Mundial 2010: O que se jogou na África do Sul

O Campeonato do Mundo de 2010 começou há uma semana e dois dias. Jogaram-se, neste período, vinte e seis jogos. Nove deles resultaram em empate. Desde cedo se percebeu que este seria um Mundial diferente. Realizado pela primeira vez no continente africano, na África do Sul, ficou marcado, à partida, pela propalada insegurança e pelas enormes diferenças existentes com a realidade europeia a que nos habituamos. Surgiram as vuvuzelas, com o seu ruído ensurdecedor, e a Jabulani, a bola oficial criticada por todos, sobretudo pelos guarda-redes, que é acusada de causar sérios danos. Em nove dias de prova, com surpresas, bons momentos e verdadeiros frangos pelo meio, o certo é que os adeptos de futebol ainda não assistiram a espectáculos verdadeiramente envolventes. Contudo, as amarras da primeira jornada, demasiado conservadora, parece estarem a perder força. O futebol só tem a ganhar. E os adeptos.

Um apuramento e um hat-trick argentino.
A Holanda, com duas vitórias, foi a primeira equipa a garantir o apuramento para os oitavos-de-final do Mundial. Mesmo não deslumbrando, como a Holanda do Euro 2008, a Laranja Mecânica venceu a Dinamarca e o Japão, conseguindo o passaporte para seguir em frente. Gonzalo Higuaín, avançado argentino, entrou na história do Mundial 2010 como o primeiro jogador a conseguir um hat-trick. Na segunda jornada, no grupo B, a Argentina confirmou as indicações deixadas com a Nigéria, mostrando-se candidata, e, mantendo a ofensividade e a descomplexidade própria de Maradona, venceu a Coreia do Sul, com um enorme contributo de Higuaín – o último a marcar três golos, no Campeonato do Mundo da Ásia, havia sido Pauleta, na partida frente à Polónia, na única vitória portuguesa na fase de grupos (4-0).

Favoritos? Mostrem-no!
Campeã mundial, elenco de estrelas, grande candidata à vitória, inédita, no Mundial da África do Sul. A Espanha foi apontada, a par do Brasil, como selecção com mais créditos para chegar longe e poder ambicionar uma triunfo em 2010. Mas começou mal. Perdeu, surpreendentemente, frente à Suíça, num golo de Gelson Fernandes, trapalhão e feliz, que travou a euforia espanhola. Ottmar Hitzfeld, o experientíssimo seleccionador da selecção helvética, preparou um plano, com duas linhas bem compostas, que taparam espaço e impediram que os espanhóis, com Xavi e Iniesta, colocassem em prática o seu futebol rendilhado. Os suíços atiraram areia para o carrossel espanhol. Foi um revés, um alerta, na estreia no Mundial – há ainda jogos com Honduras e Chile. Espanha tem valor certo mas há que o provar. Só assim poderá ser mesmo candidata.

Entre margens: bom e mau.
A Alemanha começou em grande: vitória, boa exibição, goleada. Foi, aliás, a primeira exibição a conseguir um resultado gordo, quebrando a monotonia, num triunfo, por quatro golos, sobre a Austrália. Dos crónicos candidatos, a par da Argentina, foi quem melhor confirmou as credenciais. No segundo jogo, com a Sérvia, quando se esperaria que os alemães mantivessem a boa fase e dessem um passo fundamental rumo ao apuramento, a selecção de Joachim Löw deixou-se surpreender. Os sérvios, comandados por Radomir Antic, num jogo intenso e vivo, chegaram à vantagem e conseguiram manter a vitória até final – pelo meio, Stojkovic, guarda-redes ligado ao Sporting, parou uma grande penalidade de Podolski. Os alemães, que tão bem haviam estado, claudicaram. O terceiro jogo, frente ao Gana, será decisivo. Os ganeses lideram.

Tradição ou fragilidade?
Parece sina: a Itália começa mal. Ora, isso não é sinónimo de uma participação desastrada e mal-sucedida. Apesar de arrancar mal, conseguindo pouco mais do que os mínimos na fase de grupos, os italianos emergem nos jogos a eliminar. O expoente máximo de uma falsa partida que terminou em glória para a selecção transalpina foi dado no Mundial de Espanha, em 1982, quando a Itália, com Paolo Rossi, completou a fase de grupos com três empates e conseguiu, depois, vencer o título mundial. A entrada no Mundial 2010, seguindo a tradição, também não foi feita com o pé direito: a selecção comandada por Marcello Lippi, campeão mundial em 2006, não foi além de um empate, a um, frente ao Paraguai. O resultado de estreia, numa exibição sempre num futebol à italiana, não satisfez. Só para manter a tradição ou, agora, um sinal de fragilidade?

Ao pé coxinho.
De Portugal, sobretudo em termos exibicionais, esperava-se bem mais. Os portugueses, na estreia ante a Costa do Marfim, mostraram pouca garra, pouca vontade de arriscar e imenso medo em começar com uma derrota. Seria sempre mau fazê-lo, naturalmente, ainda para mais frente a um adversário directo no que toca às contas do apuramento. Na segunda jornada, na partida com a Coreia do Norte, considerado como adversário mais frágil mas que causou algumas inesperadas preocupações ao todo-poderoso Brasil (vitória, exibição satisfatória), a selecção portuguesa terá de jogar de forma mais aberta para que consiga uma vitória. Da Costa do Marfim, jogando no erro de Portugal, também era expectável algo mais, até pela classe dos jogadores daquela que é tida como a melhor equipa africana. Precisam de mais.

A desilusão.
A França é a maior desilusão. Equipa apática, amorfa, sem assomo de alegria, incapaz de fazer frente às adversidades. À imagem de Raymond Domenech, tristonho e carrancudo, um seleccionador nunca bem visto e agora alvo principal da ira dos adeptos franceses, envergonhados pela prestação da sua equipa. Nada de acordo com o prestígio, o estatuto e o historial que os gauleses, finalistas vencidos do último Mundial, possuem. Num grupo, onde à partida seriam os principais favoritos a garantir a passagem, apesar da chegada atribulada à África do Sul, com México, Uruguai e África do Sul, os franceses coraram pelas más prestações. Um nulo com os uruguaios e uma derrota, inapelável, frente aos mexicanos, uma boa surpresa, deixam a França em maus lençóis. Há que ganhar e esperar. Au revoir, Raymond?

Os destaques sul-americanos.
A Argentina, embora ainda não tenha assegurado a passagem aos oitavos, mostrou bom futebol, sempre colocando os olhos na baliza adversária, e alcançou duas vitórias: uma sobre a Nigéria e outra, robusta, frente à Coreia do Sul. Está fortalecida e muito próxima da passagem. A agora selecção de Diego Armando Maradona tenciona repetir os feitos no México, quando tinha El Pibe como estrela. Para além dos argentinos, há ainda Uruguai e México, selecções que ocupam os dois primeiros lugares, com quatro pontos, no grupo A – um empate, quando se defrontarem na última jornada, permitirá a passagem a ambos. Também o Paraguai, que empatou com a Itália, e o Chile, que lidera o grupo da Espanha, surpreenderam na primeira ronda. Resta perceber se terão capacidade para dar continuidade.

Bronca: Anelka e Domenech.
Raymond Domenech, ainda seleccionador francês, com a continuidade riscada em detrimento de Laurent Blanc, é um homem difícil. Sempre foi. Para os franceses, apesar de ter chegado à final em 2006, nunca foi bem visto. Provocador, incompreensível nas palavras e nos actos, pouco claro para explicar as suas opções. Num período tão conturbado para os gauleses, é sobre si que recaem grande parte das críticas dos apaixonados adeptos. Domenech, ante o México, necessitava de arriscar, não o fez, deixou Henry e Anelka no banco. O avançado do Chelsea insurgiu-se contra o seleccionador, contestou-o, insultou-o e recusou-se, depois, a pedir desculpas. Recebeu, claro, guia de marcha para regressar ao seu país. Sinal evidente das dificuldades sentidas pela França devido ao seu desastrado arranque na prova.


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