Entrevista Pedro Azevedo: "Benfica parte na pole-position"


O Mundial para trás, a polémica, que parece interminável em torno de Carlos Queiroz, devidamente comentada, sempre com sentido crítico que se mistura com a realidade pura e dura, até chegar à nova edição do campeonato português. O FC Porto arrancou melhor, está mais ousado, pretende reassentar o seu domínio, mas o Benfica é o campeão, ganhou com mérito no ano passado, quer estabilizar e dar seguimento às conquistas. “Parte na pole-position, as duas primeiras jornadas não me alteram a opinião”, avança Pedro Azevedo. Na segunda parte da entrevista ao FUTEBOLÊS, já com a selecção para trás, uma antevisão ao novo campeonato. De um Benfica que parte na frente para ser campeão, com um FC Porto em busca de uma nova identidade que traga títulos, um Sp.Braga na forja para ser um novo grande e até um Sporting que deixa muitas dúvidas para o futuro. No campeonato que precisa de um abanão.

FUTEBOLÊS: Mesmo começando com em falso, o Benfica mantém-se na pole-position na corrida ao título?

PEDRO AZEVEDO: O Benfica é favorito, mantenho, apesar destas duas derrotas iniciais: traz o elã de uma época muito boa, sensacional depois de um jejum de cinco anos, um campeonato em que o Benfica foi um campeão convincente, que não tinha sido no ano do Trapattoni [2005] – nessa época foi mais um campeonato perdido pelo FC Porto do que ganho pelo Benfica -, foi o melhor, apesar da boa réplica do Sp.Braga, tendo uma excelente equipa. Neste ano mantém o mesmo treinador, praticamente os mesmos jogadores. O Di María é uma baixa que vai ser colmatada pelo Gaitán, em quem eu deposito muitas esperanças, acho que é muito bom jogador. Ainda vão chegar jogadores para o Benfica. O guarda-redes foi um erro de casting, foi mal contratado…

F: É um caso psicológico?
PA: Não, não. O Roberto nunca foi um indiscutível em clube nenhum, fez apenas seis meses agradáveis na última Liga Espanhola, não acredito que seja bom guarda-redes. Não acredito. É grande em altura mas não é grande guarda-redes. Foi muito caro, custou o mesmo que Petr Cech ao Chelsea, por exemplo, acho muito caro… O Benfica deveria ter ido buscar o Eduardo ao Sp.Braga. Pela confiança que o treinador tem nele, porque o Jorge Jesus foi treinador do Eduardo em Braga, conhece-o melhor do que ninguém e, por metade do preço, deveria ter apostado nessa contratação. Falhou, mas eu estou convencido de que ainda vai contratar um nestes dias que faltam para o encerramento do mercado – e vai ter mais um ou dois jogadores. E vai lutar pelo título, é o grande candidato. Estas duas derrotas não me dizem absolutamente nada, não me alteram a opinião: o Benfica parte na pole-position.

F: Quem se segue?
PA: O FC Porto aparece no segundo lugar desta ordem de favoritos. Muito bem reforçado com o João Moutinho – que ainda não mostrou nada e é o médio que está em pior forma neste momento mas acho que é um excelente reforço -, que é um jogador de mão cheia, que faz todas as épocas sem leões, é um sempre-em-pé, tem muito coração, qualidade técnica… É um jogador à Porto. O central argentino, Otamendi, é um grande jogador, vai ser uma das grandes revelações deste campeonato. Helton também está em excelente forma neste início de época, vai querer regressar à selecção do Brasil, a última temporada dele não foi boa. O meio-campo tem mais soluções, o banco também e há ainda um aspecto muito importante que o FC Porto tem e não possuía no ano passado: versatilidade táctica. A equipa está a utilizar dois/três sistemas tácticos por jogo, não alterando o seu modelo mas alterando o sistema, porque são coisas diferentes, está a conseguir fazê-lo com êxito, coisa que o Jesualdo, em quatro anos, nunca conseguiu: o FC Porto jogou sempre em quatro-três-três, salvo uma ou outra excepção, era uma equipa muito previsível e isso notou-se.

F: Atrás: Sp.Braga ou Sporting?
PA: Eu estava convencido de que o Sp.Braga iria, neste início de temporada, não digo quebrar, mas apresentar uma qualidade de jogo inferior à do ano passado, devido a algumas saídas importantes. Mas não. O Sp.Braga reforçou-se muito bem, com muitas discrição e muita eficiência, com jogadores de muito boa qualidade, está muito bem orientado, porque o Domingos é um treinador que começa a afirmar-se, e inicia a época muitíssimo bem. Afastar Celtic e Sevilha é um mérito muito grande do Sp.Braga, que pode dar um fôlego importante para a temporada. Não acredito na sua presença nos dois primeiros lugares, como favorito neste campeonato, porque vai ser muito difícil ao Sp.Braga manter no campeonato o rendimento do ano passado, devido à presença Liga dos Campeões que irá desgastar, sendo que não tem nem a carteira nem as soluções do Benfica e do FC Porto. Portanto, não acredito que vá ficar nos dois primeiros, mas vai discutir o terceiro lugar. E vai fazê-lo com o Sporting, estando um bocadinho mais adiantado. Nesta grelha de partida, digamos assim, o Sporting está em quarto lugar na corrida ao título que não tem mais nenhum candidato. Os outros vão lutar pela permanência e para se transformarem nos outsiders que o campeonato é tão pródigo.

F: Sporting e Sp.Braga estão em planos opostos: um perde força e o outro cresce a cada dia?
PA: Estão, estão. Esta injecção de sete milhões e duzentos mil euros, que o Sp.Braga vai invariavelmente buscar com os jogos e os pontos da Liga dos Campeões, tornará o clube mais forte, dará maior dimensão ao Sp.Braga, mesmo em força social – porque estão a entrar muitos sócios nos últimos dias, devido a este fenómeno fantástico e inédito de estar numa edição da Champions. Vai aproximar-se dos três grandes. O Sporting tem vindo a perder tudo: adeptos, até lugares anuais, como rezam os dados da última época, e espaço entre os candidatos ao título. A última época foi um desastre e este ano, apesar deste resultado na Dinamarca, eu continuo a colocar muitas reticências. Primeiro, porque Liedson é um jogador em declínio, se continuar a jogar assim irá fazer poucos golos e acho, até, que não é, neste momento, o melhor ponta-de-lança do Sporting. Noto, depois, que tem menos Academia, ou seja, menos identidade e mais idade. Tem uma equipa de jogadores mais idosos… [pausa]

F: Idosos, como quem diz…
PA
: [risos] Idosos, neste caso, com mais idade!… Não se confunda com jogadores perto da reforma [risos]. Tenho muitas dúvidas sobre este Sporting. Muitas dúvidas, muitas dúvidas.


F: Até onde pode ir o Sporting nesta época?
PA: Vai lutar pelo terceiro ou quarto lugar, não acredito que passe dessa fasquia. Aliás, o Sporting tem ainda problemas de plantel, está a tentar contratar mais dois ou três jogadores até quarta-feira [dia de encerramento do mercado], o que eu não acredito, porque há problemas financeiros que são claros. O Sporting não tem liquidez, não tem gerado receitas e, portanto, vai ter muitos problemas para satisfazer as pretensões do treinador – que passam por um guarda-redes, fundamentalmente por um ponta-de-lança e ainda mais um jogador, ele terá pedido três, mas provavelmente não vai ser possível satisfazer os pedidos do Paulo Sérgio…

UM FUTEBOL MAIS VIVIDO, MAIS INTENSO, MAIS VIBRANTE

F: O que falta ao Sp.Braga para ser considerado um grande?
PA: Falta dar continuidade a estes resultados, confirmando-os num futuro próximo. Se o Sp.Braga continuar a ser uma equipa de Liga dos Campeões ou de Liga Europa e se conseguir continuar a lutar, dando réplica aos três grandes, pela conquista do título… É importante recordar que o Sp.Braga esteve praticamente até ao último apito da Primeira Liga do ano passado a lutar pelo campeonato nacional, embora na última jornada as possibilidades já fossem muito remotas. O Sp.Braga também tem sido um clube vendedor – mostra olho para o negócio: compra barato e vende bem -, juntando às receitas que irá ter na Liga dos Campeões, além de mostrar que é um clube com uma boa organização, tem prospecção muito competente, tem um bom departamento de comunicação entregue ao Ricardo Lemos, um ex-colega meu, que é também um profissional competente. Sinceramente, desconheço as aptidões do Fernando Couto para este novo cargo, mas teve até agora o Carlos Freitas e muitos destes jogadores que o Sp.Braga contratou este ano ainda vieram por seu intermédio – este defesa-esquerdo, Elderson, acho que é um excelente jogador e chegou a custo zero. Portanto, acredito que o Sp.Braga, com esta estrutura, com esta organização e se confirmar os resultados, vai ser, finalmente, o quatro grande. E penso que vai ser bom para o futebol português.

F: Mesmo tendo sido uma aposta de altíssimo risco, a chegada de André Villas Boas foi um tónico para despertar o FC Porto?
PA: O Jesualdo Ferreira foi embora do FC Porto, porque já não tinha ambiente, já não tinha cumplicidade dos sócios, já não tinha entourage dentro do Dragão. O FC Porto tem uma noção muito boa do que é o futebol-negócio e é preciso vender lugares anuais, despertar o clube, despertar os sócios e, portanto, era importante mudar depois de quatro anos, de um ciclo enorme que nunca tinha acontecido no FC Porto com um treinador. E, por isso, mudou. Também, claro, porque os resultados não foram os pretendidos, ficar em terceiro no campeonato só aconteceu três vezes na era Pinto da Costa, que leva vinte e oito anos de presidente. Quando se muda, depois desta conclusão a propósito do treinador que sai, não há muito a perder, só há a ganhar e o FC Porto aposta nisso: no que há a ganhar.

F: Mas ficar dois anos sem conquistar o campeonato não será “perigoso”?
PA: É perigoso, sem dúvida, mas um bom início de época também era um catalisador importante para o clube, para os jogadores, para a equipa técnica e para os adeptos, e o FC Porto está a ter um excelente arranque. Reforçou-se bem, já o disse. O Walter é um jogador muito interessante, o Souza é um jogador de futuro, o João Moutinho é um grande jogador, vai ser o ano da afirmação de Rúben Micael, vai ser o ano da afirmação de Belluschi, que está mais do que visto que não era um jogador…

F: …adaptado?
PA: Não era adaptado, era um jogador que não gostava do treinador e o treinador não gostava dele. Acabou também algum jogo de confiança excessiva do Bruno Alves, que até livres marcava no FC Porto, uma coisa incrível quando se tem Hulk e Belluschi… E, como não havia nada a perder, há que contratar um treinador com o qual o FC Porto só teria a ganhar. O André Villas Boas é portista, tem um percurso dentro do clube que o Pinto da Costa conhecia, o trabalho que lhe foi devido dentro do FC Porto foi reconhecido e apreciado, além de que tem a escola do Bobby Robson, com quem começou, e a escola do Mourinho, com quem continuou, sempre na observação de jogos, sempre muito criterioso, interessado e a revelar uma boa tendência para a táctica, para a escolha de jogadores. Como o FC Porto na altura [em 2002 apostou no José Mourinho, que era um treinador em que poucos acreditariam e deu no que deu, esta aposta tem muito a ver com isso. Pessoalmente, estou convencido de que vai ser um bom treinador.

F: As duas primeiras jornadas podem ser um bom prenúncio para o campeonato mais competitivo capaz de afastar posturas excessivamente defensivas?
PA: Não, acho que este campeonato vai ser igual aos outros. Estas duas primeiras jornadas não têm sido muito diferentes: poucos golos, uma fase ainda de alguns receios, as equipas ainda estão a assentar a poeira, houve mudanças de jogadores, por isso estou convencido de que não vão existir mudanças. Três mais um na luta pelo título, os tais três clássicos e o Sp.Braga, mas no resto acho que vai ser igual.

F: Falta um abanão ao futebol português?
PA: Acho que o futebol português tem que rever a política dos preços. Por um lado, toda a gente deseja mais público nos estádios mas, por outro, ninguém baixa o preço aos bilhetes… Isto é um incoerência. E, depois, promover o espectáculo: acabar com os blackouts, sejam camuflados ou não, dar mais liberdade aos jogadores para promoverem o espectáculo, tal como a todos os agentes do futebol, até aos árbitros, para falar pela positiva do espectáculo. Talvez esse seja o abanão que o futebol português precisa, olhar um bocadinho para a Espanha – onde toda a gente promove o espectáculo, até há polémica mas com participação dos intervenientes, em que exprimem as suas ideias, vive-se muito o jogo durante a semana, em Portugal dá a sensação que o jogo é só vivido naqueles noventa minutos em que os jogadores andam ali à procura das balizas. O futebol tem que ser vivido sete dias por semana, com entusiasmo, com raça, com paixão, para os estádios encherem, com preços dos bilhetes mais baratos, porque, de resto, o futebol português não pode muito melhorar muito mais, porque não tem condições económicas para isso.

F: A participação da selecção foi um reflexo, em termos de postura, do campeonato português?
PA: Não. A selecção portuguesa quantos jogadores tinha que jogassem cá em Portugal? Poucos. Não tem a ver uma coisa com a outra. O que falhou na selecção foi o que já disse anteriormente. O seleccionador tinha dos melhores jogadores do Mundo mas não conseguiu ter um grande equipa. Isto é apenas o dedo do treinador, não pode ser mais nada. Não pode!

NOTA: A entrevista foi realizada no dia 27 de Agosto de 2010. Esta é a segunda e última parte.

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