Bernardino Barros e os sete ofícios – Parte I



Bernardino Barros é um dos mais conceituados comentadores de futebol. Decidiu cedo ser jornalista, jornalista desportivo, a grande paixão. Experimentou de tudo, desde jornais, televisões e rádios. Actualmente está na Renascença, desde 2004. Diz que não se importa que falem mal dele pois aquilo que quer é que falem. Tal como num relato, não há tempo para descanso. É sempre em parada & resposta.

“NÃO ME VEJO SEM FAZER RÁDIO”



FUTEBOLÊS: O Bernardino começou cedo no jornalismo desportivo. O que o levou?

BERNARDINO BARROS: Primeiro porque o desporto sempre foi a minha paixão. Todo o desporto, futebol, ténis, basquetebol, etc. Depois porque queria viver as incidências desses desportos por dentro e não só como mero espectador. Finalmente porque o gosto pela escrita era, e ainda é, muita, optei por escrever as emoções de quem vivia de perto os acontecimentos desportivos. Comecei no bissemanário Norte Desportivo, dirigido por Alves Teixeira, a fazer jogos de juniores e juvenis. Depois passei para o Comércio do Porto, onde fazia preferencialmente a página dedicada ao basquetebol, o meu desporto preferido, futebol e ténis.


F: Quais as referências?

BB: Os que marcaram a minha infância. Na escrita, Amadeu José de Freitas, Vítor Santos, Carlos Pinhão, Manuel Dias e Aurélio Márcio. Na rádio, António Pedro, Justiniano Vargues, David Borges, Ribeiro Cristóvão, José Barroso e o meu saudoso Jorge Perestrelo. Hoje as referências são outras.


F: Passou por jornais, televisões e rádios. Tem preferência por algum?

BB: Gosto e gostei de trabalhar em todas essas áreas, mas a paixão é, e será sempre, a rádio. Não me vejo sem fazer rádio. É diferente de tudo. É intimista, ninguém nos conhece, só reconhecem a voz. Obriga-nos ao improviso e não há como emendar os erros, ou falhanços. Obriga a uma grande concentração. Como costumo dizer “a rádio em directo obriga-nos e ensina-nos a trabalhar no arame sem rede”.


F: Actualmente está na Renascença. Como chegou lá?

BB: Depois de 14 anos na TSF e desiludido com o rumo que a rádio tomava na altura em que resolvi mudar (2004), essa minha intenção chegou aos ouvidos do Pedro Azevedo. Como precisavam de um comentador no norte do país, e depois de saber se eu estava receptivo a um convite para mudar, e perante a minha confirmação, falou com o Ribeiro Cristóvão, que me convidou pessoalmente. Entrei em Março de 2004 e cá me mantenho com toda a energia, fazendo parte de uma das mais prestigiadas equipas desportivas do país, integrando uma rádio de referência.


F: Habitualmente tem comentários bem dispostos, sobretudo, quando acompanhado de Pedro Sousa no relato. Acha que fazem a dupla ideal?

BB: Não há duplas ideais. Gosto muito de trabalhar com os dois Pedros. Pela particularidade do Pedro Sousa ser mais aberto na forma como relata, proporciona-se que possa ser mais aberto na forma como comento, mas não me parece que seja assim tão sorumbático na forma como trabalho em equipa com o Pedro Azevedo. São dois estilos diferentes, com os quais caso bem.


F: Até porque trabalha mais com Pedro Azevedo.

BB: O hábito de trabalhar com o Pedro Azevedo, faz com que haja uma grande cumplicidade entre nós, sabendo quando entramos na respiração um do outro, quando as pausas são necessárias, e sobretudo como lemos o jogo nas suas mais variadas vertentes. Como diz o ditado “o hábito faz o monge” e o nosso hábito é muito maior. Acima de tudo são dois excelentes profissionais, dois excelentes amigos e para mim os melhores relatadores em actividade em Portugal.

(CONTINUA)

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Bernardino Barros e os sete ofícios – Parte II

(CONTINUAÇÃO PARADA & RESPOSTA COM BERNARDINO BARROS)

“NÃO IMPORTA SE FALAM BEM OU MAL, IMPORTA QUE FALEM”


F: Fala-se bastante das tendências clubísticas dos jornalistas desportivos. Sendo adepto do FC Porto, acha que isso lhe coloca um certo rótulo de parcialidade?

BB: Infelizmente em Portugal não se gosta de desporto, gosta-se dos clubes, e por isso, quem assume a sua inclinação por alguma cor, tem problemas. Se calhar é por isso que a maior parte dos relatadores e comentadores prefere negar o seu clubismo, dizendo que são da Académica ou de qualquer clube da sua terra ou bairro. Só que na escola escolhemos um clube e ele fica para sempre.


F: O que faz, então, para ser um comentador imparcial?

BB: A imparcialidade não existe. Não conheço ninguém que dê a sua opinião e que seja imparcial. Seja comentador desportivo, analista político, teatral, televisivo, etc. No que me diz respeito procuro sempre ser o mais objectivo possível, tendo opinião, mas não adulterando o que estou a ver, não induzindo em erro o espectador ou o ouvinte. O que vemos é para contar. A forma como analisamos um jogo e o contamos ao ouvinte tem que ser a verdade, doa ela a quem doer. É análise feita no momento, dai o tal risco da rádio que falava há pouco. Os comentadores televisivos vêem o lance repetitivamente e de vários ângulos. Os da escrita socorrem-se da opinião dos colegas da redacção que seguem o jogo pela televisão. Não me incomoda o rótulo que me é colocado, interessa-me a minha auto-análise e auto-critica, e sobretudo a que é feita pelos que comigo trabalham e em mim acreditam. Não os quero defraudar nunca. A minha máxima é, e será sempre, “não me incomoda que falem bem ou mal de mim, interessa-me é que falem”.

F: Esteve no Euro 2004 e na final da Liga dos Campeões ganha pelo FC Porto. Foram esses os melhores momentos da carreira para já?
BB:
O Euro 2004, o Mundial da Alemanha, a final da Liga dos Campeões e da Taça UEFA com o FC Porto, a final da Taça UEFA com o Sporting em Alvalade, os mundiais de Hóquei em Patins, O mundial do futebol de Juniores em Lisboa. São tantos e variados que é difícil escolher um. Felizmente que os vivi, e espero viver mais uns tantos.

F: E piores?

BB: As mortes em directo do Pavão e do Féher.

F: Diz também que o jornalismo desportivo atravessa uma espécie de crise. É verdade?

BB: Claro que sim, é só olhar á nossa volta e ver os órgãos de comunicação que fecham ou fecharam e mandaram para o desemprego tantos jornalistas. Ainda agora um dos potentados da comunicação social, resolver “despedir” centenas de jornalistas, quando na festa de Final de Ano, os patrões davam os parabéns aos trabalhadores pela subida em numero de vendas. O que mudou de Dezembro até Fevereiro?

F: Como se verifica isso?

BB: Pelo monopólio da comunicação social estar em três ou quatro grandes grupos. Como são os “patrões” de vários títulos, escrita e falada, obrigam os trabalhadores a “sinergias” ilegais. Se fui contratado para a rádio, porque carga de água sou abrigado a fazer a crónica do mesmo jogo para o jornal do grupo? Ou vice-versa? Só que quem não faz vai embora, e como infelizmente os “recibos verdes” vieram para ficar, a impunidade é total. Como diz o ditado “manda quem pode, obedece quem deve” e como o mercado de trabalho está nas mãos de uns poucos, é “comer e calar”. Culpa teve quem permitiu o e legislou a concentração dos media em tão poucos grupos. Os tubarões não deixam comer os pequenos, só que mais tarde ou mais cedo, morrem, ou por serem caçados ou por enfartamento.

F: Além de todo o trabalho, participa também com crónicas em blogues como o FUTEBOLÊS. Por que o faz e como concilia tudo isso?

BB: Da mesma forma e pelo mesmo motivo que aceito convites para moderar colóquios ou debates. Porque gosto de participar e estar envolvido no desporto, e porque ainda há quem goste de nós, por isso enquanto puder, responderei sim a esses convites, desde que tenha tempo para isso. Foi assim que aceitei o teu amável convite para colaborar neste teu espaço.


Jorge Coroado, o árbitro e comentador – Parte I

Foi um dos mais famosos árbitros portugueses e está longe de ser um nome consensual entre os adeptos de futebol: uns gostam, outros odeiam. Mas ninguém lhe fica indiferente. Actualmente é comentador de arbitragem. Segue as suas convicções e critica quem tem de criticar. Já sabem quem é? Jorge Coroado, claro. No FUTEBOLÊS, sem apitos ou cartões mas sempre em parada & resposta.

“NUNCA TIVE RECEIO DE TOMAR DECISÕES”

FUTEBOLÊS: O Jorge Coroado foi um dos mais conceituados árbitros portugueses. Como entrou na arbitragem?
JORGE COROADO:
Praticava atletismo no Belenenses, clube do qual sou sócio e, no presente, vice-presidente da Mesa da Assembleia-Geral. Porque não detinha marcas relevantes (era concursista – peso e martelo) e sempre que no Estádio do Restelo assistia a um jogo ouvia as contestações aos árbitros, algo repetido na segunda-feira no estabelecimento de barbearia que existia no prédio onde habitava, ao ler no jornal A Bola estar aberto curso de candidatos a árbitros da AF Lisboa, para melhor poder discutir (sempre gostei falar das coisas com conhecimento de causa), inscrevi-me.

F: Quais foram os momentos mais marcantes da carreira? Aquele célebre lance em que expulsou Caniggia num Benfica-Sporting ficou para a história…
JC: É verdade! A nível interno o lance que envolveu o Caniggia foi marcante como, para quem como eu esteve por dentro do processo, foi exemplificativo do modo como funciona o futebol e a sociedade portuguesa em geral. Foi, também, marcante a frase por mim expressa após um Chaves-Sporting: “Estou com uma grande azia”, expressão que utilizei para demonstrar a minha insatisfação pelo desempenho na noite anterior e por verificar a parcialidade da generalidade da comunicação social que apenas referia dois ou três lances desfavoráveis ao Sporting e nenhum, apesar de ter acontecido, em prejuízo do Chaves.

F: Ficou desiludido por não estar presente em nenhum Mundial nem Europeu?
JC: Por incrível que pareça, ou por menos séria que resposta possa ser entendida, apenas alimentei esperanças em estar presente no Mundial de 1994. Como isso não sucedeu e os contornos da situação foram por mim percebidos e entendidos, de imediato regressei ao meu sincero e sentido desejo: terminar como terminei, no Estádio Nacional arbitrando a final da Taça de Portugal.

F: A arbitragem está também em foco devido a tentativas de influenciar resultados. O Apito Dourado surpreendeu-o?
JC: O processo Apito Dourado não me surpreendeu, surpreendeu-me sim, a metodologia utilizada.

F: Nos seus tempos de árbitro, nunca foi pressionado para beneficiar determinada equipa?
JC: Objectivamente só uma vez tal aconteceu e, curiosamente, em divisão distrital. A nível nacional, enquanto árbitro de segunda categoria, quando pela primeira vez me dirigi ao Norte para arbitrar um Valonguense-Lixa (Páscoa de 1985) a minha mãe, na casa da qual habitava recebeu um telefonema questionando-a se seria eu o árbitro. Nada mais se passou em vinte e cinco anos de carreira

F: Alguma vez teve receio de tomar decisões?
JC: Sinceramente… não!!

F. Diz-se que os árbitros têm sempre tendência a beneficiar os grandes, nomeadamente, quando jogam em casa. Enquanto árbitro sentiu isso?
JC: Responder a esta pergunta fazendo juízo sobre mim próprio é algo ingrato, porém, sempre posso dizer que entre a classe, de forma surda e não declarada, era tido como o “Robin dos Bosques” por não dar importância aos grandes. Sobre o que outros fazem basta estarmos atentos ao que semanalmente acontece, à atitude que os árbitros evidenciam perante jogadores dos três principais emblemas. Recentemente, no jogo do Belenenses com o Sporting, um jogador do Belenenses ficou no solo a contorcer-se com dores, o árbitro que fez? Interrompeu e mandou entrar a equipa médica. Posteriormente um do Sporting demonstrou queixas semelhantes, que fez o árbitro? Colocou-lhe a mão na cabeça, falou tranquilamente com ele, deu-lhe a mão para o ajudar a levantar.

F. Algum caso concreto?
JC: No meu tempo, um belo dia, um árbitro de então que tinha sido promovido pouco tempo antes a internacional, foi ao estádio das Antas arbitrar um FC Porto-Benfica. Aos 20 minutos da primeira parte, João Pinto, capitão do FC Porto, deu uma arrochada num adversário que justificava cartão vermelho. O tal árbitro limitou-se a assinalar a falta e nada mais. Na semana seguinte, no hotel onde ficávamos quando dirigíamos jogos na zona norte, encontrei-o e questionei-o porque não havia exibido cartão vermelho. Respondeu-me: “Tás maluco? No Estádio das Antas, aos 20′, mostrar cartão encarnado ao capitão da casa?”.

F: E tendo o Jorge como protagonista?
JC:
Recordo uma outra situação por mim vivida: quando terminei a minha carreira, a convite do Conselho de Arbitragem da FPF, durante algum tempo acompanhei as equipas de arbitragem estrangeiras que vinham a Portugal arbitrar jogos das competições internacionais. Um dia, Rui Jorge, antigo defesa esquerdo da Selecção Nacional disse-me: “Você era f…, não dava abébias mas nós sabíamos com quem contávamos pois era-lhe indiferente sermos do FC Porto, do Sporting ou de outro qualquer”; aliás, posso contar um outro episódio constante do meu livro como o anteriormente referido, uma vez em Braga, em jogo para a Supertaça, no último minuto assinalei grande penalidade contra o FC Porto. Na cabina, depois de terminada a partida, o presidente da equipa da Invicta disse-me: “Só você seria capaz de assinalar uma grande penalidade contra o FCP no último minuto mas também o faria contra qualquer outro clube!”.

(CONTINUA)

Jorge Coroado, o árbitro e comentador – Parte II

(CONTINUAÇÃO PARADA & RESPOSTA COM JORGE COROADO)

“MAIS COMPETÊNCIA E MENOS DINHEIRO PARA DIMINUIR OS ERROS”

F: Falando agora como comentador, considera que actualmente a arbitragem portuguesa está melhor?
JC: Não! Beneficia da restrita regulamentação que foi sendo elaborada e da menor agressividade, garra e determinação dos jogadores. A generalidades dos clubes perdeu aquilo a que se chama mística.

F: A verdade é que cada vez mais se fala dos árbitros e dos sucessivos erros. O que está mal?
JC: Fala-se muito dos árbitros e dos erros porque cada vez mais a cobertura mediática a isso obriga e a monocultura desportiva da população portuguesa, associada à impreparação da sociedade para discutir outros assuntos conduz à exploração do filão.

F: Acredita que Portugal voltará a estar bem representado de árbitros na UEFA?
JC: Depende como se interpreta “bem representado”. Se for pela qualidade, integridade, equidistância e preocupação em apenas arbitrar um jogo de futebol dentro das regras, não acredito que algum dia tal suceda. Se entendermos “bem representado” como alguém que saiba “movimentar-se”, “insinuar-se”, apaparicar poderes instituídos, subjugar-se aos interesses dos países dominantes, há, inquestionavelmente e há semelhança de tempos recentes quem o saiba fazer muito bem e assim atingir um patamar de relativa consideração.

F: Seja como for, Olegário Benquerença e Pedro Proença são dois dos árbitros portugueses mais conceituados na Europa. Qual a razão para muitas vezes existirem melhores arbitragens fora de portas do que em Portugal?
JC: Digamos antes que são os dois árbitros que neste momento melhor conceito desfrutam, apesar de Portugal possuir nove elementos com insígnias da FIFA. Os restantes sete servem para colmatar “buracos” e aqueles dois chegam até aos oitavos de final e ficam por aí. Os desempenhos ditos melhor conseguidos além fronteiras devem-se, sobretudo, ao nível de atenção e concentração dos árbitros. Um jogo mal conseguido pode determinar o fim do sonho. Internamente, porque a classificação se faz com base na média do efectuado durante a temporada, a descontracção é sempre maior. Além disso, as regras e rigores internacionais exigem muito mais das equipas intervenientes e dos jogadores. Não nos esqueçamos que um jogador, nas competições internacionais, ao segundo amarelo fica fora do próximo encontro, por cá é ao quinto. Refiro isto como pequeno exemplo.

F: Qual seria a melhor solução para resolver esse problema dos erros? Bolas com chip, mais assistentes?
JC: Em minha opinião a solução seria mais competência e menos dinheiro. É histórico e ancestral, desde que o vil metal passou a impor vontades, seja em que actividade for, de imediato se perderam referências éticas, sociais, culturais e, sobretudo de honra.

F: Qual é o melhor árbitro português?
JC: No presente é o Jorge Sousa.

F: Também enquanto comentador não é uma figura consensual.
JC: Naturalmente que não. Não tenho essa veleidade muito simplesmente porque ao comentar recordo inúmeras vezes erros por mim cometidos.

F: Além do mais é também membro da AG do Belenenses, como já referiu. Como concilia tudo isso?
JC: Quem corre por gosto não cansa! Antes de ser comentador e vice Presidente da Mesa da Assembleia Geral de “Os Belenenses”, sou profissional bancário. Procuro corresponder com a maior das dedicações e do melhor modo que sei. É verdade que exige muito, principalmente o cargo de de dirigente no clube por causa da incompreensão e facciosismo doentio de uns quantos mas, para quem foi árbitro durante tanto tempo, tenho poder de encaixe suficiente para compreender determinadas expressões reveladoras da impreparação social do nosso povo.

António Boronha: o dirigente e o blogger

António Boronha é um nome bem conhecido do futebol português. Começou por ser dirigente do Farense, o seu clube de sempre, mas ficou conhecido na Federação Portuguesa de Futebol, onde foi vice-presidente de Gilberto Madaíl. Em 2002, na fase pós-Mundial demitiu-se. Afastou-se do futebol e passou, então, a escrever num blogue (antonio boronha). Com grande sucesso.

“HOUVE MÁ LIDERANÇA NA COREIA”


FUTEBOLÊS: Foi durante largos anos dirigente desportivo, primeiro no Farense e depois na Federação Portuguesa de Futebol. Que recordações guarda desse tempo?

ANTÓNIO BORONHA: As melhores e as piores nos dois lados. No Farense, as grandes alegrias desportivas – entre as quais saliento a participação nas final e finalíssima da Taça de Portugal, em Junho de 90 – que nunca tive muito tempo para saborear devido às permanentes dificuldades financeiras; na Federação vivi o mandato de ouro em termos desportivos: campeão da europa de júniores em 1999, idem de juvenis em 2000, 3º lugar no Euro 2000 em AA e idêntica classificação no Mundial de futsal, disputado na Guatemala; pela negativa, excluídos os meus dois colegas de área, o Augusto Oliveira e o falecido Carlos Silva, as faltas de qualidade e de carácter dos ‘pares’ que comigo se sentavam à mesa da direcção da FPF.

F: Destacou-se como ‘vice’ da FPF e saiu após o Mundial 2002. Por que o fez?

AB: Sobretudo pelo que disse na resposta anterior. No final do mandato senti-me rodeado de ‘macaquinhos’ mais preocupados em mostrar as ‘habilidades’ ao chefe do que em tratar dos muitos problemas do futebol português.

F: Esse Mundial foi catastrófico para Portugal. Passou sempre uma imagem de desorganização e de falta de liderança. Concorda?
AB: Concordo que essa foi a imagem que passou para o exterior. Mais do que falta de liderança houve má liderança. Primeiro, e desde logo a partir do início do ano de 2002, má por ausente e desatenta da parte do seleccionador António Oliveira, depois nossa, de Madaíl e minha, no plano institucional por não termos sabido resolvê-la a tempo. Acrescente-se que no plano dos convocados a maior parte estava fisicamente de ‘gatas’, tendo sido o trabalho de recuperação feito, nulo.


F: Houve quem fizesse uma comparação com o ‘caso Saltillo’, no México em 1986. Acha o mesmo?

AB: O único elemento comum que vejo entre as duas situações é Amândio de Carvalho que nos dois casos mais não terá feito do que aquilo em que é especialista: dizer que sim à mão que lhe dá de comer. No resto penso que não. Em 86, no México, houve muito amadorismo e pouco dinheiro; na Coreia, julgo que se passou o contrário: muito dinheiro posto à disposição de maus profissionais.

F: Não saiu a bem. Sente-se desiludido?
AB: Desiludido não. Saí porque quis. Muito magoado com os defeitos de carácter das pessoas? Sim!

F: Pouco depois de se ter demitido apresentou o ‘Relatório Boronha’. Fê-lo para que os portugueses percebessem melhor o fracasso da Selecção?

AB: Primeiro fi-lo porque era essa a minha obrigação; depois porque quis dizer aos meus ‘colegas’ da altura que não papava ‘grupos’! Muito menos o ‘grupo’ do senhor presidente.

F: O que é certo é que nunca mais voltou ao futebol. Arrepende-se disso?
AB: Voltei, voltei! Basta ver que tenho o blogue mais lido em Portugal, maioritariamente com ‘entradas’ sobre futebol. Não o jogado no campo, que para isso está o Luís Freitas Lobo, o Bruno Prata e o Tadeia, mas o ‘outro’, o que explica muitas vezes o que se joga dentro das quatro linhas.

F: Pode-se dizer que conhece o futebol português por dentro?
AB: E por fora!

F: Tem actualmente um dos blogues mais consultados a nível nacional onde debate temas do dia-a-dia futebolístico e onde conta algumas das suas memórias. O que o atraiu na blogosfera?
AB: Entrei na blogosfera, como simples consumidor, no inverno de 2002. Comecei a aperceber-me que eram tão ou mais interessantes, oportunas e acutilantes, as opiniões que aí podiam ser lidas sobre os preparativos da ‘guerra do Iraque’ ou da ida do Durão Barroso para Bruxelas, do que as reproduzidas, sem ‘sal’ nem o tempero da independência, nos jornais. Depois, depois…seguiu-se o passo natural: montei a minha própria banca de opinião.

RÁPIDAS:

Farense: A grande e única paixão.
FPF: A história da pulhice humana sem o traço do imortal José Vilhena.
Gilberto Madaíl: O pulha-mor.
António Oliveira: Um homem que me encantou como poucos, como jogador, e desencantou como nenhum, como seleccionador nacional.
Scolari: Visto de longe, um excelente fabricante de grupos coesos mas um técnico intuitivo mas técnica e teoricamente pouco dotado.
Carlos Queiroz: Um técnico, técnica e teoricamente muito habilitado, intuitivamente pouco dotado, parecendo ter dificuldades em fazer da Selecção um grupo forte e coeso.