Liga Europa: Dragão invicto na noite perfeita do leão

CSKA SÓFIA-FC PORTO (0-1): VENCEDOR, LÍDER E INVICTO

Décimo primeiro jogo e décima primeira vitória. O FC Porto segue invicto, respira confiança, está motivadíssimo, percebe que não pode relaxar, está obrigado a jogar sempre nos limites e encontrar em cada jogo um objectivo atraente. Quer ganhar sempre, construir um ciclo invejável de vitórias, sabe que vai ser travado mas quer atrasar ao máximo o dia em que perderá pontos pela primeira vez nesta temporada, continuar a sua caminhada com êxito pleno. O dragão assumiu o jogo em Sófia, mostrou os maiores recursos, jogou a seu gosto nos terrenos do adversário, marcou por Radamel Falcao, um golo natural, tendo passado ao lado de mais oportunidades para aumentar a vantagem. Esse foi, aliás, um problema novo, pouco visto nesta época, que afectou a equipa portista: ficaram muitos golos por concretizar. Daí que na segunda parte, com o CSKA espreitando uma chance para ser feliz, sendo ousado, o FC Porto tenha somado alguns sustos.

Rotatividade. André Villas Boas tem um vasto leque de jogadores, o grupo portista é forte, existem várias soluções e há a possibilidade de, em cada jogo, lançar novas peças sem descaracterizar ou tirar rendimento à equipa. Na Bulgária, o treinador voltou a apostar em Sapunaru, lançou pela primeira vez Otamendi e Maicon no centro da defesa, colocou Souza na vaga de Fernando e deu a Cristian Rodríguez a possibilidade de se juntar a Hulk e Falcao no tridente ofensivo. A ideia não altera: posse de bola, azul vivo, facilidade para chegar à área contrária e rival recuado, sem poder criar perigo, impedido de rematar à baliza de Helton. O golo chegou ao quarto-de-hora. Natural, anunciado e justo: Falcao recebeu de Hulk, encarou o guarda-redes M’Bolhi e atirou para o fundo da baliza da equipa búlgara. Tudo o resto, como fora antes, teve azul intenso como fundo. O FC Porto tomou as rédeas do jogo.

Embora apenas com uma vantagem tangencial, o FC Porto baixou a guarda e mostrou distracções. Tiivera inúmeros lances para voltar a marcar, com Falcao ou Belluschi, por exemplo, mas não foi eficaz. Na equipa búlgara, até então inofensiva e incapaz de criar desequilíbrios, sobressaiu um tal de Michel Platini. O atacante brasileiro aproveitou as falhas, assustou Helton, rondou o golo e colocou a vantagem do FC Porto em perigo, tal como Sheridan foi outra ameaça, mostrando o maior arrojo do CSKA de Sófia. André Villas Boas, percebendo que era necessário reagir, lançou Varela, Guarín e Walter. Ao mesmo tempo, poupou Hulk, Belluschi e Falcao. Conseguiu fazer a rotatividade e ser bem-sucedido. O FC Porto, pelo meio da subida dos búlgaros, continuou a criar oportunidades, assustar M’Bolhi e ter capacidade para fazer mais golos. Não fez. Tal como não sofreu. O tento de Falcao vale um passo decisivo.

SPORTING-LEVSKI SÓFIA (5-0): A NOITE DE RENDIÇÃO

Diogo Salomão. Começamos por ele. Tem vinte e dois anos, foi nesta temporada chamado à equipa principal do Sporting, chegou do Real Massamá, assim como acontecera com Nani, da terceira divisão. Mostrou potencial, garra e vontade para triunfar. Teve, ante o Levski de Sófia, a oportunidade de jogar como titular. Aproveitou, espalhou talento, desequilibrou, esteve eléctrico ante a débil defensiva búlgara e marcou um golo. Ao Sporting, atordido pelo mau início e cada vez mais intranquilo devido aos resultados recentes, com a derrota no derby ante o Benfica e o empate caseiro com o Nacional, evidenciando uma atitude passiva e de impotência, o jogo com os búlgaros chegou em boa altura: exibição sólida, confiante, mostrando superioridade, remetendo o campeão da Bulgária à sua área, sem que tenha criado qualquer perigo a Rui Patrício, conseguindo afastar os fantasmas da finalização. O leão produziu e marcou. Foram cinco.

O Sporting vive numa constante indefinição. Na temporada passada atingiu o seu ponto máximo: errou, deu imensos passos em falso, acumulou desatenções e terminou a vinte e oito pontos do campeão nacional e sem qualquer título conquistado. Pelo meio, contudo, teve belas exibições, principalmente na Europa, conseguindo um balão de oxigénio que logo terminou quando regressaram os problemas iniciais. Teve uma época de metamorfoses. O arranque para a nova temporada trouxe nova ambição, mentalidade renovada, jogadores e treinador novos, maior confiança. Os resultados não têm sido os desejados. No campeonato, por exemplo, o leão está já a dez pontos da liderança do FC Porto. Mesmo assim, mostrou consitência, capacidade e valor na Liga Europa, batendo o Lille, em teoria o adversário mais forte do grupo, jogando com apenas dois dos seus habituais titulares. Ante o Levski, o Sporting rugiu forte. Como nunca nesta época.

Sem Nuno André Coelho, sem André Santos, sem Yannick e sem Liedson. O Levezinho tem sido o grande suporte do Sporting, mostrou talento para resolver jogos sozinho, mas está em clara quebra. Perdeu o estatuto de indiscutível. Com isso, com as novas opções de Paulo Sérgio, beneficiaram Polga, Zapater, Postiga e o já referido Salomão. O primeiro golo surgiu, seguindo a ordem natural dos acontecimentos, à meia-hora: bola parada ofensiva, cabeceamento forte de Daniel Carriço, aberta a baliza de Petkov. Antes do intervalo, num inusitado golpe de cabeça, Maniche aumentou. O Sporting chegou a uma vantagem tranquila, concretizou o domínio territorial e ficou confortável. A segunda parte, mantendo a intensidade e a vontade de marcar, trouxe mais golos, mais três, até à mão-cheia: um remate de Diogo Salomão, um belíssimo tiro no regresso de Hélder Postiga e o fecho por Matías Fernández. Perfeito para o leão.

Anúncios

Schalke 04-Benfica (2-0): A vitória alemã nos erros da águia

COMENTÁRIO

Uma bola, onze contra onze e vitória da Alemanha. Para Gary Lineker não havia que enganar: apesar das tácticas, da ambição, do talento individual e do fio condutor que orientam uma equipa, tudo isso fundamental para ganhar, seriam sempre, fosse como fosse, os alemães a sorrir. Para Portugal, por exemplo, também tem sido assim: com a selecção nacional ou com equipas, a Alemanha triunfa, superioriza-se, consegue ser melhor. O Benfica foi mais uma vítima: desperdiçou oportunidades, faltou-lhe o clique final para concretizar e deixar o adversário nas trevas, permitiu que o Schalke 04 se mantivesse vivo, controlado mas vivo, cedeu em momentos fundamentais, errou como não é permitido na Liga dos Campeões e acabou derrotado. Depois de um ar de melhoria, iniciado frente ao Hapoel Tel Aviv, prosseguido com vitórias ante Sporting e Marítimo, os encarnados voltaram a perder. O campeão é um semáforo demasiado intermitente.

Minuto zero. Duas equipas feridas no seu orgulho, começando a época com o pé esquerdo, acumulando erros, perdendo pontos importantes, vendo a margem de manobra cada vez menor: para o Benfica defender o seu título de campeão português e chegar longe na Liga dos Campeões, um objectivo ousado mas assumido por Jorge Jesus, e para o Schalke que é vice-campeão alemão e pretende voltar a discutir o título germânico. A equipa portuguesa ganha ascendente no jogo. Tem a bola, circula, avança, está tranquila, impede o perigo do adversário e cria oportunidades de golo. Cardozo e Saviola, dupla letal na época passada, arrasadora e com uma eficácia de fazer inveja a qualquer um, tiveram golos nos pés, ambos podiam ter marcado, mas falharam. Este é um problema actual do Benfica: perdeu capacidade para finalizar, para ferir o adversário e marcar o jogo a seu favor. O Schalke, aos poucos, aventurou-se no ataque.

Minuto quarenta e cinco. Persistência do nulo: mais Benfica, primeiro quarto-de-hora de uma equipa imperial e mandona, Schalke demostrando as suas carências, revelando-se perfeitamente ao alcance dos encarnados, mas que, nas vezes em que se aproximou da baliza benfiquista, criou perigo: marcou por duas vezes em lances anulados por fora-de-jogo, um deles mal assinalado, Rául acertou no poste e, na recarga, Roberto, tranquilo e seguro depois das tormentas iniciais, agigantou-se para impedir o golo de Rakitic. Quer tudo isto dizer que o Benfica teve o jogo na mão, deve a si próprio o facto de não ter aproveitado as soberanas oportunidades desperdiçadas pelos dois goleadores, Tacuara e El Conejo, aumentando as preocupações sobre a eficácia dos encarnados, e o Schalke, nas ocasiões em que criou perigo, foi realmente uma ameaça para a baliza de Roberto. Manter a postura e acertar na baliza: propósito do Benfica para vencer.

Minuto noventa. A História mantém-se: o Benfica não consegue vencer na Alemanha e os alemães, no duelo de onze contra onze, terminam por cima. Os encarnados foram ineficazes na primeira parte. Na segunda, somando a isso, perderam o ar mandão, baixaram a guarda, somaram desatenções e cometeram erros individuais que se revelaram fundamentais: César Peixoto atacou mal um cruzamento de Schmitz que resultou no golo de Jefferson Farfán e, doze minutos volvidos, a cinco do final, David Luiz foi ingénuo perante Raúl, matreiro e audaz, antes de Huntelaar, assistido por Jones, terminar com as aspirações do Benfica. A equipa portuguesa cai por culpa própria. Por não ter conseguido ser eficaz, terminando com o Schalke, impedindo os alemães de se manterem vivos e cedendo espaços na defesa. Os alemães ganham uma nova vida. O Benfica recua na recuperação. Sem que o início o fizesse prever.

NOTA: O comentário ao jogo do Benfica, na Liga dos Campeões, apenas pôde ser colocado agora.

Sp.Braga-Shakthar Donetsk (0-3): Sonho distante

COMENTÁRIO

O despertador tocou alto e bom som em Londres. O Sp.Braga acordou estremunhado, de forma violenta e abrupta, sentindo a exigência, a falta de traquejo e a incomparável diferença para com as armas do Arsenal. Terminou o estado de graça, caiu com estrondo, sentiu o peso nos ombros e foi vergou a uma pesadíssima derrota. Depois disso, jogou duas vezes para o campeonato: empate desolador em Paços de Ferreira e vitória tranquila sobre a Naval. Chegou, por fim, a Liga dos Campeões a Braga. Com o Shakthar Donetsk pelo caminho: equipa ucraniana, com brasileiros talentosos, bem orientada por Mircea Lucescu. A incapacidade voltou a assolar os Guerreiros, traduziu-se num novo falhanço, com mais uma derrota pesada, por metade dos números do Emirates Stadium, que compromete as aspirações, à partida legítimas, de o Sp.Braga ganhar um lugar nos oitavos-de-final: batido por três-zero e último lugar do grupo.

O Sp.Braga é um burguês em crescimento no mundo dos negócios. Tem talento, sabe o que deve fazer, ganha força no mercado interno, progressivamente começa a ascender e a pisar os calcanhares aos grandes senhores que se instalaram no domínio do ramo. Começa por ter o seu cantinho, vai adquirindo estatuto e passa a dispor de capacidade para negociar com bons argumentos. Mas ainda lhe falta a experiência, a matreirice, o oportunismo. Tem talento, não há dúvida, só que pode não ser suficiente se quiser lutar de igual para igual com alguém com maior traquejo, mais anos de trabalho e competências apuradas na alta-roda europeia. É ainda uma equipa verde. Numa prova tão importante como a Liga dos Campeões, onde apenas os melhores sobrevivem, como numa corrida desenfreada por conseguir melhores negócios do que a concorrência, os erros pagam-se caro. O Sp.Braga tem-no sentido. Perde, gela e desanima.

Foi num erro que o Shakthar se colocou em vantagem: Luiz Adriano trabalhou bem, abriu espaço na defesa do Sp.Braga, conseguiu uma boa posição e rematou certeiro, com a permissão de Felipe, para o primeiro golo do campeão ucraniano. Para trás haviam ficado cinquenta e seis minutos pouco intensos, longe de serem bem jogados, com maior ascendente do Sp.Braga, traduzido nalgumas boas oportunidades desperdiçadas ou bem travadas pelo guarda-redes Pyatov, embora nunca o Shakthar Donetsk tenha dado mostras de desorientação ou descontrolo. Dois minutos antes do golo dos ucranianos, o tal em que Luiz Adriano contou com a ajuda de Felipe, Domingos Paciência retirara Leandro Salino, até então o melhor jogador da equipa minhota, para lançar Lima, o joker de Sevilha, na tentativa de aumentar a capacidade ofensiva. A decisão pareceu pouco acertada. Também o treinador se estreia na elite europeia.

Atacados na sua fortaleza, onde não perdiam há já catorze meses, os jogadores do Sp.Braga, destroçados pela derrota de Londres, pretenderam mostrar os seus atributos. A equipa portuguesa criou oportunidades e Pyatov emergiu: travou os remates de Paulo César, Matheus e Lima, agigantou-se na baliza, tapou todos os caminhos e revelou-se uma peça-chave na equipa ucraniana. O Sp.Braga criara, estivera perto do golo, mas não fora eficaz, esbarrara na extraordinária prestação do guarda-redes adversário. Não marcou e sofreu. Sobressaiu a tal matreirice e oportunismo do Shakthar, uma equipa pragmática, para selar a vitória: Luiz Adriano ganhou a Moisés, encontrou uma posição semelhante à do primeiro golo e voltou a ser bem-sucedido frente a Felipe. Já em período de compensação, Douglas Costa, na conversão de uma grande penalidade, fixou o resultado final. Pesado, mais uma vez. Sonho cada vez mais distante.

Liga ZON Sagres: Análise da jornada 6

O PASSO CERTEIRO DO DRAGÃO

Liderança sólida, alicerçada em bons jogos, atitude personalizada e confiante: o FC Porto bateu o Olhanense, cimenta o seu estatuto, exibe as distâncias para a concorrência e percebe que nada ganhou, é realista, não deixa que o pensamento seja toldado pelo fabuloso arranque. O Benfica somou a segunda vitória consecutiva, mais esforçado do que o necessário, sendo demasido perdulário e apenas por uma vez conseguindo acertar na baliza do Marítimo, enquanto o Sp.Braga, sem jogar bem, foi eficaz frente à Naval. Em Alvalade, o Sporting desiludiu, cometeu erros antigos, cedeu ante o Nacional e atrasou-se na luta pelo título – já são dez pontos. Destaque para a campanha da Académica, mostrando arrojo e credenciais, estabelecendo-se na segunda posição.

O líder está bem e recomenda-se: solto, confiante, risonho e vencedor. O FC Porto carrega no acelerador, esforça-se por fazer bem, é tenaz, percebe que o resultado é realmente o objectivo a que tem que chegar em primeiro lugar, torna-se possessivo, transcende-se, tira bola ao adversário e joga com o pensamento fixado na baliza. Ultrapassou mais uma barreira, nova etapa da sua consolidação, está cada vez mais próximo dos ideais de André Villas Boas, é uma equipa moderna, capaz, vence com categoria. Ultrapassou o Olhanense, uma das boas formações deste arranque de temporada, impondo a primeira derrota aos algarvios. O dragão circula, produz e concretiza, ao mesmo tempo que fecha os caminhos para o seu território. No contexto de felicidade, favorável à manutenção, Nicolás Otamendi estreou-se a marcar, abriu o caminho da vitória que Hulk confirmou. O FC Porto cumpriu antes do intervalo, geriu o esforço depois.

A tensão benfiquista subira, ameaçara o limite e a ansiedade apoderara-se da águia. Oportunidades em catadupa, golos feitos desperdiçados por Cardozo e Saviola, uma grande penalidade deixada passar em claro por João Capela, se bem que Maxi Pereira também tenha colocado a mão sobre o ombro de Djalma no interior da área benfiquista, total desacerto, pressão cada vez maior, margem nula: cocktail explosivo para o campeão, proibido de ceder terreno, falhando onde antes era letal, vendo Roberto agigantar-se na baliza. O minuto cinquenta descarregou a adrenalina: Fábio Coentrão recebeu a bola, deixou-a a saltitar, olhou para Marcelo Boeck e disparou certeiro. O golo surgiu pelo melhor jogador, pelo mais entusiasta e aguerrido, encheu de justiça o resultado: o Benfica foi melhor, teve requintes de masoquismo, falhou inúmeras ocasiões por inusitada inépcia mas conseguiu vencer ante um frágil Marítimo.

O Sp.Braga regressou a casa. Encontrou o ambiente ideal para superar o pesadelo em que, num abrir e fechar de olhos, se viu inserido. Precisava de uma vitamina, um aconchego e um novo início para voltar a abrir um sorriso. Conseguiu alimentar o ego, venceu e somou três pontos: isso é o importante neste contexto. Os bracarenses encontraram dificuldades no início, mostraram poucas ideias, embateram na boa organização da Naval, coesa a defender e tentando ser perigosa a atacar, não conseguindo criar perigo. Marcaram, sem saber ler nem escrever, num tiro forte de Mossoró. O golo, antes da meia-hora, abalou a Naval: perdeu os seus atributos, desorganizou-se e foi incapaz de reagir. Imprimindo o seu ritmo, sem jogar bem, o Sp.Braga chegou aos três golos, aproveitando erros adversários, e carimbou a vitória. Foi a equipa mais forte e, sim, ganhou bem. Apenas nos minutos finais, Fábio Júnior reduziu a diferença.

Aos poucos, o Sporting cai nos vícios do passado, revela impotência, mergulha nas dúvidas e perde força para se assumir na luta pelo título. O leão controla, tem bola, remata, ronda a baliza adversária e passa perto do golo, só que tarda em conseguir um fio de jogo, em fazer valer-se como colectivo. Não tem alegria, falta-lhe maturidade, está intranquilo. Vive de raros fogachos e sente forte a falta de desequilíbrios e a completa ausência de Liedson – que até faz Paulo Sérgio, ao intervalo e com um nulo, retirá-lo da equipa. A equipa melhorou após o intervalo, com Saleiro e Diogo Salomão em campo, pressionou mais, deu mais largura ao seu futebol, desbloqueou o nulo, num sensacional pontapé de Saleiro, conseguindo saltar para a frente. Em vantagem, o Sporting recuou, abusou da confiança, colocou-se a jeito. Todo o esforço para marcar foi inglório: Danielson, também num belo golo, embora consentido, deu o empate. O Nacional pouco fez.

A Académica conseguiu, à sexta jornada, ultrapassar as expectativas: ascendeu ao segundo lugar, com onze pontos, depois de ultrapassado o Vitória de Guimarães (3-1) – em igualdade pontual, tal como o Sp.Braga -, conseguindo um belíssimo arranque de temporada no campeonato nacional. O União de Leiria conseguiu vencer pela segunda vez: bateu o Rio Ave, por 1-0, confirmando o arranque em falso da equipa vila-condense, ainda sem triunfos, contando, a par do Marítimo, com apenas dois pontos. O Vitória de Setúbal, inflingindo a primeira derrota ao Paços de Ferreira (ganhou, no Bonfim, com um golo de Claudio Pitbull), chegou aos nove pontos, alcançando o Olhanense. Também o Portimonense somou mais três pontos (1-0, sobre o Beira-Mar), conseguindo o segundo triunfo na Liga ZON Sagres. Apenas com quatro pontos somados, imediatamente acima dos lugares de descida, a Naval despediu Victor Zvunka.

O MOMENTO DA JORNADA

Liga ZON Sagres: Um momento de estreia de sonho

FC PORTO-OLHANENSE (2-0): HOLA, YO SOY OTAMENDI!

Bruno Alves era o capitão: um símbolo e o principal portador do espírito de dragão e da tal mística que tão importante é no futebol. Deixou o FC Porto neste defeso. Ficou um buraco, uma lacuna, pensou-se que André Villas Boas teria dores de cabeça, o novo dragão começaria mal na defesa. Puro engano: apesar de algumas distracções, de momentos menos conseguidos, num típico estudo mútuo, Rolando e Maicon formaram uma boa dupla e, num ápice, o FC Porto construiu uma muralha em frente da sua área. Mesmo assim, porque é necessário criar competitividade interna e antever todos os cenários, os portistas atacaram o mercado. Voltaram-se para onde gostam, a Argentina, viram Nicolás Otamendi, um jovem em ascensão, chamado para o Mundial da África do Sul, partiram para a conquista e chegaram a acordo. O central argentino faz parte do plantel praticamente desde o início, mas apenas se estreou agora, ante o Olhanense, roubando o lugar a Maicon. Atento, confiante e oportuno: dos seus pés começou aos vinte e três minutos, a décima vitória azul. Estava no sítio certo e marcou. Foi perfeito.

NOTA: O Momento da Jornada é uma rubrica do FUTEBOLÊS, publicada antes da análise completa de cada ronda da Liga ZON Sagres. A imagem presente tem créditos da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

Estados de espírito: como vivem?

O FC Porto vive na felicidade extrema. Joga, ganha, as coisas saem bem, resultam, domina o adversário e marca os ritmos com confiança. Ganha terreno, impede as aproximações dos rivais, mantém o nariz empinado, cola-se no topo, não dá mostras de fragilidade, amealha pontos importantes e segue invicto: desde que venceu o Benfica, na Supertaça Cândido de Oliveira, o dragão somou nove triunfos, seis no campeonato, os outros na Liga Europa. André Villas Boas incutiu uma nova postura, um olhar diferente à realidade, percebe o que lhe é exigido, o seu FC Porto vence e convence sem precisar de ser massacrante ou brilhante em cada segundo dos noventa minutos de cada jogo. Trabalha ao pormenor, não deixa nada ao acaso, propicia rotatividade sem perder dinâmica, sabe o que faz, não relaxa sobre o extraordinário arranque, é impulsionada por Hulk. Givanildo deixou de ser um mortal e passou a herói: o FC Porto agradece.

O Benfica vive a sua recuperação. Começou mal, acumulou erros, perdendo pontos onde não se esperaria, assinou o pior arranque de sempre no campeonato português, pareceu deixar a defesa do seu título por mãos alheias. Agora, está em ascensão: leva duas vitórias na Liga, sobre Sporting e Marítimo, acrescenta-se outra ante o Hapoel, evidencia superioridade em todos, cresce, impede o adversário e cria diversas oportunidades, além de, finalmente, Roberto ter estabilizado e manter a baliza a zeros. Só que há uma diferença abissal, clara e explicativa, na força atacante da águia: perdeu fulgor, poder de fogo, está menos letal, dá bicadas mas não consegue o golpe de misericórdia. Contra o Marítimo, o Benfica teve diversas oportunidades, empurrou os maritimistas, rondou a baliza de Marcelo e só marcou por Fábio Coentrão. Valeu a vitória e isso é o importante. Mas não apaga, por exemplo, o desacerto do matador Cardozo.

O Sp.Braga vive um período estranho. Subiu ao céu ao eliminar o Sevilha, garantindo o passaporte para a fase de grupos da Liga dos Campeões, ao mesmo tempo que confirmou o seu poder no campeonato, querendo dar continuidade à extraordinária época realizada no ano passado, contribuindo mais um pouco para o crescimento do seu estatuto. Até que, de um momento par o outro, caiu com estrondo: vencido pelo FC Porto no melhor jogo do campeonato, dizimado pelo Arsenal numa espécie de praxe na liga milionária e surpreendido, depois de ter chegado à aparente tranquilidade, por vinte minutos finais arrasadores do Paços de Ferreira. Averbou três resultados negativos. A sua estrelinha empalideceu, perdeu-se um pouco, as dores de crescimento fizeram-se sentir e o Sp.Braga ficou abalado. Recuperou ante a Naval: vitória justa, cómoda e tranquila, marcando três golos e sofrendo um, sem que tenha jogado bem.

A Académica vive acima do que esperaria. À sexta jornada, para uma equipa que se habituou a estabelecer objectivos realistas e com o pensamento somente em garantir a permanência no principal campeonato português, ocupar o segundo lugar, tendo onze pontos, é fenomenal. A equipa de Jorge Costa começou bem com uma vitória na Luz, a primeira a que o campeão nacional foi sujeito depois do desaire na Supertaça, experimentou um empate e uma derrota nas jornadas seguintes, conseguiu reencontrar-se e assina um brilharete. Para quem tenciona apenas evitar o mal-estar de se ver inserido nos lugares de descida, fugindo deles a sete pés, a Académica está bem, recomenda-se, dá provas, como deu frente ao Vitória de Guimarães, num belo jogo de futebol entre duas equipas capazes e creditadas, de ter capacidade de algumas surpresas, podendo parar os grandes e, aos poucos, alargando horizontes.

Paulo Bento: Tranquilidade, arrojo, persistência

Bento forever. Incisivo, ousado e corajoso. José Eduardo Bettencourt foi tudo isso: fez de Paulo Bento a sua bandeira eleitoral, puxou dos galões, garantiu lugar ao treinador, aumentando-lhe a confiança e a credibilidade, disparando a expressão sem receio. O ciclo de Paulo Bento, contudo, terminou ainda na primeira parte da época. Foi extremamente positivo, ficam títulos, ficam bons jogos, ficam vários jovens consolidados na equipa principal. João Moutinho e Miguel Veloso, por exemplo, foram lançados por Paulo Bento, sustentados pela sua firmeza, cresceram, ganharam estatuto e, neste Verão, renderam milhões importantes ao Sporting. Daniel Carriço, Rui Patrício ou Yannick são, actualmente, as principais bandeiras da formação que fazem parte da equipa principal leonina. Paulo Bento não foi forever, saiu ao fim de quatro anos, com duas Taças de Portugal e duas Supertaças conquistadas. Agora é o seleccionador nacional.

Portugal vive um momento delicado. Precisa de bravura, frontalidade e garra para dar a volta. Tem um ponto em seis possíveis, corou de vergonha após os jogos com o Chipre e com a Noruega, surgiu sem rei nem roque e aproxima-se uma dupla-jornada, com a recepção à Dinamarca e a visita à Islândia, decisiva: tem que ganhar, correr em busca do tempo perdido, apagar o início em falso. Paulo Bento é um treinador frontal, sem rodeios, vai directo ao assunto e trabalha com afinco. Entrou para o Sporting num dos piores momentos da história da equipa leonina, depois das demissões de José Peseiro e Dias da Cunha, conseguindo, ao longo dos anos, renovar o plantel, manter o leão vivo na luta pelo título – o Sporting, no tetracampeonato do FC Porto, foi sempre segundo classificado -, pelo meio com conquistas de outras competições internas, cumprindo os objectivos, ganhando experiência na Liga dos Campeões.

Paulo Bento tem a seu favor o facto de ter os jogadores, os clubes e os adeptos ao seu lado nesta aventura na selecção. Ou merece, pelo menos, o benefício da dúvida dos mais cépticos. Ao contrário do que acontecia com Carlos Queiroz, o novo seleccionador conta, apesar do período extremamente complicado, com bastante crédito. É ainda jovem, sim, porque tem apenas quarenta e um anos de idade e somente a experiência de quatro temporadas no comando do Sporting, mas já provou ter competência e, mais do que isso, demonstrou, desde logo, vontade de triunfar, de mudar o rumo dos acontecimentos e de conseguir recuperar os valores de Portugal. Bento é exigente, conciso, incisivo nas análise. Critica quando entende que o tem que fazer, elogia quando o merecem, aponta defeitos e não declina responsabilidades. Essas são as suas principais virtudes. E vão de encontro, precisamente, ao que a selecção necessita.

A selecção nacional exige a criação de um grupo forte. Unir o talento de todos, conseguindo um conjunto forte, que valha pelo colectivo e não se sinta carente de individualidades. A falta desse tal grupo coeso foi um dos principais pecados de Carlos Queiroz e Paulo Bento, para se conseguir impor como líder, terá de saber fazê-lo. Será meio caminho andado para que Portugal retome o seu caminho e se coloque na linha do Europeu. Treinadores perfeitos, capazes de se transformarem em heróis, não existem. Esse era o desejo de Gilberto Madail quando olhou para José Mourinho, arriscando abrir horizontes, batendo à porta do Real Madrid e regressando com uma resposta negativa e convincente. Paulo Bento surgiu naturalmente: confiante, seguro de si, nada beliscado. Terá uma tarefa hercúlea pela frente, ele sabe-o. Resta-lhe ter a paz de espírito necessária, a tranquilidade que tanto lhe está associada e ser persistente. É um treinador teimoso, insistente, capaz. O futuro ditará se a aposta foi ou não acertada.