Jorge Baptista: Rússia e Qatar vão corresponder

Foi sem a mínima surpresa que recebi as vitórias da Russia e do Qatar na realização dos próximos Candidatos do Mundo. O poder económico de ambos foi importante mas mais decisivo o facto de Rússia e Qatar proporcionarem o desenvolvimento estrutural e desportivo em duas diferentes regiões, onde o futebol apenas possuía expressão… Neste caso, pode dizer-se que os membros do Comité Executivo da FIFA decidiram juntar o útil ao agradável…Recordo que se fosse apenas pelo poder económico, quando é que Portugal teria organizado um Europeu? Seria bom que aqueles que vêem apenas jogos de bastidores, tráfico de influências e corrupção nos organismos do futebol internacional, olhassem primeiro para a sua própria casa. Estudem a melhor forma de alterar o critério das eleições para a FPF e de evitar as suspeições semanais sobre as arbitragens e os resultagdos dos nossos jogos

(Desse modo, talvez contribuam com algo de inovador para o futebol internacional, em vez de proclamarem aos sete ventos, quais Calimeros, que o nosso futebol é pequenino e sem expressão nos corredores obscuros do futebol internacional. São os mesmos que passam a vida a proclamar a criação de lobbies, como se estes nao fossem meros tráficos de influência.)

A Rússia, como sabemos, é uma potência, com um futebol ainda adormecido, pese embora o dinheiro do petróleo que para lá tantos jogadores têm levado. O efeito de um Mundial e novas e modernas estruturas desportivas podem ajudar no crescimento e desenvolvimento do futebol naquela zona longínqua da Europa. O Qatar, ao contrário do que muitos pensam, é um apaixonado pelo BOM futebol – aliás, como a generalidade dos países do Médio Oriente. Se as suas competições internas têm pouco público, isso deve-se ao escasso talento local e “à falta de motivação”. É isso que não apenas o Qatar mas toda a região pretendem alterar com a realização de um Mundial – que nao tenho dúvidas irá ficar na História. Conheço bem a região e sei que público não vai faltar… Alterar o interesse do público actual e as condições climatéricas, proporcionando o melhor ambiente para grandes espectáculos, vão ser os grandes objectivos.

Muitos, com ironia bacoca, defendem que o objectivo da FIFA passa por ganhar mais dinheiro para o futuro com a entrega dos Mundiais à Russia e ao Qatar. Não será esse e a modernização o objectivo de todo o desenvolvimento? Nao será melhor para todos os apaixonados do futebol que o nível do futebol europeu e de algum futebol sul-americano consiga ser igualado pelo resto do planeta? A não ser que o talento e a competência criem tanto aborrecimento. Em especial, à mediocridade…


Texto de Jorge Baptista, media officer da FIFA, acerca dos próximos Campeonatos do Mundo
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E tudo o Bento mudou – Opinião de Bernardino Barros

Confesso que esperei pelos resultados da selecção para constatar o óbvio: os jogadores não estavam com Carlos Queiroz – os que saíram (Deco, Miguel, Simão, etc.) não estavam de certeza, os que ficaram não estavam também, como facilmente se aferiu das suas “bocas” (Cristiano Ronaldo e Nani) e das que surgem (Pepe e Ronaldo), agora, depois de duas boas vitórias e de exibições que já nos levam a crer que o verdadeiro espírito da selecção está de volta. Escrevi aqui, neste mesmo espaço, tudo o que pensava da “torpe e vil” maneira como correram com Carlos Queiroz, afirmando que a sua saída deveria acontecer aquando do regresso do Mundial e com a decisão a ser tomada por Madaíl.

O problema é que pedir a Madaíl para agir, é muito difícil. Pedir a Madaíll para agir acertadamente é dificílimo e a determinadas horas do dia, é mesmo tarefa impossível. Agora, reconhece, implicitamente, que a escolha de Queiroz foi um erro, ao gabar-se de ter escolhido, bem, Paulo Bento. Vamos ter que levar com ele mais quatro anos. Com o Madaíl claro, que a reeleição já foi cozinhada na viagem à Islândia. Vítor Baía afirmou-o hoje, desassombradamente, como é seu timbre e sobre este assunto, voltarei a ele em breve.

Mudo a agulha para falar da selecção de Paulo Bento e não sou capaz de fugir ao que penso há muito, o seleccionador nacional é um excelente treinador e condutor de homens, pode não ter tido sorte na sua passagem pelo Sporting, mas os atributos que sempre lhe reconheci estão lá. Fazem parte do seu ADN de treinador e para além do mais, usa com mestria a comunicação para dentro e sobretudo para fora. Não mudou muita coisa, nem teve muito tempo para grandes mudanças, mas mudou o essencial: o relacionamento com os jogadores, “novos” jogadores e sobretudo posições certas no campo para os “velhos” jogadores.

Mudanças significativas:
Lateral direito. João Pereira que defende e ataca com rigor táctico ao invés de uma “anarca táctico”, Miguel. Meio campo mais ofensivo. Triângulo formado em 1×2. Um “seis”, Raul Meireles, que sai a jogar, cria desequilíbrios ao subir no terreno, faz lançamentos longos e remata bem. Dois médios laterais ofensivos e com capacidade para defender também (mais João Moutinho do que Carlos Martins). Na era Queiroz, o triângulo do meio-campo actuava em 2×1. Dois médios defensivos, Manuel Fernandes e Raul Meireles e um único mais ofensivo, João Moutinho, mas que defendia também

A diferença reside na mentalidade imposta, os adversários é que se devem preocupar com o nosso poderio e não ao contrário e na maior liberdade, mas responsabilidade também, dada aos jogadores para usarem as suas capacidades técnicas para serem criativos. O resultado de tudo isto originou uma selecção “mandona”, que joga com mais alegria e que sabe reagir a adversidades e contratempos normais de um jogo de futebol, querendo e conseguindo ter sempre os comandos do seu destino, impondo o ritmo ao jogo que lhe convém e fazendo o que nunca tinha feito, circular bola a preceito. Bem-vindo Paulo Bento, mais os seus ventos de mudança, pois agora acredito francamente na qualificação.

Jorge Baptista: "O FC Porto vai ser o próximo campeão"

Sete jornadas cumpridas. Uma pausa de duas semanas: selecção, com uma dupla-jornada de extrema importância frente a Dinamarca e Islândia, logo se seguindo a participação na Taça de Portugal. Vinte e um pontos em disputa. O FC Porto é líder: começou forte, intenso e vivo, colocou o pé no acelerador, fez por passar uma borracha sobre a época passada, recuperando a alegria e a confiança em chegar a um título. Fixou-se no topo. Apenas cedeu, na passada ronda, dois pontos: o Vitória de Guimarães, num jogo quente e que ditou a primeira expulsão de André Villas Boas, um treinador jovem e aguerrido, foi a primeira equipa a consegui-lo. O dragão está na rota certa para reconquistar. Jorge Baptista, em entrevista ao FUTEBOLÊS, é bem claro: “Creio que o FC Porto vai ser o próximo campeão nacional. Tem sido a equipa mais decidida, voluntariosa, determinada e agressiva, o que não significa que esteja a rubricar grandes exibições”, afirma.

Campeão. Com perdas importantes, mas reforçado, estável e não ficando descaracterizado. Partindo na pole-position, sim, contudo com um começo em falso: três derrotas, pior arranque de sempre apenas conseguindo três pontos em doze possíveis, paulatina recuperação e melhoria de resultados. O Benfica tem-se revelado, porém, demasiado intermitente, titubeante, indeciso. Poderá ter sido o mau arranque crucial para a decisão do título, travando a reacção benfiquista e deixando o actual campeão, desde logo, com dificuldades acrescidas? “Parece-me evidente que o mau início do Benfica neste campeonato, as péssimas decisões arbitrais e o arranque fulgurante do FC Porto vão ser determinantes para a conquista do título. O mais curioso, para mim, é que todos estes componentes estão interligados. Aliás,ou estou muito enganado ou o campeonato já está decidido desde a quarta jornada”, responde, sem meios-termos, Jorge Baptista.

Um ponto fulcral: arbitragens. O Benfica queixou-se, deu um murro na mesa após a derrota em Guimarães, tomou uma posição forte e fez correr imensa tinta. Jorge Baptista, assessor de imprensa da FIFA e comentador televisivo, entende que, sendo redutor apontar apenas o dedo aos árbitros como justificação do arranque errante do Benfica, há razões para os benfiquistas levantarem a voz em tom de protesto – “Não serão apenas as arbitragens a explicar tudo o que tem acontecido até ao momento mas que têm ajudado lá nisso não me restam muitas dúvidas. Como sempre, o tempo o confirmará. O problema é que daqui por quatro ou cinco meses já ninguém se recordará do sucedido nas primeiras jornadas”, dispara. De acordo com Jorge Baptista, o campeonato será um duelo entre Benfica e FC Porto. Águias e dragões têm, ao longo dos anos, proporcionado uma constante guerrilha. Nesta época mais do que nunca.

O Sporting não entra, à primeira vista, nesta luta. Para Jorge Baptista, o leão procura a sua identidade. E defende a teoria da bipolaridade: há um em Portugal e outro na Europa. Devido ao menor conhecimento existente entre equipas, quando joga no estrangeiro, “o Sporting tem actuado de forma mais desinibida”. Contudo, quando é conhecida “a bagunça que tem sido a vida do Sporting nos últimos tempos, os adversários nacionais, naturalmente, sabem a melhor forma de tirar partido dessa situação”, afirma. Existem outros erros, sobretudo de cariz técnico, que impedem a afirmação do Sporting – cumprindo a tradição – como um candidato ao título. “Creio que a pouco e pouco, o técnico Paulo Sérgio está a descobrir o melhor caminho. Por exemplo, com o afastamento temporário de Liedson, a integração do jovem Salomão, a titularidade de Postiga e a alternância de Vukcevic. Quer isto dizer que, na minha opinião, Paulo Sérgio começa a conhecer melhor o perfil psicológico dos seus jogadores”, remata.

O Sp.Braga surge, por outro lado, como um outsider. No campeonato, onde concentra verdadeiramente as esperanças de voltar a ser bem-sucedido, tendo como inspiração o segundo lugar conquistado na época anterior, a equipa bracarense tem já um atraso de nove pontos para a liderança do FC Porto. A entrada na Liga dos Campeões, catapultando o clube para uma dimensão gigantesca e que nunca havia experimentado, baralhou o Sp.Braga, fê-lo perder alguma motivação, teve repercussões e colocou o sonho minhoto em xeque. Esperava-se mais, apesar de já se tratar de um feito extraordinário, ou são sintomas naturais de quem está em pleno período de crescimento? “Sempre disse que esta época a exigência seria muito maior devido à participação na Liga dos Campeões e o maior grau de exigência na Liga portuguesa. Os resultados começam a dar-me razão”, assegura Jorge Baptista.

Ainda em relação ao Sp.Braga, que por ser próprio mérito elevou a fasquia e teve de se adaptar a uma nova responsabilidade, Jorge Baptista termina com uma constatação curiosa: “Penso mesmo que o Sp. Braga está desejoso por ser ver afastado da Liga dos Campeões para que a sua concentração regresse na totalidade ao campeonato nacional. Dá-me ideia é que já não vai a tempo. O Sp. Braga mereceu inteiramente a sua qualificação para a Liga dos Campeões mas não creio que estivesse suficientemente amadurecido para enfrentar este desafio. Os custos pagam-no, obviamente, o futebol português em geral”, finaliza. Assim, de acordo com Jorge Baptista, FC Porto e Benfica, com vantagem para o dragão, discutirão o título, enquanto Sporting e Sp.Braga, também com esperanças a sorrir, deverão, antes de mais, reencontrar-se consigo próprios.

Caso Queiroz: Haja decência, demitam-se!

ANÁLISE DE BERNARDINO BARROS AO CASO QUEIROZ

Tenho tido alguma relutância em escrever sobre um tema que é diariamente escalpelizado na informação e contra-informação deste país. Esperava que o bom senso imperasse e os intervenientes chegassem a uma conclusão, estão a fazer uma triste figura. Por mim, há muito que lhes tracei o azimute: demitam-se e livrem-nos de assistir a um circo com tão fracos palhaços.

Facto 1 – Carlos Queiroz usa impropérios dignos de um carroceiro, insurgindo-se contra a realização de um controlo anti-doping em horário que considera impróprio – oito da manhã. Isto ocorreu a 16 de Maio de 2010, na Covilhã, tendo a ordem para se proceder ao inquérito a este caso sido deliberado pelo Despacho nº 55/SEJD/2010 datado de 10 de Julho de 2010 (véspera da final do Campeonato do Mundo).
Perguntas: Dada a natureza grave dos factos – insultos ao presidente da Autoridade Antidopagem de Portuhal (ADoP) -, que foram mencionados no relatório dos médicos intervenientes no controlo, por que foi o caso abafado até à conclusão da prestação portuguesa no Mundial 2010? Por que foi assinado e datado despacho a um sábado (!!!) pelo Secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, cinquenta e cinco dias depois dos incidentes? Se Portugal tivesse prestação mais positiva no Mundial haveria inquérito, ou teríamos mais um processo “abafado a bem da Nação”?

Facto 2 – No relatório elaborado pelos médicos da ADoP foi registado o insulto do seleccionador, descrito como “perturbador”, mas não impediu, como consta também do relatório, a prossecução dos trabalhos de recolha das análises, tendo, inclusive, sido escrito que tudo decorreu dentro da normalidade e sem a presença do seleccionador. No entanto, aconteceu um problema, surgindo uma desconformidade, pois o médico João Marques não registou a densidade urinária da amostra A/B413429 no formulário do controlo antidopagem.
Perguntas: Se no relatório nada consta do impedimento do controlo ou de interferência directa do seleccionador na recolha das análises, por que carga de água se liga a “desconformidade” do médico João Marques ao vernáculo de Carlos Queiroz? Que levou João Marques a olvidar uma obrigação processual na recolha das análises? Por que errou numa “densidade urinária” quando foram realizadas sete análises? Será que o meio para justificar o lapso, que daria uma “não conformidade no currículo do Dr. João Marques”, foi um novo relatório onde a perturbação pelo insulto ao Dr. Luís Horta (ou ao seu familiar), foi o motivo que levou à não conformidade?
Facto 3 – A ADoP, não satisfeita com o castigo dado pelo Conselho de Disciplina (apenas e só foi julgado pelo CD da Federação Portuguesa de Futebol o insulto do seleccionador e nunca a “perturbação de um controlo” que nunca foi registado no relatório dos médicos), decidiu avocar o processo e castigou Carlos Queiroz com seis meses de suspensão, como se lê no seu relatório de 30 de Agosto, aqui transcrito.
Perguntas – A lei permite que a ADoP possa avocar o processo, mas será curial julgar em causa própria? Quando no primeiro relatório nada consta da “perturbação ao controlo” por parte do seleccionador (relatório assinado pelo médico António Batista) e um mês e meio depois, em relatório pedido pelo Instituto do Desporto de Portugal (a 5 de Julho) aparece o dito por não dito, ou seja que o insulto do seleccionador foi o factor directo e decisivo na não conformidade do médico João Marques, será isso “legal e deontologicamente” correcto?
Conclusão: Carlos Queiroz foi malcriado e insolente, utilizando linguagem de carroceiro. Carlos Queiroz já tinha antecedentes de má conduta e de insultos. Carlos Queiroz é competente no planeamento do seu trabalho mas é um mau técnico de banco. Foi um erro a sua contratação por quatro anos (termina em 2012) quando esta Direcção federativa só tinha mais dois anos de mandato (termina em 2011). A prestação da selecção portuguesa tem sido sofrível, com um apuramento em cima da meta, uma prestação mediana no Mundial (uma só vitória frente aos pobres norte-coreanos) e exibições deploráveis. Se a isto juntarmos o que se tem observado nos últimos dias – jogadores a desistirem da selecção, adeptos dissociados do fenómeno selecção e patrões (Federação) a colocarem processos disciplinares ao empregado (seleccionador) – está decretado o fim da linha para Carlos Queiroz. Mas não só, pois o ruidoso silêncio de Gilberto Madail também é comprometedor, assim como a intromissão persecutória do Secretário de Estado do Desporto. Um, Madaíl, acha que o calado é o melhor, o outro, Laurentino, tem a vocação de não se calar quando vê um microfone.

Queiroz deve ser demitido porque não serve os interesses desportivos da Federação? Seja, mas façam-no de modo sério, com recurso ao factor “justa causa” se o houver, através de um acordo financeiro ou então pela indemnização total do seu contrato. Não arranjem “golpes palacianos” ou atitudes dignas da era da Inquisição para se livrarem dele. Já agora podiam fazer um favor algumas figurinhas deste processo: aproveitavam o embalo e saiam também.

Viver na paz podre interessa a quem? Apenas e só a quem se quer perpetuar no poder a qualquer custo e acreditem que há alguns que são piores que lapas!…

A nova época em antevisão – Jorge Baptista

As mesmas questões, um novo olhar, ideias diferentes. A pergunta pertinente de sempre: quem será o novo campeão? Os candidatos, tradicionalmente, são três, os três grandes, se bem que se possa juntar o Sp.Braga, um outsider que procura colar-se de vez ao topo, pelo que realizou na temporada anterior. Jorge Baptista, colaborador da FIFA e comentador desportivo, deixa o grupo mais restrito: Benfica e FC Porto. O campeão em título, mesmo tendo começado mal a temporada, e o clube dominador das últimas épocas, neste ano com uma nova mentalidade procurando atingir o velho objectivo. De Sp.Braga e Sporting, por motivos diferentes, espera-se menos, não entrando na corrida até final, os bracarenses por ainda não terem todas as condições para apostar forte no título e os leões por precisarem, antes de mais, de se renovar internamente. Essa é, pelo menos, a opinião expressa por Jorge Baptista ao FUTEBOLÊS. Para confirmar até Maio.


FUTEBOLÊS: Pela temporada que realizou no ano passado, mesmo tendo perdido três peças importantes, o Benfica mantém-se na
pole-position na corrida ao título ou o início de época com o pé esquerdo baralhou as contas?

JORGE BAPTISTA: Apesar de um mau início e apesar mesmo de algumas ausências, creio que o Benfica continua a ser o principal candidato ao título: praticamente a mesma equipa, a mesma estrutura, o mesmo treinador. Caso assim não suceda terá de ser visto como um rotundo retrocesso e falhanço clamoroso do treinador. Para mim, das saídas, a de Ramires é aquela que mais mossa irá fazer ao Benfica ao longo do campeonato. E este tipo de jogadores nunca têm substituto… A saída de Quim para a contratação do guarda-redes Roberto é um grande mistério. Ou talvez não!

O Sp.Braga é uma equipa diferente. Terá capacidade para se intrometer na luta pela conquista do campeonato?
Não creio. O Sp. Braga fez uma temporada espectacular, tem um treinador que aprecio tecnicamente e uma Direcção inteligente e por isso mesmo considero que vai pelo caminho mais correcto, mas ainda não creio ter chegado o seu verdadeiro timing. Mudou muito da época passada para esta e isso vai pesar, como muito poderá pesar a carreira que fizer nas competições europeias.

O FC Porto, com uma nova cara, poderá voltar a assentar o seu domínio?
O FC Porto conta a seu favor um passado recente de avassalador domínio do futebol português. Teria que cometer inúmeros disparates em muito pouco tempo para deixar de entrar nestas contas finais. Tem cultura de vitória, tem organização, tem talentos em todos os sectores, tem experiência e tem um desígnio à volta da sua bandeira: impor o valor do Norte à custa de uma humilhante derrota do Sul. Apenas um aparte: o novo treinador parece ter-se inebriado demasiado cedo com a vitória na Supertaça.

Crónico candidato ao título, desastrado na época anterior, com novos princípios mas uma estreia amarga: o que se pede ao Sporting?
O que se pede ao Sporting é organização interna. É talvez o clube mais gerido de fora para dentro que existe na modalidade em Portugal, precisamente porque lá dentro, a competência não abunda. E quando está debilitado de resultados ainda mais se nota. Temo que o Sporting esteja a cair cada vez mais num abismo de onde poderá não sair tão cedo. Só por simpatia (e pela sua ainda grandeza histórica no nosso meio futebolístico) continua a ser um crónico candidato ao título.

As contas do título passarão por estas quatro equipas. O que esperar das restantes? Alguma surpresa?
Penso que as contas do título cedo ficarão definidas entre dois candidatos: Benfica e FC Porto. A considerar-se eventualmente um terceiro poder-se-á empurrar o Sp. Braga para a cabeça mas perante a hipótese de se inverter a situação europeia da época passada, é bem possível que o Sporting possa aproveitar para se reposicionar. Isto é, se quiser e…souber.

NOTA: O questionário foi respondido após a primeira jornada mas ainda antes da segunda ronda da Liga ZON Sagres 2010-2011.

A nova época em antevisão – Bernardino Barros

A nova época desportiva em Portugal abriu há pouco mais de uma semana. Começou com a Supertaça Cândido de Oliveira e, logo após, foi dado o pontapé inicial na Liga ZON Sagres 2010-11. Para uma antevisão ao principal campeonato nacional, o objectivo prioritário das equipas portuguesas, o FUTEBOLÊS, à semelhança dos olhares de adeptos dos grandes à nova temporada, colocou cinco perguntas a Bernardino Barros. Sobre o título, para começar. O Benfica abalou com as duas derrotas na abertura da temporada? O Sp.Braga conseguirá voltar a colar-se ao topo? O FC Porto, renovado, voltará a conquistar o campeonato? E o que esperar do Sporting, depois de se ter afundado num mar de pesadelo? Há, para além disso, possíveis surpresas e novas expectativas vindas de equipas menos cotadas. Bom futebol, espectáculos condizentes, intensidade, emoção e luta de igual para igual em todos os jogos, com total desinibição: eis os desejos de qualquer adepto.

FUTEBOLÊS: Pela temporada que realizou no ano passado, mesmo tendo perdido três peças importantes, o Benfica mantém-se na pole-position na corrida ao título ou o início de época com o pé esquerdo baralhou as contas?
BERNARDINO BARROS: A entrada do Benfica na prova não me surpreende, pois cometeu um erro de avaliação na “substituição” de duas peças importantes, Ramires e Di María. O Benfica foi campeão jogando bem e ganhando com aparente facilidade e logicamente “vendeu” mais. Vendeu sucesso, ilusões e jogadores. A base da continuidade no sucesso depende da forma como se colmatam as saídas, e creio que o Benfica não soube posicionar-se no mercado para “substituir” Di Maria. Não sei se ainda irá a tempo de preencher essa vaga (não é nada fácil), mas há que acreditar na capacidade de Jorge Jesus, que tem de demonstrar “jogo de cintura” para adaptar o modo de jogar da equipa de acordo com as características dos seus jogadores. O Benfica tem tudo do seu lado: continuidade do treinador, duas saídas apenas (David Luiz poderá sair?) e a força dos adeptos (apesar dos assobios na primeira jornada) para continuar na primeira linha da corrida ao título. Com o tempo, o Benfica vai entrar na onda das vitórias mas sem o brilhantismo da época passada, até porque já ganhou e há jogadores que não têm enraízado o hábito de querer ganhar sempre.

O Sp.Braga é uma equipa diferente. Terá capacidade para se intrometer na luta pela conquista do campeonato?
O Sp. Braga vem no mesmo seguimento do Benfica. Continuidade do treinador, logo de métodos e princípios, continuidade do núcleo duro do plantel e reforço em qualidade e quantidade do mesmo, sendo por isso uma equipa que poderá fazer o mesmo percurso de sucesso do ano transacto. A acrescer a isto junte-se uma massa associativa cada vez mais perto da equipa (longe vai o tempo em que o presidente António Salvador se queixava da fraca presença de adeptos) e estão reunidos os ingredientes para nova época digna de Guerreiros do Minho. Acredito na capacidade de Domingos Paciência para altos voos e nem mesmo uma possível eliminação da fase de gruois da Champions vai ser motivo de desilusão.

O FC Porto, com uma nova cara, poderá voltar a assentar o seu domínio?
O FC Porto tem novos jogadores e novo técnico, por isso tem que construir de início e com novos métodos. Entrou bem no campeonato e em fase de mudanças entrar a ganhar (e jogar bem) é meio caminho andado para entrar no comboio que o leve ao topo. Urge, no entanto, dar andamento aos dossiês parados (dispensas ou não de Raúl Meireles e Fucile) e encontrar mais um avançado para fazer companhia a Walter e Falcao, além de acertar a compra de um central de qualidade. O resto está lá: vontade de recuperar o título, organização e um treinador com ideias mais frescas e com um futebol mais pressionante e mais ofensivo. É um candidato assumido ao título como denota a sua entrada na competição.

Crónico candidato ao título, desastrado na época anterior, com novos princípios mas uma estreia amarga: o que se pede ao Sporting?
O Sporting começou mal mas não o excluo da candidatura ao título. Falhou muitos golos e em campo difícil teve arte e engenho para os construir, o que ás vezes é o mais difícil. Paulo Sérgio é um técnico jovem, ambicioso e muito exigente. Há que dar tempo aos jogadores para a adaptação a novos métodos e a nova forma de jogar. A falta de liquidez financeira obriga também a que os leões comprem a conta-gotas e disso se pode vir a ressentir a construção rápida de um conjunto forte.

As contas do título passarão por estas quatro equipas. O que esperar das restantes? Alguma surpresa?
Já não há lugar para muitas surpresas no futebol e para além da luta pelo título, onde estarão Benfica, Sp. Braga, FC Porto e Sporting, haverá a habitual luta pelos lugares europeus. Nessa corrida candidatam-se várias equipas por inerência – Vitória de Guimarães, Marítimo e Nacional -, acreditando que pelo que fizeram nesta primeira jornada possamos acrescentar Académica e Olhanense (grande jogo). Não descartar a capacidade que equipas como o Rio Ave e Vitória de Setúbal possam vir a demonstrar ao longo da temporada, pois são treinadas por dois experientes treinadores e o plantel das duas equipas tem qualidade. As restantes equipas lutarão pela manutenção.

Mundial 2010: O fracasso brasileiro visto por dentro

HEXA EM 2014

Primeiro tempo magnífico: lançamento de gênio do meio-campo por Felipe Melo, conclusão perfeita de Robinho. Terminando os primeiros quarenta e cinco minutos, a seleção de Dunga se credencia como a principal favorita para vencer a Copa do Mundo da África. O Brasil passeava em campo, em cima de uma seleção que não perdia desde 2008. Depois, acaba o segundo tempo. Brasil eliminado, treinador burro, Felipe Melo vilão da derrota, time sem criatividade com um atacante firuleiro e pouco objetivo: Robinho. Foram dois jogos dentro de um. Um primeiro tempo onde o Brasil mandou no jogo, fez um gol, mas poderia ter feito três. No segundo tempo a Holanda foi superior e não seria nenhum absurdo se tivesse goleado o time brasileiro.

O clima em Porto Alegre foi de muita decepção após a partida. O povo gaúcho, diferentemente do restante do país, não vibra tanto com a seleção brasileira. No entanto, em 2010 houve uma maior mobilização, motivada em grande parte por ser um gaúcho o comandante do grupo. Além disso, a campanha anti-Dunga do centro do país, serviu como combustível para os gaúchos apoiarem ainda mais o técnico da seleção brasileira. Para boa parte dos gaúchos, no entanto, a tristeza durou aproximadamente três horas, quando Loco Abreu cobrou o último pênalti do Uruguai na vitória heróica dos vizinhos sobre a seleção da Gana. Os gaúchos voltaram a ter uma equipe para torcer.

A frustração da derrota na Copa da África foi diferente da última eliminação em 2006, quando o Brasil foi eliminado também nas quartas de final. Nesta Copa, embora grande parte da imprensa afirmasse que a seleção de Dunga tinha uma morte anunciada, pouca gente realmente acreditava na derrota brasileira, ainda mais depois do primeiro tempo da partida contra a Holanda. Ficou a sensação de que o Brasil poderia ter ido mais longe. Na Alemanha em 2006, por exemplo, foi unanimidade que o Brasil não merecia a classificação.

Voltando ao jogo contra a Holanda, excetuando alguns poucos jornalistas, a imprensa tratou a eliminação brasileira como um fracasso. As críticas que Dunga recebeu quando saiu do Brasil foram atenuadas durante a Copa e voltaram em dobro após o jogo contra a Holanda. A falta de jogadores diferenciados e a opção por jogadores em má fase em seus clubes foram as principais contestações, além das restrições ao trabalho da imprensa durante os treinamentos na África.

Realmente faltou talento no time. Alguns jogadores estavam em má fase, mas mesmo assim, o Brasil tinha plenas condições de trazer o hexacampeonato. A última Copa foi um claro exemplo de que um time bem organizado e com disciplina tática vale mais do que individualidades. A Itália de 2006 não tinha nenhum Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo ou Adriano e foi campeã, enquanto o Brasil caiu fora para a França de Henry e Zidane. Não foi por ter deixado de levar Ganso ou Neimar que o Brasil perdeu. A Copa do Mundo é um torneio diferente. Não é um campeonato em que há tempo de se recuperar de um erro. A partir das oitavas de final, a eliminatória é decidida em um jogo e uma falha é fatal, não pode acontecer. Um momento de desatenção ou desequilíbrio não dá chance de recuperação. Foi o que aconteceu com o Brasil.

Nessa partida, a Holanda voltou melhor no segundo tempo, mas não ameaçou o gol brasileiro, até que em um cruzamento despretencioso o goleiro Júlio César, que tantas vezes salvou o Brasil, cometeu uma falha grave e a bola entrou. Muitos atribuíram o erro a Felipe Melo, mas o erro foi do goleiro. Felipe Melo estava na bola quando Júlio César veio por cima, deslocando o volante brasileiro; por isso, a cabeçada saiu para trás. Pela imagem da televisão, nota-se que o goleiro grita “Minha!”, só que em uma hora daquelas o jogador não sai da bola para o goleiro agarrar se ele sabe que está na bola. O erro foi de Júlio César e o gol abalou o time. O segundo gol da Holanda veio ao natural.

Não foi apenas no gol que Felipe Melo se fez presente. Faz tempo que toda opinião pública alerta para o temperamento do jogador. Ainda assim, ele deu razão a todos que o criticavam. Felipe Melo não tem condições psicológicas de jogar em um grande clube, o que dizer na seleção mais vencedora do mundo. Apostar nesse jogador, apesar de sua terrível fase na Juventus, foi o maior erro de Dunga. Errou ao apostar em Felipe Melo e também ao não contar com um jogador de talento como Ronaldinho ou Ganso. Só que neste erro ele não está sozinho. O planejamento no ano da Copa foi equivocado. O último amistoso antes da convocação foi no início de março. Dunga não queria convocar jogadores que não haviam estado na seleção, por isso, deveria ter sido feito algum amistoso mais perto do dia da convocação, para exatamente testar jogadores que estavam atuando no Brasil e em destaque nos seus clubes.

Para a Copa de 2014 deve ser feita uma reformulação no elenco, já que a maioria dos jogadores desta seleção tem mais de trinta anos. A saída de Dunga está certa, pois jogando em casa não podemos ter um técnico com tanta reprovação por parte da torcida. O Brasil tem uma safra de jogadores de muito talento que devem chegar ao auge em 2014, como Ganso, Neimar, Mário Fernandes, etc. O planejamento deve ser bem pensado, pois, sendo o anfitrião, o Brasil não terá as eliminatórias sul-americanas como parâmetro.

Texto de Uriel Garber, sobre a participação do escrete no Mundial 2010