FUTEBOLÊS: A vírgula

Uma opinião e dois dias de intervalo. Um comentário, uma análise e cinco dias a seco. Uma crónica antes de uma desactualização de uma semana. O FUTEBOLÊS tem sido assim nos últimos meses. Não faltam temas, não faltam verbos, não faltam adjectivos, não falta por onde escrever. Mas falta tempo, inspiração e disponibilidade. Tudo tem um ponto final, leitor. Ou, pelo menos, uma vírgula. Este é o momento de colocar uma no FUTEBOLÊS.

Ficam dois anos e pouco de evolução. Recheados de opiniões, de crónicas, de análises, de colaborações, de contactos. Foram crescendo os leitores, as parcerias, as referências. Umas positivas e outras nem tanto. É sempre assim. Estar quatro vezes em destaque no Jornal de Notícias, uma no Público e outra na Rádio Renascença foi bom, melhor do que imaginava, deu um empurrão para continuar. O FUTEBOLÊS foi uma ideia igual a tantas outras. Mas teve graça.

Olho para trás, fixo-me nos primeiros tempos do blogue e leio os textos. Dedo no rato, olhos no monitor, velocidade de ponta para conseguir acompanhar. Aparecem as primeiras crónicas de jogos de futebol, a primeira visão crítica, as primeiras colaborações. Surgem os primeiros artigos escritos com cabeça, tronco e membros, diferentes, melhores, evolutivos e mais capazes. Hoje tudo é diferente. A evolução foi brutal, a escrita escorre, as ideias saem com facilidade e em segundos deixam a mente e passam para o computador. Ouve-se o barulho das teclas, dois ou três cliques, uma vista de olhos e está feito. Uma crónica, uma opinião, um artigo simples, outro mais enfeitado, com análises pelo meio. É necessário inventar, imaginar, fazer. Uma, duas, três, ene vezes. Com análises, opiniões, colaborações, reportagens e entrevistas. Para que só depois possam chegar os leitores, os comentários, os destaques.

Colaborações, leitor, sempre foram um ponto fundamental. Por e-mail, com poucas palavras, desenvolvem-se contactos seja com quem for. Há o risco de não ser respondido, sim, mas vamos em frente. Sem que o esperasse, sem qualquer contacto antes de começar o blogue, conseguiu entrevistas, umas melhores e outras piores, sem sair de casa. Pedro Sousa, Pedro Azevedo, António Boronha, Jorge Coroado ou Bernardino Barros foram questionados, aceitaram, tiveram disponibilidade e responderam. Os registos estão no FUTEBOLÊS, aqui ao lado, em parada e resposta. Chegou, depois, o momento de passar para verdadeiras entrevistas. Pedro Azevedo, de novo: duas vezes, em Agosto e Setembro, anos diferentes, para olhar a temas semelhantes – para ter sucesso numa profissão é preciso interesse nela, não é, Pedro?

António Boronha, Bernardino Barros, Cruz dos Santos, Jorge Baptista, Jorge Coroado, Pedro Azevedo, Pedro Sousa, João Pedro Mendonça, Rogério Azevedo, Pascoal Sousa, José Marinho, Nuno Mourão, Miguel Lourenço Pereira ou Armando Vieira. De uma forma ou de outra, em momentos diferentes, todos colaboraram com o FUTEBOLÊS. Fica um obrigado.

Até já?!

2010 futebolístico de A a Z – Segunda Parte

DA CAN NEFASTA AO ZERO DO DRAGÃO

N: Nefasto.

Negro, funesto, dramático, desolador. O arranque da Taça das Confederações Africanas, em Angola, foi o momento mais trágico de 2010: a selecção de Togo foi vítima de um brutal ataque quando se encontava em Cabinda, cidade angolana, que culminou na morte de três elementos da sua comitiva. O acto bárbaro e sangrento levou a selecção togolesa, pressionada pelo governo, a abandonar a competição, sendo desqualificada por falta de comparência pela organização do torneio, percebendo não existirem quaisquer garantias de segurança para permanecer em solo angolano. A CAN viria a ser ganha pelo Egipto, pela sétima vez na História, depois de, na final, a selecção egipcía ter derrotado o Gana. Mas há muito ficara manchada e ensombrada.


O: Oportunidade.
Diz-se que o futebol é um negócio. Pode, por vezes, a palavra ter uma conotação negativa, mas a verdade, leitor, é que é mesmo. Daí que, como qualquer comerciante que deseja estar acima da concorrência, seja bom ter os melhores produtos, saber onde os encontrar, forçar para os conseguir e, depois, rentabilizá-los ao máximo para um possível retorno futuro. O FC Porto fez, no Verão, um dos maiores negócios da história do futebol português: resgatou João Moutinho ao Sporting. Pelo dinheiro investido, pela força oportuna como o processo foi conduzido e pelo impacto, moralizador de um lado e decepcionante do outro, que teve. Actualmente, Moutinho é uma das pedras-chave da máquina portista. Sentido de oportunidade. E de negócio.


P: Pesadelo.

Assim mesmo, sem eufemismos ou meias-palavras: o Sporting viveu, em 2010, um verdadeiro pesadelo. Entrou mal, agudizou a crise, viveu momentos sem paralelo na sua história de mais de cem anos e termina o ano arredado das duas principais provas a que se propôs: campeonato e Taça de Portugal. Está numa situação periclitante, turbulenta, caótica. Já Carlos Carvalhal, Salema Garção ou Sá Pinto abandonaram a estrutura leonina, para, em sentido contrário, terem sido contratados Paulo Sérgio, Costinha ou, mais recentemente, José Couceiro. A verdade é que os problemas, os erros, os desaires prevalecem. O Sporting terminou a época passada, em Maio, a vinte e oito pontos do campeão Benfica e sem nada conquistado. Será para repetir?


Q: Queiroz.

Carlos Queiroz chegou à selecção em 2008. Discurso sério, realista, frio e pragmático. Postura sóbria e metódica. Carlos Queiroz será sempre um professor: prepara, estuda, observa, teoriza e traça planos. Rompeu com o tempo de Luiz Filipe Scolari: o pragmatismo ultrapassou a ambição, as bandeiras saíram das janelas, o país distanciou-se, fracassou a mobilização e a selecção, à imagem do seleccionador, assumiu-se receosa, temerária, pouco mágica e carente de um toque de génio. Portugal foi cinzento no Mundial da África do Sul. Chegou aos oitavos-de-final e caiu frente ao futuro campeão do Mundo, sim, mas nunca se revelou na sua plenitude. Carlos Queiroz foi reú. E envolveu-se em polémicas que lhe custaram o lugar. Bateu no fundo.


R: Ronaldo.

Quarenta e nove golos. De cabeça, de pé direito, de pé esquerdo, das formas mais estranhas, felizes ou construídos com mestria, para todos os gostos há registos. Cristiano Ronaldo terminou 2010 em alta: forte, possante, capaz. Mas nunca poderia estar nos finalistas para vencer a Bola de Ouro. O Real Madrid, para onde se mudou no Verão de 2009, terminou a época sem título, sem retorno do investimento e ultrapassado a toda a escala pelo Barcelona. O Mundial da África do Sul, com a prestação cinzenta e apática de Portugal, mostrou também o pior Cristiano Ronaldo: individualista, impotente e eclipsado. Por tudo isso, ficou arredado. Mas nem por isso deixou de marcar a época. No Real Madrid, por exemplo, foi o grande, o maior, o único suporte.

S: Sporting.

O Sporting já apareceu, leitor, atrás. Na letra , de pesadelo. Mesmo assim, porque 2010 foi verdadeiramente um ano calamitoso e inusitado no historial leonino, importa vincar a ideia. Ficar a cerca de trinta pontos do primeiro lugar no campeonato, na quarta posição, além de somar derrotas pesadas, frente a FC Porto e Benfica, que valeram a eliminação das outras duas provas internas, Taça de Portugal e Taça da Liga, é algo a que o Sporting não está habituado. Mais: não se coaduna, nem pouco mais ou menos, com um grande, com um clube ambicioso, que luta por título e que coloca a fasquia elevada. Até o estatuto do Sporting esteve tremido. A estrutura apresenta problemas, denota debilidades, não responde de forma eficaz e a equipa, no relvado, sente-o. Faltam chama, falta matéria-prima, faltam recursos. E, sobretudo, meios.


T: Túnel.

O leitor abre o dicionário na letra . Procura e lá encontra: túnel. Tem vários significados e um deles, no sentido figurado, salta à atenção: túnel pode representar uma fase obscura e difícil. Em 2010, recuperando suspeições e intimidações do passado, o futebol português falou de túneis, acendeu a polémica em torno deles e viveu uma tal fase obscura, polémica, densa. O túnel da Luz, de onde saíram as suspensões de Hulk e Sapunaru por agressões a stewards, serviu para alimentar a revolta portista. Pinto da Costa classificou o título benfiquista como uma vitória na Liga dos túneis. Não foi, contudo, apenas no jogo com o FC Porto que o túnel foi falado. Acontecera, antes, nos jogos do campeão com o Sp.Braga e com o Nacional. Um lugar obscuro.


U: Ufanar.

A palavra não é, leitor, muito conhecida. Define alguém que se pode gabar se determinado feito. Nem todos se podem ufanar, por exemplo, de, como Sp.Braga, ter terminado uma fase de grupos complicada, em ano de estreia na Liga dos Campeões, defrontando Arsenal, Shakthar Donetsk ou Partizan, com nove pontos somados – mais do que o AC Milan, que se apurou. Tal como nem todas as equipas, como Barcelona e Real Madrid, de terem os dois principais jogadores do planeta. Há Messi e Ronaldo: correm, driblam, passam, divertem, assistem, marcam, vivem e respiram futebol. Um é franzino, veloz, esguio. O outro possante, capaz, destruidor. Podem-se ufanar os clubes, os treinadores, os colegas e os adeptos. 2010 foi um ano dourado para ambos.


V: Villas Boas.

André desligou-se de José Mourinho. Assumiu a Académica, aceitou o risco, colocou-se na corda bamba e seguiu em frente. Rapidamente chamou a atenção, saltou para a moda, despertou cobiça. O Sporting interessou-se, fracassou, André Villas Boas permaneceu na Académica, ganhou aprendizagens, continuou o seu trabalho e viu serem-lhe abertas as portas do seu clube, o FC Porto, por Pinto da Costa querer romper com o passado. Chegou com força. Mudou a forma de jogar, colocou o dragão no trilho das vitórias e construiu uma máquina poderosa. Conquistou a Supertaça, tem o campeonato bem encaminhado e é candidato assumido na Europa. O FC Porto está invicto, mostra-se elegante e funciona com harmonia. Ano perfeito para André Villas Boas.


W: Wesley.

Jogou, desmarcou, correu, pensou, assistiu e marcou. Wesley Sneijder foi uma peça fundamental no Inter de Milão. Chegou dispensado de Madrid, como Robben, entrou de caras na equipa montada por José Mourinho, assumiu-se como cérebro do Internazionale, guiou a equipa, deu-lhe um toque de génio e revelou-se, em sociedade perfeita com Diego Milito, nos momentos decisivos ao longo da temporada. Conseguiu, ainda, uma prestação convincente na Holanda, mantendo a posição de destaque como no clube, contribuindo de forma fulcral para a cavalgada holandesa rumo à final do Mundial, a terceira da sua História, onde a Espanha levou a melhor. Sneijder esteve sempre no topo. Causa estranheza ter sido esquecido para a Bola de Ouro.


X:
Xau.

Então, xau! A frase pertence a Jorge Jesus, foi dirigida a um jornalista no flash interview do jogo entre o Benfica e o Beira-Mar, confortavelmente vencido pelos encarnados, numa fase em que a eliminação da Liga dos Campeões abalou o campeão nacional. Mostra a tensão do treinador numa altura que a temporada do Benfica foi colocada em xeque. 2010 foi também o adeus de Ricardo Costa e Hermínio Loureiro. O primeiro, presidente da Comissão Disciplinar da Liga, abandonou o cargo manchado pela polémica em torno do FC Porto e das suspensões de Hulk e Sapunaru, castigados em quatro e seis meses, respectivamente, mas que, afinal, por deliberação do Conselho de Justiça, apenas teriam de cumprir três e quatro… jogos. Polémica a rodos.


Y:
Yes, they can.

São portugueses e estão no estrangeiro. José Mourinho: sempre, indiscutivelmente e como expoente máximo. O mais conhecido treinador português venceu, com o Inter, a Liga dos Campeões, quarenta e cinco anos depois da última conquista europeia do clube nerazzurro, conseguindo chegar ao pentacampeonato e à Taça de Itália. Além dele, também outros dois treinadores triunfaram: Nelo Vingada sagrou-se campeão na Coreia do Sul, ao serviço do FC Seul, e Álvaro Magalhães, em Angola, levou o Interclube de Luanda ao título. Simão Sabrosa e Tiago, no Atlético de Madrid, venceram a Liga Europa, enquanto jogadores como Bosingwa, Paulo Ferreira e Hilário (Chelsea) ou Danny, Bruno Alves e Fernando Meira (Zenit de São Petersburgo) se sagraram campeões nacionais em Inglaterra e Rússia, respectivamente.


Z: Zero.

O FC Porto terminou 2010 sem derrotas pós-dia 21 de Março, altura em que, no Algarve, foi vencido pelo Benfica. O dragão, contando vinte e três vitórias e três empates, tornou-se a única equipa europeia a chegar ao Natal sem qualquer jogo perdido. Demonstra, na perfeição, a forma como o FC Porto, desde que André Villas Boas chegou ao comando técnico, no Verão, deu seguimento à excelente recta final da temporada anterior, com dez vitórias consecutivas nos últimos tempos de Jesualdo Ferreira, ganhou pontos, credibilizou-se para a época 2010-11, agarrou-se ao topo no campeonato português, cavalgou na Liga Europa e garantiu, com relativa comodidade, um lugar nos quartos-de-final da Taça de Portugal. Sem derrotas. Ficou por isso, nas palavras de André Villas Boas, com a cabeça a prémio. Até quando?…

NOTA: Como se percebe, neste artigo, não se considera o FC Porto-Nacional, a primeira derrota azul, por já ter acontecido em… 2011.