Opinião: Os bons malandros do Benfica


Nos bons malandros de Mário Zambujal havia um pacífico, um justiceiro, um doutor e um figurante. Este Benfica é também um conjunto de bons malandros. Aimar, por exemplo, pode perfeitamente ser O Pacífico. El Mago é um jogador de grande valia, talentoso como poucos, capaz para desbloquear situações de aperto, dar alegrias, ser a chave da glória. Não tem o fulgor de outrora, o físico não acompanha a mente, a cabeça quer mas o corpo não deixa, é um jogador delicado. Não pode jogar sempre. Ao longo de toda a época, a situação de Aimar, a sua utilização ou não, foi irregular. Jogou aqui, desapareceu ali e reapareceu em grande. Não foi constante na equipa ao longo da época, Carlos Martins destacou-se. Nem por isso perdeu força. Bem pelo contrário, só beneficiou com o facto de haver alternativas. E percebeu-o. Conhece as limitações. Por isso foi pacífico, não contestou.

Óscar Tacuara Cardozo está na área. Parado, lento, pouco móvel. Recebe a bola nos pés. No alto do seu metro e noventa e três parece desleixado. É corpulento e pouco hábil. Prepara o pé esquerdo, olha para a baliza, encontra um espaço vazio e puuum!. O público exulta, salta das cadeiras, ergue bandeiras, festeja. Cardozo dispara para saborear o momento. Foi golo. Cedo cai a capa de não ter pézinhos para jogar futebol. Há ali muito talento. Não lhe peçam dribles, jogadas de encantar, passes de letra para rasgar as defesas adversárias, toques em habilidade. Para isso, no Benfica, estão lá Di María ou Pablito Aimar. A Cardozo só se pedem golos. É o trabalho dele, o que realmente sabe fazer, onde é bom a valer. E ainda continua a ser visto de lado por alguns adeptos benfiquistas: não tem pé direito, não aproveita a altura, é paradão...

Ser o melhor marcador de uma equipa, contribuir com golos decisivos, dois deles na festa do título marcados com… ambos os pés!, e não merecer total crédito dos adeptos deve ser frustrante. É como trabalhar e trabalhar, fazer bem a função, por vezes não conseguir ser sempre melhor do que os outros, ter um dia mau, e não ver esse trabalho recompensado por quem está de olho atento. Nem uma palmadinha nas costas, um bom trabalho!, um cumprimento, nada. Cardozo está nessa posição. Foi o melhor marcador do campeonato e da Liga Europa. Apesar de não ser plenamente reconhecido como um dos heróis do Benfica, marcou, ao todo, trinta e sete golos. Mas, como no livro, também aqui há um O Justiceiro. Chama-se Jorge Jesus. Acreditou sempre, sempre, até quando Cardozo não correspondeu e perdeu confiança. Ganhou a aposta.

Na temporada passada, com Quique Flores, Cardozo estava no banco. Tinha à sua frente David Suazo, avançado móvel, rápido, perfeito para encaixar na filosofia do treinador espanhol. O Benfica pretendia dinâmica, não centralização do seu futebol num único jogador que deveria resolver tudo sozinho. Seria arriscado. Quando a época se aproximava do fim, com Suazo lesionado e sem nada para o Benfica conquistar, Quique deu uma oportunidade a Cardozo. O paraguaio correspondeu. Sabem como? Marcando golos – não era difícil de acertar. Quique Flores terá percebido o seu erro. Não havia volta a dar. Com Jorge Jesus, o tal justiceiro, Tacuara conseguiu a sua melhor época de sempre no Benfica, foi produtivo como nunca, fez sonhar os encarnados. A justiça de Jesus alarga-se a David Luiz. Antes imaturo, agora uma pérola.

Na temporada passada, com Quique Flores, David Luiz estava no banco. O Benfica estava carente de um defesa-esquerdo, o treinador espanhol deslocou o central, apostou na sua ideia, levou-a até ao final. Esta época, em Liverpool, Jorge Jesus fez o mesmo. O resultado foi o mesmo, sem tirar nem pôr, desagradável em ambos: o Benfica não ganhou um lateral, perdeu um central de imenso valor. David Luiz tem culpa? Não. A posição dele há-de sempre ser a de central, não lhe peçam o mesmo rendimento, alto, em dois lugares diferentes. Os treinadores é que foram malandros ao colocá-lo onde não deviam. Em Jorge Jesus, contudo, foi apenas essa vez em Anfield Road. Do potencial de David Luiz nunca ninguém duvidou. Sempre foi bem visto, acarinhado, predilecto dos adeptos. Tinha falhas. Jorge Jesus moldou-o. Tem mérito nisso.

Di María é um bom malandro no real sentido da expressão. Ar de despreocupado, cara desprevenida, alegria estampada nos olhos por ver uma bola à frente. Corre atrás dela. Tem-na nos pés, vai avançar, joga no pé esquerdo, finta um adversário, ergue a cabeça e remata. A bola entra. Culmina uma jogada individual, artística, sem as tácticas na mente, só pensando em ser belo para quem vê e eficaz para quem está no banco a gesticular. Todos ficam a ganhar. É um jogador sensacional, com passes de letra e remates em arco pelo meio, cresceu muitíssimo, alia a genialidade à eficiência, está um doutor da bola. O Doutor. Por vezes ainda cai na tentação de tentar abrilhantar o que por si só é incomum, quer dar um toque a mais, perde-se na imaginação de tantas fintas. Mas é algo cada vez mais raro de acontecer. Porque, mesmo malandro, sabe bem o que quer.

Falta O Figurante. Não que aqui seja alguém mal-sucedido ou incapaz de sonhar com voos mais altos, tal como era Arnaldo. Figurante, aqui, pode ser Javi García. Não foi um actor principal na caminhada do Benfica, nessa longa-metragem para o título nacional, viveu na sombra de outras estrelas com maior brilho, mas foi de extrema importância. Jogou sempre que esteve disponível, não se viu ultrapassado, manteve a bitola elevada. Javi García funciona como suporte desta equipa do Benfica, como elo de ligação entre a defesa e o ataque, é ele quem começa a destruir e a construir. Mas tal como Quim, por exemplo, aparece em segundo plano. É, apesar disso, um jogador fundamental para o equilíbrio, a segurança e a dinâmica do Benfica. Nem todos, contudo, podem aparecer na linha da frente. Uma equipa é precisamente isso: a união entre estrelas e figurantes.

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