Liga ZON Sagres: A ousadia de baralhar as contas

A Supertaça Cândido de Oliveira, perdida para o FC Porto, fora um mau arranque: estaria o Benfica, mesmo com uma pré-temporada de encher o olho, ao nível de equipa encantadora e desconcertante da época anterior? Jorge Jesus, pragmático e sereno, garantiu que sim. Qualquer equipa tem noventa minutos maus, aliados a um jogo a roçar a perfeição do adversário, que podem ser fatais. Numa só luta, sem margem de erro, pode ser normal. A Supertaça foi um jogo, ficou esquecido, os encarnados recarregaram baterias, crentes num bom início de campeonato, para o jogo com a Académica. O campeão nacional, mesmo com as saídas importantes de Di María e Ramires, a que se pode juntar ainda a dispensa de Quim, partiu confiante e na pole-position para um novo título. Mas derrapou, não se encontrou e perdeu na partida.

A luta ao título é, por tradição, uma questão a ser resolvida pelos três grandes. FC Porto, Sporting e Benfica têm disputado, ao longo dos anos, o primeiro lugar no campeonato português. Na temporada passada, mal-sucedida para dragões e leões, sobressaiu o Sp.Braga, uma equipa que procura a afirmação para se colar definitivamente ao topo, intrometendo-se nas contas da conquista do principal campeonato e ganhando um novo estatuto. Deixou de ser olhado com desconfiança para se tornar numa ameaça cada vez mais iminente. Não perdeu, contudo, o estigma de outsider. Continua a sê-lo e os próprios responsáveis, receosos e frios, sem pretenderem serem demasiado ambiciosos sob pena de falharem, assumem que o título nacional, mesmo sendo um desejo em crescendo, não é o grande objectivo para a época do Sp.Braga.

O melhor para esta temporada, em questões de título, é dizer que há três mais um: os grandes e o outsider. Na primeira jornada, contudo, apenas o FC Porto e, lá está!, o Sp.Braga conseguiram vencer. Os dragões suaram frente à Naval, ultrapassaram uma entrada expectante e apática, conseguiram uma segunda parte mais assertiva e incisiva que lhes valeu a vitória, num golo de Hulk, nos minutos finais. A exibição esteve a milhas da Supertaça Cândido de Oliveira, onde o FC Porto dominou e manietou o Benfica, mas, mais importante do que isso, ficaram os três pontos. A equipa de André Villas Boas foi a única, no grupo dos grandes, a consegui-lo. Já o Sp.Braga, mesmo tendo um Portimonense ousado pela frente, conseguiu vencer, com naturalidade, impondo-se perante a ingenuidade da equipa algarvia. Começo com o pé direito.

Benfica e Sporting perderam. A derrota dos encarnados é a mais surpreendente: o Benfica é o campeão nacional, jogou na Luz, esteve em superioridade numérica cerca de meia-hora e não é nada habitual sofrer duas derrotas consecutivas em provas oficiais. A Académica e o Paços de Ferreira, adversários de Benfica e Sporting, respectivamente, jogaram desinibidas, conhecendo as suas limitações mas sem abusar de uma estratégia excessivamente defensiva e pragmática, tiveram coragem, souberam defender-se e acabaram por cima. Foram felizes, sim, porque é algo indispensável para triunfar, mas fizeram por isso – a Académica, bem organizada e com uma atitude guerreira, jogou desde a expulsão de David Addy, aos sessenta e dois minutos, em inferioridade, conseguiu suportar o sufoco do Benfica e selou a vitória no final.

A ousadia e desinibição demonstradas por Académica e Paços de Ferreira, que resultaram na plenitude, demonstram que a diferença entre grandes e pequenos pode, na prática, não ser assim tão evidente. Ambas tiveram ambição, não caindo na tentação de defender desde o primeiro minuto, para conseguirem vencer. Também a Naval e o Portimonense, adversários de FC Porto e Sp.Braga, embora tenham saído derrotados, mostraram boa organização, bons princípios e audácia para colocar em perigo as defesas adversárias. Os meios são outros, os recursos disponíveis não têm comparação, mas a abnegação e a entrega podem superar tudo isso. Foi essa a mentalidade interiorizada por estas quatro equipas. A bem do futebol, contra a monotonia, foi um bom prenúncio para a caminhada que agora se inicia.

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