Análise: A entreajuda na base da vitória

O clássico entre FC Porto e Benfica não foi um grande jogo de futebol. Dificilmente, por tudo o que separa os dois clubes, o seria. Não deixou, no entanto, de ter uma enorme intensidade, emoção e bons registos individuais. Foi um jogo vibrante e incerto, com suspense, à Hitchcock. O FC Porto ganhou bem. A expulsão de Fucile, aos cinquenta e dois minutos, poderia ter feito ruir a estrutura portista, deixar a baliza de Beto à mercê do Benfica, motivar os encarnados para chegarem ao empate. Um ponto valeria o título benfiquista. O FC Porto tinha um golo de vantagem, sim, mas com menos um elemento tudo poderia virar do avesso. Não foi assim. Os dragões transformaram as fraquezas em forças, mostraram alma, querer, garra e uma enorme vontade de triunfar. Havia uma raiva para ser libertada, uma vontade de travar a anunciada festa do grande rival. Uma questão de princípios.

Minuto noventa e três. Olegário Benquerença apita pela última vez no clássico. Chega a confirmação da vitória do FC Porto, suada mas justa. Por essa altura, já o Sp.Braga vencera, em casa, o Paços de Ferreira. A festa do Benfica, preparada para o Dragão, fica em stand-by. Os dragões festejam: os adeptos erguem cachecóis, os jogadores felicitam-se mutuamente pelo triunfo, termina a pressão trazida pelos minutos finais perante as investidas do Benfica. Comemora-se como se o FC Porto voltasse a ganhar um título. Não é. Pelo contrário. Apesar da vitória, os dragões sabem que irão ficar de fora da pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Chegar ao segundo lugar seria improvável, mas uma derrota do Sp.Braga aumentaria a disputa. Pode-se dizer que foi um dano colateral anunciado, pois acima disso estava o prestígio do FC Porto. Não ficou abalado pela festa alheia.

Não estranha, por isso, que a vitória do FC Porto tenha sido tão festejada. Não foi somente um triunfo sobre o Benfica, grande rival, amealhando três pontos numa ponta final de campeonato boa, mas sem resultados práticos na classificação. Tratou-se de um triunfo que impediu a coroação dos encarnados no Dragão. Houve espírito de luta, abnegação e um sentido de entreajuda verdadeiramente notável. Após ter ficado com menos um jogador, sobressaiu a capacidade do FC Porto, tão frágil e passivo noutros jogos, tão forte e convicto neste clássico. Com a expulsão de Fucile, Jesualdo Ferreira agiu de imediato. Teria, forçosamente, que o fazer. Para conservar a estrutura defensiva, o treinador sentiu necessidade de intervir. E fê-lo da melhor forma: retirou Raúl Meireles, exibição cinzenta, e lançou Miguel Lopes.

O empate saído dos pés de Luisão, num lance em que os dragões revelaram grande apatia defensiva, pareceu ter sido o mote para mudar o jogo. Aí, sim, o Benfica acreditou que estava em condições de vencer, até porque havia ainda mais de meia-hora pela frente. A resposta do FC Porto foi a melhor que poderia haver. Os portistas ganharam nova vantagem. Voltou tudo a ser como antes. Ernesto Farías rodou sobre Luisão, encarou Quim e rematou certeiro. El Tecla não esteve muito presente no jogo, mas doi decisivo. É isso, afinal, que se pede a um avançado. Logo após ter marcado, foi substituído. Jesualdo Ferreira colocou Rodríguez em campo, deixando de jogar com um ponta-de-lança fixo, preferindo apostar na velocidade e explosão. Jorge Jesus respondeu com a entrada de Pablo Aimar (Saviola: regresso apagado). E logo após Weldon (Javi García).

Era tempo de o Benfica procurar um golo. Jesus, no banco, pretendeu dar maior acutilância à equipa – entraria, ainda, Alan Kardec (Carlos Martins). Notou-se, contudo, a ansiedade de querer marcar, fazê-lo rapidamente, e isso tirou a capacidade racional necessária. Faltou Di María, sobretudo, para auxiliar Cardozo. Dois jogadores que entraram, Aimar e Weldon, tiveram o golo nos pés: Beto, autor de exibição segura, negou-o a El Mago; o avançado não aproveitou a falha defensiva azul. Pelo meio das oportunidades encarnadas, Freddy Guarín, um médio em crescimento e autor de uma belíssima prestação, acertou na trave. O FC Porto servindo-se da sua principal arma, o contra-ataque, poderia ter fechado o jogo nesse lance. Dois minutos passados após a perdida de Weldon, Belluschi (assistências nos dois primeiros tentos) sentenciou o clássico: túnel sobre Aimar, olhos na baliza, remate forte, enfim, um golaço. Chapeau!


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3 thoughts on “Análise: A entreajuda na base da vitória

  1. Eu não percdbo para quê tantas guerras nem sei quando elas vão acabar para bem do desporto será que as pessoas ligadas ás claques com estes tristes episódios só aafastam as pessoas dos eventos desportivos?

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