Mundial 2010: À Alemanha não sacia mas consola

Ficar perto dos vencedores não sacia mas consola. Só um pode erguer o troféu. Há, contudo, um pódio para preencher. E lugares honrosos, além do terceiro, para ocupar. A Alemanha, pelas vitórias categóricas sobre a Inglaterra e a Argentina, com um futebol envolvente, matreiro e eficaz, ganhou o rótulo de candidata. É uma selecção sempre a ter em conta, porém, à partida para a África do Sul, não surgia nas primeiras fileiras. O que demonstrou no Mundial, juntando resultados às boas prestações, mudou-lhe o estatuto: aquela selecção de Joachim Löw teria tudo para chegar à final. Falhou-a. Frente à Espanha, com o tiki-taka espanhol, a Mannschaft perdeu. A oportunidade de chegar ao terceiro lugar, repetindo o que alcançara no Mundial que realizou em 2006, teria de ser agarrada. Para, ao menos, haver uma medalha para assinalar a boa presença em África. Sem que isso seja suficiente, aconchega o ego e diminiu o desconforto.

O Uruguai não é uma selecção recheada de estrelas. Tem Diego Forlán. E, neste Mundial, emergiu Luis Suárez. São as principais figuras uruguaias. Pode, por vezes, faltar alguma técnica, aquele traquejo das grandes equipas e o pragmatismo que faz as formações chegarem longe e manterem bem conservadas as esperanças de serem felizes. Do Uruguai, um país que já foi dominador mas que actualmente pouca expressão tem, não se esperava muito. Ou melhor: nunca para lá se viraram as atenções, outros reuniam todas as luzes da ribalta, sendo que por isso os uruguaios nunca tiveram muito tempo de antena. À medida que a caminhada da celeste foi evoluindo, sempre com sinal positivo, o panorama mudou. As equipas sul-americanas, tão fortes no início, haviam ficado para trás. Ficou um representante. Nem Brasil nem Argentina. O Uruguai, antes envergonhado, foi a principal bandeira do continente americano.

À falta de melhores argumentos, os uruguaios usam o coração. Jogam com garra, querer, ambição e coragem. Com o Uruguai, seja qual for o resultado, não há vencedores antes do último apito do árbitro. Até lá há que dar tudo, sacrificar-se e esperar ser recompensado. O objectivo é esse. Se não der, como não deu para ir além do quarto lugar no Mundial – mesmo assim um feito notável -, ao menos fica a certeza de que foi feito tudo para o conseguir e que o adversário não se ficou a rir antes do tempo. O ritmo não abranda e os braços só baixam após o término. Parece sina de que os finais dos seus jogos têm sofrimento. O principal, frente ao Gana, teve final feliz: Asamoah Gyan falhou uma grande penalidade no último suspiro, o Uruguai ganhou força e, nos penalties, seguiu em frente. Com a Holanda perdeu, disse adeus ao sonho de voltar a uma final de um Mundial sessenta anos depois, mas deu luta até ao fim. Os holandeses ainda abanaram.

Alemanha e Uruguai: derrotados, impedidos de estarem na final, frustrados por não terem ido mais longe. Principalmente os alemães. Pelo futebol que demonstraram, por aquilo que fizeram, soube-lhes a pouco não estarem na discussão do título mundial. O Uruguai, sem ver o seu sonho realizado, quis manter-se como sempre: equipa consistente, com um colectivo fortíssimo e individualidades importantes. Bastian Schweinsteiger, médio alemão do Bayern de Munique, foi, com Thomas Müller ou Mesut Özil, uma das principais figuras da sua selecção. Faltava-lhe, contudo, um golo. Tentou-o. Não marcou mas ajudou: Muslera, intranquilo, largou o seu remate e Müller, um jovem em emergência, rematou certeiro. O Uruguai faz do jogo uma questão de orgulho. Enquanto houver forças, sendo possível, luta. Usando uma arma que tão bem resultou na selecção alemã, uma contra-ataque rápido, Cavani empatou. Com justiça para o resultado.

A melhor forma de os uruguaios regressarem do intervalo foi com um golo. Diego Forlán é, já se disse, o rosto mais visível da selecção uruguaia. No Mundial da África do Sul deu seguimento à belíssima época no Atlético de Madrid. Justificou, no fundo, o estatuto que possui. Ante a Alemanha, marcou o seu quinto golo na prova: cruzamento de Ríos e sensacional pontapé do avançado uruguaio que bateu Hans-Jorg Butt – titular na vez de Manuel Neuer, também ele uma revelação do Mundial. Duas equipas que nada têm a perder, que jogam com a sua honra e com a vontade de alcançarem a possibilidade de se fixarem a seguir aos finalistas, proporcionaram um bom jogo. Cinco minutos depois do golo uruguaio, a Alemanha empatou: Muslera voltou a tremer e Jensen, sem dificuldade, encostou para a baliza da celeste. E, num lance atabalhoado e repleto de carambolas, passou para a frente. Pela segunda vez. Agora em definitivo. Mas com um susto.

Repete-se a ideia inicial: o Uruguai é uma equipa que deixa tudo em campo, é levada pela sua crença e pela sua vontade em triunfar. Acredita que é capaz de surpreender e faz por isso. Até ao fim. Benito Archundia deu dois minutos de compensação na partida com a Alemanha. Suárez, do nada, foi travado por Friedrich à entrada da área. O eléctrico final com o Gana e a incerteza da vitória da Holanda regressaram à memória dos uruguaios: um golo traria prolongamento. Forlán cobrou o livre. A bola embateu com estrondo na trave. Archundia apitou. Aí, sim, o jogo acabou. Com o triunfo alemão, sentenciado pelo golo feliz de Khedira, o terceiro da Mannschaft – a equipa que mais oportunidades teve. Ao Uruguai fica um quarto lugar surpreendente, honroso e conquistado com mérito próprio. Mesmo sendo certo que a celeste nunca encontrou um opositor verdadeiramente forte pela frente, os uruguaios fizeram por justificar a sua presença.

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