Opinião: O futebol dos erros, da sorte e do azar



No futebol não há espaço a erros. Ou melhor: é um jogo de erros mas ninguém pode errar. Parece confuso. Não é, até é bem simples. Em campo estão humanos, obrigados a decidir em poucos segundos, tendo de mostrar talento, de funcionar como se fossem robots. Um erro, em futebol, é um pecado capital. Mas se não houvesse erros, o jogo perdia interesse. O adversário fartava-se de lutar, de correr, de insistir e nada. Tudo corria bem, não se abriam brechas, rolava tudo na maior perfeição. Qualquer treinador quer um guarda-redes que defenda tudo, o que pode e o que não pode, que tenha uma defesa semelhante a um muro de betão, um meio-campo mágico e capaz de passes de ruptura para um avançado, tipo Lucky Luke, que não desperdiça uma. Era um sonho. Utópico como é a maioria dos sonhos. Conclusão: o futebol, para ser futebol, tem que ter erros. Vá lá, chegamos a um ponto em que não há muita discussão.


Os erros estão lá. Nos árbitros, nos jogadores, nos treinadores. A estratégia de uma equipa que sabe que tem erros, além de os procurar esconder e superar, é fazer saltar à vista os erros alheios. Depois aproveita-os e conclui. Daí que por vezes, mesmo sem ter que fazer muito para isso, lhe caia uma oportunidade do céu. Não pára para agradecer, nem precisa, basta aproveitar. É aí precisamente que está o ganho. Um irá vencer, o outro perder. E logo a seguir tudo se altera, o estado de graça passa para o adversário, os problemas dos outros instalam-se, tudo fica de pernas para o ar e o mar de rosas agita-se numa rebelião sem fim. Não há muito a fazer com isso. E é o que está a acontecer ao Benfica. Foi campeão no ano passado, trucidou a concorrência, passou um rolo compressor por cima de muitos adversários, sem dar espaço para reacção, caminhou triunfante. Agora as coisas não resultam.

Os que antes estavam subjugados, colocados debaixo da força que o Benfica possuía, ficam agora por cima. É estranho, quase ninguém o esperaria, que um campeão meritório comece a nova temporada a perder. Na Supertaça e nas duas primeiras jornadas do campeonato. As perdas de Di María e Ramires, a explosão em dribles sucessivos e o equilíbrio reinante na equipa, afectaram. O Benfica perdeu-os, nota-se, sente-se e agudiza-se. Jorge Jesus tenta preencher as lacunas, coloca jogadores novos, substitutos, mas nenhum deles produz o rendimento dos outros dois. Porque não há jogadores iguais. No ano passado tudo encaixou com harmonia, sucesso e categoria. Agora custa mais. Para já custou um troféu e seis pontos. O Benfica há-de arrancar, voltar a ganhar, readquir força. Isso não se questiona. E é suportado pela ideia de que o futebol, em pouco tempo, muda tudo.

Vamos a mais um exemplo. Há algumas semanas, não mais do que três, o Benfica estava na linha da frente para o título. Jorge Jesus, pela pré-época realizada, mantinha o estado de graça, pretendendo ser uma confirmação, com estabilidade para os encarnados voltarem a conquistar o título. Agora é diferente. Estamos a vinte e três de Agosto: o Benfica tem duas derrotas no campeonato, está sem pontos, enquanto o FC Porto, o novo dragão de André Villas Boas, antes olhado com desconfiança e, depois, cada vez mais confortável à frente dos portistas, venceu o duelo na Supertaça e lidera com seis pontos. Daqui a algum tempo, porventura, tudo estará mudado. Mais uma vez. Daí que estas análises sejam precoces, pouco fiáveis e, sobretudo, momentênas. Neste momento, e sublinhe-se o neste momento, o FC Porto está melhor e promete crescer e o Benfica, antes de mais, procura erguer-se afastando os azares.

Ora, azares. Não está escrito no início, porque não veio ao assunto, mas vem agora: o futebol é um jogo de sorte e azar. Por muito que defendam que não. Sem sorte, sem aquela pontinha de felicidade, nenhuma equipa chega ao sucesso. Por isso lhe chamam estrelinha de campeão. É isso que o Benfica não tem tido nesta primeira fase da época. Mas tem-lhe sobrado azar. Na baliza, principalmente. Não há como não o referir, mesmo sendo um assunto recorrente, batido como poucos. Roberto Jiménez é um caso sério de estudo. Pelo preço que o Benfica pagou por ele, pelas qualidades que demonstrou no Saragoça, mesmo sendo dimensões incomparáveis, por somar erros no Benfica. Está nervoso, treme por tudo quanto é sítio, não transmite confiança – e aqui, isto da confiança, é recíproco: a equipa não tem em Roberto, Roberto não tem na equipa. Jorge Jesus insiste que terá sucesso. A aposta está cada vez mais perdida.

O Benfica tem errado: a defesa não é mandona como antes, o meio-campo não cria tantas rupturas, o ataque, antes letal com Cardozo e Saviola, esbarra nos adversários. Só que Roberto Jiménez é o guarda-redes. Por isso, os tais erros de que se falava acima, são muito mais notados. Não pode perder a bola, não a pode colocar mal, não pode confiar no golpe de vista. Roberto está demasiado verde, com muitos tremeliques e falhas, para assumir a baliza de um clube que luta pelo título. Pode vir a ser um fenómeno. Agora não é. E vem-nos à memória uma frase batida: hoje é o primeiro dia do resto da tua vida. No caso do Benfica, na baliza, deverá ser mesmo. Jorge Jesus, para não arriscar demasiado a carreira do clube, terá de tomar a melhor decisão em prol da equipa. Percebe-se que a dispensa de Quim correu mal – aposto que, não fosse a lesão, estaria às gargalhadas. Quim não era excelente mas era bom.

As derrotas acentuam os erros. Por exemplo: ontem, no Dragão, Radamel Falcao, isolado perante o guarda-redes, desperdiçou dois golos feitos. Um com o pé, o outro com a cabeça. Só que, por essa altura, já marcara um, o primeiro, antes de Belluschi tranquilizar a equipa. Logo após as perdas, voltou a marcar. Bisou, o FC Porto ganhou e o dragão caminha alegre: está no topo, continua a crescer e os rivais perdem pontos. Falcao é um avançado de enorme qualidade. Mas também falha. Poderia ter sido fatal. Não foi e Radamel sorri. As vitórias trazem confiança, alegria, vontade de querer sempre mais e mais. As derrotas abalam, podem originar mais desaires, acentuam a descrença e a incapacidade. Roberto vive isso. Porque o Benfica, para já, também. Tal como o Sporting, por exemplo, que joga sob brasas. Aí os erros estão mais próximos de acontecer e são mais difícies de esconder. A melhor forma de ter sucesso é… ganhar sempre.

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2 thoughts on “Opinião: O futebol dos erros, da sorte e do azar

  1. Ganhar sempre nem a melhor equipa do mundo isso é impossível só que o ano passado o Benfica apostou numa equipa de verdadeiros jogadores de futebol e pode vende-los mas depois tem de ir buscar jogadores já com traquejo e qualidade, ou seja este ano esbanjou dinheiro e cuja qualidade poderá veremos ser vista dentro de 2 ou 3 anos nalguns destes casos o que é demasiado tempo para um clube como o Benfica.

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