2010 futebolístico de A a Z – Primeira Parte

DE ANDRÉS INIESTA A MOURINHO

A: Andrés Iniesta.

Aprimorado. Com passada elegante, fino recorte e cabeça erguida. Bola nos pés, cérebro em funcionamento apressado, mil e uma ideias, controlo total, tentativa de colocar a bola num determinado lugar, acção e já está. A mente e o corpo interligam-se, Iniesta executa, os companheiros movem-se, a equipa trabalha, carbura, desenvolve, galga terreno. É esse no Barcelona e na selecção espanhola. Em 2010, Iniesta esteve lesionado grande parte da época, sim, mas regressou em grande: foi o centro do Barça triturador em Espanha e o autor do golo que deu, pela primeira vez na História, um título mundial aos espanhóis. Está na pole-position para receber a Bola de Ouro. Com Xavi e Messi na concorrência. São os dinamizadores do tiki-taka.


B: Benfica.

Um gigante. Adormecido. Preso ao passado, superado, caído em desgraça. Vivendo sem títulos, sem alimento, sem a grandeza de outrora. Cansado de falhanços sucessivos, repetindo erros, alimentando promessas e sempre terminando desiludido. Mudou em 2010. Jorge Jesus chegou com audácia, moral, confiança em alta. Prometeu uma equipa a jogar o dobro, elevando a fasquia, rompendo com o passado recente e destruindo as pretensões dos adversários, sobretudo do pentacampeonato do FC Porto. Até Maio, altura em que conquistou o trigésimo segundo título do seu historial, o Benfica foi a melhor equipa portuguesa, roçou a perfeição, apresentou-se como um rolo compressor e destruidor. Foi campeão. Até Maio foi mágico.

C: Campeonato do Mundo.
Em África do Sul. Com problemas, sim, principalmente ao nível de segurança e de estruturação, mas organizado com paixão, genuína e pura, de um povo humilde e radiante por ver as maiores estrelas do futebol mundial junto de si. África do Sul começou por dar sinais de impreparação e terminou com uma certeza: mereceu organizar um evento assim, realizou-se, viveu nas nuvens e, mesmo que tenha sido somente por um mês, foi o centro do Mundo. Trabalhou para superar as dificuldades, entregou-se para tapar as brechas e esforçou-se para ser recompensada. Deu o seu melhor. E foi bem-sucedida. África do Sul assistiu à coroação da Espanha, ao regresso de Diego Armando Maradona aos grandes palcos, à força demolidora da Alemanha.

D: Deixem-me sonhar.
José Torres partiu em 2010. Deixou obra feita. E uma frase marcante, intemporal e profunda, proferida em 1986, antes da partida para o México, no regresso de Portugal aos Mundiais: deixem-me sonhar. Apenas sonhar, acreditar, confiar, tentar. Deixar-se levar, entregar-se ao destino, abrindo horizontes. Domingos Paciência, treinador do sensacional Sp.Braga que conseguiu em 2010 chegar mais alto do que nunca, repetiu a frase a cada dia, a cada treino, a cada conversa, a cada jogo. A sua equipa sonhou, batalhou, porfiou e surpreendeu. Não estabeleceu um objectivo, não se colocou em bicos de pés, apenas acreditou. O Sp.Braga foi vice-campeão, entrou de forma brilhante na Liga dos Campeões e lutou. Teve o seu ano de ouro.

E: Espanha.
Vicente del Bosque, Don Vicente, herdou uma selecção campeã da Europa. Espanha tivera sucesso. Restava dar continuidade ao trabalho desenvolvido. Não mudando no que estava bem, não rompendo com um passado recente vitorioso nem, muito menos, alterando a forma da equipa se apresentar. Ao mesmo tempo, o Barcelona, o carrossel de futebol construído e alimentado por Pep Guardiola, emerge, surpreende, quebra recordes, ultrapassa barreiras, torna-se um monstro cada vez maior e destrói, massacra, asfixia. Tem uma base sólida, tem cultura, tem um leque vasto de espanhóis. A selecção só pode beneficiar. O tiki-taka de Xavi e Iniesta é transportado para La Roja. O título mundial, pela forma como se apresentou, assenta como uma luva.

F: Futebol total.
Abaixo, leitor, na próxima letra destacam-se dois dos principais jogos do ano: o FC Porto-Benfica e o Barcelona-Real Madrid, dois duelos de titãs, dois duelos pelo título, ambos ganhos por cinco-zero, um resultado esmagador e massacrante. Houve, contudo, mais jogos importantes, marcantes, simbólicos no decorrer de 2010. No campeonato português jogaram-se, por exemplo, o Benfica-Rio Ave, que devolveu o título aos encarnados cinco anos depois, e o FC Porto-Sp.Braga, vivo e intenso do princípio ao fim, num teste de fogo ao dragão. Também o jogo da selecção nacional contra a Espanha, vencido por quatro-zero, ou o brilharete do Sp.Braga em Sevilha e, em casa, ante o Arsenal. Sem esquecer, internacionalmente, os duelos do Inter com o Chelsea e o Barcelona, que guiaram os italianos ao título europeu, ante o Bayern.

G: Goleada.
Cinco-zero. Resultado gordo, pesado, inusitado. Ainda mais raro quando se defrontam duas equipas poderosas, ambiciosas, que discutem o topo, colam os olhos no primeiro lugar e não admitem nada mais do que ser campeão, uma, duas, muitas vezes para garantir a hegemonia internamente e serem a principal bandeira para o exterior. Aconteceu em Portugal e Espanha. O FC Porto está para o Barcelona como o Benfica está para o Real Madrid: os dois primeiros cresceram, subiram a pulso, ganharam a região e só depois alastraram o seu domínio, são equipas poderosas actualmente, enquanto os outros dois, de ascendência nobre e gloriosos em tempos idos, perderam fulgor. FC Porto e Barcelona destroçaram os rivais com cinco golpes. Sem misericórdia.

H: Hulk.
Incrível. Forte. Demolidor. Hulk encara o adversário, é veloz, arranca, destói, galga metros, alia uma potência descomunal a uma técnica que o faz saltar para o pedestal do campeonato. Viveu, em 2010, momentos diferentes. Desceu às trevas por ter sido castigado devido às ocorrências no túnel da Luz, depois do Benfica-FC Porto da temporada passada, sendo marcado como jogador violento, mau perdedor, afastado, a par de Sapunaru, da competição. Regressou em Março, depois de uma decisão que anulou os quatro meses de castigo decretados, com um novo espírito: menos individualista, mais sóbrio, mais calmo, melhor do que nunca. Precisamente aí iniciou-se o ciclo dourado do FC Porto. Hulk é o maior destaque deste campeonato.

I: Internazionale Milano.

Tetracampeão italiano, taças e supertaças pelo meio, reinado incontestado em Itália, domínio a toda a prova, demonstração de força sem parelelo internamente. Será, à partida, o desejado por qualquer clube. Ao Inter nunca desapareceu a sensação de saber a pouco. Ganhava fácil em Itália, sim, mas faltava afirmar-se na Europa. Chegar longe, ultrapassar a maldição dos oitavos-de-final, sonhar com a final e repetir o êxito de Helenio Herrera, há já quarenta e cinco anos, assumindo o título de campeão europeu. O Inter jogou à italiana, abusou do pragmatismo, levou os seus princípios ao limite, não teve pejo em defender ou em cortar a inspiração dos adversários. Foi guiado por Mourinho. E teve Sneijder, Milito, Cambiasso ou Zanetti. Uma equipa.

J: Jorge Jesus.
Discurso simples, assertivo, frontal: esta equipa, comigo, vai jogar o dobro. Soou a arrogância, a demagogia, a propaganda. Os benfiquistas aplaudiram mas desconfiaram: gostaram de ouvir o novo treinador arrancar com palavras fortes, prometendo mudanças na postura e no destino dos títulos, embora, por outro lado, tenham sentido que o discurso se repetira porque mais uma vez o Benfica terminara a época – excepção feita à Taça da Liga – sem glória. Jesus cumpriu: transformou o Benfica numa máquina futebolística, colocou as peças nos seus devidos lugares, ressuscitou o inferno benfiquista e relançou os encarnados para o topo. Foi campeão, ganhou a Taça da Liga e chegou longe na Liga Europa. Jorge Jesus pode ter perdido o estado de graça, sim, mas não o estatuto de obreiro do título encarnado.

K: Kick and rush.
Uma bola, um pontapé, uma corrida e uma sorte. O futebol português, leitor, assemelha-se, muitas vezes, a isto. Verifica-se, sobretudo, nas equipas de menor dimensão, especialmente quando defrontam os grandes, sabendo, à partida, que as probabilidades de sucesso são reduzidas. Desligam-se da qualidade apresentada, dos princípios de jogo, assumem uma postura defensiva, por vezes exacerbada, correndo em busca de um ponto, de algo palpável, dos mínimos. Refreiam a ambição de vencer e fixam-se apenas em sobreviver. São realistas, até em demasia, pois prescindem de lutar. Usam as suas armas. Por vezes resulta. Sente-se, contudo, na forma como os adeptos de distanciam. Ninguém gosta de ver um jogo transformado num monólogo.

L: Liderança.
Os três principais clubes portugueses, os grandes, têm modelos de liderança bem distintos. O FC Porto, demolidor e hegemónico na última vintena e meia de anos, tem em Pinto da Costa uma figura carismática, consensual, intocável. O dragão perdeu o campeonato. O presidente, com total confiança do povo portista, alterou, traçou novos planos, com os objectivos de sempre e arrancou fortíssimo rumo à nova temporada, visando impedir o bicampeonato do Benfica. O clube encarnado viveu, até Maio de 2010, o melhor período do reinado de Luís Filipe Vieira, vendeu duas peças importantes, não as colmatou da melhor forma e tropeçou decisivamente na primeira parte da nova época. No Sporting, José Eduardo Bettencourt está ligado ao pesadelo leonino: sem títulos, sem chama, sem recursos económicos. O passivo dos três é elevadíssimo.

M: Mourinho.
Corrida louca, braços no ar, punho cerrado, ar superior, elegante e forte, com o indicador colado na boca: ganhei, acabou, acabei por cima. O fim de Mourinho à frente do Inter chegou com a conquista da Liga dos Campeões. Pode parecer paradoxal, leitor, mas é bem simples. Voltar, quase meio século depois, a ser campeão europeu era o objectivo nerazzurro. Foi conseguido. Ponto final. O objectivo de Mourinho cumpriu-se, o ciclo fechou-se, com muitas guerras e polémicas pelo meio, conquistando, em dois anos, uma Liga dos Campeões, duas supertaças, uma taça e dois campeonatos. Mourinho chegou a Espanha. Um desafio maior do que nunca, em Madrid, para potencializar todos os recursos do Real, bater o Barcelona e voltar a tocar o céu.

NOTA: A segunda parte será publicada nas próximas horas.

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Liga ZON Sagres: Análise da jornada 14

O DRAGÃO CAMPEÃO DE INVERNO

Pleno de vitórias dos grandes, lugares fixados no topo, constituição natural do pódio. Sabores diferentes: divertimento do FC Porto, inquietação do Benfica, desapontamento do Sporting. Nada se alterou, nos três primeiros lugares, na última jornada deste ano. Os oito pontos de vantagem do FC Porto são importantes, funcionam como uma almofada e deixam o dragão, invicto e audaz, em posição privilegiada, na pole-position, para atacar a segunda parte da temporada. A equipa portista sentiu uma quebra pós-Benfica e perdeu o brilhantismo, sim, mas manteve-se vitoriosa, invicta e capaz. Ganhou, cimentou a liderança, empinou o nariz e seguiu caminho. Os adversários, sobretudo o campeão, ainda acreditam, esperam, anseiam. Têm fé. E pretendem um resto de época melhor.

Primeiro lugar, oito pontos de vantagem, posição confortável e passada segura. Uma vitória, dourada e fundamental, para fechar: em Paços de Ferreira, por três golos de diferença, aparentemente fácil, clara e sem discussão, mas, no fundo, enganadora: o FC Porto foi melhor, teve uma primeira parte de alto rendimento, dominou e destruiu, chegou à vantagem, falhou mais oportunidades para aumentar, só que no final, por acção da equipa pacense na segunda parte, tremeu, mais uma vez, mostrou debilidades, viu Helton agigantar-se e só no período de descontos, numa grande penalidade mal assinalada por Artur Soares Dias, que já antes perdoara um derrube a Hulk na área, serenou. Marcou por Otamendi, por Hulk e por Walter. O dragão foi asfixiante no início e apático no fim. Mesmo assim venceu. Com robustez, com confiança e com os galões de quem é líder. O FC Porto termina o ano invicto. É campeão de Inverno. E, mesmo perdendo o brilhantismo exibido, continua seguro. Está no topo. Bem agarrado.

Segundo lugar, oito pontos de atraso para o topo, posição inquietante para o campeão e prestações titubeantes. O Benfica começou mal o campeonato: três derrotas em quatro jogos, FC Porto a fugir, defesa do título comprometida e decisões difícieis. Melhorou, correu em busca do prejuízo, conseguiu uma bela série de vitórias sem sofrer golos, foi esmagado por um dragão enraivecido e demolidor, abalou verdadeiramente aí, mas recuperou, depois, o trilho vencedor, com vitórias, no campeonato, sobre Naval, Beira-Mar e Olhanense. Apurou-se, também, para a Taça de Portugal. Desiludiu na Europa, conseguindo o terceiro lugar in extremis, depois de falhar a Liga dos Campeões. Mas conseguiu terminar bem o ano. Não conseguiu que o FC Porto escorregasse, permitindo recuperar o fôlego, mas venceu o Rio Ave: bom jogo, entrada massacrante, jogo dinâmico, uma espécie ar de graça da época passada, Toto Salvio em destaque e vitória robusta, por 5-2, sobre uma briosa equipa vila-condense.

Terceiro lugar, treze pontos de diferença para o primeiro lugar, barreira dura e campeonato transformado em utopia. O Sporting chega a Dezembro, mal refeito de uma temporada de verdadeiro pesadelo, com as suas aspirações a conquistar o título, para onde partiu com algum atraso relativamente ao campeão Benfica e ao FC Porto, arruinadas. Persegue, mesmo assim, a melhor classificação possível. Encara um jogo de cada vez, pretende vencê-lo, cimentando a sua posição, pressionando e esperando que os adversários percam pontos. Depois de duas derrotas, uma inconsequente e outra que afastou a Taça de Portugal, o leão apareceu bem em Setúbal, mostrou garra, fez do orgulho ferido uma arma, assumiu-se dominador, ganhou o controlo do jogo e ganhou clara e merecidamente. Marcou duas vezes por Yannick Djaló, regressado aos golos, pelo meio contando também com a ajuda preciosa de Abel. A vitória serve, pelo menos, para manter o Sporting vivo, acordado e fixado no terceiro lugar. Mais do que isso é utopia.

O União de Leiria fecha o ano no quarto lugar. A equipa leiriense, depois de um arranque intermitente, soma vinte e quatro pontos, apenas menos um de que o Sporting, por ter vencido, na Figueira, a Naval (0-3) – resultado que levou à demissão de Rogério Gonçalves, segundo treinador dos figueirenses nesta temporada, devido à série de maus resultados que deixa a equipa na última posição, com apenas cinco pontos conquistados. O último lugar de acesso à Europa é, actualmente, ocupado pelo Vitória de Guimarães, com vinte e dois pontos, embora a equipa vimaranense tenha sido derrotada, em Aveiro, pelo surpreendente Beira-Mar (3-2) – em oitavo, somando dezanove pontos. Nacional (empate, a zero, em Olhão) e Sp.Braga (regresso triunfal, categórico, gordo: 5-0 à Académica) estão em posição intermédia, com vinte e um e vinte pontos, respectivamente. O Marítimo empatou (1-1) com o Portimonense e fixou-se, a par do Olhanense, no décimo lugar, com dezasseis pontos. Seguem-se P.Ferreira (quinze), Rio Ave (catorze), V.Setúbal (treze) e Portimonense (nove).

O MOMENTO DA JORNADA

Jorge Baptista: Rússia e Qatar vão corresponder

Foi sem a mínima surpresa que recebi as vitórias da Russia e do Qatar na realização dos próximos Candidatos do Mundo. O poder económico de ambos foi importante mas mais decisivo o facto de Rússia e Qatar proporcionarem o desenvolvimento estrutural e desportivo em duas diferentes regiões, onde o futebol apenas possuía expressão… Neste caso, pode dizer-se que os membros do Comité Executivo da FIFA decidiram juntar o útil ao agradável…Recordo que se fosse apenas pelo poder económico, quando é que Portugal teria organizado um Europeu? Seria bom que aqueles que vêem apenas jogos de bastidores, tráfico de influências e corrupção nos organismos do futebol internacional, olhassem primeiro para a sua própria casa. Estudem a melhor forma de alterar o critério das eleições para a FPF e de evitar as suspeições semanais sobre as arbitragens e os resultagdos dos nossos jogos

(Desse modo, talvez contribuam com algo de inovador para o futebol internacional, em vez de proclamarem aos sete ventos, quais Calimeros, que o nosso futebol é pequenino e sem expressão nos corredores obscuros do futebol internacional. São os mesmos que passam a vida a proclamar a criação de lobbies, como se estes nao fossem meros tráficos de influência.)

A Rússia, como sabemos, é uma potência, com um futebol ainda adormecido, pese embora o dinheiro do petróleo que para lá tantos jogadores têm levado. O efeito de um Mundial e novas e modernas estruturas desportivas podem ajudar no crescimento e desenvolvimento do futebol naquela zona longínqua da Europa. O Qatar, ao contrário do que muitos pensam, é um apaixonado pelo BOM futebol – aliás, como a generalidade dos países do Médio Oriente. Se as suas competições internas têm pouco público, isso deve-se ao escasso talento local e “à falta de motivação”. É isso que não apenas o Qatar mas toda a região pretendem alterar com a realização de um Mundial – que nao tenho dúvidas irá ficar na História. Conheço bem a região e sei que público não vai faltar… Alterar o interesse do público actual e as condições climatéricas, proporcionando o melhor ambiente para grandes espectáculos, vão ser os grandes objectivos.

Muitos, com ironia bacoca, defendem que o objectivo da FIFA passa por ganhar mais dinheiro para o futuro com a entrega dos Mundiais à Russia e ao Qatar. Não será esse e a modernização o objectivo de todo o desenvolvimento? Nao será melhor para todos os apaixonados do futebol que o nível do futebol europeu e de algum futebol sul-americano consiga ser igualado pelo resto do planeta? A não ser que o talento e a competência criem tanto aborrecimento. Em especial, à mediocridade…


Texto de Jorge Baptista, media officer da FIFA, acerca dos próximos Campeonatos do Mundo

Liga ZON Sagres: Um momento de retoma leonina

V.SETÚBAL-SPORTING (0-3): O GRITO DE REVOLTA DO LEÃO

Duas derrotas, um novo momento delicado, murro na mesa e revolta. O Sporting perdeu, em Setúbal, um dos objectivos da temporada: foi derrotado, vergado, rendeu-se perante uma exibição sólida e audaz do Vitória, dizendo adeus à Taça de Portugal, de forma precoce, não conseguindo chegar ao Jamor. Abalou. Os treze pontos de diferença no campeonato e a eliminação da Taça bateram forte no leão. Seguiu-se, dias depois, uma nova derrota, agora na Liga Europa, frente ao Levski de Sófia. O apuramento estava garantido, sim, mas a exibição foi pobre, cinzenta, sem alma e sem chama. Paulo Sérgio viu, não gostou, disparou e puxou pelo orgulho dos jogadores. A resposta foi positiva. O Sporting regressou a Setúbal, agora para a Liga ZON Sagres, apresentou-se bem, reprimiu a equipa do Vitória, impediu que criasse o ascendente que lhe dera o triunfo na Taça de Portugal, soube estar e marcar em momentos cruciais. O primeiro golo, no regresso de Yannick, abriu caminho ao leão. Foi um momento fulcral.

NOTA: O Momento da Jornada é uma rubrica do FUTEBOLÊS, publicada antes da análise completa de cada ronda da Liga ZON Sagres. A imagem presente tem créditos da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

O carro de corrida azul

O FC Porto é uma espécie de carro de corrida. Faz a preparação, dá voltas ao circuito, limpa as areias da engrenagem, carbura e prepara o seu desempenho. Liga o turbo, chama a confiança, enche-se de fé e carrega no acelerador. É demolidor, avassalador, veloz. Anda mais rápido do que os adversários, ganha avanço nos primeiros metros, destaca-se, foge, consegue conforto. Está bem. O carro responde. O condutor imprime maior dinamismo, puxa, faz o motor atingir o vermelho, chegar ao seu limite e continuar a trabalhar. Há muita qualidade. Nas voltas seguintes, com os rivais distantes, retira o pé do acelerador: tem vantagem, é preciso mantê-la, sabe que possui boa margem de manobra e tende a relaxar. Mesmo assim não quebra. É precisamente aí que se vê a qualidade do material. Este FC Porto é bom.

De orgulho ferido, revoltado, jogando contra o campeão, o FC Porto atingiu o pico exibicional frente ao Benfica. Jogou, circulou, teve velocidade de ponta, marcou, divertiu-se. Fez do jogo um puro gozo, pelos cinco golos conseguidos ante o grande adversário, aliado a uma eficiência brutal, estabelecendo a distância em dez pontos, motivando-se ainda mais na corrida pelo seu objectivo e atingindo, com força, a concorrência. A partir daí mudou. O carro está mais pesado, mais lento, mais previsível. Dá sinais de desgaste, de excesso, necessita de refrear e ser mais pausado. Treme, quase sai de pista, vê as curvas como um obstáculo. Mas passa. Pode arranhar a pintura, sim, mas não passa disso. O FC Porto termina 2010 sem derrotas, apenas com três empates, sendo dois deles no campeonato, está na fase seguinte da Liga Europa, irá jogar os oitavos-de-final da Taça de Portugal e lidera a Liga Portuguesa com oito pontos de vantagem. Se não é perfeito, anda lá muito perto.

O segredo, leitor, está em perceber os segredos e os limites da máquina. A azul, do FC Porto, é muito boa. Mas isso não quer dizer que seja imbatível, que atinja a perfeição, que roce o brilhantismo ou que se exiba sempre, sem excepções, com o pé no acelerador. Por vezes é necessário apostar outras fichas. Não arriscar tanto, não acelerar a fundo, mas saber gerir, segurar o carro e ter uma condução segura. André Villas Boas tem sido um perito. Na viragem do ano, o dragão está nas suas sete quintas. Continua invicto. Deixou o brilhantismo mas tam conforto. Ganha e isso é o mais importante. Chega a 2011 com a pole-position. Resta saber guardar e gerir a corrida…

NOTA: Artigo escrito no âmbito da parceria com o blogue Império Futebolístico.

Sporting: A falta de um desígnio

O Sporting habituara-se a lutar. Poderia não possuir as mesmas armas, ter os trunfos limitados, estar condicionado no seu jogo, sim, mas batalhou, porfiou e teve sucesso. Não conquistou o campeonato. Foi, contudo, sempre segundo atrás do FC Porto nos quatro anos do comando de Paulo Bento, garantiu presenças na Liga dos Campeões, apostou forte nas taças internas e preencheu, apesar do vazio de um campeonato nacional que escapa desde o início do novo milénio, o currículo. No ano passado, surpreendido e incapaz, vergou. Sentiu as dificuldades mais forte do que nunca, viveu períodos conturbados a nível interno, mudando de dirigentes e de treinador, não conseguiu nenhuma conquista e assinou uma das páginas mais negras, confrangedoras e vazias da sua história. Tentou reagir. Alterou a linhagem, fez novas apostas, renovou ambições e quis esquecer o passado. Até o seu estatuto de grande ficara em causa.

A verdade, contudo, é que este Sporting, o actual, chega a Dezembro numa posição delicada. De novo. Repetem-se as manifestações de desagrado, repetem-se as oscilações inquietantes entre extremos, repetem-se os erros e repete-se o discurso, ineficaz, que pretende transmitir uma mensagem de trabalho, de garra e que, um dia, vai ter resultados. É uma espiral. Os adeptos desanimam, desconfiam e desligam. Há jogos em que o Sporting se mostra audaz, forte, consistente e revela condições para se assumir, de novo, no seu lugar. A primeira parte da partida com o FC Porto, por exemplo, foi aquilo que o Sporting melhor fez nesta temporada: agressivo, concentrado, altivo, astuto e expedito. Poderia ter funcionado como mote para um futuro mais risonho. O leão não conseguiu. Voltou ao estado inicial: abatido, impotente, frustrado.

Em Dezembro, à décima terceira jornada, o Sporting tem o campeonato perdido. Pode o leitor argumentar que faltam dezassete jogos, cada um deles vale três pontos e há, ao todo, cinquenta e um para disputar. A realidade, contudo, mostra que o leão está mais frágil, mais carente, mais em risco do que o FC Porto – sólido, robusto e invicto. Há, para além das dificuldades vividas no campeonato, o principal objectivo, a eliminação da Taça de Portugal. O Sporting caiu ontem, em Setúbal, frente ao Vitória. Foi surpreendido pela astúcia sadina, equipa extremamente eficaz, não conseguiu soltar-se, revelou-se demasiado amorfo, sem inspiração para afastar a apatia, não teve alma e caiu. Está triste. Caiu, quis levantar-se e não o conseguiu. Queixa-se de si próprio, dos seus medos, do temor que revela em assumir a bola, levantar a cabeça e caminhar rumo a um horizonte. Ao Sporting falta, leitor, um sonho. E, depois, correr para o alcançar.

Tudo vale a pena se a alma não é pequena. É uma mensagem intemporal, que se repete e que define o estado actual do Sporting. Escrevi-o na análise do jogo com o FC Porto, o clássico, em que o leão se mostrou ao nível daquilo que lhe é exigido. O clube – clube, sim, é de propósito! – precisa de um rumo, uma orientação, um horizonte. Precisa de abrir a mente, lutar, querer conquistar e mostrar capacidade empreendedora. Neste momento, leitor, creio que não haja um desígnio. Há a vontade de limpar o passado, esquecer e voltar a ser grande no verdadeiro sentido da palavra. Mas como? Sem sonho, sem metas, sem objectivos? Impossível.

Liga ZON Sagres: Análise da jornada 13

TUDO COMO ANTES

O FC Porto esteve a um passo, um pequeno passinho, de empatar pela segunda jornada consecutiva, ceder terreno e ver o Benfica, vencedor no início da ronda, encurtar a distância para seis pontos. Seria um tónico, uma motivação, um mote para a concorrência. O dragão escorregou, abanou, mas manteve-se em pé, não caiu, conseguindo vencer, prolongar a invencibilidade que ostenta com altivez e honra, mantendo os adversários distantes do seu trono. Benfica e Sporting cumpriram as suas missões: longe de serem brilhantes, venceram e esperaram que o líder fraquejasse. A resposta do FC Porto, apesar das tremuras, foi positiva, vitoriosa, desoladora. E tudo está como antes. Tal como no fundo: Naval e Portimonense estão em situação delicada, perigosa, desoladora.

O pior jogo do FC Porto. Assim mesmo, sem rodeios, indo directo ao assunto: o dragão esteve abúlico, desinspirado, sem graça, sem rasgo e sem o mesmo dinamismo inicial. Ganhou, continua invicto, segue a sua caminhada, dá passos largos rumo ao seu objectivo e mantém os rivas atrasados, distantes, desmoralizados. Mas este FC Porto habituara a ser convincente, pressionante, dominador, asfixiando o adversário, criando oportunidades em catadupa, dizimando as defesas contrárias e marcando muitos golos. Era elegante, senhorial, requintado. Agora está mais pragmático, sente o cansaço a acumular, mostra sinais de desgaste e treme. Esteve, depois de Alvalade, pertinho de um novo empate. No final, depois de ter desligado e visto o Vitória crescer, o Dragão sorriu, respirou, pulou de alegria quando Jaílson atirou uma grande penalidade para a bancada. O golo de Hulk, na primeira parte, de penalty, valeu ouro.

Óscar Cardozo e Javier Saviola, avançados, goleadores, dupla finalizadora do Benfica, suportes da equipa campeã nacional da temporada passada, de regresso ao activo. O activo de ambos são os golos. Vivem deles. Tacuara fora decisivo ante o Beira-Mar, num regresso perfeito, marcando e assistindo, fazendo, também, com que o parceiro de ataque melhorasse os seus níveis e marcasse. Saviola cresce com Cardozo ao lado: é uma evidência. O jogo com o Olhanense teve a dupla em destaque. Além de Marcelo Moretto. A equipa algarvia começara bem, criara perigo, deixara a nu a insegurança e os receios deste Benfica, titubeante, mas acabou traída, num verdeiro hara-kiri, por Moretto, guarda-redes brasileiro, num frango colossal a cabeceamento de Cardozo. O Benfica ganhou conforto, ascendente e no segundo tempo, com Saviola, aumentou a vantagem. Jogo comme si comme ça.

A posição do Sporting é ingrata. O leão saiu de uma temporada de pesadelo, colocou a cabeça de fora, respirou, renovou ambições, fez um upgrade, deixou boas indicações, mas foi cedendo, tropeçando, titubeando. Está com treze pontos de atraso. Barreira longa, dura, desencorajadora. Apresenta, agora, melhorias, sinais de alguma regularidade, ganhou maior consistência com o regresso de Pedro Mendes e com o fortalecimento de André Santos, conseguiu subir o nível. No Algarve, ante um Portimonense carente de pontos, marcou por Postiga, sofreu o empate num desvio oportuno de Pires, teve na memória o passado recente, mas impôs-se, marcando, por duas vezes, antes do intervalo, em remates certeiros de Maniche e André Santos. Geriu, depois, a vantagem, resguardou-se e impediu, em compacto, que o Portimonense reduzisse. Ganhou e ascendeu à terceira posição – em igualdade com o Vitória de Guimarães.

Os vimaranses, depois de derrotados pelo Marítimo, voltaram, em casa, a ceder pontos. Ante o Paços de Ferreira, mantendo a tradição, o Vitória não foi além de um empate (1-1), sentindo, por isso, a colagem do Sporting e a aproximação de União de Leiria e Nacional, concorrentes por lugares europeus, ambos vencedores: a equipa leiriense derrotou o Sp.Braga, em verdadeira queda livre, somando erros e desaires, por 3-1, ao passo que os madeirenses, em casa, bateram a Naval (2-1). A equipa da Figueira da Foz, mesmo depois da entrada de Rogério Gonçalves, não consegue acertar o passo – tem somente cinco pontos – e ocupa, com o Portimonense – tem oito -, as últimas posições. Rio Ave e Beira-Mar, procurando estabilidade, empataram a um e no encerramento da jornada, em Coimbra, o Marítimo, atingindo o pico da sua retoma após um início confrangedor, goleou os estudantes (1-5). Bela recuperação da equipa madeirense.

O MOMENTO DA JORNADA