Barça-Real: O triunfo de um estilo

O Barcelona venceu sem apelo nem agravo um Real Madrid apático e abúlico. José Mourinho sofreu a maior derrota da sua carreira, dias depois de completar dez anos como treinador. A explicação para Mourinho é simples, até porque quando se perde por cinco a zero, não há nada que possa dourar a pílula e o remédio é ficar sentado no aconchego do banco. Guardiola foi igual a si mesmo, sem se colocar num pedestal, magnânimo e coerente, quer na hora da vitória, quer na hora da derrota. Os jornais espanhóis vão, conforme as cores que defendem, tecer loas ou carpir mágoas sobre o resultado do jogo, mas sobretudo vão “crucificar” José Mourinho e as suas opções, porque ao fim de muito tempo, ele “pôs-se a jeito” e como diz o ditado “é malhar enquanto o ferro está quente”.

Há uma diferença tão grande entre os dois clubes como o resultado deixa transparecer? Não. A essa conclusão chegaram, para além dos dois técnicos, outras figuras do futebol espanhol. Que aconteceu então? Diria que futebol. Ganhou o colectivo sobre o individual ou, se quiserem, ganhou uma equipa construída sobre uma em construção. O Barcelona foi igual a si próprio e ao seu estilo de jogo – posse e circulação de bola -, com Xavi e Iniesta a “tricotar” no miolo, Messi a desenrolar o novelo com passes de ruptura e Villa a dar o remate final em tapete de obra fina. Que apresentou o Real Madrid? Uma defesa com alas permeáveis, um Pepe atarantado a querer pisar locais que não os seus, deixando crateras nas suas costas, um meio-campo pouco pressionante e um ataque com pouca bola e ainda menos inspiração. Não se pode jogar contra o Barcelona sem correr e pressionar e o Real foi o que fez, com o resultado que se viu.

Guardiola foi melhor neste jogo que Mourinho e até antes do jogo já o tinha sido. Mourinho adiantou o onze e falhou porque jogou Benzema em vez de Higuaín (estava mesmo lesionado?). Guardiola disse que alguma vez teria que perder com o Real, mas ainda não foi desta. Messi foi melhor que Ronaldo, sendo decisivo nos passes que deu para Villa marcar e num pormenor de classe, logo no início do jogo, levando a bola ao poste da baliza de Casillas. O Barcelona foi por isso e outras razões, melhor, neste jogo, que o Real Madrid, como explica, e bem, o Ricardo no texto aqui em baixo. Como disse David Villa “foi o triunfo de um estilo”.

Análise de Bernardino Barros ao partidazo entre Barcelona e Real Madrid


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Barcelona-Real Madrid, 5-0: Demolição com tiki-taka

COMENTÁRIO

Tiki com Iniesta, taka com Xavi, tiki com Messi, taka com Pedro Rodríguez, tiki-taka com David Villa. Carrossel, rasgo, dinamismo. Tudo em movimento, sem tempos mortos, aproveitamento máximo, nada de quebrar. Tudo jogado no limite, passe para aqui e passe para ali, tiki-taka constante, bola colada no pé, sem falhas, movimento perfeito. O Barcelona entrou forte no clássico. Passes curtos, bola em profundidade, velocidade, dribles e descompensação. Intensidade máxima. Messi assustou com uma bola no poste, marcou no aproveitamento de uma distracção defensiva merengue, no tiki de Iniesta para o taka de Xavi, e aumentou, depois da reacção do Real Madrid, antes dos vinte minutos. Dois-zero, olhar sério de Mourinho: mãos nos bolsos, muito jogo para disputar e recolha ao banco. Sentou-se. Sem comentários, sem ondas, sem gritos. Apenas tranquilo, sereno, nada enérgico. Percebeu a dimensão do que acontecia.

Casillas cruza os braços. Visão turva, raiva que consome por dentro, farto da faena do Barcelona. Está quase no fim. O Real Madrid definhou pelo relvado. Falhou passes, não teve ligação, foi caótico, sentiu o futebol de passa e repassa do Barça bem fundo no coração, apenas desejou nunca ter subido ao relvado e não ter sequer desafiado as hostes catalãs. Os merengues foram demolidos. Casillas mantém a postura: olhar distante, sem saber muito bem o que ali se passa, completo desnorte e um inconformismo que não se controla, aumentado a cada olé, a cada passe de ruptura, a cada ferro cravado, a cada toque de calcanhar que funciona para humilhar, dizimar, destroçar a mente do Real Madrid. Depois de Xavi e Pedro Rodríguez, com outras oportunidades pelo meio, já David Villa marcara por duas vezes. Mourinho continua sentado, calado, impávido. Já colocara Lass e Arbeloa. A intenção: evitar números ainda mais gordos.

O Barcelona diverte-se com a bola. Tudo está oleado, a máquina funciona na perfeição, atinge o brilhantismo, a equipa alia os golos, o resultado puro e duro, a uma magia incomum, de divertimento absoluto, que preenche os adeptos e fascina os apaixonados. Faz parte da filosofia, da cultura, dos princípios desta equipa blaugrana. O Barcelona jogou num ritmo fabuloso, desolador para o adversário, senhorial, encheu o peito, atemorizou o Real, reduziu-o a insignificantes tiros de longe saídos dos pés de Ronaldo ou Di María, encostou o rival. Jogou, criou, assustou e marcou. O Real Madrid baixou os braços com o segundo golo. Enervou-se com o futebol culé, envolveu-se em quezílias, cometeu faltas, perdeu-se num mar de indefinições. Tudo correu mal. Sentiu falta de Higuaín, clamou por Ronaldo, o português tentou mas não pode, Benzema foi inconsequente. Mourinho chocou com algo inédito. E enrolou a bandeira.

Incapaz, desastrado e inábil, o Real Madrid ficou à mercê do Barcelona. O público vibrou, os jogadores sentiram a oportunidade única, melhor do que nunca, de passar para a frente, sim, mas também desferir golpes de morte no principal rival, de inverter a posição no topo e deixar Mourinho, por uma vez que seja, a engolir em seco. Envolto na teia catalã, preso e sem capacidade de reacção, o Real Madrid passou por momentos caóticos, impróprios num grande como é, não encontrando forças, em momento algum, para se impor, fazer valer o seu estatuto de líder e contrariar o tipo de futebol apresentado pelo Barcelona. A equipa de Pep Guardiola jogou muito, alegre e compenetrada nas suas tarefas, quis sempre mais, batalhou, tentou, criou ocasiões e chegou, em cima do apito final, à mão-cheia de golos, por Jeffren, coroando um resultado histórico, épico e desconcertante. Que poderia, até, ter sido mais amplo. De la hostia!

Liga ZON Sagres: Análise da jornada 12

A MENSAGEM DE ORDEM

O Sporting assustou o FC Porto. Entrou determinado, encostou o dedo no nariz do líder, reprimiu-o, tirou-lhe espaço para se inspirar e rematou, uma e outra vez, até ter sucesso. Teve-o merecidamente por porfiar, por trabalhar, por se dedicar. Mas o dragão soltou-se empatou. Levou a igualdade até ao fim. Sabe melhor ao FC Porto: viu o Benfica aproximar-se, reduzindo a diferença para oito pontos no regresso de Óscar Tacuara Cardozo, é verdade, mas manteve a invencibilidade, prossegue a sua caminhada, embora agora abalada sobretudo pela forma como foi manietado durante a primeira parte e, de novo, com André Villas Boas expulso, mas continua a ver o Sporting bem atrás, a treze longos pontos, afastado do topo. Será que, para o leão, valeu a pena? A forma como encarou o clássico servirá de inspiração no futuro?

Tudo vale a pena se a alma não é pequena. O Sporting deixou os complexos, a distância assombrosa para o cimo, desligou-se das intermitências, confiou em si, acreditou nas capacidades de superação e atirou-se ao dragão. Não se intimidou com o líder, com o estatuto de uma equipa invicta e que desfila, foi briosa, entrou com força, assustou, criou oportunidades, impediu o FC Porto de jogar, levou os portistas aos piores minutos desta época – sem meios de construção, sem espaço e sem o dinamismo empreendedor O leão rugiu, surpreendeu e impôs-se. O golo de Jaime Valdés, se bem que irregular, coroou o domínio. A alma do Sporting foi decisiva. O FC Porto reagiu. Sentiu-se atacado, incapaz, à espera de um grito para se soltar. Chegou melhor do intervalo, equilibrou, teve oportunidades, empatou e ficou por cima. Até à expulsão, ingénua e forçada, de Maicon. O jogo acabou aí. Com um sabor diferente para ambos.

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Óscar Cardozo é um mal-amado dos adeptos benfiquistas. Marca golos, foi o artilheiro no ano passado e fundamental na conquista do título, sim, mas mesmo assim, apesar dos mais de trinta golos, não convence o público. Porque é lento, tem pouca mobilidade, não consegue construir e desperdiça. Mas emerge nos momentos-chave, decide como nenhum outro, impõe o físico e marca. Tacuara esteve ausente desde a derrota frente ao Schalke 04, por lesão. Regressou em Aveiro. Noventa minutos em campo, dois golos, um de grande penalidade e o outro de se lhe tirar o chapéu, além de uma assistência para Saviola, no ar de graça da dupla, para uma vitória preciosa do Benfica: exibição cheia, marcante e fulcral do paraguaio. O campeão ganhou bem ao Beira-Mar, que mereceu reduzir a desvantagem em cima do final, encurtou a distância para o FC Porto e voltou a sorrir. Há fé.

Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor. O Sp.Braga, nesta temporada, tem sofrido. Paga, no fundo, o preço pela última época: foi segundo, chegou mais alto do que nunca, elevou a fasquia, fez com que a responsabilidade aumentasse e habilitou-se a entrar na mais importante prova europeia de clubes. Na última terça-feira venceu o Arsenal, um colosso, na sua terceira vitória consecutiva na fase de grupos da Liga dos Campeões. Ora isso tem, ainda para mais num clube como o Sp.Braga, que não tem as características de um grande, as suas consequências. Daí a importância da partida com o Nacional. O jogo foi amorfo, lento e pouco interessante, mas a equipa bracarense venceu, cumpriu o seu objectivo, marcando por Lima numa grande penalidade ganha por Matheus e, já sobre o final, através de Paulo César. Saltou, por isso, para o sexto lugar. Mesmo assim, são quinze pontos que afastam o FC Porto.

O Vitória de Guimarães perdeu, depois da derrota ante o Marítimo, num jogo muito criticado pelos vimaranses devido à péssima arbitragem de Carlos Xistra, o contacto com o Benfica, deixando o segundo lugar e sentindo os perseguidores, liderados pelo Sporting, aproximarem-se. A Académica – venceu, em Setúbal, o Vitória (1-0) – e a União de Leiria – triunfou, ante o Portimonense, num jogo disputado… em dois dias, após dar a volta em trinta e oito minutos que sobravam para realizar (1-2) – estão, agora, com dezoito pontos, partilhando o quinto lugar, a um da equipa sportinguista. Seguem-se Sp.Braga e Nacional – dezassete. Paços de Ferreira e Rio Ave, com vitórias sobre Olhanense (1-0) e Naval (0-1), respectivamente, ultrapassaram o Vitória de Setúbal. Beneficiando do seu triunfo frente ao Vitória de Guimarães, o Marítimo distanciou-se de Portimonense e Naval, os dois últimos, que estão cada vez mais destacados no fundo.

O MOMENTO DA JORNADA

Liga ZON Sagres: O momento da traição de Maicon

SPORTING-FC PORTO (1-1): O ENROLAR DA BANDEIRA DO LÍDER

Minuto setenta e sete do clássico. Jogo empatado. Primeira parte entretida, dominada e ritmada pelo Sporting, com oportunidades, uma bola na barra e um golo marcado, se bem que beneficiando de posição irregular, com simplicidade, em poucos toques, por Jaime Valdés. O leão entrou forte, destemido, encostou o dedo no nariz do líder, amarrou o dragão, impediu que ganhasse espaço e jogasse em profundidade nas alas, em força, onde é realmente bom com Hulk e Varela. O FC Porto passou ao lado do jogo. André Villas Boas mudou ao intervalo, libertou Belluschi, deixou Moutinho com outras funções, accionou o alerta. O líder melhor: mais activo, mais agressivo, mais pressionante e mais astuto. Cresceu, equilibrou, empurrou o Sporting, rondou a área leonina e empatou. O jogo ganhou quezílias, conflitos, virilidade. O tal minuto setenta e sete completou a traição de Maicon: o brasileiro falhara no golo, voltou a ser ingénuo, envolvendo-se com Liedson, foi expulso e fez com que o FC Porto, prematuramente, se voltasse para outros objectivos na sua melhor fase. Terminou aí o clássico.

NOTA: O Momento da Jornada é uma rubrica do FUTEBOLÊS, publicada antes da análise completa de cada ronda da Liga ZON Sagres. A imagem presente tem créditos da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

Sporting-FC Porto, 1-1 (crónica): Um clássico amargo

A TEIA DO LEÃO

Ponto prévio: o clássico foi mal jogado. Chegou a ter bons momentos, sim, teve sobretudo um leão forte e aguerrido no início, mas faltou intensidade, dinamismo e velocidade. O FC Porto foi surpreendido pela entrada forte, fortíssima, do Sporting, ficou à mercê, desconcentrado e inseguro, viu-se em desvantagem. Conseguiu equilibrar, tomar conta do jogo, empatar no reatamento. Estava por cima quando Maicon foi expulso. O jogo, nesse minuto sessenta e sete, terminou. Ganhou conflitos, escaramuças e quezílias. Desiludiu porque Hulk se eclipsou, porque Moutinho não encantou no regresso, porque o Sporting apenas durou até ao intervalo e porque Jorge Sousa esteve mal.


O FC Porto é um jogador de cartas que está na segunda parte do seu jogo. Perdeu a primeira. Apesar de contar com mais vitórias, de viver numa forma melhor e de ter maiores probabilidades de vencer, viu o adversário ser mais aguerrido, colocar mais agressividade em prática, ter outra agilidade nos seus movimentos e, com as suas cartas, jogar melhor. O jogador sportinguista encostou o portista às cordas e mostrou-o, talvez mais do que nunca nesta época, permissivo e inseguro. O portista tem bom jogo, sim, mas está lento, preso, desconcentrado. Consegue, puxando pelo orgulho e pela sua capacidade, reequilibrar, ganha pontos, aproxima-se da marca do rival, impõe a sua maior valia e, aos poucos, vira o jogo a seu favor. Explora o adversário e domina. Está empatado. E por cima. Até permitir que o rival, matreiro, lhe veja os trunfos.

O Sporting joga em casa, é grande, precisa de ganhar, está atrasado na luta, mas pode sempre, desde que não seja demasiado tarde para isso, despertar e revitalizar-se. Paulo Sérgio agarrou-se a isso. Deixou os treze pontos de lado, não entrou em pânico por causa de Hulk ou Falcao, sublinhou e marcou a vermelho, carregado e em letras garrafais, que o Sporting, jogando concentrado e com consistência, poderia bater o pé ao FC Porto. Teria de trocar as voltas ao dragão, entrar forte, roubar a bola, intimidar, chegar perto da baliza de Helton e impedir as saídas azuis. Jogando num sistema diferente, com três médios e três atacantes, o Sporting lançou boas cartas no início, foi inteligente na forma como impediu os ases portistas de saltarem do baralho e uniu-se em torno desse objectivo. Construiu, circulou e rematou. Para assustar e marcar.

SIM, ESTE LEÃO TEM FORÇA!

Já Liedson atirara ao lado, já Postiga o imitara, já Pedro Mendes acertara em cheio na trave. O FC Porto, pelo meio, conseguira uma oportunidade de ouro, caída do céu nos pés de Radamel Falcao, que terminou esbanjada pelo avançado colombiano. O jogo fora, desde o início, interessante, aberto, entretido. O Sporting estivera sempre por cima: mais pressionante, mais dinâmico, mais solto e mais capaz. Chegou ao golo, depois das ameaças, num lance simples, com irregularidade que passou em claro, por Jaime Valdés. O chileno ganhou a Maicon, encarou Helton e rematou certeiro – foi irregular, sim, mas o brasileiro abusou da altivez. Caiu bem ao Sporting. A equipa leonina fizera por merecer, estivera melhor, criara mais perigo e dominara a toda a largura. O líder, tirando o lance de Falcao, esteve ausente. Teve displicência e pagou por isso.

André Villas Boas gritou, gesticulou e sentiu necessidade de mudar. Recolheu ao banco, pediu outra opinião e planeou mudanças. O FC Porto surgiu diferente no recomeço. Com o mesmo jogo na mão, mantendo todos os trunfos guardados, juntando uma atitude bem diferente, muito mais briosa, com pressão alta e jogo fluído. Os ases apareceram: Hulk e Falcao, sociedade mortífera, dupla de construção e finalização, em três momentos que levaram perigo a Rui Patrício, fizeram o Sporting recear e temer que a vantagem pudesse ser dizimada. O líder puxou dos galões. Equilibrou, reprimiu o leão, não repetiu a entrada e chegou ao empate: abertura de Moutinho, cruzamento de Hulk e emenda de Falcao. Saltou André Villas Boas. Conseguira marcar cedo. Só que Maicon, já ultrapassado no lance do golo, desleixou-se. E recebeu ordem de expulsão.

ESPREITAR AS CARTAS DO ADVERSÁRIO

O central brasileiro tem feito boa dupla com Rolando. Comete, contudo, erros evitáveis. Em Alvalade, por exemplo, mostrou por duas vezes as cartas ao adversário. Jaime Valdés e Liedson, astutos e oportunos, tiraram benefício, aproveitaram e deixaram o FC Porto em tremuras: primeiro com um golo e depois com uma expulsão – decisões erradas, ao que parece, por parte de Jorge Sousa, que já antes, embora se compreenda, não tenha visto uma agressão brutal de Maniche a João Moutinho. A expulsão de Maicon surgiu no melhor período azul, quando Hulk se destacara e o FC Porto tomara as rédeas do jogo. André Villas Boas foi obrigado a redefinir objectivos, alterou a equipa, reformatou a forma de jogar: tirou Falcao, lançou Otamendi, colmatou a cratera na defesa. Paulo Sérgio, em superioridade, lançou Yannick. O Sporting poderia aproveitar.

A verdade, no entanto, é que o jogo, a partir da expulsão de Maicon, perdeu-se. Subiu a agressividade, aumentaram as quezílias, as escaramuças, os tempos mortos e as alterações, tanto de um lado como do outro: o FC Porto para segurar o empate, apenas tendo Hulk sozinho contra o mundo na frente, ganhando consistência no meio-campo, e o Sporting, apostando todas as fichas, para chegar à vitória, infligir a primeira derrota ao líder e ganhar novo ânimo para poder caminhar com os olhos no topo. A saída precipitada de Maicon, deixando à mostra o jogo do FC Porto e impedindo que pudesse fazer uso dos seus trunfos nos momentos certos, levou consigo o futebol. Ambos se limitaram, depois, a jogar as cartas que sobraram, sempre numa postura ofensiva do Sporting e defensiva do FC Porto, até terminar o arsenal. O empate sabe melhor ao dragão.

Sporting-FC Porto (antevisão): Uma questão clássica de brio

Um dragão confiante, seguro de si, líder por mérito próprio, pujante e apenas por uma vez travado, em Guimarães, ficando-se por um empate. Nos outros dez jogos que realizou para o campeonato, venceu. Sendo pragmático, sendo brilhante, sendo feliz ou sendo avassalador. É uma equipa versátil, camaleónica, com capacidade de adaptação: percebe o jogo, interpreta-o e coloca em prática os seus princípios, com muita bola, circulando-a a alta velocidade, atribuindo larga importâcia aos médios, dependendo daquilo que pode fazer. O FC Porto é, sem dúvida, a melhor equipa do campeonato até ao momento: lidera, tem dez pontos de avanço sobre o segundo classificado, encaminhou muitíssimo bem o título neste primeiro terço da temporada, joga um futebol atractivo e envolvente, faz as leituras correctas das diferentes circunstâncias, junta um ataque de fogo a uma defesa consistente. Tem hoje, em Alvalade, mais um teste.

Pretendendo refazer-se de uma época negra, recheada de acontecimentos nefastos e desastrosos, o Sporting mudou a sua linhagem, abordou o mercado de transferências de forma diferente e pareceu, antes do arranque da temporada, ter ganho personalidade e fibra. A época, contudo, tem sido demasiado intermitente, demasiado irregular e demasiado macia. No campeonato, por exemplo, o Sporting, em onze jornadas, conquistou somente dezoito pontos – significa isso, portanto, que desperdiçou quinze. O leão é frágil, oscila com facilidade, consegue surpreender pela força demonstrada e logo a seguir cai a pique, nunca se sabe muito bem aquilo que verdadeiramente se pode esperar e vale esta equipa. Trata-se, contudo, de uma questão de orgulho, de honra e de prestígio. Vencer o líder, ser a primeira equipa a tirar os três pontos ao FC Porto, alcançando uma vitamina de confiança para o futuro, funciona como estímulo.

Na temporada passada, na fase em que o Sporting se conseguiu soltar das amarras e viveu uma fase ascendente, conseguindo boas respostas interna e externamente, a equipa leonina, com uma vitória categórica e incontestável por três golos de diferença, deixou a nu as debilidades que o dragão tentara esconder, travou a recuperação azul e colocou, definitivamente, um ponto final nas aspirações do FC Porto em ainda sonhar com a conquista do pentacampeonato. Agora, com um contexto diferente, em que os portistas vivem um clima de prosperidade, a motivação pode residir, um pouco, na mesma condição. O clássico não chega na melhor altura para o Sporting, é verdade, mas será, com toda a certeza, um mote importante em caso de vitória. Tendo no pensamento aquilo que o FC Porto, no Dragão, alcançou perante o Benfica. O leão, escaldado pelos acontecimentos recentes, não quer ser cobaia de mais uma demonstração de força.

Não há volta a dar: este Sporting-FC Porto é o jogo do regresso de João Moutinho à sua casa de partida. Foi com a camisola leonina que se formou e é, agora, vestindo de azul que melhor se está a dar. O médio português, um sempre-em-pé, é indiscutível e preponderante na máquina de André Villas Boas. Será, por isso, um dos elementos do meio-campo, que já contará com Fernando, após lesão, e terá de redobrar a atenção sobre o lado esquerdo para impedir que o Sporting fure e tire algum partido da ausência de Álvaro Pereira – por lesão, cederá o seu lugar a Jorge Fucile. Na frente reside a principal arma do dragão: o FC Porto tem uma equipa equilibrada, muito consistente, mas é no tridente ofensivo, com Varela, Falcao e, sobretudo, Hulk, que estará a grande preocupação do Sporting. Daí que Paulo Sérgio, cauteloso, opte, à partida, por colocar Pedro Mendes e André Santos como elementos de contenção.

Dos prováveis titulares, que o leitor pode consultar em baixo, cinco jogadores já estiveram de ambos os lados. O principal destaque é, por tudo aquilo que representou para o Sporting, João Moutinho, ex-capitão leonino, que agora está de pedra e cal no FC Porto. Há, para além dele, também Varela, saído de Alvalade com Paulo Bento. No lado do Sporting, pelo contrário, Pedro Mendes, Maniche e Hélder Postiga, agora leões, já vestiram a camisola do FC Porto, tendo participado em jogos desta grandeza. O avançado português, parceiro de Liedson no ataque, será um dos principais incómodos para a defesa do líder do campeonato nacional. Com favoritos ou não, com uma enorme barreira a separá-los ou não, independentemente dos estados de alma, este é um jogo especial. Qualquer um deles dará o seu melhor. Há Hulk, Falcao e Belluschi. Também Postiga, Liedson e Valdés. Quem decide o clássico?


SPORTING-FC PORTO
Estádio de Alvalade, Lisboa, 21h15
Árbitro: Jorge Sousa

SPORTING: Rui Patrício; João Pereira, Carriço, Polga e Evaldo; Pedro Mendes, André Santos, Maniche e Jaime Valdés; Postiga e Liedson

FC PORTO: Helton; Sapunaru, Rolando, Maicon e Fucile; Fernando, João Moutinho e Belluschi; Varela, Hulk e Falcao


NOTA: O Sporting-FC Porto terá crónica no FUTEBOLÊS, assim como acontece com todos os jogos grandes.

Revista de uma semana delicada

Estudos, trabalhos, prioridades e ausência de tempo. O FUTEBOLÊS sentiu-o. Ficou desactualizado, sem comentários, não tendo, como sempre teve até aqui, a análise ou o olhar sobre a realidade futebolística. A última vez que aqui escrevi, meio à pressa, foi no dia vinte. Hoje, leitor, são vinte e sete: passou uma semana. Deu para escrever, por essa altura, um artigo sobre a vitória memorável, numa exibição cheia e pintalgada de momentos cintilantes, de Portugal sobre Espanha, o vizinho, no reencontro depois da eliminação na África do Sul. Portugal mudou: deixou a escuridão da noite, o murmúrio e os receios, adoptando uma postura audaz, humilde mas corajosa, capaz de abrir boas perspectivas de futuro. Os jogadores sorriem. Foi isso precisamente que, a meio desta minha pausa, o Bernardino, no espaço semanal que tem aqui no blogue, pretendeu focar. Através de uma frase de Pepe, no seguimento de outras, exaltou as diferenças trazidas pelo… Bento.

Domingo, dia vinte e um. Jogos da Taça de Portugal. Sem o Benfica, em confronto com o Sp.Braga, naquele que é o jogo mais esperado da quarta eliminatória, devido à Cimeira da NATO realizada em Lisboa, mas com o FC Porto e o Sporting no cartel. Ambos venceram: sem deslumbrar, apenas marcando por uma vez, mostrando a sua maior valia. André Villas Boas, na casa do Moreirense, do segundo escalão, geriu o esforço dos jogadores, poupou, deu minutos a outros, viu o FC Porto passar por alguns sustos, com um golo mal anulado à equipa da casa, apenas conseguindo resolver, num golo pleno de oportunidade, quando Radamel Falcao entrou. Em Alvalade, o Sporting, ante o Paços de Ferreira, triunfou com um tento de Yannick, de regresso aos golos, apesar da belíssima réplica dada pelos pacenses. Missão cumprida, sem surpresas, grandes na ronda seguinte.

Terça-feira, dia vinte e três. Mais um pedacinho de História marcada em Braga: os Guerreiros, estreantes entre a elite europeia, pela primeira vez estremecendo e arrepiando-se ao ouvir o hino da Liga dos Campeões, venceram o Arsenal, um grande europeu, conseguiram a terceira vitória consecutiva, depois da dupla-jornada com o Partizan de Belgrado, e mantêm, até à última jornada, a esperança na passagem. O Sp.Braga aconchegou os cofres, garantiu mais alguns euros importantíssimos e conseguiu, no plano desportivo, um triunfo histórico, que moraliza e, apesar da altivez de Arsène Wenger ao recorrer a uma equipa secundária, entra para as estatísticas. O Sp.Braga fez por isso. Matheus, heróis doutras batalhas europeias, marcou dois golos, trabalhou e concluiu com mestria transições velozes, espetando duas setas no Arsenal. Portugal encheu-se de orgulho. Braga ainda sonha com a passagem. Tem de ganhar em Donetsk e esperar que os gunners não o façam.

Quarta-feira, dia vinte e quatro. Jogo crucial do Benfica em Telavive, ante o Hapoel, considerado, por Jorge Jesus, como “uma finalíssima”. O percurso dos encarnados na fase de grupos da Liga dos Campeões começou com uma vitória sobre a frágil equipa israelita, encalhou com duas derrotas frente a Schalke 04 e Olympique Lyonnais, ambas fora de casa, antes de um novo balão de oxigénio num triunfo, categórico em setenta minutos e sofrido em vinte, perante a equipa francesa. Finalíssima, por isso mesmo: necessário um triunfo, no fundo uma demonstração da enorme superioridade individual e colectiva do Benfica, mesmo com um ambiente adverso em Israel, para, com uma pontinha de sorte no outro jogo, ficar com os oitavos-de-final à porta. O Benfica dominou, ganhou a bola, teve níveis muito altos de posse, construiu oportunidades e… perdeu. Sofreu três golos. Falhou na finalização, desorientou-se, viu o Hapoel, feliz e oportuno, fechar-lhe o caminho. Terminou vergado, rendido, humilhado. Na última ronda, com o Schalke, que venceu, necessita de confirmar a Liga Europa.

Saltamos para sábado. Em traços gerais, de forma muito breve, ficou feita a revista da semana. O blogue está, depois da pausa forçada pela ausência de tempo, por os dias não esticarem, actualizado. É dia de clássico. Sporting e FC Porto jogam, em Alvalade, mais uma partida grande desta edição da Liga ZON Sagres. Apesar dos treze pontos que os separam, da irregularidade leonina embater contra o mérito portista, será um jogo imprevisível, urgente para que o Sporting se mostre definitivamente e possa adquirir confiança para a luta, ou mais um passo, de novo gigante, que permita ao FC Porto ganhar mais probabilidades de sucesso no final da época. André Villas Boas recusa ser favorito, recusa que se pense ser fácil para o FC Porto, algo que Paulo Sérgio, puxando pelo orgulho dos seus jogadores e lembrando que joga em casa, recebe sem problemas. É também o jogo que marca o regresso de João Moutinho a Alvalade. Escaldante, intenso e vibrante. Terá antevisão e crónica no FUTEBOLÊS. Como sempre.