O sonho nerazzurro: quarenta e cinco anos depois

Mourinho dispara do banco. Corre, atravessa o relvado, vai até junto aos seus adeptos. O Inter está na final da Liga dos Campeões. Passaram quarenta e cinco anos desde a última conquista. É um momento histórico. Victor Valdés esbarra com Lo Speciale. É afastado, Mourinho continua a sua caminhada, quer festejar com os apoiantes da equipa. Rosto fechado, sem sorrisos, altivo como nunca, indicador em riste na direcção dos adeptos nerazzurros. Cambiasso cai sobre o relvado, Lúcio e Samuel ajoelham-se, o expulso Thiago Motta junta-se aos colegas após os ter obrigado a unir esforços. São os festejos de quem não pode mais correr. Os jogadores do Inter estão exaustos, deram tudo o que tinham. Mas valeu a pena. O Inter tombou o Barcelona e seguiu para Madrid. O Barcelona atacou, insistiu, circulou a bola, sufocou e voltou a insistir. Uma, duas, três vezes. Ene.

De Milão, o Inter trouxera uma vantagem de dois golos. O golo sofrido em casa poderia ser, contudo, importante no final. Era encorajador ao Barcelona. Jogando com tudo, como se fosse a vida na roleta, acreditando ser possível deixar o Inter para trás. Guardiola dissera que ao Barcelona bastava ser igual a si próprio. Era esse o objectivo: se o Barça conseguisse o seu melhor, aquele encantamento de melhor equipa da actualidade, o futebol trabalhado que resulta quase sempre. Não bastou. José Mourinho preparou uma táctica defensiva, fechou-se sobre o ouro, o Inter fizera o seu papel no Giuseppe Meazza e havia noventa minutos para resistir. A ideia era tapar os caminhos ao Barcelona, tirar espaço, impedir a progressão dos catalães. Defender. A expulsão de Thiago Motta, à meia-hora, complicou. Foi o mote para o Inter não mais se desunir.

O Barcelona dominou, teve posse de bola avassaladora, instalou-se no meio-campo do Inter. Valdés jogou como líbero. Nada teve que fazer na baliza, adiantou-se, foi uma ajuda para empurrar os colegas. Tudo fazia parte do plano, rigoroso e frio, de Mourinho. Ninguém gosta de ver, o futebol perde, o espectáculo não agrada e o jogo torna-se num verdadeiro monólogo: vocês ataquem, precisam, nós, Inter, vamos defender. Não é, porém, qualquer equipa que resiste ao futebol incisivo, ritmado e descompensador dos blaugrana. É preciso saber fazê-lo, não cair em tentações fatais, utilizar um rigor exaustivo para secar a criatividade a Xavi, a Messi e impedir que Pedro Rodríguez ou Ibrahimovic sejam matreiros. Mourinho fá-lo como ninguém. O Inter nunca incomodou Valdés, passou o tempo no seu meio-campo. Nem precisava de mais, foi realista.

Era ao Barcelona que estava entregue o jogo. E eram os catalães quem necessitavam de marcar para seguir em frente. Afinal, o Inter já tinha cumprido a sua parte. O Barça terminou com Messi, Pedrito, Jeffren e Bojan no ataque. Ainda Piqué. Como fizera em Milão, sem que se tenha percebido muito bem a razão, Guardiola retirara Ibrahimovic. O golo surgiu. A cinco minutos do final. E foi Piqué, um central transformado em avançado, na vontade de fazer um golo a qualquer custo, quem deu esperança ao Camp Nou: recebeu a bola de Xavi, tirou Córdoba e Júlio César do caminho com uma habilidade apreciável, rematou para o fundo da baliza de nerazzurra. Estava ligeiramente adiantado mas passou. O Inter abalou. Subiu a placa com quatro minutos de descontos. Podia ser uma morte inglória. Não foi. Os italianos estão na final. Mourinho está na final.

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