Dragão resistente à intempérie

Obstáculos insuspeitos, terrenos movediças, perigos em todo o lado, campo armadilhado. Uma intempérie, cargas de água imensas, futebol condicionado, transformado num qualquer jogo aquático. Fora as técnicas, as jogadas trabalhadas, o passa e rapassa: impossível fazê-lo. Jogo vertical, directo, fácil, sem invenções. Músculos puxados ao limite, respiração ofegante, camisola colada no corpo, água e mais água, jogo para homens de barra rija, batalhado, lutado e intenso. Um dilúvio deixou o relvado (quase) impraticável, bem longe das condições merecidas por FC Porto e Académica, líder e terceiro classificado, duas equipas que sabem o que querem, que jogam bem e que, sempre que possível, aliam bons jogos aos resultados. Nada a fazer perante tal dilúvio. Só lutar, suar, dar tudo, terminar extenuados e sem mais nada para dar. O FC Porto foi mais forte e mais feliz. Marcou, também desperdiçou e foi guiado por uma estrela.

O jogo de Coimbra seria sempre perigoso para o FC Porto. Estava marcado a negrito e rodeado a vermelho nos cadernos azuis. A Académica iniciara bem o campeonato, ganhara na Luz, garantira o terceiro lugar e, apesar de não ter vencido sempre, nunca deixara de marcar nas oito jornadas anteriores. Também o Benfica ganhara, colocara pressão, encurtara para quatro a diferença pontual na semana anterior ao duelo, o duelo de titãs, no Dragão. Depois, bem, os ceús desabaram em chuvadas sucessivas, alagaram o relvado, transformaram um jogo possivelmente bem disputado numa espécie de salve-se quem puder. Ganharia quem se soubesse adaptar, fosse mais inteligente, revelasse maior consistência e jogasse pelo seguro. De futebol, na realidade, houve pouco. Nem mais se poderia exigir. São equipas com qualidade, sim, mas não para jogar naquelas condições. Fernando, lesionado, sentiu-o na pele. E o clássico no horizonte.

O FC Porto teve sempre mais bola, mais iniciativa e mais querer – o que pode não chegar para enfrentar o temporal descarregado em Coimbra. Chegou ao golo, precioso e vital, antes do intervalo: Álvaro Pereira insistiu pela esquerda, alçou o cruzamento para a área, zona do agrião, para Varela, acrobático, colocar a bola no fundo da baliza de Peiser. Golaço. No meio da intempérie, jogando aos trambolhões, verdadeiro kick and rush, fazendo pela vida com armas alternativas, o remate de Varela foi um momento de espectáculo, de futebol, de emoção. O único. Até aí tudo fora cinzento, em esforço, sem motivos para apontamento e ao sabor das condições metereológicas. A culpa está bem identificada: a chuva, essa maldita, impediu um bom jogo. Os jogadores viram-se obrigados a puxar pelo carácter. O FC Porto foi premiado, porque mais procurara ter sucesso e sorriu para os céus. Chegou, logo depois, o intervalo. Bendito intervalo.

A segunda parte começou sem o vendaval da primeira. Ainda se mantinha, sim, mas a chuva acalmara a fúria. Jorge Costa apostou em Éder. Com o relvado escorregadio, ora com a bola presa, ora com a bola deslizante, tudo seria possível. André Villas Boas, pragmático e realista, chamou Otamendi, retirou Varela e reformatou o dragão: era necessário salvaguardar a vantagem. No minuto seguinte, a dezanove do final, João Moutinho teve nos pés a oportunidade de serenar os portistas. Dispôs de uma grande penalidade, assumiu a bola e acertou no poste. O FC Porto desperdiçou o golpe de misericórdia. Como antes, Hulk e Falcao haviam feito. Querer esticar o conforto de apenas um golo seria muitíssimo arriscado. A Académica nunca deixou de acreditar. Hugo Morais acertou na trave, Sougou disparou nas nuvens e a Briosa perdeu uma oportunidade de ouro em cima dos noventa minutos. O dragão respirou. Chamam-lhe estrelinha… de campeão.

Opinião: O dia em que Maradona faz cinquenta anos



El Pibe completa cinquenta anos de vida.

México, 1986, Verão. Sol, calor, tequila e um sombrero. Campeonato do Mundo. Quartos-de-final. Estádio Azteca cheio, a abarrotar, sem espaço para uma melga: cento e quinze mil pessoas preparadas, de bandeirinha em punho, esfregando as mãos, em contagem descrente, final countdown, para o duelo entre Argentina e Inglaterra. Olhos abertos, atenção colada, televisões ligadas, rádios sintonizados. Um planeta parado. Um jovem em emergência, pujante, talentoso, cheio de ganas: Diego Armando Maradona. Liderava a albiceleste. Número dez, braçadeira de capitão, marcas de predestinado. Com Inglaterra pela frente. Equipa cavalheiresca, como Bobby Robson, com Lineker, goleador letal, na frente. Jogo agradável, entretido, disputado e ritmado. Só que sem golos. Desgraça. O futebol é sinónimo de golos. A sua essência, pelo menos, é.

Fim da primeira parte e um nulo. Duas equipas com tanta qualidade, tantas estrelas, tanto talento e sem golos? Anularam-se, as defesas superiorizaram-se, guardaram-se. Os golos surgirão, pensa-se. E espera-se. Maradona, no seu interior, percebeu que o colectivo não resultara. Nem é tarde nem é cedo, há que resolver, pega-se na bola e trata-se disso. O jogo recomeçara há seis minutos. El Pibe levou a bola colada ao pé esquerdo, tipo íman, entregou-a para Valdano e correu para o centro da área inglesa. A bola sofreu um ressalto e subiu. Diego Armando Maradona, do alto do seu metro e sessenta e cinco, elevou-se e atirou para dentro da baliza. Como foi possível ele ter chegado com a cabeça onde Peter Shilton, o guardião britânico, não chegou com as mãos? Só com ajuda. Ajuda divina, disse ele: fue la mano de Diós. Do Diós Maradona, sim.

Os ingleses levantaram-se em protesto. Fora com a mão. Mesmo que bem disfarçado. Ali Bennaceur, árbitro tunisino, apontou para o centro do terreno. Bullshit! Argentina em festejos, o golo contara, fosse como fosse, até poderia ser com o dedo mindinho: um-zero de vantagem, ponto final. Mas foi batota. A palavra, associada a Maradona, fica ainda pior do que já é. Ele achou o mesmo. Não haveria de ficar na História por aquilo. Havia tempo, espaço, inspiração para muito mais. Poderia passar de batoteiro a génio. Precisou de quatro minutos. Voltou a colar a bola ao pé. Fintou. Dois ingleses foram aos bonecos nesse instante. Correu, correu e correu. Uff! Destruiu como uma onda. A mesma que no México se fazia nas bancadas. Foi deixando os adversários pelo caminho. Impotentes, vergados, rendidos. E os argentinos extasiados.

Chegou à área inglesa em poucos segundos. Ainda há instantes estava no seu meio-campo. Viu a glória junto de si. Só Maradona e Terry Fenwick, o mais resistente dos defesas britânicos, antes de Peter Shilton. Nova finta, guarda-redes fora da jogada, golo. O melhor golo alguma vez visto. De la hostia! Que jogada, que momento, que golo, que espectáculo, que obra de arte, que monumento – complete o leitor, se quiser. Uma vénia, urros de vitória, chapéu bem levantado, respiração cortada e imortalidade garantida ali, assim, naquele minuto. Verdadeira ode ao futebol, essência do jogo, pureza da magia, génio à solta, livre e rebelde, para decidir todos os problemas. Maradona fazia-o como ninguém. Fosse com matreirice ou com brilhantismo. Ante a Inglaterra, foi as duas coisas. Mas será sempre um génio. Para muitos um Deus.

O texto original, que serve de base a este, data de Setembro de 2009. Foi revolucionado. Como fazia Maradona com a bola nos pés. A prova está aqui.


Passada de El Mago para a quinta vitória

Minuto catorze. Oportunidades para ambos os lados, bola nas duas áreas, Cássio e Roberto em acção. Também um jogo lento e sem ser muito pressionante por parte do Benfica, com o Paços de Ferreira à espreita para tentar a sua sorte na casa do campeão. Apareceu o génio, o talento espalhado pelo relvado, a facilidade de destruir no toque de bola argentino. Pablo Aimar arrancou, fintou, fintou, fintou, olhou para Cássio, apercebeu-se da posição do guarda-redes brasileiro e rematou em jeito. Por isso lhe chamam El Mago. O golo de Aimar, classe salpicada de magia, merece vénias e mostrou o verdadeiro génio de Pablito. Mesmo que tenha já passado a sua fase de maior fulgor, não jogando agora com a regularidade de outrora, o argentino continua capaz de encantar, de ser importante e de resolver. Na Luz, ante o Paços de Ferreira, adversário atrevido e audaz, a obra-prima de Aimar foi o melhor de tudo e abriu caminho à vitória do Benfica. Suada.

Três objectivos traçados à partida por Jorge Jesus. O primeiro, está fácil de ver, passava pela vitória. O Benfica conseguiu-o. Não encantou, não foi seguro na gestão que fez e não soube, nos momentos certos, matar a esperança pacense. Mas ganhou. Demorou sessenta e cinco minutos a serenar. Só aí, quando Alan Kardec converteu uma grande penalidade assinalada por derrube de Javier Cohene a Fábio Coentrão, um lance discutível, os encarnados, com o alargamento da vantagem, conseguiram ter total controlo da bola, das investidas do Paços e da vitória. O campeão fora embalado pela genialidade de Pablo Aimar, mas nem por isso perdera o nervosismo evidenciado e ficara com o adversário na mão. Continuou a dar espaço, permitiu que o Paços de Ferreira tivesse os seus momentos e se aventurasse. Roberto, agora a tranquilidade em pessoa, respondeu sempre bem, com segurança e impediu estragos. Não sofrer golos era a segunda meta.

Havia, para lá do essencial, outro propósito a ser atingido pelo Benfica: impedir ter ausências forçadas para o jogo no Dragão, na próxima jornada, que será fundamental no futuro do campeão. Carlos Martins, um dos quatro em perigo de exclusão, ficou de fora, também tendo em conta a importância do encontro com o Lyon, na terça-feira, para a continuidade na Liga dos Campeões. Luisão, David Luiz e Javi García terminaram o jogo sem cartões: o capitão cedeu o seu lugar a Sidnei nos minutos finais e o médio espanhol foi substituído por Airton. Sob esses pontos de vista, com a vitória e a gestão dos jogadores assegurada, o Benfica teve um jogo perfeito. Ganhou pela quinta vez consecutiva no campeonato, não sofreu golos e pressionou o FC Porto. Demonstrou, contudo, nervosismo, intranquilidade e incapacidade para marcar as diferenças, ganhar maior conforto e impedir qualquer ameaça do Paços de Ferreira.

Este Benfica, depois de um início intermitente, recuperou a confiança no campeonato: vence, não sofre golos, faz tudo para apertar o cerco ao FC Porto, já ganhou dois pontos ao líder e, actualmente, tem quatro de atraso. Os dragões jogam hoje, em Coimbra, frente à Académica, terceiro classificado, num teste de fogo às capacidades da equipa de André Villas Boas. Por tudo isso, o campeão tem cumprido. Mas falta-lhe ainda funcionar como uma equipa realmente forte, sem conceder veleidades aos adversários, colocando-os em sentido e não deixando que, como o Paços de Ferreira, tenham oportunidade para deixar os encarnados inquietados. Com os pacenses, Aimar desbloqueou o resultado, lançou o Benfica para a frente, começou a construir um triunfo que apenas foi seguro com o segundo golo. Nesse espaço, até aos sessenta e cinco minutos, o campeão viveu na incerteza. Tem aspectos a melhorar. Apesar das vitórias.

Liga ZON Sagres: Análise da jornada 8

LÍDER AO SABOR DO INCRÍVEL GÉNIO DE HULK

Hulk, Abel e Javi García. Têm pouco em comum. São jogadores diferentes, têm tarefas incomparáveis e jogam nos três grandes portugueses. É muito mais aquilo que os separa do que o que os une. Vivem com estados de alma completamente distintos. Mas têm em comum a importância manifestada nas suas equipas. O FC Porto destroçou o União de Leiria, recuperou a caminhada de vitórias no campeonato, marcou como nunca antes e elevou a qualidade exibicional. Teve Hulk em destaque. Benfica e Sporting venceram Portimonense e Rio Ave, por esta ordem, suando, lutando e merecendo. Sobressaíram, na ausência de pontaria dos atacantes, Abel e Javi García. Pouco prováveis para decidir. Tal como no Sp.Braga-Olhanese, onde apareceu Jardel, pé-descalço, herói e vilão.


Hulk. O brasileiro tem um potencial enorme, está numa forma brutal, corre como nunca, ganhou confiança, acredita nas suas capacidades, tem sucesso no que faz, canaliza a sua acção para a equipa e abre um sorriso de orelha a orelha. É o maior impulsionador do FC Porto, carrega o dragão e fá-lo vibrar. O União de Leiria sentiu a arrancada fulgurante, incisiva e vigorosa, da equipa portista: dez minutos, uma bola no poste, uma defesa de Gottardi e, à terceira, um golo. De Hulk. O segundo chegou cinco minutos depois. Com rasgo, dinâmica e brilho. Este FC Porto entra forte, lança-se ao pescoço do adversário e vai cimentando a sua condição até poder relaxar e gerir esforços. Os leirienses nunca incomodaram Helton, apenas chegaram ao golo numa grande penalidade cometida por Fernando, já Varela e Falcao haviam aumentado a lista azul, revelaram-se muito tenrinhos e viram El Tigre, no final, completar a mão cheia de golos.

Javi García. O médio espanhol funcionou, na temporada anterior, como um verdadeiro relógio do meio-campo benfiquista: equilibrava, sentia as pulsações da equipa, abria o ataque e fazia, com Ramires, de elo de ligação entre a equipa. Nesta temporada, como muitos outros, está menos exuberante. Em Portimão, frente a uma equipa aguerrida, bem preparada e voluntariosa, o Benfica encontrou dificuldades no início, sim, mas, a partir do momento em que se conseguiu soltar das marcações algarvias, encontrou espaço, criou perigo, sempre através de lances de bola parada, levando Ventura a agigantar-se. Rondou a baliza, teve bolas de golo e foi pressionante. Não desatou o nulo até ao intervalo. Apenas no recomeço. Por Javi García. O espanhol ganhou espaço, apareceu bem para receber o cruzamento de Carlos Martins e cabeceou certeiro. O Benfica não encantou, mas venceu com mérito. Era imperativo.
Abel. Não é um jogador de primeira linha do Sporting. Nem tem, tão pouco, sido muito utilizado. Em compensação, exaltando o profissionalismo, dá tudo o que tem. Pode ser, por exemplo, a imagem do leão: com debilidades, sem encantar, mas com solidariedade, com vontade e garra para fazer melhor. Por vezes não corre bem. A este Sporting essa diferença tem sido demasiado evidente. A equipa é capaz do bom e do mau, oscila com uma facilidade inquietante, revela-se demasiado intermitente para quem sustenta ambições de chegar alto. A certa altura, também, parece que está amaldiçoada: Paulo Santos opôs-se bem às investidas e os ferros, por três vezes, negaram o golo. O leão abala, desespera e puxa pelos cabelos. No final, já com o fantasma de um novo desaire em casa, Abel, num pontapé cruzado, deu a vitória, fez soltar a adrenalina e mantém a perseguição do Sporting. Estava no sítio certo à hora certa e foi herói.

Jardel. Apelido conhecido, de craque, que nos remete para outros tempos. Este Jardel, sem nenhuma relação com Super Mário, joga como defesa-central e representa, nesta época, o Olhanense. Em Braga, no minuto sessenta e três, travou um lance de golo iminente, arrojou-se ao relvado e foi providencial. Só que ficou sem chuteira. Pé descalço. Os minhotos tiveram a sua chance: livre indirecto, oportunidade única para desfazer as dúvidas e ganhar conforto. Lima, na conversão, marcou. Fez o seu segundo golo, juntou-o a um de Mossoró, dezoito minutos depois do empate, para alagar a vantagem sobre o tento inaugural de Maurício. O Sp.Braga foi feliz, assentou e tranquilizou-se. Deixou para trás uma primeira parte má, sem dinâmica ou chama, onde sofrera um golo e nunca se conseguira soltar-se. Cresceu com a entrada de Vandinho, mostrou vontade de mudar, insistiu e conseguiu-o com Lima. Mesmo passando por pé descalço.

Oito jogos, catorze pontos e terceiro golo: sensação, confirmação de valor e capacidade para se superiorizar demonstrada pela Académica. Os estudantes venceram o Nacional, por 2-1, conseguindo permanecer num lugar de destaque. Num plano inverso, o Marítimo, representante europeu e assumidamente candidato a ficar nas primeiras cinco posições no final do campeonato, somou, à oitava tentativa, a sua primeira vitória – em casa, por 1-0, ante a Naval -, deixando o Rio Ave (única equipa sem triunfos) e os figueirenses nos lugares de despromoção. Nuelo de Vitórias, o de Setúbal, confirmando o arranque auspicioso, bateu o de Guimarães, no Bonfim, por 2-1, colocando-se nos doze pontos – com Olhanense e Sporting pelo meio. Logo atrás, com menos um ponto conquistado, encontram-se Paços de Ferreira (empatou, a um, frente ao Beira-Mar) e União de Leiria.

O MOMENTO DA JORNADA

Liga ZON Sagres: Um momento de alívio sportinguista

SPORTING-RIO AVE (1-0): PONTAPÉ NO DESTINO

Dois minutos para o final e cada vez mais a confirmação de uma teoria: há um Sporting que se apresenta na Liga Europa e outro que joga em Portugal. O primeiro é dinâmico, agil e eficaz. Marca, ganha, lidera. O segundo está atrasado, tem o objectivo de conquistar o título mais distante, parecendo uma utopia, parece afectado e nada lhe corre bem. Em casa, frente ao último classificado, empata. Sem golos. Tem o jogo, a bola, tem mais oportunidades. A bola embate, nesse octagésimo oitavo minuto, na trave da baliza vila-condense, depois de ter sido rematada por Hélder Postiga e desviada pelos dedos de Paulo Santos, em mais um capítulo em que o Rio Ave sorriu. Foi a terceira bola nos ferros. Paulo Santos já travara algumas outras intenções. O Sporting desespera, vê o cenário agravar-se, má fortuna, nada lhe sai bem, mas insiste. Abel recebe a bola à entrada da área. Bola no peito, confiança e remate cruzado: golaço. E três pontos preciosos para o leão respirar. Vindos de um herói improvável. Foi frustrante para o Rio Ave, merecido para o Sporting.

NOTA: O Momento da Jornada é uma rubrica do FUTEBOLÊS, publicada antes da análise completa de cada ronda da Liga ZON Sagres. A imagem presente tem créditos da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

Um Real Madrid à Mourinho

Mourinho gosta de problemas. Casos sérios, bicos-de-obra, um cabo de trabalhos para resolver. Não se contenta com pouco. Isso estaria à altura de um bom treinador. Mourinho quer ser mais. É corajoso, tem uma ambição sem limites, eleva o ego, abre o peito e aceita arriscar sem pestanejar. Dá tudo o que tem e quer ser imortal. Ultrapassar as barreiras, chegar mais alto do que nunca, deixar a sua marca, tornar-se um ídolo e transformar a realidade por onde passa. Foi campeão no FC Porto, devolveu a glória europeia, recuperou a força do dragão. Subiu para o Chelsea: campeão cinquenta anos depois, outro título no ano seguinte e estatuto reforçado para os blues. Já é muito, pouco para ele. Por isso foi campeão europeu num Internazionale há quarenta e cinco anos sem conquistas na Europa. Nunca está satisfeito. Poderia parar, relaxar, sair durante alguns anos, entrar numa espécie de sabática, para gozar do que ganhara. Mourinho não é assim.

Mourinho gosta de problemas. Ou problemas nem seja a palavra mais acertada. Também gosta, é verdade, mas neste caso aplica-se melhor grandes desafios. O maior, neste momento, é o Real Madrid: melhores jogadores mundiais juntos, constelação de estrelas, exigência maior do que nunca e época sem nada conquistado. Mourinho cumpriu a sua parte no Inter. Tinha Madrid à espera. Encaixam na perfeição. Tem que gerir emoções, sobrepor-se, ter pulso firme, combater a indisciplina e juntar o génio de todos, pegando aqui e ali, para formar uma equipa temível, capaz e pujante. O Real Madrid começou aos solavancos: empates, exibições sofríveis, assobios das bancadas, vitórias tiradas com esforço. Agora está bem, recomenda-se, vive feliz, ganha motivação. Marca, ganha e encanta. O público gosta, os jogadores sorriem, os críticos dão o braço a torcer, os adversários derrapam. Mourinho puxa pela ironia e alimenta o ego.

Pleno de vitórias na Liga dos Campeões, nove pontos, exibição de gala frente ao AC Milan e candidatura lançada. Na Liga espanhola, ao mesmo tempo, o Real Madrid aparece no primeiro lugar. Tem todas as condições para triunfar interna e externamente: jogadores, treinador e, agora, estabilidade. Necessita, para isso, de manter o ritmo, não diminuir a intensidade e querer sempre mais. Ser como Mourinho sempre foi. Impõe-se, mostra que tem o controlo da situação, junta as suas ideias e molda o pensamento de quem está sob o seu comando. O Real Madrid está a crescer como equipa. Com ela cresce, por exemplo, Cristiano Ronaldo. Tem liberdade, pode espalhar ao seu talento, ninguém lhe exige que resolva tudo ou que carregue a equipa. É o melhor marcador do campeonato espanhol. Nesta jornada, frente ao Racing, marcou quatro na goleada, por seis-um, aplicada pelos merengues. O Real está a despertar.

Diz-se que a construção é o que mais custa e, por isso, o pior. O Real Madrid está, ainda, nessa fase. Ainda é cedo para avaliar realmente a capacidade e a valia da equipa, sim, mas até agora, por tudo o que já ficou para trás, está a ser cumprida com qualidade e, até, brilhantismo. Está a solidificar-se como verdadeira equipa. E aí tem o dedo de Mourinho. O treinador português, por onde passa, tenha ou não jogadores de classe mundial, consegue construir verdadeiras equipas, fortíssimas a defender e matreiras no ataque, dando largas à criatividade. O Real Madrid é mais um exemplo. Tem condições, agora, para dar passos seguros, tranquilos, sempre em crescendo. Precisava de estabilidade, sobretudo emocional, não só na equipa, mas também na exigência dos adeptos. Mourinho consegue fazer-se ouvir, chega onde quer, alastra a mensagem a todos e faz aumentar a confiança numa temporada rica. Quer ganhar o maior desafio de sempre.

Liga Europa: Vitórias e passaportes (quase) carimbados

BESIKTAS-FC PORTO (1-3): UM INFERNO GELADO COM PALMAS

A psicologia defende que um indivíduo é o resultado da interacção entre a genética e o meio. Nunca está realmente completo e apenas consegue responder às dificuldades que lhe aparecem pela frente se conseguir aplicar as características que herdou com o ambiente em que está inserido. O Besiktas não tem nos genes a função de ser uma grande equipa. Apesar de contar com individualidades como Ricardo Quaresma ou Guti é uma equipa com diversos pontos fracos, sobretudo na defesa, estando longe de fazer tremer o adversário. Só que quando joga em casa, empurrado pelo seu público, galvaniza-se, ganha ímpeto, faz tudo para se transcender e transportar o ambiente infernal para o relvado. Mais do que temer a valia da equipa turca, estava aí o principal receio do FC Porto. O dragão não temeu, arrancou uma exibição de gala, marcou nos momentos-chave e soube ultrapassar todas as barreiras. Terminou justamente ovacionado.

Entrada forte do Besiktas, quinze minutos pressionantes, com perigo e ameaças. O FC Porto sentiu a aceleração turca, mas soube aguentar as investidas, teve em Helton um pilar fundamental, equilibrou o jogo depois, encontrou brechas, colocou Hulk e Falcao em acção e, aos poucos, ganhou a bola e o controlo. O colombiano marcou antes da meia-hora. Elevação, oportunidade e golpe de cabeça como receita de sucesso. O Besiktas, sobretudo levado por Nobre, respondeu bem, voltou ao ritmo inicial e esbarrou, de novo, na mesma muralha: Helton, tranquilidade e confiança em pessoa, esteve à altura, fechou a baliza, lançou o FC Porto para a frente. Falcao, entretanto, voltou a colocar a bola no fundo da baliza, mas o árbitro, sem qualquer razão, anulou a jogada – arbitragem muito fraquinha. Em cima do intervalo, contrariedade: expulsão de Maicon. Voltamos à psicologia. Diz-se que o ser humano torna-se mais forte, mais audaz e mais incisivo quando está numa situação de alguma fragilidade.

O FC Porto tinha o resultado consigo, é certo, mas o Besiktas poderia aproveitar o facto de jogar em casa e de ter metade do jogo para anular a vantagem azul. André Villas Boas, com a necessidade de recompor a defesa, lançou Otamendi e deixou… Falcao de fora. Alguém haveria de sair, sim, mas Rodríguez parecia ser o mais indicado. Ficou Hulk, sozinho e corajoso, na frente. Teve licença para matar. Chegou, Radamel não fez falta. Minuto cinquenta e nove: passe longo de Álvaro Pereira, falha descomunal de Zapotocny, bola no Incrível e golo. Simples, eficaz e inteligente. O FC Porto ganhou maior vantagem, fez recuar as investidas do Besiktas e ganhou segurança. O dragão uniu esforços, manteve-se alerta, foi sublime na forma como matou o adversário. Hulk, no final, bisou. Os adeptos turcos renderam-se em aplausos. O golo de Bobô, um apêndice na história, surgiu como prémio pela tenacidade do Besiktas.

SPORTING-GENT (5-1): O LEÃO É MESMO BIPOLAR!

Nove pontos, doze golos marcados e portas da fase seguinte escancaradas. Equipa confiante, com soluções, mostrando consistência, fio de jogo e capacidade de finalização. Bom, bom, bom. É a prova de como o Sporting tem duas faces. É inegável, incontornável e impossível de não referir. A equipa que irradia luz na Europa, assumindo e cimentando a cada passo a sua posição no grupo, mostrando a superioridade teórica e afastando deixar-se à mercê de tremuras, é a mesma que ocupa o décimo lugar no campeonato, tem um atraso de dez pontos para a liderança e vê o título, objectivo crónico de um grande, cada vez mais comprometido. Está envolta numa onda negativa, com exibições sofríveis, pecados capitais na hora de rematar à baliza, demasiadas brechas para quem sonha alto e resultados inadequados. Na Europa tudo muda. O Sporting recebeu o Gent: ritmo alto, diferenças vincadas, mão cheia de golos. Outra vez.

Ponto assente: o Gent é uma equipa frágil, sem tradição na Europa, sem vitórias há dez anos em competições europeias. No entanto, o perigo pode surgir de onde menos se espera. Para o Sporting, por exemplo, surgiu nos empates caseiros com o Olhanense e o Nacional. Mas esse é, sem dúvida, outro leão. O que aparece apático, incapaz de lutar contra o destino e sem força para rugir. Na Europa, transfigura-se, queima os obstáculos, evita que o adversário crie calafrios, joga com alma, com intensidade, com vivacidade. Ganha, convence e dá um ar da sua graça. Ante o Gent marcou aos seis, aumentou aos treze, pareceu tremer com um erro atroz de Hildebrand que originou o golo de Wils, chegou o bis de Liedson, Levezinho de volta, Maniche marcou com felicidade e o Sporting, antes do intervalo, construiu, com qualidade e comodidade, uma goleada. Sentiu que as coisas lhe corriam bem. E sorriu. É incrível a forma como muda do dia para a noite.

O Sporting resolvera o jogo. Mesmo assim, como quem busca provar ter qualidade e saber cumprir o seu trabalho, prolongando ao máximo o momento de felicidade, manteve-se activo, não adormeceu sobre a vantagem, quis mais e não permitiu, salvo um ou outro remate com relativo perigo, que o Gent, dentro das suas limitações, se aventurasse no ataque. Marcou ainda mais um, à hora de jogo, por Hélder Postiga, um jogador renascido que se reencontrou com os golos, até na selecção, depois de uma jogada com Diogo Salomão – autor do primeiro golo, num cruzamento de… Postiga. Uma mão cheia de golos, um desejo leonino para o jogo não terminar, motivos de alegria nos adeptos. Poderia ainda ter obtido uma vantagem maior se tivesse, na segunda parte, atingido os níveis de eficácia que lhe valeram quatro golos em trinta e sete minutos. Tudo correu bem. Repete-se a ideia: este Sporting é bipolar. Ou, pelo menos, parece.