Mundial 2010: Tiki-taka para uma final inédita

Carles Puyol nunca foi um jogador com grandes dotes técnicos. É um jogador com garra, vontade e alma. Cerra os dentes, morde a língua e vai à luta. Não desiste, não dá um lance por perdido, procura ser leal. É duro, como se querem os defesas-centrais, se assim o tiver de ser. Formado no Barcelona, capitão blaugrana, é apontado como um exemplo de abnegação e coragem. Na selecção espanhola, também com Piqué ao lado, funciona também como pilar, uma barreira aos adversários. No jogo frente à Alemanha, nas meias-finais do Mundial 2010, a Espanha esteve a maior parte do tempo por cima. No seu estilo, passa e repassa, precisava de marcar. O tempo continuava a correr. Faltava um quarto de hora. Pedrito Rodríguez levantou o canto, a bola foi para a marca de grande penalidade, Puyol, como um míssil, cabeceou fortíssimo. Golo!

Uma Alemanha empolgada, trituradora e espantosa frente à Inglaterra e à Argentina. Os dois rivais, ambos com boas probabilidades de chegar longe na África do Sul, foram goleados pela Mannschaft. Pela frente, sem que se tenha colocado em bicos de pés ou fazendo muito furor, a Espanha. Campeã europeia em 2008, eliminou Portugal e Paraguai, demonstrando superioridade, embora lhe tenha faltado a arte e o brilhantismo que lhe estão associados. O seleccionador Joachim Löw, incomodado, temeu que a ausência de Thomas Müller, um jogador fundamental nesta campanha dos alemães no Mundial, tivesse relevo numa partida tão importante. À Alemanha, mais do que procurar explorar o contra-ataque como fizera nas outras duas eliminatórias, uma arma letal, importava retirar a bola aos espanhóis. Aí estaria o sucesso.

Pedro Rodríguez foi o joker de Vicente del Bosque. O jogador do Barcelona, importante nas conquistas recentes do Barcelona, já fora utilizado anteriormente, sim, mas não como titular. O mau momento de Fernando Torres, também ele eclipsado na África do Sul, abriu as portas da titularidade a Pedrito, um jogador mais versátil para o ataque à baliza germânica. O princípio de jogo dos espanhóis foi o mesmo de sempre: tiki-taka, muita posse de bola, muito controlo territorial, mais iniciativa e impedimento das transições rápidas da Alemanha. A Mannschaft recuou, procurou tapar os caminhos para a sua área e, assim que tivesse a bola consigo, lançar o seu veneno, saindo veloz em contra-ataque. Como tantas vezes, até a exemplo do jogo frente a Portugal, a Espanha teve bola, circulou-a, tentou abrir brechas mas o adversário defendeu com solidez. Um jogo de paciência.

Numa partida tão decisiva, com adversários de grande valia, um passo em falso deitaria tudo por água abaixo. Joachim Löw, percebendo que a sua defesa começava a sentir maiores dificuldades, pela insistência incessante dos espanhóis, lançou Janssen e, mais tarde, trocou Trochowski (o substituto de Müller) por Kroos. A Alemanha melhorou. No entanto, também a Espanha, sobretudo pela maior participação de Andrés Iniesta, crescera, conseguindo, nesta fase, mais espaços no território alemão. O golo apareceu aos setenta e três minutos: Iniesta ganhou um canto, Pedro Rodríguez cobrou-o e Puyol, imperial e dominador, cabeceou para o fundo da baliza de Manuel Neuer. O nulo desfez-se. Os espanhóis conseguiram a vantagem. E puderam, então, fazer o que gostam: jogar a toda a largura, com muitos passes, circulando a bola.

A Alemanha, já com o tempo a escassear, teria que mudar. Abrir-se, apostar, arriscar para ser feliz. Vicente del Bosque percebeu-o. Lançou, por isso, Fernando Torres, em substituição de David Villa, colocando sangue novo junto a uma desgastada defesa alemã. Usando a arma do inimigo, o contra-ataque rápido, a selecção espanhola, a cinco minutos dos noventa, esteve perto de sentenciar o jogo – contudo, Pedro Rodríguez, egoísta, perdeu no duelo com Friedrich. Tirando a bola aos alemães, gerindo-a consoante o relógio, La Roja, mesmo desperdiçando o aumento da vantagem, conseguiu a vitória. Com mérito. O tiki-taka, aquele futebol tão rendilhado e possessivo, superiorizou-se e lançou os espanhóis para a sua primeira final de Campeonatos do Mundo. A Alemanha, empolgante pelo jogo ofensivo, cai, como em 2006, nas meias-finais.

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