Mundial 2010: Portugal-Brasil, 0-0 (crónica)

UM NULO, SORRISOS E FESTA EM PORTUGUÊS

O Brasil é um papão mundial, pentacampeão, declarado favorito a triunfar na África do Sul. Portugal, no máximo, pode ser um papãozinho. A selecção portuguesa procura emancipar-se, afirmar a sua posição e dar largas ao seu talento. Mantém-se, contudo, ainda atrás das grandes potências, onde o Brasil aparece logo à cabeça, que fazem do título mundial um objectivo. A primeira ideia, quando se defronta alguém com capacidades superiores, passa por ter alguma contenção. Refrear os ímpetos, adoptar uma nova estratégia, reconhecer que uma luta igual pode dar mau resultado. Jogar com mais expectativa, deixando que o adversário tenha a iniciativa, esperando para ver o que o jogo dá. Ou, aproveitando as ligações entre os dois países, tentar um pacto de não agressão.

Carlos Queiroz revolucionou a equipa nacional. Eram esperadas mexidas, sim, mas não tantas como as que o seleccionador nacional implementou. Em relação ao último jogo, sem dar importância ao ditado que diz que em equipa que ganha não se mexe nem uma unha, até porque o apuramento só fugiria com algum acontecimento sobrenatural, Miguel deu o seu lugar a Ricardo Costa, Pedro Mendes foi substituído por Pepe, Danny e Duda relegaram Simão e Hugo Almeida para o banco. Portugal entrou com cautelas. Queiroz privilegiou a consistência defensiva, deixou Ronaldo na frente de ataque, explorando a velocidade da estrela maior, e preencheu o meio-campo, colocando Pepe, tanto tempo depois, para lhe dar mais músculo. Dunga, sem Kaká e Elano, optou por Júlio Baptista e Dani Alves. Lançou ainda Nilmar, um joker para acompanhar Luís Fabiano, deixando Robinho de fora.

Entre portugueses e brasileiros não há meias-tintas. Entendem-se bem, falam a mesma língua, ambos sabem o que querem. O apuramento, consumado para o Brasil e quase confirmado por Portugal, não obrigaria os treinadores a arriscar. Precisavam, apenas, de cumprir noventa minutos. Tendo já a mente nos oitavos-de-final, com temor da Espanha, embora sem possibilidades de saberem qual a melhor classificação para evitar um possível confronto com os espanhóis, tanto Carlos Queiroz como Dunga quiseram experimentar novas soluções. Portugal deixou a iniciativa do lado do Brasil: joguem, corram, circulem, nós estamos aqui para impedir o vosso sucesso. O plano resultou: os brasileiros tomaram conta da bola, jogaram de pé para pé, procuraram progredir e Portugal, sempre consistente, impediu-o. Um jogo do rato e do gato.

CONSISTÊNCIA: PALAVRA-CHAVE

Em teoria, sempre que não há pressão, o jogo é mais agradável. As equipas ficam mais soltas, mais alegres, mais disponíveis para jogarem bom futebol. O Portugal-Brasil foi assim? Não. Sobretudo, já se disse, pelas diferenças qualitativas entre as duas selecções. A equipa portuguesa da última vez que defrontou os brasileiros saiu vergada a uma derrota pesada, sofrendo seis golos, servindo para vincar o longo caminho que ainda tinha, nessa altura, a percorrer. Desta vez, num meio tão diferente como é um Campeonato do Mundo, importava deixar boa imagem. Daí que o jogo tenha sido enrolado, amarrado e fechado. O Brasil, também sem ter que fazer muito para vencer, procurou servir-se da rapidez de Maicon, um lateral verdadeiramente essencial no ataque. Fábio Coentrão, crescido, encheu o peito e respondeu à letra. Estava dito: por ali, não passaria.

A preocupação de Carlos Queiroz com as incursões de Maicon ficara estabelecida na equipa inicial. Ao colocar Duda como médio, jogando sob a esquerda, o seleccionador nacional quis certificar-se de que não faltaria ajuda a Coentrão. Com vigia permanente, o lateral do Benfica teria, ainda, oportunidade para tentar criar perigo. Deu, até, para se inverteram os papéis: Fábio Coentrão correu, fintou, deixou Maicon para trás e cruzou para a área. O lance levava perigo, mas Júlio César, imperial, pôs-lhe cobro. Logo após, para mostrar que a selecção portuguesa não seria apenas uma muralha aos avanços brasileiros, Tiago, após sensacional jogada de Coentrão, rematou para fora. O Brasil ficou em sentido. Com Júlio Baptista no lugar de Kaká, dois jogadores bem diferentes, os brasileiros perderam imaginação, magia e criatividade. Notou-se.

OS PACTOS SÃO PARA SER LEVADOS ATÉ AO FIM

A selecção brasileira, com dificuldades em ligar o seu jogo, esperando por um clique de génio, apenas aparecera realmente em dois remates de Dani Alves. Era tempo, então, já depois das ameaças portuguesas, de Eduardo ser colocado à prova: Maicon ganhou espaço a Fábio Coentrão, cruzou largo, a bola passou toda a área, Ricardo Costa dormiu na parada e Gilmar, oportuno, obrigou o guarda-redes português a uma defesa brutal. Os brasileiros voltaram, minutos depois, a deixar o seu aviso. Aproveitando, de novo, uma descoordenação entre Ricardo Carvalho e Ricardo Costa, o central e o lateral, Luís Fabiano cabeceou ao lado. Sem ser muito incisivo ou pressionante, o Brasil foi mais perigoso. A dureza, virilidade até, instalou-se a cada jogada. Pepe e Felipe Melo, por exemplo, envolveram-se em picardias constantes.

Dunga, apercebendo-se da agressividade colocada em campo por Felipe Melo, lançou, ainda antes do intervalo, Josué. Na prática, contudo, nada mudou. Nem nas filosofias de ambas as equipas. Carlos Queiroz, após o descanso, tentou dar maior ofensividade à equipa portuguesa. Afinal, o Brasil estivera titubeante, algo desconexo, sem imprimir um ritmo alto. Portugal poderia, se aliasse um maior poder ofensivo à coesão defensiva, ambicionar marcar. Para isso, até porque Fábio Coentrão já mostrara que estava à altura de Maicon, retirou Duda, um jogador posicional, lançando Simão. A equipa cresceu, melhorou, passou a ter mais bola no território adversário. Dispôs, depois, da sua melhor oportunidade: Raúl Meireles, o talismã da Bósnia e da partida com a Coreia, esteve pertinho de marcar. Júlio César foi assombroso.

Portugal ficara mais confortável. Com mais espaço, sem ter de seguir os jogadores brasileiros para todo o lado, a selecção nacional ficou com o jogo na mão. Isso, contudo, pode servir de pouco em futebol. Carlos Queiroz, pragmático e fiel aos seus princípios, retirou Pepe (bom jogo no regresso, com alguma dureza) e lançou Pedro Mendes. Com as alterações, Portugal aproximou-se da equipa que massacrara a Coreia do Norte. O Brasil, sem a força colectiva ou a inspiração individual capaz de resolver, trocou a bola, percebeu que muito dificilmente marcaria e aceitou, com todo o agrado, o empate. No final, para os guarda-redes voltaram a ser protagonistas, Danny e Ramires tentaram a sua sorte. Júlio César e Eduardo, senhoriais, levaram o pacto até ao fim. O último apito sentenciou o nulo. E trouxe muitos sorrisos à festa lusófona.


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