Panenka. Antonín Panenka.

Bola debaixo do braço, olhar descontraído, confiança total. Os outros que estão na bancada roem as unhas, desesperam, puxam pelos cabelos, pelos cigarros, vai tudo à frente. O coração bate, as veias pulsam, o sangue aquece, aquele ritmo está louco, o suor já escorre. Acaba lá com isso, que ansiedade. Está tudo à beira do colapso. Aguenta, coração. Não falhes, vá lá, marca.

Mas não há pressa. Devagar dá para sentir o momento e para entrar no espírito. A sensação é louca, pura diversão. Passo lento, calma, ar de quem já fez aquilo vezes de mais. Olha para o guarda-redes, lança-lhe um sorriso de desprezo, imagina-se como um agente secreto a enfrentar o maior perigo que por aí anda. Ele é Panenka. Antonín Panenka.

Um país inteiro está a pressionar as costas daquele homem. É uma final, não há volta a dar. Antonín pousa a bola, recua e espera que o mandem avançar. Aquele instante dá um calafrio na barriga, junta o pânico com a adrenalina, é uma mistura explosiva carregada de perigo iminente. Inquietude sem fim. Sepp Maier enche a baliza e tem-no marcado.

Soa o apito. É agora. Os checos arregalam os olhos, suspiram e anseiam por um golo. Basta-lhes um remate forte, colocado, longe do guarda-redes e já está. Depois é só festa, só glória, só champanhe. Não é preciso inventar. Mas é nestes momentos que aparecem os loucos. A loucura apetece quando o risco é maior.

Panenka corre, sente um raio de luz sobre si, lembra-se de todos aqueles que escreveram que a loucura é indispensável e faz o que ninguém tinha feito. Pega a bola por baixo, levando-a a subir e cair no meio da baliza. Herr Sepp tomba, olha para o lado, está perto mas é impotente. Não consegue fazer nada. Os checos correm. Ganharam e isso é o que interessa. Mas para Antonín Panenka, jogador mediano, tudo mudou: inventou uma nova forma de marcar penalties, foi mais louco do que todos os outros, desafiou as regras e eternizou-se.

A Checoslováquia ganhou o Europeu de 1976. Antonín Panenka ganhou a História. Quem ganhou mais? Muitos devem dizer que foi o futebol. Porque loucos destes não aparecem todos os dias.

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