Opinião: Knocking on Evans door

Cadel vai no melhor, segue imparável, ritmo altíssimo, rotações elevadas, o sonho leva-o, a vontade empurra-o e a glória espera-o. Está às portas do céu. Evans on heaven’s door.


Um momento, por favor. Nada de perturbações que estraguem a concentração. O período é de reflexão. Contagem decrescente, ânsia, espera que não acaba, hora de decidir tudo, tensão maldita. Nestas coisas, para aliviar, fica sempre bem uma musiquinha de fundo. Um iPod, dois auscultadores e um novo mundo pela frente. Final Countdown, não há melhor para aquele instante, é tradução à letra, sentido literal, encaixa na perfeição. Acelera o ritmo, faz bater o coração e sentir as veias. O palco está ali, à nossa frente, num ambiente frenético. Louco, louco, louco. Andy, vamos lá? É a tua vez, já foi tudo, concentra-te. Os músculos contraem, as pulsações sobem, todos vibram. Há que defender, que pedalar, que dar tudo, que ir para lá dos limites. A vontade é o éter.

Cadel, coragem, coragem, estás em grande, isso, mais um esforço. Dentes cerrados, determinação total, sangue, suor e lágrimas, tudo junto, vontade de voar numa bicicleta, de anular todos os tempos e pulverizar a concorrência. Atrás, no carro de apoio, os olhares cruzam-se: o tempo é uma relíquia, o homem parece que vai pelos ares, ganha segundo atrás de segundo, leva um ritmo impressionante e está disparado para o sucesso. Noutros anos já andou lá perto, já o sentiu, já quase o agarrou. Mas fugiu-lhe sempre. Às vezes até pelo meio dos dedos. I have a dream, responde ele. Não é o único. São muitos a perseguir o mesmo objectivo, a querer a mesma glória e a desejar o mesmo. Afinal, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Por isso pedala como nunca.

A vida corre mal a Andy. A vontade não é tudo. Ele quer, ele sua, ele luta. Desaparece o sorriso, reina a apreensão, o momento não é de conquistas, nada disso, é só de nervos e quase desespero. Passam pela cabeça imagens míticas, muitas voltas, muitas acelerações. E outras peças mal jogadas, zelo a mais e demasiada preocupação em ter um contador de adversários. Alberto, o figurão das outras vezes, dera dores de cabeça, obrigara a estratégias reforçadas e fora o alvo a abater. Com sucesso. Só que havia mais, outros estavam à cuca, preparados para saltar, para aproveitar e para rolar rumo ao topo. Tudo passa pela mente em segundos. O que está feito não se muda. Não se volta atrás. Agora sou eu, a bicicleta e o tempo, vamos lá.

Se há dia perfeito, este é um deles. Tudo corre às mil maravilhas. Cadel vai no melhor, segue imparável, ritmo altíssimo, rotações elevadas, o sonho leva-o, a vontade empurra-o e a glória espera-o. Está às portas do céu. Evans on heaven’s door. Arrisca, força mais um bocadinho e está quase. As indicações que recebe estimulam, fazem-no pedalar intensamente, querer ainda mais. Vamos, Cadel, estás a ganhar dois minutos, ele está mal, não tem andamento, está fora, segue. Cadel Evans respira. Pensa nos anos em que foi segundo, pensa nas dificuldades que teve noutras épocas, pensa em como o título mundial o fez mudar de atitude e como teve sempre a melhor estratégia desde o início neste ano. Neurónio contra neurónio, flashes momentâneos, múltiplas imagens. Sorrisos e lágrimas, numa pedalada forte e intensa.

Andy está no fim da luta contra o tempo e contra o destino. Desde os primeiros dias que olhou para Contador como principal alvo, como inimigo e culpado por não ter ganho nos anos anteriores. Dois segundos lugares não sabem a nada a quem tem ambição. É pouco, é frustrante. Agora, sem Contador na luta, também não deu para outra coisa. Custa ainda mais. Andy começou expectante, perdeu tempo, explodiu rumo ao Galibier, deixou os adversários para trás, assumiu a liderança no Alpe d’Huez, talento puro, ganhou chama, mas o contra-relógio…, não, o contra-relógio ainda precisa de muitas horas de esfoço, de determinação e de prática. Evans não o deixou ganhar tempo precioso nos Alpes e agora roubou-lhe o sorriso. Chega vergado e vencido. I’m back. Com certeza. Para o ano, Andy lá estará à procura de ser feliz.

Cadel Evans tropeçou, correu, pedalou, sonhou, acreditou, voou e ganhou. Teve alma, teve tenacidade, teve vontade, teve sorte e teve o controlo nas mãos. Geriu o tempo, o espaço e o estado de espírito. Enfrentou Andy e ganhou das duas vezes. Duas? Sim, percebe-se agora que no Galibier, no dia da vitória assombrosa de Andy Schleck, também ganhou. Porque teve quatro minutos de atraso, mordeu a língua e perseguiu como nunca, encurtou o espaço e resistiu aos Alpes, mesmo em desvantagem, com tudo controlado para o contra-relógio. Sonhou, deixou-se de contar lugares no pódio ao lado do primeiro e assumiu a liderança. Sentiu a felicidade e a concretização do sonho de uma vida. Era agora ou nunca mais. Congratulations, Mr. Evans. Thanks, Andy, you have a long time.


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