Mundial 2010: O céu e o inferno lado a lado

Cento e trinta minutos depois, muitos quilómetros percorridos e uma oportunidade de fazer história. Fucile comete falta. Os jogadores ganeses, percebendo que é naquele ou momento ou nunca mais a não ser na lotaria, avançam para a área uruguaia. A bola é bombeada, ronda a baliza de Muslera, quase que entra, Luis Suárez salva em cima da linha. Nova tentativa, Fucile para trás e, de novo, Suárez no corte. Com os braços. Olegário Benquerença, bem colocado, apita. Penalty. Luis Alberto Suárez Díaz, avançado do Ajax, desespera. Fez de tudo para impedir o golo, conseguiu-o, mas o Gana está à porta das meias-finais. Nos pés de Asamoah Gyan, estrela ganesa, está o sonho de um país, de um continente, de uma nação. Está ali a fé em fazer História, em catapultar África, no primeiro Mundial que recebe, para um patamar de excelência.

Fernando Muslera entre os postes. Gyan ajeita a bola e concentra-se. Espera a indicação de Benquerença. O apito desencadeará uma montanha de emoções, de responsabilidades, de carga dramática. Os dois golos marcados pelo Gana na fase de grupos, os dois únicos, foram ambos conseguidos através de grandes penalidades convertidas por Gyan. Reflecte a confiança do povo africano. Parte para a bola, enche-se de confiança e espera ser feliz. O remate sai com força mas esbarra na trave. Asamoah Gyan, em quem os ganeses depositaram todas as suas esperanças, desce às trevas. Luis Suárez, inconsolável pela mão na bola, trava a sua marcha rumo ao balneário e exulta. Muslera agradece à sua baliza. Termina o prolongamento e a única solução são as grandes penalidades. O Uruguai reaviva a esperança. E aumenta-a.

Num ápice, invertendo todos os papéis, os uruguaios ficam fortalecidos. O falhanço de Gyan desmotivou a selecção do Gana e mostrou ao Uruguai que ainda seria possível, quarenta anos depois, voltar às meias-finais de um Mundial. No campo psicológio, tão importante nestes momentos, a selecção celeste ficou a ganhar. Os uruguaios sentiram-se imunes a tudo: se não haviam perdido naquele pontapé, igual aos que se seguiriam, também a má fortuna não os iria impedir agora de festejar. Diego Forlán, com confiança, começa bem. Segue-se Asamoah Gyan. O mesmo que, momentos antes, falhara. Acontece a todos, às maiores estrelas. Gyan, nervos de aço, empata. Há confiança. Victorino, Appiah e Scotti não tremem. Chega Mensah: mãos nas ancas, pouco balanço, remate dócil para Muslera. Maxi Pereira atira para a bancada. Empate.

É a vez de Addiah. Não há duas sem três – também falhado. Muslera adivinha o lado, atira-se para a esquerda e pára o remate. O Uruguai, antes a uma grande penalidade da eliminação, está a um remate histórico de galgar para as meias-finais. Sebastián Abreu, El Loco, tem a decisão consigo. Com tranquilidade, sem tremer, imita Panenka, faz jus à alcunha que o acompanha e leva o seu Uruguai à fase seguinte. Ele, Muslera, Forlán e, o improvisado guarda-redes, Suárez são os heróis uruguaios. A última equipa africana, o Gana, cai de pé. Com dramatismo, muito, mas de pé. Os ganeses estiveram por cima do jogo, chegaram primeiro ao golo, por Muntari, e impediram que o Uruguai, favorito, se assumisse como tal. África volta a ficar nos quartos-de-final. A selecção uruguaia, apesar de ter sido esforçada mas pouco brilhante nesta partida, alimenta o sonho de repetir o título. Nos quatro melhores, pelo menos, já está.

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