Geração Coragem

O português gosta de recordar. Abre a caixinha das medalhas, limpa-lhe o pó com altivez, derrete-se por dentro e deixe que a mente o leve para outros tempos. O orgulho por tudo aquilo é descomunal, a emoção enche-lhe o espírito e a saudade deixa-o tristonho e meio perdido. A saudade é um sentimento estranho: carrega pensamentos diferentes, vontades opostas, tanto pode fazer chorar por nunca mais repetir o que se recorda como inspirar a deixar tudo e lutar por voltar a ter as mesmas sensações.

Só que, lá está, o português tem orgulho no que já tem junto de si. Ganhou, foi o maior e esqueceu-se que os campeões continuam a existir com os anos – mais trabalho para quê? Chegou onde queria e, pronto, missão cumprida. Depois vive da recordação, da saudade e dos pensamentos. Recordar é viver, diz-se por aí. Será mesmo? O orgulho fica para sempre, os feitos também, mas a vontade de ir ainda mais longe, de quebrar todos os limites, pára à primeira conquista. São os serviços mínimos.

Portugal construiu um caminho na formação de jogadores, abriu mundos, catapultou talentos, soube trabalhá-los e ganhou com isso. Em 1989 e 1991, em Riade e em Lisboa, conquistou dois títulos de juniores. Saltou, sorriu e deu graças. Estava no trilho certo, de sucesso. E depois, porque já tinha algo para recordar mais tarde, sossegou. Achou que estava tudo feito, contentou-se com os dois títulos e entrou noutra rota. A formação ficou para trás e caiu das preocupações. Por que não tentar rechear a caixinha?

Actualmente, em 2011, vinte anos depois do último título, Portugal é um dos países que mais jogadores importa, tem um campeonato multinacional, menos de metade são portugueses e a selecção ressente-se. Mas é nestas coisas que o futebol gosta de ser diferente, de pregar partidas e dispensar a lógica. E Portugal, sem ninguém ousar sequer falar nisso, sem estrelas de cartaz mas com jogadores competentes e briosos, chegou à final do Mundial sub-20. Com consistência, com entrega, com solidariedade, com talento e com felicidade. Ílidio Vale montou uma verdadeira equipa, onde Mika, Nuno Reis, Danilo e Nélson Oliveira sobressaíram. Geração Coragem, disse o treinador. E ninguém, por certo, se atreve a discordar.

Portugal chegou à final, outra vez com o Brasil, como há vinte anos, voltou a ter de ir a prolongamento, evitou a agonia das grandes penalidades, mas terminou vergado e vencido pelos brasileiros. Não ganhou o terceiro título: e, então, fica alguma coisa para aproveitar?

Fica, pelo menos, a coragem, a garra e esperança demonstradas para deixar de estar… à rasca. Fica a certeza de que, embora tapado ou encoberto, há potencial para explorar. E que a saudade, essa coisa estranha, realmente pode ser inspiradora rumo ao futuro: dentes cerrados, peito feito e vontade de lutar. Sem ter de ser preciso passar a vida a olhar para a caixinha das recordações…

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