Selecção Nacional: Passado, presente e futuro

Frio, distante e pouco mobilizador. Carlos Queiroz é assim. Será sempre o professor metódico, estudioso, observador e teórico. O seleccionador nacional acredita no seu trabalho. Percebe como joga o adversário e traça um plano de jogo, conhecendo as qualidades e os defeitos da sua equipa, para que tenha condições de ser bem-sucedido. O trabalho de Carlos Queiroz é lembrado sobretudo pelas conquistas de dois títulos mundiais de juniores. Contudo, enquanto treinador principal de equipas de topo, em seniores, Queiroz nunca teve realmente sucesso. Vive até com o estigma de pé-frio. E talvez seja um pouco. Portugal, no Mundial 2010, ficou-se por um nível razoável. Não se pode dizer que tenha sido um fracasso, porque a passagem aos oitavos-de-final, o objectivo principal, foi conseguida com comodidade, mas também ficou bem longe do que os adeptos queriam e a selecção nacional podia. Sobretudo devido à postura utilizada.

Em tudo são necessárias rupturas. Quando algo não está bem, o balanço é mau e é imperativo adoptar outra mentalidade, totalmente diferente, romper com o passado aparece como única via possível a seguir. Há, contudo, situações em que uma ruptura, alterando a filosofia, não é o mais indicado para o presente. Luiz Filipe Scolari, campeão mundial na Ásia pelo Brasil, chegou a Portugal com a missão de virar a página. A selecção portuguesa, indisciplinada e fracassada no Mundial, necessitava de mudanças profundas. Com outros rostos, com outros métodos, com outras ideias. Scolari, o Sargentão, chegou com força, impôs-se, mesmo encontrou guerrilhas, e construiu na selecção nacional um núcleo duro que protegeu e guardou até ao fim. Nunca teve uma preocupação com o futuro, com a renovação da equipa, com o facto de muitos dos principais elementos, os últimos resistentes da Geração de Ouro, estarem próximos de abandonar.

Luiz Filipe Scolari foi um treinador contratado para obter resultados imediatos. Portugal não conseguiu nenhum título, sim, mas foi vice-campeão europeu, desperdiçando uma oportunidade única de entrar verdadeiramente na História, e conseguiu um honroso quarto lugar no Campeonato do Mundo de 2006. Ficou para trás toda a decepção e todos os problemas resultantes do Mundial da Ásia. Um dos principais méritos do seleccionador brasileiro esteve na forma como soube lidar com a mente dos jogadores e dos adeptos portugueses. Mostrou fé, alma, pediu bandeiras na janela, puxou pelo país, colocou o futebol no centro das prioridades e, aproveitando o facto de Portugal ter ganho a realização do Europeu de 2004, foi capaz de criar uma gigantesca onda de apoio aos jogadores. O carácter, a ambição e a chama da selecção nacional foi notória. E serviu, em muitos momentos, para vencer. Só que aos poucos foi-se perdendo.

O futebol, como tudo, é feito de ciclos. O de Scolari chegou ao fim em 2008. O futebol português entrara numa quebra, a selecção ressentiu-se. O seleccionador deixou de ter a mesma disponibilidade. No Europeu, onde Portugal partia com esperança de voltar a chegar à final, a selecção nacional ficou-se pelos oitavos-de-final, caindo aos pés da Alemanha. O reinado de Scolari, com tudo de bom e mau que isso significa, terminara. Foi principalmente após a saída do treinador brasileiro que se levantaram as maiores interrogações em torno da selecção portuguesa: como seria sem Figo, sem Rui Costa, sem Pauleta, sem Costinha, sem tantos outros de elevada importância para Luiz Filipe Scolari? O futebol português caracteriza-se, além disso, pela sua importação. O expoente máximo da falta de recursos existentes em Portugal foi a inclusão, ainda sob o leme de Scolari, de Deco e Pepe, brasileiros naturalizados portugueses.

A saída de Scolari é uma boa situação, leitor, de onde não é necessário ruptura. Apesar de nada ter conquistado, com Felipão, Portugal ganhara um novo fôlego e abrira horizontes. No entanto, como já se disse, deixara a formação para trás. Daí que, por exemplo, a posição de avançado e de lateral-esquerdo se afigurassem como duas das maiores preocupações. Importava, sim, preencher essa lacunas, nunca romper com o passado – afinal, fora um bom trajecto e o caminho a ser seguido passaria, acima de tudo, pela cimentação e fortalecimento da posição da selecção nacional. Ao contratar Carlos Queiroz, a Federação Portuguesa de Futebol demonstrou essa preocupação: o treinador português trabalha bem com jovens, tem experiência e seria a pessoa indicada para renovar a selecção nacional. Para isso precisaria de tempo e margem de manobra. A verdade, porém, é que Queiroz nunca a teve. Entrou logo em competição a doer.

Scolari é um homem de paixões. Emotivo, impulsivo e mobilizador. Carlos Queiroz é o contrário: mais frio, mais pragmático, mais ponderado e mais contido. Toda a onda de entusiamo que se criara com o treinador brasileiro, embora diminuindo com o tempo, perdeu-se definitivamente com a entrada de Queiroz. Mesmo quando o horizonte de Portugal pareceu verdadeiramente negro, sem a África do Sul pelo caminho, Carlos Queiroz manteve a esperança de como, no final, Portugal conseguiria o seu objectivo. Poderia ser o único a pensá-lo, mas estava confiante porque acredita no que faz. O problema é que a maioria dos adeptos portugueses, fervorosos e apaixonados, tinham em si instalada a descrença. Mas Portugal, com tropeções e quedas no caminho, conseguiu apurar-se para o Mundial. Foi bom, o objectivo alcançado, apesar dos percalços. A fé, contudo, perdera-se.

UMA AMBIÇÃO DISFARÇADA E UMA QUESTÃO PARA O FUTURO

A divulgação dos vinte e três eleitos para o Mundial da África do Sul foi um prenúncio: jogar à defesa. E confirmou-se. Portugal encontrou adversários fortes, excepção feita à Coreia do Norte, motivadores de todo o respeito – Costa do Marfim é uma selecção que se equivale à portuguesa, Brasil e Espanha estão acima. Em todos eles, a estratégia foi a mesma: equipa expectante, pragmática, esperando pelas investidas do adversário para, em velocidade, tentar surpreender e ser feliz. Na fase de grupos, resultou. Num jogo a eliminar, ainda por cima com a Espanha, uma selecção maníaca pela bola, nunca poderia. Carlos Queiroz tinha prometido maior ousadia, maior ambição e maior coragem. Portugal não a teve. Daí que entre os adeptos, e também entre os jogadores, tenha ficado um sabor a pouco. Não foi mau de todo, isso seria ficar na fase de grupos, mas… poderia ter sido bem melhor. A selecção foi, no fundo, um reflexo do treinador.

Ao futebol da selecção nacional, demasiadamente pensado e sem rasgos de génio, faltou um abanão. O plano de contenção traçado por Carlos Queiroz, privilegiando a coesão defensiva, roçou o brilhantismo. Só que faltou astúcia para chegar mais longe. Entre guardar um nulo ou arriscar para ganhar, Portugal sempre preferiu não se desfazer da sua estratégia. Mais do que tudo, seria necessário deixar as amarras, dar liberdade ao génio individual, quebrar o pragmatismo e correr os riscos necessários. O resultado poderia ser o mesmo ou, talvez, ainda pior. Mas todos ficariam com a sensação de ter cumprido o seu dever. Algo que não aconteceu desta vez. Em Carlos Queiroz, como em Cristiano Ronaldo, a maior figura portuguesa e de quem mais se exige, caíram todas as responsabilidades. O capitão voltou a estar mal no relvado, não reagiu bem e recebeu inúmeras críticas. O treinador foi colocado em xeque. E perdeu espaço.

A imagem de Carlos Queiroz, sempre procurando transparecer serenidade e confiança, ficou, a cada momento, mais fragilizada. Numa primeira fase, ainda na África do Sul, surgiram as críticas públicas por parte de Deco, o discurso desarticulado com Hugo Almeida e as palavras amargas de Ronaldo. Já depois de feito o rescaldo, em solo português, foi atribuída a Queiroz uma frase dura, cáustica e desconcertante, onde o seleccionador acusou a estrutura federativa de amadorismo – algo que motivou uma resposta violentíssima do seleccionador. Agora, já depois de ter sido conhecida a verba monetária a receber pelo seleccionador, surge, referido como se tratando de “matéria delicada”, a abertura de um inquérito disciplinar, sob alçada do Instituto do Desporto de Portugal e da Federação Portuguesa de Futebol, devido a um comportamento incorrecto da parte de Carlos Queiroz para com os médicos que realizam os testes anti-doping.

Seja provado ou não o tal comportamento incorrecto do seleccionador ainda na Covilhã, sejam ou não acertadas as críticas dos jogadores, seja ou não verdade a declaração sobre o “amadorismo” existente na Federação Portuguesa de Futebol, a imagem de Carlos Queiroz sai extremamente prejudicada. Junto dos adeptos, pelo menos de uma grande parte deles, Queiroz é um seleccionador muitíssimo bem pago (auferindo, por ano, uma verba de um milhão e seiscentos mil euros) e que pouco conseguiu no Mundial 2010. Com todas as polémicas existentes, Queiroz fica descredibilizado, perdendo a cada passo margem de manobra e, até pelas palavras dos jogadores, sem as condições ideais para conseguir juntar as duas partes do seu trabalho: renovar a selecção nacional e fortalecê-la rumo ao Europeu de 2012. A pergunta que se impõe neste momento é simples e incisiva: terá Carlos Queiroz condições para o fazer?

97ºTour de France: A análise – 2ª Parte

A PRESENÇA GAULESA NAS ETAPAS

Desde o último triunfo de Bernard Hinault, há já vinte e cinco anos, que o ciclismo francês não consegue triunfar na competição realizada no seu país. O hiato vai-se alargando, sem que surja um ciclista gaulês capaz de se incluir no rol de candidatos a disputar a Grande Boucle até final e, mais do que isso, sem que se abram boas perspectivas para o futuro. John Gadret, ciclista da AG2R La Mondiale, foi, no décimo nono posto, o francês mais bem colocado na classificação geral individual – com um atraso de vinte e quatro minutos e quatro segundos relativamente a Alberto Contador. Devido a essa incapacidade para ganhar o Tour, os ciclistas franceses voltam-se para a vitória em etapas. Nesta edição da Grande Boucle, bem-sucedida nesse aspecto, festejaram por seis vezes: Sylvain Chavanel (em duas ocasiões) Sandy Casar, Christophe Riblon, Thomas Voeckler e Pierrick Fédrigo. Bom registo.

A maior vitória do ciclismo francês esteve, contudo, na montanha. Anthony Charteau, ciclista da BBox Bouygues-Telecom, conquistou o título de melhor trepador da nonagésima edição do Tour de France. Impondo-se numa primeira fase a Jérôme Pineau (Quick-Step) e, mais tarde, a Christophe Moreau (Caisse d’Epargne), também ambos franceses, Charteau confirmou, com surpresa e muito mérito, a obtenção da camisola sarapintada de branco e vermelha. Sylvain Chavanel, corredor da formação belga Quick-Step, subiu ao pódio final, em Paris, para ser distinguido como o ciclista mais combativo do Tour 2010 – venceu duas etapas e, com essas vitórias, vestiu a camisola amarela. As seis vitórias em etapas, o triunfo de Charteau na montanha – algo que não acontecia desde o triunfo de Richard Virenque, em 2004 – e a distinção de Chavanel servem para preencher o vazio sentido pela falta de intromissão na geral.

A CONFIRMAÇÃO DE CAV E A GLÓRIA DE ALESSANDRO PETACCHI
É unânime: Mark Cavendish, ciclista inglês da HTC-Columbia, é um sprinter sem paralelo na actualidade. Já o demonstrara na edição anterior do Tour, somando quatro vitórias em etapas. Apesar disso, em Paris, não conseguiu subir ao pódio, uma vez que Thor Hushovd, mesmo só tendo vencido por uma vez, somou mais pontos para a camisola verde. Em 2010, ainda mais confiante, Cavendish chegou com tudo: forte como nunca, cada vez mais possante em cima da bicicleta, explodindo em direcção à meta e abrindo um enorme fosso para a concorrência. Demorou a arrancar, sim, porque apenas venceu na quinta etapa, mas demonstrou toda a sua qualidade, impondo-se sem dar hipóteses aos rivais. Somou cinco vitórias, uma delas na última etapa, mas voltou a não conseguir ser o líder da camisola dos pontos. Alessandro Petacchi, veterano italiano da Lampre, superou-o, somou pontos importantes e venceu essa classificação.

Aos trinta e seis anos, com um passado invejável para trás, Alessandro Petacchi, mesmo com todo esse arsenal de argumentos, não estaria na linha da frente para conquistar a camisola verde. Um sprinter, como ele é, precisa de uma enorme velocidade, além de que tem de saber sofrer na montanha, para conseguir vencer. Mark Cavendish tem nas subidas o seu calcanhar de Aquiles. Thor Hushovd (Cérvelo), vencedor em 2009, passa melhor no alto. Petacchi, contudo, conta com uma larga experiência. E aproveitou os primeiros dias, atribulados e marcados por um trajecto perigoso e com várias quedas pelo meio, para ganhar força: venceu a primeira etapa em linha, embora a principal concorrência, sobretudo o tal míssil-Cavendish, tenha ficado atrasado devido a uma queda colectiva. Teria sido, pensou-se, apenas uma vitória oportuna. Alessandro Petacchi fez questão de o desmentir. Para isso voltou a ganhar. Com concorrência. E categoria.

Thor Hushovd não se apresentou ao seu nível. Caíra durante a preparação para o Tour, num momento crucial, e isso afectou-lhe o planeamento e, principalmente, a forma física. Seja como for, o objectivo foi, de novo, conseguir colocar-se entre os principais sprinters, em chegadas em pelotão compacto, para vencer a camisola verde. O ciclista norueguês, sempre bem colocado pelos seus companheiros da Cérvelo, apenas conseguiu vencer por uma vez, num sprint reduzido, na jornada do pavé. Sempre que entrou na luta com Cavendish ou Petacchi, vencedores das etapas com chegadas compactas, Hushovd não se conseguiu impor. No entanto, mesmo assim, vestiu a camisola verde durante onze dias. Perdeu-a para Petacchi, recuperou-a, voltou a perder, recuperou de novo por se dar melhor na montanha e, no final, entregou definitivamente a liderança ao italiano. Cavendish, pela vitória no último dia, conseguiu, até, roubar-lhe o segundo lugar.

OS PORTUGUESES

Manuel Cardoso esteve pela primeira vez na sua carreira no Tour. O ingresso na equipa espanhola Footon-Servetto proporcionou-lhe o ponto máximo da carreira. Mas foi uma experiência curta. Nem deu para aquecer: o ciclista português embateu violentamente contra um muro, no prólogo do primeiro dia, que o deixou em mau estado e o obrigou a abandonar. Manuel Cardoso, um jovem com o sonho de participar no Tour de France destroçado, regressou a casa logo após a estreia. Foi o primeiro ciclista, dos cento e noventa e oito que começaram a pedalar em Roterdão, no início do mês de Julho, a abandonar – mais vinte e sete se seguiram, sendo o pelotão final, ainda bem numeroso, composto por cento e setenta corredores. Reduzido a um duo, Sérgio Paulinho e Rui Costa, o ciclismo português viveu um momento alto, épico, quebrando um interregno longo, com a vitória, na décima etapa, conseguida por Paulinho.
À décima etapa, no dia seguinte a uma escalada tremendamente desgastante em alta montanha, uma fuga conseguiu vingar. Sérgio Paulinho e Vasil Kiryienka, rivais na Radioshack e Caisse d’Epargne, disputaram o sprint final, renhido e emotivo, que o ciclista português venceu. Foi, para além de um resultado honroso para o corredor e para o ciclismo português, a única vitória da equipa norte-americana numa etapa do Tour de France 2010. Em Paris, de novo Sérgio Paulinho esteve no pódio, devido à vitória, por equipas, da Radioshack – individualmente, sem que isso tenha grande relevo devido às funções a que está entregue, Paulinho terminou em quadragésimo sexto, a cerca de uma hora e vinte e cinco minutos do primeiro lugar. Rui Costa, discreto e tranquilo, procurou entrar numa fuga, sempre sem sucesso, passando despercebido no seu segundo Tour. Terminou em septuagésimo terceiro, com um atraso de duas horas e doze.

EVANS DESTROÇADO, VAN DEN BROECK EM ASCENSÃO

Cadel Evans partiu para esta temporada com velhas ambições mas uma nova postura. Mais ousado, mais atacante, mais confiante em si. Deixou de ser o ciclista pragmático e expectante de antes. Com essa alteração, agora inserido numa nova equipa, a BMC, embora ainda sem possuir um conjunto realmente forte para o levar ao topo, o ciclista australiano sagrou-se campeão mundial e chegou ao Tour com legítimas ambições a um lugar no topo – mesmo sabendo que teria em Alberto Contador e Andy Schleck dois rivais terríveis. Cadel Evans conseguiu estar bem na primeira etapa nos Alpes, chegando à camisola amarela, na vitória de Schleck, mas quebrou no dia seguinte. Cortou a meta destroçado, impotente e incapaz de resistir às investidas dos concorrentes – acabou o Tour em vigésimo sexto, com cinquenta minutos de atraso. Ivan Basso, líder da Liquigas, denotou o cansaço provocado e também desiludiu. Como Leipheimer e Klöden.

Jurgen Van den Broeck, substituto de Evans na chefia da Omega-Lotto, foi uma das belas surpresas desta edição do Tour. O ciclista belga conseguiu o quinto lugar, mostrando-se forte nas montanhas e poderá ser um nome a ter em conta nos próximos anos. O mesmo se poderá aplicar a Robert Gesink (Rabobank) e a Roman Kreuziger (Liquigas), dois jovens que se exibiram em excelente nível, demonstrando capacidade para, nas próximas edições, se fixarem nos primeiros postos – foram, respectivamente, sexto e nono da classificação geral. Nos dez primeiros, sem que fosse expectável, há ainda os nomes do canadiano Ryder Hesjedal (Garmin), do espanhol Joaquín Rodríguez (Katusha) e do norte-americano Chris Horner (Radioshack: o único no quadro de honra). Samuel Sánchez, líder da Euskautel-Euskadi, conseguiu um belíssimo quarto lugar – perdendo, no final, o último lugar do pódio para Denis Menchov (Rabobank).


97º Tour de France: A análise – 1ª Parte

O TRI DE CONTADOR

Alberto Contador venceu, pela terceira vez, o Tour de France. O ciclista espanhol da Astana, o melhor da actualidade, provou ser o mais completo do pelotão que participou na nonagésima sétima edição da Grande Boucle. Sem ser tão espectacular como em anos anteriores, nas vitórias que alcançou em 2007 e 2009 – as únicas duas vezes em que esteve presente na maior competição do pelotão internacional -, o ciclista espanhol conseguiu superar Andy Schleck, numa luta intensa até ao final, para ser coroado vencedor em Paris. O trajecto de Contador foi sempre feito em crescendo: começou algo titubeante, deu mostras de não estar na plenitude das suas forças nos Alpes, aproveitou um infortúnio de Schleck para chegar à liderança nos Pirinéus e, depois disso, resistiu sempre às investidas do corredor luxemburguês da Saxo Bank. Suou, sim, mas terminou por cima. Por isso mesmo, esta foi a sua vitória mais saborosa.

O número um mundial, um jovem irreverente em busca da plena afirmação e um campeão imortalizado pelos seus feitos. Fortes, creditados, ambiciosos. Alberto Contador, Andy Schleck e Lance Armstrong preencheram, por esta ordem, o pódio da edição anterior do Tour de France. E chegaram a 2010 na linha da frente. Pelo peso de cada um deles, a discussão poderia estar centrada em Contador e Armstrong. O presente triunfante e o passado demolidor. Agora em equipas diferentes, com uma Radioshack construída em redor do norte-americano a partir da Astana – onde permaneceu El Pistolero –, sem terem de se apoiar mutuamente. Seriam rivais, opositores, gigantes na luta pela repetição de uma conquista. Andy Schleck é um jovem em ascensão, melhorando a cada ano e apoiado por uma belíssima equipa da Saxo Bank, que prometeu intrometer-se entre no duelo de titãs. E ainda com outros candidatos na sombra.

A primeira semana de prova, longe de ser uma adaptação à competição, apareceu com um trajecto perigoso, tenso e preocupante. Niguém ganharia o Tour no início, claro que não, mas poderia perder todas as possibilidades de se manter na luta. Os Alpes, ao nono dia, deixaram a vitória na nonagésima sétima edição da Grande Boucle reduzida a dois: Alberto Contador e Andy Schleck. Os dois ciclistas, os mais fortes do pelotão, aproveitaram a dureza da nona etapa, um terreno onde se sentem bem, para se destacarem de todos os rivais. Lance Armstrong já ficara de fora, destroçado e azarado como nunca, no dia anterior: duas quedas e a veterania de trinta e oito anos, sem ter consigo um colectivo tão forte como se esperaria, hipotecaram definitivamente as esperanças do norte-americano vencer o Tour de France pela oitava vez. Cadel Evans, Carlos Sastre, Andreas Klöden também vergaram perante o vigor do duo Contador-Schleck.

O DUELO

Andy Schleck explodiu, assumiu a corrida, galgou metros nos Alpes e chegou à glória. Num primeiro momento pareceu melhor do que Alberto Contador. O ciclista espanhol não esteve tão demolidor e explosivo, deu mostras de alguma quebra e, na primeira etapa realmente dura nos Alpes, claudicou perante o ataque pujante de Schleck. No entanto, Contador esteve também mais cínico e cerebral. Bem apoiado pela Astana, com grande destaque para Alexandre Vinokourov e Daniel Navarro, uma equipa sem dar mostras de fragilidade pela debandada rumo à Radioshack, El Pistolero soube disfarçar o seu momento, gerir os tempos e, a mais ou menos custo, ter o ímpeto de Andy Schleck controlado. O ciclista luxemburguês da Saxo Bank, desde a quarta etapa sem o apoio do irmão Frank, o seu braço direito, ganhou a camisola amarela na nona tirada. Na tal em que se entendeu bem com Contador. Tinha quarenta e um segundos de vantagem.

Alberto Contador cresceu. Recuperou com o tempo, restabeleceu-se, disfarçou as dificuldades e apresentou-se para a luta. Estava atrás, sim, mas nada de preocupante. Se não o conseguisse nos Pirinéus, teria no contra-relógio, a especialidade em que Andy Schleck manifesta maiores fragilidades, uma oportunidade para passar para a frente. Mas seria sempre arriscado esperar pelo penúltimo dia. E poderia ser fatal. Nos Pirinéus, depois de dias de recuperação e tranquilidade, o duo de candidatos, os mais fortes e únicos que sobreviveram à matreira primeira semana, teriam que se mostrar. Sentir as pulsações do rival, perceber o momento em que se encontravam e tentar saltar para a frente. Schleck apareceu sempre mais confiante, mais impulsivo e aguerrido. Contador, experiente e conhecendo o seu momento, jogou pela certa e, aos poucos foi-se aproximando do topo: na décima segunda etapa, ganhou dez segundos.

UM MOMENTO MARCANTE NOS PIRINÉUS

Pode-se criticar, entender que Alberto Contador não teve desportivismo e que deveria, quando a corrente da bicicleta de Andy Schleck saltou, ter esperado até que o seu rival recuperasse a condição. O corredor luxemburguês atacara, o espanhol não respondera de pronto. Num ápice, invertendo tudo, Contador passou ao ataque, levando Samuel Sánchez e Denis Menchov consigo, para roubar tempo ao então líder. Nos Pirinéus, à décima quinta etapa, o ciclista espanhol da Astana conseguiu assumir a liderança, dizimando a desvantagem de trinta e um segundos, fixando-se com oito segundos à maior sobre Andy Shcleck. O mais difícil ficou feito pelo espanhol. Agora, com Contador mais confortável, seria o luxemburguês a atacar. Tentou, fez de tudo, escalou até ao Col do Tourmalet, imprimiu um ritmo vigoroso. Alberto Contador sempre respondeu bem. No contra-relógio, onde evoluiu imenso, também procurou ser feliz.

Alberto Contador cortou a meta, o contra-relógio ficara para trás, a camisola amarela não lhe iria fugir mas continuou a pedalar. Deu tudo, forçou, pedalou para se manter na liderança. Andy Schleck começara bem, ameaçando-o, reduzindo a desvantagem. Contador tremeu mas, à medida que os cinquenta e dois quilómetros foram passando, alargou a vantagem e, mesmo tendo realizado um tempo modesto, confirmou o triunfo. Terminou o Tour de France 2010 com trinta e nove segundos de vantagem sobre Andy Schleck. O mesmo tempo, por curiosidade e ironia, que ganhara na décima quinta etapa, depois da avaria sofrida pelo luxemburguês. O último lugar do pódio final – até ao contra-relógio do penúltimo dia ocupado por Samuel Sánchez, ciclista espanhol da Euskautel-Euskadi -, ficou na posse de Denis Menchov, da Rabobank, que assim repetiu a posição de 2008, passando uma borracha sobre a má prestação da edição anterior.

LANCE ARMSTRONG E RADIOSHACK: O ADEUS E A DESILUSÃO

Sete vitórias consecutivas no Tour de France são uma marca bem difícil de bater. Lance Armstrong conseguiu-o, entre 1999 e 2005, com grande classe. Apesar de já não ter nada mais a provar, também pelo mérito dos seus triunfos, decidiu regressar no ano passado. Foi colega de Alberto Contador, o agora número um mundial, posição que Lance ocupou durante épocas a fio, na Astana e conseguiu um belíssimo terceiro lugar. Voltou de novo em 2010, com uma equipa recém-criada e recheada de ciclistas de qualidade, todos eles provenientes da equipa cazaque, declaradamente para tentar a sua oitava vitória na Grande Boucle. Falhou. Demasiado cedo, ainda na primeira semana, deixou de estar na luta pelo triunfo final. Porque já não conta com a mesma disponibilidade, naturalmente, mas também porque encontrou obstáculos contra os quais pouco podia fazer: um furo no pavé e duas quedas duras nos Alpes. Foi infeliz.

Sem possibilidades de lutar pela vitória, com o objectivo arruinado e a treze minutos da liderança, o que poderia fazer Lance Armstrong? Apenas desfrutar da corrida, manter-se fiel aos seus princípios e chegar a Paris. Causou estranheza ver o heptavencedor do Tour cortar a meta atrasado, escondido, sorridente e nada preocupado com o atraso cada vez maior para a camisola amarela. Levi Leipheimer, então na sexta posição, passou a ser o líder da Radioshack. Mas é diferente. Com o falhanço de Armstrong, com ambições destroçadas pelos novos heróis do pelotão mundial, também a estratégia da equipa Radioshack fracassou. Lance ainda tentou, já na terceira semana, uma vitória em etapa, uma espécie de consolação, mas foi incapaz para se superiorizar ao sprint final, forte e triunfante, de Pierrick Fédrigo. Em Paris, onde esteve pela nona vez, terminou na vigésima terceira posição. A quase quarenta minutos de Contador.

A Radioshack chegou ao Tour de France 2010 em força. Recém-criada, com Johan Bruyneel na chefia, Lance Armstrong no papel de estrela e, para o que desse e viesse, Levi Leipheimer e Andreas Klöden. A verdade, contudo, é que a equipa norte-americana foi uma verdadeira desilusão. Mesmo assim, venceu colectivamente e obteve uma vitória em etapa. Na chegada a Gap, na décima tirada, Sérgio Paulinho, ciclista português, conseguiu superar-se a Vasil Kiryienka (Caisse d’Epargne) e, ainda que por centímetros, venceu. Por mais paradoxal que pareça, a maior façanha da Radioshack, já com todos os seus possíveis candidatos a uma boa classificação afastados dos primeiros postos, foi alcançada por um trabalhador, um operário, alguém que se acostumou a viver na sombra e a trabalhar para os seus líderes. Na geral, com o último falhanço de Leipheimer nos Pirinéus, a Radioshack ficou-se por um décimo lugar, alcançado por Chris Horner…

Arjen Robben e Andrés Iniesta: Aproveitar para ganhar

A Holanda deu o pontapé inicial. A bola, pouco depois, foi parar aos pés dos espanhóis. E o carrossel começou a funcionar: tiki-taka, passa, vem buscar, alarga a trajectória e prepara, de novo, para receber. A selecção espanhola, sempre com bola no pé, não atingiu a percentagem de posse de outros jogos, não fez a mesma circulação porque a Laranja se fechou bem, mas teve ascendente. Entrou com força e, aos poucos, foi baixando o ritmo. O jogo ganhou equilíbrio, oportunidades também para os holandeses, perigo em ambas as balizas. Não foi um jogo de primeira, nada disso, mas foi emotivo. Arjen Robben, a par de Sneijder, a maior estrela holandesa, esteve perto de marcar. Por duas vezes perdeu frente a Iker Casillas. A segunda delas, já em cima do final, poderia ter sentenciado a final. Perdeu-se. Ele e a oportunidade.


A Espanha teve a bola, montou o ataque, criou muita pressão e rondou o golo. A fúria instalou-se. Marcando no começo, La Roja teria maior tranquilidade, obrigaria a Holanda a abrir o seu jogo e, com todos os seus dotes de posse e circulação de bola, poderia jogar como gosta. Mas o golo não surgiu. Nem no começo nem no final. Nos noventa minutos houve oportunidades, poucas, mas repartidas: a Espanha teve ascendente, a Holanda jogou durinho, tentou ser veloz e assutou. As grandes penalidades surgiram quase como uma inevitabilidade. Até que se abriu uma chance para os espanhóis. Em contra-ataque, com os holandeses a protestar com Howard Webb, Fàbregas deu para Andrés Iniesta. Solto na área, em posição privilegiada, o médio do Barça encarou com Stekelenburg e rematou com força. E confiança. A bola só parou no fundo da baliza. No aproveitar está o ganho.

97ºTour de France: A etapa para Andy, o Tour para Alberto

Atacar sempre sem tréguas e esperar uma quebra do adversário. A Andy Schleck nada mais haveria a fazer: teria de procurar a sua sorte, superar-se, transformar as fraquezas em força e desejar que Alberto Contador, seu rival e líder da classificação geral individual, não o conseguisse acompanhar. Teria que insistir muito para surpreender o espanhol, abrindo a corrida e cavalgando forte para a vitória e para uma posição mais favorável rumo à camisola amarela. Os oito segundos que tem de atraso para Contador funcionam como estimulante para legitimar as ambições de Andy Schleck mas, ao mesmo tempo, para aumentar ainda mais as probabilidades de um terceiro triunfo para o líder da Astana. Depois da décima sétima etapa, na subida ao Col do Tourmalet, poucas mais hipóteses terá Andy Schleck para eliminar a desvantagem. O contra-relógio do penúltimo dia é, talvez, o seu maior handicap. E mais um trunfo de Alberto Contador.

Frio, chuva e tensão. Todos estes elementos em doses consideráveis, deixando uma escalada duríssima ainda mais íngreme. Andy Schleck, para colocar em perigo Contador, só poderia fazer o mesmo que nos Alpes: atacar, explodir o ritmo e esperar que, como na primeira semana, o rival não se mostrasse na plenitude das suas forças. O ciclista luxemburguês, ambicioso, assumiu o comando, enfrentou o terrível nevoeiro, empenhou-se em conseguir inverter a situação. Atacou, como lhe competia, no grupo dos favoritos. Imprimiu um ritmo forte e vigoroso, procurando destacar-se, num terreno onde se sente bem. Alberto Contador respondeu de pronto. El Pistolero estava forte. Tal como Andy. Na montanha, está provado, são ciclistas muito idênticos e onde, estando num bom momento, é difícil serem superados. Como nos Alpes, quando Andy Schleck assumiu a liderança, formaram um duo. Só que agora tudo jogava contra o luxemburguês.

Alberto Contador, habituado a ataques explosivos rumo à vitória, jogou à defesa. Apenas tinha que controlar os andamentos de Schleck, estar preparado para reagir, tentar desgastar o rival e impedir que o ciclista da Saxo Bank lhe ganhasse metros. Seguiu na roda do luxemburguês, forte e confiante, cada vez mais aumentando as possibilidades de, pela terceira vez, ser coroado vencedor do Tour de France. Os oito segundos que conquistou, mais o facto de ter no contra-relógio uma especialidade e de Andy Schleck denotar ainda diversas fragilidades nesse tipo de prova, funcionam como uma margem importante. Não é segura, verdade, mas muito boa para o ciclista espanhol. A despesa da subida, de novo feita por ambos, coube toda a Andy Schleck. Nos Alpes, a situação fora diferente: os dois encontraram uma oportunidade única de diminuirem a concorrência a apenas um. Agora, Andy teria que se livrar de Alberto. Não conseguiu.

Ataque a dez quilómetros da meta, ritmo forte e várias tentativas de descolar. Andy Schleck fez de tudo para conseguir deixar Alberto Contador para trás. O ciclista da Astana respondeu sempre bem, subindo atrás do rival e – mostrando que se encontra numa boa fase – tentou também uma mudança de andamento. Nem um nem outro conseguiram isolar-se. Porque, já se disse, se equivalem. E, com isso, a tarefa de Andy Schleck seria sempre de extrema dificuldade. Os oito segundos de vantagem, que parecem nada a Contador e são uma infinidade de tempo para Schleck, mantêm o corredor da Astana na frente e, cada vez mais, com grandes probabilidades de sair de Paris com a camisola amarela vestida. Para Andy Schleck fica uma vitória extraordinária no Col do Tourmalet, conseguida com muito mérito e sacrifício, que se junta ao triunfo alcançado nos Alpes. É uma consolação. Embora ainda seja possível vencer o Tour, sim…

Atrás de Alberto Contador e Andy Schleck, aqueles que à partida ocuparão os dois primeiros lugares no final da nonagésima sétima edição da Grande Boucle, continuam, na disputa pela última posição do pódio, Samuel Sánchez (Euskautel-Euskadi) e Denis Menchov (Rabobank). O ciclista espanhol, antes da etapa colocado no terceiro lugar, tem dado sinais de quebra, admitida pelo próprio, algo que coloca em perigo o seu lugar na classificação geral individual. A décima sétima etapa começou mal, com uma queda brutal de Sánchez – foi realmente aparatosa – que resultou num traumatismo na caixa torácica. Contudo, mantendo-se em prova, o ciclista espanhol, conseguiu recuperar e, inclusivamente, alargar, em oito segundos, a vantagem para Denis Menchov – a diferença é de vinte e um -, embora também sinta dificuldades no contra-relógio. A discussão pelo terceiro lugar passará por estes dois ciclistas. E será bem acesa.

Cristiano Ronaldo e Lionel Messi: Estrelas em eclipse

Brilhante e fundamental nos clubes, individualista e inconsequente na selecção nacional. Cristiano Ronaldo tem sido assim nos últimos anos. Um dos melhores jogadores mundiais, repleto de talento e arte, tarda em conseguir a plena afirmação com a camisola de Portugal. Na África do Sul, onde prometeu explodir e superar-se, Ronaldo nunca apareceu. Conseguiu quebrar um jejum de dois anos sem marcar em jogos oficiais pela selecção, sim, mas o golo, trapalhão e feliz, é apenas um oásis num deserto de ideias. No Mundial 2010, Portugal não contou com o Ronaldo que desequilibra e empolga, teve apenas um Cristiano individualista, procurando lutar contra tudo e tentando, sozinho, resolver todos os problemas da selecção nacional. Revelou-se, no fundo, impotente para lutar contra as adversidades. Questionando as opções de Carlos Queiroz, remetendo todas as explicações para o seleccionador, Cristiano Ronaldo não deixou também uma boa imagem enquanto capitão. África do Sul foi uma aventura mal-sucedida. A todos os níveis.

Os argentinos esperam de Messi o mesmo que os portugueses exigem a Ronaldo: fintas, jogadas, correrias loucas, passes de cortar a respiração e, se houver oportunidade, golos de encantar. A responsabilidade é elevada. Foram eles, contudo, quem elevaram tanto a fasquia. Por aquilo que já provaram conseguir e pelas temporadas realizadas nos seus clubes, na rivalidade entre Barcelona e Real Madrid, pede-se, tanto a Lionel Messi como a Cristiano Ronaldo, que ganhem sempre. Se Portugal sentiu imenso o eclipse de Ronaldo, também a Argentina não teve o melhor Messi. Aquele que é considerado como melhor jogador a nível mundial chegou a mostrar-se em bom plano, procurando um golo que nunca apareceu, mas foi impotente para impedir que a albiceleste acabasse vergada a uma pesadíssima derrota pela Alemanha. Ronaldo e Messi não foram os únicos culpados mas, a seguir aos seleccionadores, são os principais rostos da desilusão. Sobretudo porque são capazes de muito mais. As imagens da despedida não enganam: frustração e tristeza.

Ao longo dos próximos dias, no FUTEBOLÊS, poderá ver as imagens que mostram os momentos mais marcantes do Mundial 2010

97º Tour de France: O ar de graça de Lance Armstrong

Intimidatório, mítico, brutal. O nome de Lance Armstrong tem um impacto gigantesco no ciclismo mundial. As sete vezes consecutivas em que triunfou no Tour de France, tornando rotineira a vitória na maior prova do pelotão internacional após ter superado um cancro na próstata, deixaram-no imortalizado. E saiu pela porta grande em 2005. Aos trinta e sete anos, com três de interregno, decidiu regressar: entrou na Astana, a equipa do seu líder Johan Bruyneel, para provar que ainda estaria em condições de deixar o seu nome marcado. Não o precisava e correu riscos ao fazê-lo, sim, mas a ambição foi maior. Só que o ciclismo mudara. Armstrong ficara para trás. O presente indicava Alberto Contador, Andy e Frank Schleck, Bradley Wiggins. Inserido numa equipa sem paralelo, dominadora a todos os níveis apesar do mau ambiente que se gerou pela existência de mais do que um líder, Lance Armstrong mostrou-se bem.

O honroso terceiro lugar que conquistou no Tour de France 2009 abriu o apetite para a nova edição da Grande Boucle. Lance Armstrong estivera em bom nível, mesmo não tendo, nem podendo ter, o fulgor de outrora. Numa equipa apenas mentalizada em trabalhar para ele, sem Alberto Contador pelo meio, o norte-americano poderia ambicionar melhorar a anterior classificação e, até, alcançar a sua oitava vitória. O objectivo da Radioshack, equipa que formou com Johan Bruyneel e que recrutou na Astana a sua composição para a nonagésima sétima edição do Tour, foi sempre proporcionar as melhores condições para que Lance Armstrong estivesse na corrida, pelo menos, a um lugar no pódio. A verdade, contudo, é que o ciclista texano, heptavencedor da competição, ficou demasiado cedo fora das contas da classificação geral. Perdeu tempo no pavé e viveu um inferno no primeiro teste nos Alpes.

É incontornável: Lance Armstrong está bem diferente do ciclista que pulverizou a concorrência e venceu com toda a naturalidade durante sete anos. Os trinta e oito anos pesam, os rivais estão melhores, Lance ressente-se. No entanto, também há imenso infortúnio. Nas edições em que triunfou, embora com algumas quedas pelo meio, nunca Lance Armstrong havia sentido na pele tanto azar como agora. Atacou-o forte na primeira semana e logo o retirou das contas da geral: na quarta etapa, quando seguia à frente de Alberto Contador, viu um furo na roda dianteira deixá-lo para trás, enquanto nos Alpes caiu por duas vezes, ficando a quase doze minutos do vencedor da etapa. Aí, nessa nefasta oitava etapa, Armstrong enrolou a bandeira, rendeu-se. Mas não desistiu, quis manter-se em prova, desfrutar da sua última presença no Tour de France e ambicionar vencer etapa. O líder da Radioshack, para a geral, passou a ser Levi Leipheimer.

Aos adeptos de ciclismo, causa estranheza ver Lance Armstrong chegar com um atraso de largos minutos para o vencedor da etapa, num ritmo baixo, conversando e sorrindo. Derrotado, a anos-luz da camisola amarela, Armstrong deixou de se preocupar com o tempo que tem de atraso: colocar Leipheimer na melhor classificação possível é a meta a alcançar também por ele. Os tais riscos que Lance Armstrong corria quando regressou, sobretudo o de poder não estar à altura da elevada exigência que ele próprio estabeleceu, está a verificar-se neste segundo ano, quando se esperaria que superasse o que conseguira em 2009 e fosse, com Contador, um dos grandes candidatos à vitória final. Ver Armstrong não ganhar e não se preocupar muito com isso, apenas correndo por gosto, é algo que os adeptos de ciclismo nunca esperariam. Até depois da belíssima prestação alcançada no ano em que quebrou a inactividade.

Lance Armstrong perdeu, após a primeira etapa realmente dura nos Alpes, todas as possibilidades de sonhar com a sua oitava vitória ou a nona presença no pódio final. No fundo, contudo, continuava a alimentar a vontade de vencer uma etapa, deixar a sua marca na despedida e esquecer, por momentos, todos os minutos que o fazem estar longe das decisões. Tentou-o nos Pirinéus. Na décima sexta etapa, percebendo que Alberto Contador e Andy Schleck não deixariam a marcação cerrada e a vigia permanente um ao outro, Lance procurou a sua sorte. Entrou numa fuga nos primeiros quilómetros, juntamente com mais oito corredores, pedalou forte, trabalhou muito e fez de tudo para chegar ao final em condições de vencer. No sprint, saiu de trás, após se ter poupado, em direcção à meta. Pierrick Fédrigo (BBox-Bouygues Telecom), mais jovem e possante, superou. E Armstrong, sem hipóteses de triunfar, logo abdicou.

Vencer a etapa rainha dos Pirinéus seria uma consolação para um ciclista ímpar. Lance Armstrong procurou consegui-lo. Fez o que estava ao seu alcance, mas não foi além do sexto lugar. A fuga resultou na perfeição e teve condições de discutir a vitória. Não o conseguiu: porque lhe faltou a velocidade de outros tempos e porque Fédrigo – terceira vitória consecutiva de ciclistas gauleses e segunda, após o triunfo de Thomas Voeckler na véspera, para a equipa francesa BBox-Bouygues Telecom – foi realmente forte na chegada. Apesar de não subido ao pódio, Lance Armstrong, com a veterania dos seus trinta e oito anos, deixou uma imagem positiva, de um campeão ainda à procura de um final feliz, apostando todas as fichas numa tirada dura e de alta montanha. Mostrou estar vivo. Mesmo isso nada mudando na classificação geral, onde é vigésimo quinto e tem um atraso de trinta e três minutos para Alberto Contador.