenta e dois. Encontro uma possível explicação: Guardiola quis procurar o segundo golo mas, acima de tudo, não arriscou sofrer o quarto.

Seja ou não disparatada é a minha teoria. O leitor poderá ter outra. Não é fácil, por certo, entender o que o treinador quis fazer. Foi um erro, creio. Todos têm direito a eles, ninguém está imune, os perigos atacam quando ninguém espera. E ninguém esperava que o Barcelona perdesse em Milão. Bem… o Barcelona perdeu ou o Inter ganhou? A pergunta é tonta, sim, mas podem ser coisas diferentes. O Barcelona não esteve mal, foi antes o Inter que esteve soberbo. O Barcelona tentou ter jogo, circulou a bola, mas esteve sempre longe da baliza de Júlio César. A progressão que sempre resulta falhou desta vez. Demérito? Não. Mérito, imenso mérito, na forma como o Internazionale encarou o jogo. O Barcelona é o espectáculo, o Inter o pragmatismo. Numa guerra cada um luta com o que tem. É aí que reside a arte de saber antever os perigos.

A táctica venceu a magia. José Mourinho é um estratega como poucos. Monta as suas equipas pensando no adversário, sabe os recursos que tem disponíveis, explora-os até ao tutano, prepara tudo com pormenor. Os métodos são mais do que conhecidos. O Inter tem pouca criatividade. Ou nenhuma para além de Wesley Sneijder. Tem que utilizar outras armas para chegar ao sucesso. Usa aquilo onde é bom: é uma equipa expedita, coesa, gosta de explorar a velocidade. Precisa de poucos toques para chegar ao ataque, desenrola a manta com uma facilidade extrema, sai do aperto para apertar o rival. A qualidade individual faz o resto, Diego Milito é o rosto mais visível. O Barcelona é o contrário. É a melhor equipa da actualidade: passa, repassa, avança, domina, ganha. Isso não muda de um momento para o outro. Daí o mérito total do Inter.

Sabe, leitor, o que aconteceu quando a defesa do Inter meteu os pés pelas mãos? Maxwell correu, correu, entrou na área e cruzou para Pedro Rodríguez. Estava tudo baralhado. A defesa caira como um baralho de cartas. Foi golo. Muitos terão sido os que pensaram que a resistência dos italianos somente tinha durado vinte minutos e que, a partir daí, o Barcelona jogaria como quisesse. Até podia resolver logo a eliminatória. Incluo-me no grupo, confesso. Só que o Inter começara bem. E iria continuar. O golo foi o resultado de um falhanço desaconselhável e viperino, mas a tempo de ser corrigido. Com outros golos e mantendo o rigoroso plano que Mourinho traçara. Veio o empate, a reviravolta, a tranquilidade. A segunda parte foi talvez o que o Inter fez de melhor até aqui. Jogou com inteligência. É um atributo crucial para o futebol.

Messi esteve no Giuseppe Meazza? Esteve, claro que esteve. Apareceu em duas ocasiões que Júlio César defendeu. E foi só. A razão é simples: teve marcação apertada, um elástico permanente que não o deixou fugir, não conseguiu espaço. Por isso passou ao lado do jogo. Javier Zanetti é o maior culpado. Tem trinta e seis anos, joga como se tivesse dezassete. Impressiona a qualidade e a postura do polivalente (sublinhe-se bem!) argentino. Desculpa lá, ó Messi, mas aqui mando eu!… Onde andou Xavi, o pensador da equipa catalã, o relógio que não falha, o centro das operações, o comandante precioso? Perdeu qualidades? É evidente que não. Continua a ser tudo isso. Mas, como Messi, não teve metros para o mostrar e ser, como tantas outras vezes, fundamental. O Inter colocou-lhe um colete de forças. Até ao jogo de Milão, quantas equipas haviam feito tão bem o trabalho de esconder o brilho das estrelas?

O Inter ganhou ao Barcelona. São equipas com filosofias antagónicas, jogam de modo diferente, inserem-se em meios que não partilham a mesma concepção de futebol. Para uns é espectáculo que leva à glória, para outros é jogar simples para ser bem-sucedido. Ganhar é o objectivo comum. E o Inter venceu porque foi melhor e soube tapar os melhores do Barcelona. Colocou umas pedrinhas no carrossel blaugrana. Atirar todas as culpas para Olegário Benquerença é injusto e redutor. Mas é futebol. Ninguém está preparado para perder. O Barcelona com Guardiola apenas perdera dez vezes. Nunca por dois golos de diferença. Custa a digerir, por isso. E por ser numa meia-final da Liga dos Campeões, pela história recente e pelo que ambos fizeram para lá chegar. E até por ser para José Mourinho. Ele já avisara que estava preparado!…

O jogo de Camp Nou pode anular tudo isto. Quando terminar a eliminatória, o Barcelona pode estar na final do Santiago Bernabéu, Josep Guardiola próximo de ser bicampeão europeu. O Inter pode ter ficado reduzido a cinzas. Se assim for, raros serão aqueles que lembrarão do jogo da primeira mão. O que será uma crueldade. Ficará esquecida a brutal exibição de Milito, a criação de Sneijder, o assombroso jogo que Zanetti fez para impedir os estragos de Messi. Ficará esquecido que o Inter parou o Barcelona. Mourinho sabe que corre esse risco. Está no limiar de voltar a uma final europeia mas ainda pode cair. Ganhou no xadrez a primeira partida, não pode descuidar-se para a segunda. Guardiola esteve mal em Milão, errou, não soube mover as suas peças. Mas tem uma palavra a dizer. E já está convidado para o novo duelo.

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2 thoughts on “Opinião: Vai uma partidinha de xadrez, Pep?

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