Clube Portugal: Renovar com vista para o futuro

Portugal empatou com o Chipre. Marcou quatro golos, criou oportunidades para fazer mais, acertou por duas vezes nos ferros e teve espaços para sufocar o adversário. Teve licença para matar e desperdiçou-a. Abusou da altivez, sobrou sobranceria, levantou o pé e quis adornar, aumentar a conta sem muitos esforços, iniciando uma gestão tendo em vista o jogo com a Noruega, terça-feira, em Oslo. Viveu por duas vezes em desvantagem, saiu delas com relativa tranquilidade, impediu que o Chipre chegasse à baliza de Eduardo como no início mas faltou dar o golpe de misericórdia. Encontrou-se em vantagem, convenceu-se de que teria o jogo controlado e ganho, tentou satisfazer os nove mil adeptos (sublinhado: nove mil!) que se deslocaram a Guimarães. Permitiu, contudo, que o Chipre se mantivesse vivo. E os cipriotas, voluntariosos e lutadores, fazendo da entrega a grande arma para esconder as debilidades, ousaram ser felizes.

No futebol, quando duas forças tão distantes e tão desequilibradas se chocam, é impossível não olhar aos dois lados da medalha: há mérito e há demérito. Ponto assente: Portugal deveria ter ganho, por mais do que um golo até, impedindo que uma selecção modesta e pouco cotada como o Chipre marcasse, imagine-se, quatro golos a uma das melhores defesas do último Mundial, atacando o castelo português pela base e naquele que foi, desde que Carlos Queiroz assumiu o comando da selecção nacional, o seu ponto forte. Na África do Sul, por exemplo, a defesa esteve impecável e apenas faltou maior audácia, risco e poder de fogo para tentar chegar mais longe e deixar uma imagem mais convincente da qualidade de Portugal. Em Guimarães, a defesa portuguesa errou como nunca, entrou numa panóplia displicente, sem orientação e perdida no relvado. Portugal deixou que o Chipre acreditasse. Não podia. Teve demérito.

Paramos no tempo, olhamos para trás e recolocamo-nos no início do século. Portugal crescera, embalara como os clubes nacionais nas competições internacionais, conseguira vitórias sobre a Alemanha, sobre a Holanda, sobre a Espanha, por três vezes sobre a Inglaterra, uma delas com uma recuperação épica e única, abrindo horizontes a cada época. Teve um Europeu espantoso, perdeu-se no Mundial da Ásia, recuperou e emergiu quando conseguiu ser o anfitrião de um novo Europeu, mesmo tendo falhado o triunfo na final, até consolidar a sua posição num Campeonato do Mundo, mais exigente e sem tantas possibilidades de sucesso, alcançando a segunda melhor participação portuguesa. Não ganhou nada de palpável, sim, mas ficam bons triunfos, jornadas de futebol total, capazes de colocar o país ao lado da selecção. Neste momento, com tudo aquilo que tem sido a Federação, atolada em casos e em guerrilhas inúteis, os adeptos diminuem. O interesse cai a pique.

O xadrez está desorientado, sem rumo, com poucas soluções para abrir o jogo e tentar uma estratégia que dê bom resultado. As possibilidades perdem-se a cada segundo, o relógio avança, o fim aproxima-se, aceleram as pulsações, a mente bloqueia, o corpo quer mas não consegue, faltam ideias. O adversário apodera-se, torna-se melhor, aproveita as desatenções, os erros que aparecem em catadupa e não têm explicação, para procurar a sua sorte e conseguir surpreender e colocar-se numa posição favorável. Portugal está confuso, envolto numa trapalhada negra, perdeu todo o espaço de manobra e a cada dia perde a credibilidade e o apoio dos adeptos. Está só. Já não tem a rainha, tem o rei preso, mais isolado e à deriva, entrado num abismo que não acabará bem, apenas protegido por alguns peões que tentam dar o seu melhor. Mas são apenas uma parte do problema. Os peões falham porque o rei e a rainha há muito se perderam e foram colocados em xeque.

Mais do que discutir o passado, o que se passou no Mundial da África do Sul e todos os problemas que daí resultaram, sobretudo com Carlos Queiroz, é necessário olhar ao futuro. Repete-se: Portugal é uma selecção em queda, ferida, com qualidade de sobra mas sem tirar frutos, sem uma equipa verdadeiramente forte, sem o carácter e a força psicólogica de outras que, por exemplo, marcaram presença nos Europeus de 2000 e 2004 e no Mundial de 2006. É uma selecção que cede empates em casa com a Albânia e com o Chipre, que sente dificuldades para se impor e fazer valer a sua maior força, é incapaz de usar os seus maiores recursos para bater adversários modestos e frágeis. Coloca-se a jeito, facilita e dá-se mal. Vê-se obrigada, depois, a suar, a correr, a sofrer sem necessidade. O futuro está hipotecado. No relvado, sim, mas principalmente nos gabinetes. É aí que começa o problema. Os líderes, os chefes, têm de ser chamados à responsabilidade. Carlos Queiroz e Gilberto Madail perderam espaço, condições e crédito. A selecção, mais do que nunca, precisa de se renovar. Sem desculpas.

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