Um caminho de nomes que culmina em André Villas Boas

André Villas Boas será, ao que tudo indica, o novo treinador do FC Porto. O mais jovem treinador do campeonato português, com apenas trinta e dois anos, é o escolhido de Pinto da Costa e deverá, inclusivamente, ser apresentado nos próximos dias. A confirmação da contratação de Villas Boas representará uma verdadeira ruptura com o passado recente dos dragões. A Jesualdo Ferreira, um treinador experiente e calejado no futebol português, seguir-se-á o benjamim dos técnicos da anterior edição do principal campeonato nacional, somente com carreira iniciada em Outubro, quando lhe foi confiada a missão de retirar a Académica dos últimos lugares. Mesmo com alguns sobressaltos, depois de uma fase ascendente, o objectivo foi cumprido. O Sporting, antes de Carlos Carvalhal, manifestara interesse no jovem Villas Boas. Agora, é a vez do FC Porto. Para o técnico definitivamente provar o que vale.

Paulo Bento foi um dos primeiros nomes a ser referido para a sucessão de Jesualdo Ferreira. O ex-treinador do Sporting, que quebrou o seu vínculo aos leões em Novembro passado, apareceu, logo que começaram a surgir os primeiros sinais de que Jesualdo não continuaria no Dragão, conotado com o FC Porto. Bento é um treinador que acumulou experiência nos quatro anos em que esteve em Alvalade ao comando da equipa principal, foi o lançador de jovens que actualmente estão perfeitamente consolidados, tanto no Sporting como na selecção nacional, e teve um trabalho reconhecidamente positivo, apesar de todas as dificuldades que, a cada temporada, assolaram o clube leonino. Acresce ainda que Paulo Bento tem uma postura ambiciosa, de querer e garra. O seu nome, contudo, foi perdendo força com o tempo.

Também Domingos Paciência emergiu como um dos candidatos ao comando do FC Porto. O actual técnico do Sp.Braga, um dos responsáveis máximos pela época de sucesso dos bracarenses no campeonato nacional, não parece, contudo, ainda reunir todas as condições para dar o salto na sua carreira como treinador e regressar ao seu clube de sempre, onde se formou e ganhou prestígio como jogador. Além disso, António Salvador, presidente do clube minhoto, manifestou, desde logo, vontade em manter Domingos no comando, recusando-se a perder, depois de Jorge Jesus na época passada, o treinador para um grande – há, todavia, uma cláusula fixada num milhão e duzentos mil euros que, caso fosse suplantada, permitiria ao treinador portuense abandonar o Sp.Braga. Jorge Costa, outro filho do dragão, rapidamente foi colocado de fora.

Nos últimos dias, já com a confirmação do adeus de Jesualdo Ferreira, ganhou relevância o nome de Muricy Ramalho, actualmente no comando do Fluminense, considerado como um dos melhores treinadores brasileiros – assim foi eleito entre 2005 e 2008. Muricy, o eterno rebelde enquanto jogador, agora com cinquenta e quatro anos de idade e perfeitamente consolidado como técnico, demonstra vocação ofensiva, conta com vários títulos no Brasil e é um disciplinador por natureza. Contudo, não está identificado com o futebol europeu, e, exceptuando curtas experiências no México e na China, não acumulou traquejo fora do seu país de origem. Há, porém, a intransigência do Fluminense, pois não quer libertar o seu líder técnico num momento importante do calendário brasileiro. Antes de Muricy Ramalho, já outro brasileiro, Mano Menezes, treinador que devolveu o Corinthians à Série A, havia aparecido na órbita azul.

Façamos, então, um ponto de situação. André Villas Boas, Paulo Bento, Domingos Paciência e, ainda, Jorge Costa foram os primeiros nomes ligados ao FC Porto, na perspectiva de poderem assumir a vaga deixada por Jesualdo Ferreira. Mano Menezes surgiu como primeiro estrangeiro. Por último, foi Muricy Ramalho a ganhar força. A verdade, no entanto, é que para o round final ficaram Villas Boas e Muricy. Neste duelo particular, o treinador português, apesar de ter contra si o pouco tempo de experiência, leva vantagem: é portista, conhece o futebol português, tem uma postura irreverente e ambiciosa, revela um trabalho minucioso e bebeu ensinamentos de mestres como Bobby Robson, com que entrou nas Antas pela primeira vez, e, até Outubro, José Mourinho. Será ele, por certo, o novo timoneiro dos dragões. Mais: o homem com a missão de devolver o título ao FC Porto. Terá de deitar mãos à obra.

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Opinião: Avé César e partamos para o ataque noutro local


Vamos directos ao assunto sem criar cá rodeios. As palavras intermédias ficam à porta: José Mourinho tem uma estrelinha em serviço permanente. Tem que ter. Ganha por onde passa, pode parecer mais débil em alguns momentos, mas, quando tem que o fazer, salta para a glória. É uma espécie de Rei Midas dos tempos modernos. Mourinho, onde está, é bem-sucedido. Pode não ser sempre, sim, e pode não ganhar todas as provas. Mas nunca um clube ficou desiludido por o contratar. Pelo contrário. Todos eles lamentam, com um estrangulador aperto no coração e a lágrima no cantinho do olho, como que anunciando uma desgraça próxima. Para além das tácticas, das observações, dos vídeos e do estudo exaustivo há a tal estrelinha. A relação com Mourinho é constante, eterna, duradoura. Essa protecção é a maior causa de ódio nos rivais.

O futebol é injusto por natureza. Alguém que hoje é um herói, amanhã não serve e tem as malinhas à porta para se ir embora. Os treinadores são um exemplo. Alguns trabalham, treinam, querem aprender. Sobem na carreira, ultrapassam desafios, têm a glória na ponta do nariz. E é precisamente nesse momento que o céu lhes cai em cima da cabeça. Não há um Obélix ou um Asterix para o impedir. São os chamados pé-frio. Lembra-se de alguém assim? Não? Sporting, 2005, equipa com bom futebol, Taça UEFA e campeonato perdidos em cima da meta…? José Peseiro, ele mesmo. Um bom treinador a quem falta a estrelinha para chegar mais alto. É a outra parte fundamental que eleva à imortalidade. Mourinho junta tudo isso. Por isso é que é bom e tem o que quer. Para uns a vida é cor-de-rosa. Para outros é frustrante. Some guys have all the luck, some guys have all the pain.

A sorte é um elemento indispensável. No futebol e em tudo o resto. Definir o trabalho de José Mourinho como mera consequência dessa estrelinha de felicidade, para além de ser a prova final do cepticismo extremo, é redutor e injusto. Claro que se não estivesse lá presente nunca Mou poderia ser feliz. Tal como precisa dos melhores jogadores. É evidente, tão evidente como quando os soldados da corporação de monsieur Jacques de La Palice afirmaram que se não estivesse morto seria capaz de fazer inveja, que um treinador nada ganha sozinho. E o contrário também se aplica. É essa relação de complementaridade que forma as grandes equipas. Mas que argumentos apresentarão os que defendem que Mourinho é sobrevalorizado? Que argumentos perante a glória do FC Porto, o título após meio século de jejum no Chelsea e o triplete no Inter?

O Internazionale de Milano venceu a Liga dos Campeões. Quando Javier Zanetti, o capitão incansável, ergueu o troféu ficou marcada a História. Os nerazzurros, muito mais do que a felicidade de triunfarem na principal prova europeia de clubes, o objectivo supremo de qualquer tubarão, pararam um período de quarenta e cinco anos sem vencer na Europa. Sendo pragmáticos, sendo defensivos, sendo anti-espectáculo nalguns momentos. Mas cada um joga com o que há. O Inter tem um plantel bem abaixo de Real Madrid, Barcelona ou Manchester United. Mourinho soube adaptar-se, moldar a equipa e prepará-la para a luta. Venceu. Usando os seus métodos. Não foram os mais bonitos, foram os que deram sucesso. Não foi sempre assim que os italianos, no seu cinismo e manha, jogaram? De que se queixam agora?

Ao olhar para José Mourinho, naquela sua pose de durão e de comandante máximo, vê-se que nunca está contente com o que tem. Os objectivos vão para além do óbvio, não se restringem a um país ou a um troféu. A sede de vitórias, de glória, de golpes em que tanto o critica, é o que move. Procurará sempre ser melhor. Ganhou no FC Porto. Nunca poderia ter ficado por aí. Quis ganhar noutros locais. Assumiu o Chelsea. Que não era bem aquilo que é hoje: os milhões investidos por Abramovich não tinham dado o campeonato. Mourinho, cinquenta anos volvidos, conseguiu. E renovou-o logo após. O desafio inglês, arriscado mas cumprido, ficou para trás. Chegou a Itália. Teve de viver num clima de hostilidade permanente, numa trincheira onde se meteu com os seus jogadores e apoiantes. Os outros ficaram para trás. Sucesso renovado.

Quando chegou ao Internazionale, substituindo o tricampeão Roberto Mancini, a Liga dos Campeões foi colocada no caminho de Mourinho. Era ganhá-la. Para o campeonato, para dominar internamente, estava lá Mancini e Massimo Moratti não teria necessidade de gastar dinheiro. Na primeira época, o Inter foi campeão. Na Europa mostrou debilidades e ficou-se pelos oitavos-de-final – O que é isto, Mou?. Tudo se resume a uma questão de hábito: Mourinho costuma ganhar à primeira, surpreender até, não ficar pelo mínimo. Nesta segunda época em Itália, lutando contra tudo e mais alguma coisa, sem possuir os recursos de outros, o Inter venceu a Liga dos Campeões. Era esse o objectivo, não era? Pois bem, está cumprido. Agora é hora de sair para vencer noutro lado. Resta Espanha. É aí que estará para o ano. No Real Madrid.

Florentino Pérez, o homem que puxa dos cheques milionários como quem puxa do lenço para assoar o nariz, reuniu os melhores jogadores do planeta no Santiago Bernabéu. Faltava-lhe um treinador à altura. Um estratega e, mais do que isso, um condutor de homens. Alguém com o ego maior do que todos os outros, que não deixe que os jogadores se sintam acima do clube. Junta-se a fome à vontade de comer: o Real Madrid quer títulos, Mourinho quer mais glória para ser imortal. Será mais um desafio, este maior do que todos, porque é necessário ganhar e dar espectáculo para satisfazer a plateia de Madrid. Lutando, dia-a-dia, com o Barcelona. Mourinho encara-o de frente, promete trabalhar, trabalhar e trabalhar mais um bocadinho. Estará, mais uma vez, posto à prova. Tudo para mudar o paradigma instalado. Work for the working man.

Jesualdo Ferreira: o ponto final num ciclo positivo

Jesualdo Ferreira rescindiu o seu contrato com o FC Porto. Foi somente a confirmação de um adeus há muito anunciado. O ciclo do professor à frente dos destinos técnicos dos dragões terminara. O futebol é precisamente feito desses períodos curtos, com oscilações, marcados ou por sucesso ou por inglória. Jesualdo, no FC Porto, fez um bom trabalho: em quatro anos, conquistou seis troféus, sendo tricampeão nacional – além de que, com o castigo de Pinto da Costa, foi sempre o rosto mais visível, o escudo onde bateram todas as balas, deveras importante na defesa do seu grupo. Em Portugal, os portistas dominaram, imprimiram o seu ritmo e, com maiores ou menores dificuldades, culminaram as três anteriores épocas com a conquista do campeonato, o objectivo prioritário, a que somaram boas participações, sobretudo na temporada 2008-09, na Liga dos Campeões – ultrapassando sempre a fase de grupos, ou seja, os mínimos exigíveis. Nunca sendo brilhante, o FC Porto, com Jesualdo, ganhou. Até 2010.

Desde que, no Verão de 2006, substituiu Co Adriaanse, Jesualdo Ferreira teve de se adaptar ao mau hábito de, após o final das três temporadas em que os dragões foram campeões sob o seu comando, perder jogadores de referência. Neste período compreendido entre 2006 e 2010, o FC Porto vendeu, por exemplo, Bosingwa, Anderson, Quaresma ou Paulo Assunção. Para atacar as temporadas seguintes com capital e condições suficientes para chegar ao título, aquilo que os responsáveis portistas sempre exigiram, Jesualdo Ferreira teve de apelar ao seu sentido construtivo. Quer-se com isto dizer que, mesmo perdendo pedras fulcrais, o professor viu-se obrigado a refazer a equipa, para, com o seu toque pessoal, a colocar em funcionamento perfeito para voltar a triunfar. Mesmo havendo diferenças na qualidade individual dos jogadores. Foi bem-sucedido.

No início da temporada que agora findou, coroada com a conquista do título por parte do Benfica, o FC Porto voltou, pela enésima vez, a vender jogadores fundamentais para o bom funcionamento da equipa: Lucho González e Lisandro López. El Comandante havia sido sempre utilizado, desde os tempos de Co Adriaanse que se afirmara plenamente ganhando um lugar no onze titular, e manteve ao longo dos anos um registo de qualidade e classe. Com diferenças em relação ao compatriota, Lisandro somente despontou na primeira época de Jesualdo Ferreira. Há dedo do professor na forma como apostou no avançado argentino e, ao contrário de Adriaanse, não precisou de recorrer ao mercado. Essa foi, aliás, uma área onde Jesualdo se revelou importante – um professor na verdadeira acepção da palavra. Jogadores como Cissokho, Fernando, Rolando ou, agora, Guarín são exemplos de crescimento.

O FC Porto de 2009-2010 falhou. Não conquistar o pentacampeonato seria, por si só, negativo para os dragões. Acresce ainda que nem a presença na Liga dos Campeões foi garantida, sendo que o segundo lugar permitiria o acesso às pré-eliminatórias, uma vez que o Sp.Braga, na sua melhor época de sempre, assegurou a segunda posição do pódio final. A concorrência, muitíssimo melhor em relação a épocas anteriores, foi o principal motivo para o fracasso do FC Porto – até porque, em termos estatísticos, os dragões apenas somaram menos dois pontos do que na temporada do tetracampeonato. O facto de Benfica e Sp.Braga se terem apresentado num nível elevado, mantendo uma regularidade invejável desde início, impediu a aproximação do então campeão nacional. Nem a excelente ponta final foi capaz de apagar o mau início.

Para além da melhoria dos rivais, o FC Porto fracassou por culpa própria. Neste contexto, obviamente, também Jesualdo Ferreira tem culpas. Os dragões revelaram uma estranha apatia, uma monotonia apenas abalada com uma séria adversidade, um ritmo baixo e pouco pressionante. Saiu caro. O FC Porto jogou demasiado tempo preso a um sistema previsível, gasto e sem capacidade para se superiorizar aos adversários – e é aqui que a acção de Jesualdo mais falhou. Tem responsabilidades na má campanha? Claro que sim. Tal como teve nos títulos ganhos, com extraordinário trabalho realizado na formação de jovens jogadores. No entanto, nesta campanha, o FC Porto foi assolado por lesões e houve ainda a ausência prolongada de Hulk. Jesualdo foi, ao mesmo tempo, vilão e vítima. A verdade, porém, é que FC Porto precisa de um abanão. Mudará de treinador, por isso.

Made In England: O fim da época com o Mundial à porta

Acabou a época futebolística em Inglaterra e o Chelsea fez história. Não só pelos números com que conquistou o título mas também por se ter juntado ao restrito grupo de apenas sete equipas que conseguiram a dobradinha. Frente a um Portsmouth, que, apesar de todas as dificuldades que atravessa, se bateu honrosamente, o Chelsea juntou ao título de campeão inglês a conquista da FA Cup. Com um golo do inevitável Didier Drogba, a equipa de Ancelotti colocou mais um sorriso na cara de Abramovich e de todos os adeptos dos blues pelo feito inédito no clube de Stamford Bridge, fechando assim com chave de ouro a presente época. O que nos resta agora para o Verão? Este ano, felizmente, ainda temos muito que vibrar. Entre os jogos particulares e de preparação, as movimentações do mercado e, muito em especial, o Mundial da África do Sul, não faltarão momentos emotivos e de muito interesse aos que seguem e sofrem com o futebol.

No mercado inglês predominam, neste momento, duas grandes incógnitas. Vai Fernando Torres continuar em Liverpool? E irá Cesc Fabregas sair para o Barcelona? Nenhuma destas situações se deverá resolver antes do Mundial. No caso do jogador do Arsenal, este já demonstrou a sua vontade de voltar ao clube que em tempos representou, mas não quer sair a mal. Nas suas palavras demonstra o respeito que tem por Arsène Wenger e pelo Arsenal, ao ponto de deixar nas mãos do seu actual clube a decisão de o libertar, ou não, para o Barcelona. Quanto a Torres a especulação é maior. O seu agente afirmou recentemente que ele vai continuar em Anfield Road. Contudo, quando confrontado com estas afirmações, o próprio jogador não foi convincente e até, de certa forma, se colocou à margem do que foi dito.

A fraca campanha do Liverpool na época que acabou, conseguindo apenas um sétimo lugar na Liga Inglesa, e as dificuldades que passou na Europa, com a eliminação da Liga dos Campeões na fase de grupos e a ausência da final da Liga Europa, deixam Fernando Torres, avançado espanhol, a sonhar com outros clubes. Quais clubes? Neste momento fala-se insistentemente do Chelsea, o que agrada muito ao jogador. Mas os milhões do Manchester City parecem também falar alto, ainda para mais quando é sabido que os donos do clube não são tímidos a investir.

Falemos, posto isto, da selecção inglesa. O particular frente ao México levantou algumas questões ao revelar debilidades na equipa orientada por Fabio Capello. A equipa mexicana sabe trocar bem a bola, com rapidez e precisão, o que levou os ingleses a fazer pouco mais que ver jogar, em especial na primeira parte. O meio-campo britânico não se entendeu e a ausêcia de Gareth Barry foi gritante. O médio do Manchester City, que teve um papel preponderante na fase de qualificação, está lesionado e em dúvida para o Mundial. Todos os esforços estão a ser realizados para que recupere, dada a sua elevada importância na selecção britânica.

Uma outra dúvida se levantou em relação a Wayne Rooney, a recuperar de uma lesão: estará ele em boa forma física em Junho? Ronney diz que sim e promete golos. A ver vamos. O último jogo em solo inglês terminou com uma vitória por 3-1 mas só com um pouco de sorte e sem domínio, já que, como se disse, esse pertenceu ao adversário. Capello não é um amador e de certeza vai corrigir os pontos fracos, garantindo que podemos assim esperar uma selecção inglesa competitiva e com ganas para se posicionar no restrito lote de equipas candidatas a triunfar na África do Sul. Ficamos a aguardar.


MADE IN ENGLAND é um espaço quinzenal, assinado por Armando Vieira, que incide sobre a época desportiva em Inglaterra


O MOUnstro dos troféus

Mourinho para os dragões, Jose para os blues do Chelsea, Mou para os interistas e Zé Mário para a família e amigos. No fim tudo se resume a um só nome: José Mourinho, sinónimo de sucesso e a melhor forma de conjugar o verbo ganhar. Dezassete troféus em sete anos (FC Porto, Chelsea e Inter) com duas Ligas dos Campeões e uma Taça UEFA é currículo para ser invejado por qualquer treinador e, claro, brandido pelo próprio José Mourinho, como arma de arremesso a quem conteste a forma de jogar das suas equipas. Defensivo? Pouco atractivo? Talvez seja… mas ganha e isso ainda é o objectivo final. Mourinho esteve presente em três finais europeias e venceu-as, fazendo jus ao “dogma” por ele lançado há uns anos atrás: “As finais não se jogam, ganham-se”. Missão cumprida.

Melhor treinador do Mundo? Não sei e nem isso interessa, porque ainda não foi encontrada a fórmula que possa servir para designar o melhor. Se a forma de o medir forem os títulos conquistados, Mourinho, na sua curta carreira, é já o mais titulado de todos os treinadores mundiais. É criticado pela forma pragmática como as suas equipas defendem, fugindo a um futebol bonito, atacante e atractivo, que encante os apaniguados do futebol. Desde já aqui deixo bem claro que me incluo neste capítulo, gosto de ver futebol bem jogado, mas a minha desilusão já foi muita. Adorava a forma de jogar da Laranja Mecânica holandesa, mas Alemanha e Argentina encarregaram-se de me demonstrar que o pragmatismo (Alemanha) e o contra-ataque e oportunismo de Mário Kempes (Argentina) foram melhores receitas para vencer.

Vibrei no Espanha’82 com o Brasil de seu Telê Santana, mais a magia de Sócrates, Júnior, Cerezzo, Falcão e tantos outros. Que adiantou a beleza do futebol-arte dos brasileiros, quando apanharam pela frente um pragmática Itália aliada à frieza de Paolo Rossi? Na história do futebol o que fica documentado para a posteridade são os troféus conquistados, e aí, MOU é o maior. Qual o segredo das equipas de Mourinho? Liderança forte e não partilhada. Escolha dos jogadores, que quer ambiciosos, com sede de ganhar e de chegar ao estrelato. Abraça o lema dos mosqueteiros: “um por todos e todos por um”, pegando num grupo heterogéneo de jogadores que põe a lutar pelos objectivos comuns e a remar todos para o mesmo lado. A força do colectivo é a soma dos valores individuais, nunca o “uno” se sobrepõe ao “todo”.

Trabalho, organização, método, disciplina e autoridade são os segredos de quem clama para si a responsabilidade de todo o futebol dos clubes por onde passa. Compra brigas e provoca guerras de “alecrim e manjerona”, chamando a si todas as atenções mediáticas, de molde a retirar o peso de cima dos ombros dos seus jogadores. Van Gaal afirmou após a derrota de ontem que “os meus jogadores aprenderam hoje que os jogos se ganham com pequenos detalhes”. Mourinho tinha-o dito sete anos antes. Até nisso é um adiantado mental. Se os fins justificam os meios, então Mourinho está no caminho certo para continuar a abraçar o sucesso, que já busca nos braços de outro clube, o Real Madrid. Outros desafios mas os mesmos objectivos: vencer, vencer, vencer. Mourinho é mesmo especial, porque é ganhador e a história escreve-se com o nome dos vencedores.

Análise de Bernardino Barros, comentador da Rádio Renascença

Bayern Munique-Inter Milão, 0-2 (crónica)

MESTRE, DESCULPE LÁ, MAS EU SOU ESPECIAL!…

Sobe a placa com os três minutos de compensação. O Inter vence por dois golos, tem a Liga dos Campeões na mão, o triplete está assegurado, a História marcada. O nome do clube italiano começa a ser gravado no troféu. José Mourinho sai da sua área técnica, onde viveu o jogo, o sentiu, gesticulou, onde teve toda a adrenalina própria de um duelo com tamanha carga emocional. Dirige-se ao terreno adversário. O Bayern de Munique há muito acenara a bandeirinha branca em sinal de rendição, estava entregue, não podia fazer nada para alterar a coroação dos nerazzurros. Louis Van Gaal, sempre de rosto fechado e ar de durão, mantinha-se sentado no banco. Esteve assim desde o início. Mourinho cumprimenta-o, deixa um abraço, consola um dos seus professores. Agradece o que lhe deu. Mas aquele era o seu momento.Tinha que vencer. Venceu!

Silêncio. Táctica, estudo mútuo, receio de falhar. Jogar com serenidade, sem arriscar um milímetro, sem dar azo a investidas do adversário, manter a frieza, a calma absoluta, preferir um estilo pragmático. A vontade de não perder estava lá, mais forte do que a vontade de vencer. O início de jogo foi um retrato fiel das duas equipas, Internazionale de Milão e Bayern de Munique, o resultado acima de tudo, a importância da táctica, de saber aproveitar as fragilidades contrárias, não as esperando vindo do acaso mas sabendo provocá-las, querendo atacar nos momentos certos. Mesmo que isso não seja bonito, mesmo que provoque assobios, mesmo que pareça mal. Mourinho e Van Gaal, gerações diferentes, a mesma escola. Um aprendiz querendo surpreender o mestre. Mou aprendeu e cresceu com o frio holandês. Era altura de voltar a provar a sua força.

Há jogadores que aparecem em momentos decisivos, há outros que são regulares mantendo um bom rendimento constante e há ainda aqueles que, tendo qualidade, desaparecem quando a exigência sobe e são mais necesssários. Diego Alberto Milito, avançado argentino, é o melhor que uma equipa pode ter: joga sempre em altíssimo nível, entrega-se, cerra os dentes e vai à luta, mesmo quando as coisas não lhe correm bem, e ainda emerge quando faz mais falta. Nunca se esconde. Pode estar pouco em jogo, correr muito e ter pouca bola no pé, mas está no seu sítio, no sítio certo e letal, para resolver. Marcou na Taça de Itália. O Inter ganhou o troféu. Marcou, na última jornada, quando a Roma vencia, em Siena. O Inter ganhou o campeonato, conseguiu a dobradinha, vincou a sua posição em Itália. Era dele quem mais se esperava em Madrid. Dele viriam os golos. De Sneijder a arte de criar.

DOMINA, BAYERN, EU MARCO!

O Bayern de Munique é uma equipa que gosta de ter a bola, circular, manter o controlo da situação e alargar horizontes até à baliza do adversário. É uma equipa de ataque. Com as devidas cautelas, sim, mas de ataque. O Inter aceitou o pacto. Os alemães ficam com a iniciativa, com a bola, tentam abrir brechas na defesa, trabalham para isso. Nada perdido, daí não resulta mal nenhum aos nerazzurros. O Inter, no seu estilo bem italiano, matreiro e viperino, responde com consistência, concentração e união para impedir a progressão do rival. Como se fosse um jogo de xadrez, jogando sempre em alerta, colocando o seu rei bem protegido, longe dos perigos. Cada um joga com o que tem. O Inter é forte no contra-ataque, nos remates de longe. É isso, portanto, que tem de explorar. Wesley Sneijder, por duas vezes, testou Butt. O guarda-redes alemão respondeu bem.

Um dos maiores trunfos do Inter, deste Inter de Mourinho, é a capacidade de descomplicar. Os italianos jogam um futebol simples, pouco trabalhado, rápido e eficaz como poucos. Não precisam de fazer passar a bola por todos os seus jogadores, para introduzir jogadas de cortar a respiração ou tentar satisfazer totalmente quem vê. Não encanta mas vence. Isso é o mais importante. Quatro toques chegaram para um golo: Júlio César pontapeou longo, Diego Milito, perante Demichelis, amorteceu para Sneijder, o holandês abriu para a área, de novo Milito surgiu perante Butt. Calma no avançado argentino, olhos na baliza, um alvo bem definido. Remate colocado e golo. Bem lhe poderiam chamar San Diego. Decisivo na Taça, no campeonato e, agora, na Liga dos Campeões. Quem pode querer mais deste atacante?

A VITÓRIA DE UMA EQUIPA MAQUIAVÉLICA!

Até aí, até esse golo de Milito, com os dois remates de Sneijder a anteceder, o Bayern de Munique havia tomado conta do jogo. Tal como Van Gaal dissera, a sua equipa fora ofensiva, fazendo de tudo para furar a muralha preparada por José Mourinho. Não criaram, contudo, uma verdadeira oportunidade de perigo, embora Howard Webb tenha deixado passar em claro um corte com mão de Maicon, aos catorze minutos, em plena área. O tento de Diego Milito, num momento crucial, abalou os alemães. Foi o passo decisivo para o Inter se tranquilizar. Um golo numa final, ainda para mais entre equipas de tão grande qualidade, é meio caminho andado. Ao Bayern restava responder forte, lançar-se em busca do empate, procurando anular a vantagem italiana. Esteve perto no início da segunda parte. Júlio César, gigante, tapou o golo a Muller.

Ver o Bayer insistir, atacar e manter-se passivo, não respondendo na mesma moeda, seria como entregar o jogo nas mãos do destino. O Inter nunca o poderia fazer. Logo após a oportunidade dos bávaros, Pandev obrigou Butt a uma bela defesa. O jogo ganhara intensidade no recomeço. Foi, porém, apenas um fogacho. Depois disso, tudo voltou a ser como antes: Bayern com a bola, Inter com o domínio. Arjen Robben, a figura maior dos alemães, um dispensável de luxo como Sneijder no Inter de regresso ao Santiago Bernabéu, tentou carregar a equipa, fazê-la ser incisiva, abrindo espaços. Mourinho preocupara-se com ele, tinha Chivu e Cambiasso. Neutralizar o holandês era uma das premissas do sucesso. O minuto sessenta e seis fez aparecer Robben. Conseguiu soltar-se, rematou em arco, Júlio César negou-lhe o golo com uma parada fabulosa.

O Inter de Milão pode parecer estar nas cordas, perdendo forças, deixando-se à mercê do adversário. Deixa que o rival lhe dê murros. E cresça, acreditando ser possível mudar, levando a equipa a ter de recuar e elevar a entreajuda. Como fizera em Camp Nou. O Bayern teve fé. Num momento decisivo, contudo, os italianos aplicam o golpe final. É o knock-out. É esse atributo, esse talento para resolver a seu favor quando é o adversário quem está mais perto de marcar, que dá ao Inter uma certa malvadez. Passaram quatro minutos desde o remate de Robben, o Inter saiu em conta-ataque: Eto’o teve liberdade, jogou para Milito, o argentino simulou uma diagonal, foi em frente, deixou Van Buyten pelo caminho e enganou Hans-Jorg Butt. Fez o segundo golo. Aos setenta minutos, as dúvidas terminaram: o Inter seria campeão europeu. Quarenta e cinco anos depois regressou a glória.

Todo o campeonato em tons de vermelho

Sem meios-termos, olhando em jeito de balanço ao que se jogou no campeonato nacional, sai a primeira pergunta: o Benfica foi um justo campeão? É uma tendência dizer-se que sim, que o Benfica tem muito mérito no título que conquistou, suou para isso, foi melhor do que os adversários e mereceu os festejos. Pedro Azevedo, editor de Desporto da Rádio Renascença, não hesita. A resposta é pronta, pragmática e suportada na frieza dos números: “O Benfica teve o melhor ataque, melhor defesa (a par do Sp.Braga), foi a equipa que agradou mais em termos exibicionais, a mais espectacular, com mais vitórias, menos derrotas, melhor futebol e mais regularidade. Tudo isto somado dá um justo vencedor, indiscutivelmente”, afirma. O investimento encarnado deu total retorno: Teve um plantel muito bem apetrechado sob o ponto de vista técnico, com jogadores em grande nível exibicional e também com grande regularidade”.

Apesar do seu reconhecido talento, o Benfica foi obrigado a esperar pelo derradeiro jogo para festejar. Por obra alheia. O Sp.Braga, uma surpreendente equipa que se intrometeu na luta pelo título, correndo pela História, adiou a coroação benfiquista. Os bracarenses foram guerreiros na verdadeira acepção da palavra, nunca baixaram a guarda. Para Pedro Azevedo, contudo, ainda não se pode juntar o Sp.Braga ao grupo de top nacional: “Um grande não nasce de um dia para o outro. Nasce após muitos e muitos anos de consistência: de resultados e de força social. O Sp.Braga terá de crescer em número de adeptos, de sócios efectivos, em orçamento, em apoios, em sponsors. Só dentro de alguns anos é que podemos dizer se temos efectivamente um quarto grande no futebol português”, afirma. “O Sp.Braga ainda não tem força social – basta recordar que, para encher o estádio, teve que abrir as portas e fora, quando conseguiu grandes assistências, teve que oferecer bilhetes“.

O SUCESSO DE JORGE JESUS E DOMINGOS PACIÊNCIA

Jorge Jesus é um treinador de amor e ódio. Idolatrado pelos benfiquistas que vêem nele um obreiro do título e o criador de uma equipa forte como há muito não tinham na Luz. Os adversários, claro, apontam defeitos: é arrogante, é egocêntrico, é espalhafatoso. “Goste-se ou não se goste de Jorge Jesus, daquele seu estilo, daquela sua linguagem, é um treinador de sucesso, porque pegou num Benfica que há cinco anos não ganhava o campeonato e levou-o ao título. Tem grande mérito nisso”, afirma Pedro Azevedo, ressalvando ainda a conquista da Taça da Liga. Para o jornalista da Rádio Renascença, o treinador encarnado, culminando uma subida a pulso com a conquista do título nacional, revelou-se “um excelente gestor de recursos humanos”. “Di María, Saviola, Javi García e Óscar Cardozo são jogadores que, de facto, se exibiram a um nível muito elevado; a adaptação de Fábio Coentrão também foi um sucesso; Maxi Pereira sempre foi regular”, exemplifica.

O que dizer, então, de Domingos Paciência? O jovem treinador do Sp.Braga ultrapassou o seu exame final, depois de ter estado em bom plano na Académica, demonstrando ter inúmeras capacidades como técnico e um horizonte risonho pela frente. O Sp.Braga foi uma etapa plenamente cumprida.
“Já não há palavras para qualificar um trabalho de altíssima qualiade de Domingos Paciência, é um treinador quem, degrau a degrau, vai mostrando ter grande futuro. Soube lidar com um grupo que não tem comparação em termos de orçamento com os chamados grandes, soube segurar a pressão, teve um discurso prático, dizendo que atacava o título quando o devia ter feito. Por isso, acho que foi, também, um bom condutor do projecto do Sp.Braga, o projecto possível, mas que se revelou numa época absolutamente excepcional, histórica e, desconfio, irrepetível”, diz Pedro Azevedo.

FC PORTO: UM TETRACAMPEÃO SEM ESTATUTO

O FC Porto partiu como tetracampeão. Na linha da frente. Acabou, contudo, em terceiro, suplantado pelo Benfica no título e pelo Sp.Braga no acesso à Liga dos Campeões. Em relação à época anterior, há apenas uma diferença de dois pontos. Pode o mérito dos rivais explicar o falhanço? “Eu acho que os campeonatos só são comparáveis dentro do próprio campeonato: confrontos directos, diferença de pontos, exibições e resultados que se verificam nos jogos decisivos. Cada campeonato, sua história. O FC Porto, efectivamente, soma em 2009-10 o seu pior registo dos últimos trinta anos, apenas comparável ao de 2002 (também terceiro) e ao de 1982 (quando Pinto da Costa tomou conta do clube). Só estes números dizem que a época é francamente negativa e temos que somar uma saída humilhante da Liga dos Campeões e uma derrota categórica na Taça da Liga“, relembra. Muito mais se esperaria dos dragões.

Pedro Azevedo tem uma opinião curiosa sobre o plantel azul: “Ao contrário do que foi dito, o FC Porto não ficou muito descapitalizado em termos qualitativos. Basta recordar que saíram três jogadores muito importantes – Lucho, Lisandro e Cissokho -, mas entraram três reforços e meio muito bons”, refere. “Alguns dos reforços não resultaram, mas isso acontece em todas as equipas e esses que não resultaram não são responsáveis por nada, porque praticamente não jogaram”, firma. O problema residiu, segundo Pedro Azevedo, na táctica:Pessoalmente, acho que aquilo que falhou foi a falta de afinação táctica, ou seja, o FC Porto deste ano jogou com o sistema do ano passado. Com jogadores diferentes, estilos de jogo diferentes. O FC Porto teria de jogar no esquema que utilizou nestes últimos dez jogos”, argumenta. Os verdadeiros reforços do FC Porto são fáceis de adivinhar: Álvaro Pereira, Radamel Falcao e Silvestre Varela.

“Álvaro Pereira foi uma das grandes revelações, foi o jogador mais utilizado do FC Porto com mais de quatro mil minutos e sempre numa bitola idêntica; Falcao conseguiu ser o melhor marcador desde a era Jardel e, inclusivamente, não fossem dois ou três golos mal anulados, mas são circunstâncias do jogo das quais hoje ninguém se pode lamentar – é apenas um dado estatístico – até seria o melhor marcador do campeonato; Varela, relacionando o preço e a qualidade, tratou-se de uma grande compra”, explana. Falta a meia-aquisição. É Belluschi: “Estou convencido, por aquilo que fez nesta ponta final, que, depois deste ano de adaptação, será uma confirmação”. Há, ainda, a questão de Hulk. Jogador influente, indiscutível na equipa, esteve dois meses de fora: “Ainda que também não seja uma desculpa decisiva, a ausência de Hulk, um jogador de grande peso, contribuiu para que este FC Porto tivesse sido muito diferente, para pior, em relação à última época”.

SPORTING: UM FRACASSO COM VÁRIAS CAUSAS E UM ALERTA

O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. É uma máxima popular, conhecida, referida vezes sem conta. Pode, por exemplo, sintetizar a época do Sporting: os problemas sentidos durante a pré-temporada foram um prenúncio para o que aconteceria ao longo de todo o campeonato, culminando num quarto lugar a anos-luz, traduzido em vinte e oito pontos, do primeiro lugar. Para explicar o insucesso leonino, Pedro Azevedo encontra vários motivos. Começando, justamente, pela preparação da temporada: “A equipa não se reforçou bem. Paulo Bento construiu um plantel, na minha opinião, muito curto: confiou em demasia nas pedras que tinha e não exigiu, provavelmente por falta de recursos financeiros, um plantel mais vasto, com mais alternativas para todas as posições. Seguiu-se a mudança técnica, logo houve instabilidade”, adianta. Essa insegurança não se sentiu, porém, só no plantel. Alargou-se à estrutura directiva.

Agora estabilizado com Costinha, o actual homem-forte do futebol do Sporting, os leões tiveram, durante a época, outros dois directores na chefia dos destinos da equipa profissional. “Houve mudanças de chefe de departamento do futebol e problemas internos que até passaram por alguma animosidade dentro do próprio balneário. Tudo isto, mais a irregularidade que o Sporting uma vez mais teve nesta temporada, dá uma época muito negativa, com uma larga distância em relação às equipas da frente. Eu diria inadmissível, levando em conta o orçamento e a dimensão do clube”, atira de pronto para classificar a caminhada sportinguista. E concluir com um alerta: “O Sporting esteve mal, acabou mal e já começou mal a próxima época, porque Paulo Sérgio [o novo treinador] sabe que não foi a primeira opção, essa era André Villas Boas. Saber que foi segunda escolha é uma sensação muito má”.

O PERFUME DE DI MARÍA

Posto isto, pede-se, como pergunta da praxe, o nome do melhor jogador do campeonato. “É injusto falar apenas de um”, diz, hesitante, Pedro Azevedo. Mas há um, sim: “Ao ter que eleger um jogador, elegeria Di María. Pelo virtuosismo, pela capacidade de desequilibrar, pelas paixões que desperta nas bancadas e pelo espectáculo. É um jogador raro, tem velocidade, técnica, excelente drible, excelente visão, remate fácil e é muito bom nas assistências. Dá gosto ver jogar. Não é por acaso que Maradona, de forma indiscutível, o coloca nos vinte e três e, presumo, nos onze: é um jogador que vai ser titular, pela Argentina, no Campeonato do Mundo. Ser titular na selecção argentina jogando no campeonato português prova, de facto, ser um fora de série. Di María é a grande figura do campeonato”, avalia Pedro Azevedo, elogioso para Angelito.

OS MELHORES: TOTAL DOMÍNIO VERMELHO

Depois da figura maior, o melhor em cada posição. “O guarda-redes do campeonato é Eduardo. É bom recordar que, além de o Sp.Braga ser, com o Benfica, a defesa menos batida, na fase de qualificação para o Mundial, Eduardo sofreu apenas dois golos. Não sei como é que é possível ter passado seis anos na equipa B do Sp.Braga sem que tenha sido chamado para guarda-redes titular”, interroga-se Pedro Azevedo, ressalvando o valor daquele que foi um dos principais suportes da sensacional caminhada do Sp.Braga e será o número um da selecção portuguesa na África do Sul. Progredindo no terreno, deixando a baliza, há a defesa. E David Luiz: “Só uma vez é que a FIFA teve a infeliz ideia de eleger um defesa como melhor jogador do Mundo, acho que foi uma ideia muito má, mas David Luiz é um dos melhores jogadores deste campeonato, muito melhor do que Luisão. Dunga [seleccionador brasileiro] francamente a dormir”, atira.

Do defesa saltamos para o goleador. Óscar Cardozo e Radamel Falcao travaram, ao longo de todo o campeonato, um duelo à parte, intenso e vibrante na corrida pelo prémio de melhor marcador. Tacuara levou a melhor em cima da meta, confirmando o prémio na partida do título. Pedro Azevedo também lhe dá preferência: “Ainda que toda a gente elogie Falcao – foi uma revelação: sem adaptação, sem férias, um ano e meio seguido a jogar -, mas, para mim, Cardozo está acima. É, de facto, um jogador que eu gosto muito, porque tem grande porte atlético, tem um pé esquerdo fabuloso, tem um remate fulminante. É o goleador do campeonato, foi o número um nos golos. Falcao é um jogador diferente, é menos posicional”, argumenta, mostrando também admiração por aquilo que El Tigre conseguiu na sua primeira época em Portugal.

Se Cardozo é o artilheiro, o ponta-de-lança que vive de golos, Di María, o eleito de Pedro Azevedo para destaque do campeonato, é o avançado. Não o que marca golos, o que inferniza as defesas: “Di María como avançado, pela versatilidade, brilhantismo, fintas, exuberência, qualidade e slalons inesquecíveis”. O jovem argentino foi um jogador que encheu as medidas aos adeptos portugueses. Na eleição para melhor médio, o voto de Pedro Azevedo vai para Aimar. El Mago não teve uma presença assídua, foi gerido por Jorge Jesus devido à sua condição física, mas revelou-se fundamental em momentos decisivos. “É um jogador que particularmente gosto muito e trata a bola de uma forma que, muitas vezes, merece o preço do bilhete”, conclui o jornalista da Rádio Renascença. Para Pedro Azevedo, estes foram os melhores da Liga.