Opinião: A sombra do que fomos

Inamovível país da memória. Incorruptível como um seio de Santa Teresa ou um filme de Roger Vadim.


Três homens, uma mesa e uma garrafa. Uns aperitivos pelo meio. Sentam-se, conversam e relembram o passado. Os olhos brilham, enchem-se de água, tudo ali é saudade. Já passaram os sessenta mas as recordações estão lá, vivas, eternas e melancólicas. A nostalgia invade-os, toma-lhes a alma e fá-los sonhar. Estão noutra. Metade da idade, o dobro da força, o triplo da energia. Recordam o que os fazia viver.
Porra, como estamos velhos. Voltaram a juntar-se. Como antes. Há muito que não o faziam. Comem, bebem, conversam e revivem. Do que fizeram, do que mudou, de tudo. Diz um deles: e o nosso Sporting? Os outros não respondem. E o nosso Sporting? Olhares cruzados, ombros encolhidos, sobrancelhas franzidas. Bem, lá está…

O Jordão, pá, o Jordão é que era um artista, ele e o Manel, o de Sarilhos, o grande Manel. Ali há entusiasmo, há muitas memórias, há muito orgulho naquelas palavras e naqueles tempos de ontem. Há amor a uma causa. A voz sobe, os gestos tornam-se mais rápidos, as palavras saem com facilidade e as imagens não podiam ser mais nítidas. Então, pá, não estão a ouvir? Não se lembram daquelas tardes no velhinho José de Alvalade? Eles ouvem. E recordam. Sabem do que se fala e têm muito a dizer. Por que não o fazem? Por que preferem olhar para o chão? Não têm o mesmo espírito nem a mesma garra. São mais comedidos e quase se desligaram da actualidade. Sabes, actualmente, não temos tido muitas razões de festa

Aquele genica acalma. Leva um certo tempo até interiorizar as palavras. Não é daquelas coisas que entram a cem e saem a duzentos. Não, é diferente. Estas fizeram eco, ficaram e propagaram-se. Pois, realmente, não há razões de festa para os sportinguistas, o presente não tem sido lá muito bom, é verdade, mas não faz mal que três amigos recordem os tempos bons que passaram. Somos a sombra do que fomos, diz-lhe um. É precisamente por isso que não querem aquele assunto. Há outros, outras recordações. Sim, mas podemos sempre voltar a acreditar no nosso Sporting, não? E outra vez sim, porque, olhando bem para a coisa, é possível. Precisam de acreditar. Bebem um copo, apoiam-se sobre a mesa e desenrolam a fita. Agora estão os três na mesma onda, com um sorriso. Bons tempos viveram.

Os sportinguistas sentem que o seu Sporting está adormecido. Precisam de olhar para trás, de puxar pela memória e gastar energias, para se orgulharem do clube que escolheram e se manterem ligados a ele de coração. Recordam. Porque, diz-se por aí, recordar é viver. Os últimos tempos foram maus de mais, com dureza desmedida, capazes de fracturar qualquer alma e qualquer amor pelo clube. Pá, até estive quase a deixar de pagar as quotas, mas depois... Mas depois não o fez. Porquê? Não deve ter sido do pena. Foi porque apesar de todos os problemas, daquela confusão toda, continuou a sobrar um fiozinho de esperança. Pequeno, sim, mas não desapareceu. Estava à espera de um motivo para ressurgir.

Três homens de sessenta anos estão ultrapassados para ir para o relvado, pôr as recordações em prática e levar tudo à frente. Por isso, têm de confiar em quem os representa. Há bons jogadores, aqueles tipos novos têm contratado bem. A fé parece ter voltado a Alvalade. Um novo presidente, um novo rumo no futebol, um treinador mobilizador e um plantel renovado. Tudo isso junto para voltar a haver alma, garra, vontade e muito querer. As páginas negras mancharam mas não apagaram os registos do passado. Há quem os recorde e os queira ver aplicados no presente. Se o gosto pelo clube se manteve, se as quotas continuaram pagas, nada melhor do que acreditar que, agora sim, será melhor. Pode não dar para chegar ao céu mas, ao menos, que dê para honrar o nome e a camisola. Para que o Sporting renasça. Vamos a Alvalade hoje, pá?

Opinião: A necessidade de viajar para a Europa

Para viajar basta existir.

Vem, bandido, vem sambando pra ficar com a bichinha. Futebol de rua, ritmado pelo samba, dois pés trocados, fintas, jogo total e divertimento puro. Gozo máximo. A vitória está na habilidade, na forma como a bola é tratada. Eh, mané, você tá sendo humilhado. Todos se divertem. Naquele campo improvisado, naquelas linhas feitas com areia, naquele pó que sobe depois de cada passo, o talento espalha-se, toma conta de tudo, não há cadeados nem tácticas. A essência do futebol, o sonho de um dia poder aplicar aquele dom, aquela vontade, tantos diamantes em bruto. Sem rédeas. Libertinos e rebeldes. Cara, mamãe tá chamando pra jantar. No outro dia há mais. À mesma hora.

O Brasil sempre foi uma mina de ouro. Talento, arte, técnica, os melhores habilidosos do planeta, os jogadores mais entusiasmantes. Têm ritmo, sabem o que fazer à bola, tratam-na como amiga, são melhores que os outros. Só que aquele futebol de rua, sem regras ou amarras, começa a saber a pouco. O talento é demasiado para jogar entre amigos, para ganhar umas apostas com os irmãos de sempre. Abre-se a porta: Europa. Mamãe, tchau, vou lá pra Europa, quero o meu sonho. É uma espécie de El Dorado. Agora é preciso aprender regras, aprender posicionamentos, aprender táctica, aprender como se joga. Agora há amarras e o samba não chega. Na Europa joga-se à Paolo Rossi, seu Telê sabe…

Muitos não se adaptam. Droga, cara, como é possível? Têm talento mas nunca deixam o estado bruto. Não limam arestas, não assimilam a forma de jogar e perdem-se. O talento, aquele perfume das ruas, continua lá. Pegam na bola, levantam-na, passam-na para trás da orelha, baixam-na pelo pescoço e voltam a colar-se no pé. Delicia pela facilidade e pela arte. Aquilo, sim, é verdadeira arte, que pena não puder ser totalmente aplicada. Mas há quem consiga. Mamãe, como diz seu Vinicíus de Moraes, por mais longa que seja a caminhada o mais importante é dar o primeiro passo. Por isso há que acreditar, que sonhar, que ousar e que procurar um lugar. Ronaldo, Rivaldo, Romário, Ronaldinho conseguiram depois de Yeso Amalfi ter sido o primeiro a correr Mundo. Por que não eu?, pensa Neymar.

Os brasileiros sentem falta do futebol de outros tempos. Da magia que dava títulos. Do deslumbramento aliado às conquistas. Agora está diferente. Mudou e não é possível jogar como antes. Querem a todo o custo voltar a ter um jogador entre os melhores do Mundo, alguém que supere Messi e Ronaldo, o Cristiano, alguém que prove que o espectáculo, os dribles, a pureza da técnica é a verdadeira essência do futebol e é uma boa forma de lucrar. Apostam tudo em Nylmar. Um menino que saiu das ruas, que leva todo esse génio nos pés, que finta como poucos, é um alvo apetecível. Só que Neymar ainda joga sozinho, ainda abusa do individualismo e ainda tem pouca noção do colectivo. Falhou na Copa América. Ele e todos os outros.

Neymar tem dezanove anos. E talento, génio, arte, habilidade, técnica: é um portento. Só que em bruto. Pode ser o melhor do Mundo? Pode. Mas tem que sair para a Europa, tem que limar arestas, tem que aprender como se joga futebol por cá e tem que enriquecer a sua cultura táctica. Tem que juntar inteligência à magia. Aí, poderá ser um novo Ronaldo, o Nazário, que desperte os brasileiros. A fórmula é esta: o Brasil produz, a Europa potencia, o jogador cresce e todos ganham. Será?

Opinião: Um pesadelo de cadeira

O despertador toca. As pestanas soltam-se em dois tempos. O espevitar é forte, violento, faz acelerar o coração e sentir o sangue a pulsar. A cabeça lateja. Lá dentro, um eco, primeiro ao fundo, depois crescente, uma sucessão de imagens e de rostos pelo meio, sempre a bater, sem misericórdia, para fazer estragos. Cadeira de sonho, cadeira de sonho, cadeira de sonho. O som cresce, aumenta, mói e destroça a alma. Traz outras palavras coladas, traz sorrisos, traz imagens de vitória, saltos de alegria. É o clube que eu adoro, daqui não saio, é um sonho, não abdico deste lugar por nada. A pressão é cada vez maior, solta-se o lençol, a almofada vai pelos ares em linha recta. Um Prozac, por favor. Pode ser que a coisa alivie. O que é isto, pá?

Mãos na cara, cabeça baixa, indicadores passados pelos olhos e um movimento rápido para erguer o pescoço. O que é isto, pá? A pergunta repete-se. Foi um pesadelo, só pode ter sido, foi um pesadelo, o André, o nosso André, não fazia isso, ele é um de nós, carago, não nos ia deixar assim. Liga a televisão. Ainda ensonado, com os olhos semicerrados, pode ser que aquilo tenha sido o efeito de um copo a mais, sabe-se lá, há coisas que não se explicam. Não, esqueçam, não há pesadelos, não há ressaca, não há nada a não ser o que é na verdade. Um, dois, vamos lá interiorizar. A realidade pura e dura é que André Villas Boas rescindiu com o FC Porto, pagou os quinze milhões de euros da cláusula e partiu para o Chelsea. Oh não, nem o Prozac ajuda. Cabeça na almofada e esquecido o mundo maldito.

André Villas Boas é, agora, nome proibido para a maior parte dos portistas. Foi um herói, um herói louco, por aquilo que fez, pelas vitórias, pelos recordes, pelos títulos, pelos saltos, por uma época de sonho, mas, não há hipótese, foi tudo por água abaixo. A irritação não sai. O sentimento de traição apodera-se, corrói por dentro, faz mossa e absorve a razão. Porra, pá, pensei que eras um dos nossos, que desilusão, que traidor, que mercenário, és um falso. André foi embora. Tomba do pedestal, perde o crédito, passa a zé-ninguém, só mais um que serviu e foi servido pelo clube, sai sem glória depois de um ano imortal. Deixou o dragão enfurecido, revoltado e em erupção.

A carga pronta e metida nos contentores, adeus, ó meus amores, que me vou. Agradecido. Com quatro títulos ganhos, com um percurso dourado, com uma época que dava para uma estátua logo à primeira tentativa. Mas a vida é feita de momentos. Houve um em que o Chelsea chamou, as libras amontoaram-se, André perdeu-se nos cálculos, viu uma possibilidade única, gostou e aceitou deixar tudo para trás. Não havia como recusar. André era o adepto, era o jovem, era o dragão, era o treinador. Era muitas coisas num só. Os dragões de bancada reviam-se nele. Competente, entusiasmante, categórico e portista. Naquela pose de mão no queixo havia compromisso pela vitória, naquele olhar fixo a vontade de superar tudo, no discurso a capacidade de mudar o destino e nos saltos a alegria de alguém que trabalha por paixão e por gozo. Cadeira de sonho, cadeira de sonho, cadeira de sonho.

O Prozac fez efeito. O adepto está mais calmo. Já não tem os olhos vermelhos de raiva nem morde a língua. Mas a marca fica para sempre. André podia sair, é claro que podia, porque é muito bom no que faz, qualquer um iria, mas não agora, não com a época quase a começar, não depois de tantas juras de amor, não depois de ter sossegado os adeptos, não depois de os ter deixado sonhar com uma época ao nível da anterior. Se calhar, nem ele estava à espera. Por isso foi dizendo que queria continuar no FC Porto, que queria lá construir carreira, que queria ser mais feliz do que nunca, que queria o céu e a terra, que iria ser sempre mais um dragão. Mas o Chelsea investiu forte. André não recusou.

Para os adeptos, depois de tudo, será apenas um cobarde, um vendedor de ilusões e um miúdo precipitado. Que esteve na cadeira de sonho e caiu num pesadelo de cadeira. É pena. Também para ele. Porque a época histórica não merecia.
É possível mudar o destino.

Opinião: O paradoxo de querer tapar e… destapar!


David Luiz desespera. Jorge Jesus diz-lhe que vai jogar no lado esquerdo da defesa: olhos no Hulk, hã?, o gajo não pode fazer nada, tira-lhe a bola ou faz o que quiseres, mas ele por ti não passa. Ouve, encolhe os ombros, mostra confiança. Lá no fundo não percebe: pôrra, cara, outra vez na esquerda?. A experiência não é boa. David Luiz revolta-se por dentro e resigna-se por fora. Vai para a sua nova posição, vê Sidnei ocupar-lhe o lugar ao lado de Luisão, tem Fábio Coentrão mais à frente. Não é ele quem manda. Só lhe resta cumprir. Continua nos seus pensamentos, nas suas dúvidas, na indefinição: vai dar barraca, vou-me queimar, isto não vai ser bom, não sei por que não joga o Fábio aqui ou o César. Só lhe resta confiar. Confiar que Hulk vai ter um dia mau. Faz figas. Mesmo que não acredite, tenta. Ou pode ser que tenha um jogo de sonho. Acredita que sim.

Seu Givanildo está com as horas contadas. O homem desaparece. Chega Hulk. Com pujança, revolta, talento, força e vontade de destroçar tudo o que lhe aparecer pela frente. Ele é o Incrível Hulk. Os adeptos saltam, agitam as bandeirinhas, gritam pelo brasileiro, dão-lhe força ritmada, espécie de Go West transformado, sabem que pode ser decisivo. O homem que fazia gastar cigarros uns atrás dos outros, trincar pastilhas elásticas com raiva, puxar os cabelos ou bater na perna com desespero, mudou, deixou-se dos vícios de querer jogar sozinho, ganhou capacidade para carregar a equipa. Não é a única estrela. Há Falcao, há Belluschi, há Varela e há Moutinho. Mas Hulk é a mais cintilante. Tem rasgo, tem alma, tem garra. Tem tudo para ser super. Pega na bola, encara David Luiz, dobra, levanta a cabeça, passa e festeja. Varela abriu a águia.

Jorge Jesus passa a mão pela testa. É preciso ter azar, pá, os gajos tinham que marcar mesmo por ali. A mudança deu mau resultado. Foi a primeira vez que Hulk rasgou, prego a fundo, velocidade de ponta, drible para aqui e drible para ali, insistiu e deixou David Luiz para trás. E deu logo golo. A ideia era tapá-lo, impedi-lo, secá-lo. Por isso é que a defesa mudou. O dragão aproveitou. Atirou-se ao pescoço do adversário, quis colocá-lo no lugar, impedir que ganhasse terreno na sua casa, empinou o nariz, puxou da personalidade, da vontade insaciável de bater no Benfica e deixá-lo ainda mais para trás. Chegou o segundo golo aos vinte e quatro minutos, o terceiro logo após. Os três surgidos pelo lado esquerdo. Foi aí que Jorge Jesus mudou. Falta ritmo, rotina, dinâmica quando se muda. David Luiz perdeu-se. Não pode render o mesmo em todo o lado.

André Villas Boas salta. Está feliz da vida: ganha por três-zero, tem o jogo ganho antes da meia-hora, diverte-se com a que a equipa faz, rejubila, enche-se de orgulho. Mas falta qualquer coisa. O treinador lá saberá. É um perfeccionista. Grita, corre, pincha. O dragão não pode adormecer e colocar-se à mercê. Tem que continuar forte, libertando fogo, encurralando o adversário e marcando, com astúcia e inteligência, nas oportunidades surgidas. O Benfica está atarantado, frágil, sem ligação, completamente à deriva e sem critério. Jorge Jesus olha resignado. Errou na estratégia, errou na forma como deixou o jogo seguir, errou por não ter agido, errou por ter dado avanço ao FC Porto. Mas dizer que foi só por isso é demasiado redutor: o Benfica nunca se encontrou, tem jogadores a léguas do que podem fazer e o dragão, imperial e senhor de si, foi forte, muito forte, para se sobrepor com segurança.

Hulk fizera das dele. Esta época faz sempre. Confia, acredita, embala, rompe e decide. Está como nunca. Só que ainda não marcara. Já não tinha David Luiz pela frente. Jorge Jesus tentara emendar a mão: o melhor central no seu lugar e o melhor lateral também onde deve estar. Mas três-zero dá vigor a quem ganha e tira razão a quem perde. Hulk carrega. Quer mais, muito mais, tudo lhe sabe a pouco. Fábio Coentrão faz falta, grande penalidade de caras, oportunidade para aumentar. O Benfica passa a fazer parte da lista de vítimas do Incrível. Falta o fecho: pontapé forte, colocado, traiçoeiro, mão-cheia de golos numa exibição de mão-cheia, para fazer corar o campeão nacional. A águia ficou envolta numa panóplia de erros, de indefinições e foi atada pelo dragão. O FC Porto liberta a sua raiva interior, aumenta a confiança e distancia-se. Yes!, diz.

Opinião: O dia em que Maradona faz cinquenta anos



El Pibe completa cinquenta anos de vida.

México, 1986, Verão. Sol, calor, tequila e um sombrero. Campeonato do Mundo. Quartos-de-final. Estádio Azteca cheio, a abarrotar, sem espaço para uma melga: cento e quinze mil pessoas preparadas, de bandeirinha em punho, esfregando as mãos, em contagem descrente, final countdown, para o duelo entre Argentina e Inglaterra. Olhos abertos, atenção colada, televisões ligadas, rádios sintonizados. Um planeta parado. Um jovem em emergência, pujante, talentoso, cheio de ganas: Diego Armando Maradona. Liderava a albiceleste. Número dez, braçadeira de capitão, marcas de predestinado. Com Inglaterra pela frente. Equipa cavalheiresca, como Bobby Robson, com Lineker, goleador letal, na frente. Jogo agradável, entretido, disputado e ritmado. Só que sem golos. Desgraça. O futebol é sinónimo de golos. A sua essência, pelo menos, é.

Fim da primeira parte e um nulo. Duas equipas com tanta qualidade, tantas estrelas, tanto talento e sem golos? Anularam-se, as defesas superiorizaram-se, guardaram-se. Os golos surgirão, pensa-se. E espera-se. Maradona, no seu interior, percebeu que o colectivo não resultara. Nem é tarde nem é cedo, há que resolver, pega-se na bola e trata-se disso. O jogo recomeçara há seis minutos. El Pibe levou a bola colada ao pé esquerdo, tipo íman, entregou-a para Valdano e correu para o centro da área inglesa. A bola sofreu um ressalto e subiu. Diego Armando Maradona, do alto do seu metro e sessenta e cinco, elevou-se e atirou para dentro da baliza. Como foi possível ele ter chegado com a cabeça onde Peter Shilton, o guardião britânico, não chegou com as mãos? Só com ajuda. Ajuda divina, disse ele: fue la mano de Diós. Do Diós Maradona, sim.

Os ingleses levantaram-se em protesto. Fora com a mão. Mesmo que bem disfarçado. Ali Bennaceur, árbitro tunisino, apontou para o centro do terreno. Bullshit! Argentina em festejos, o golo contara, fosse como fosse, até poderia ser com o dedo mindinho: um-zero de vantagem, ponto final. Mas foi batota. A palavra, associada a Maradona, fica ainda pior do que já é. Ele achou o mesmo. Não haveria de ficar na História por aquilo. Havia tempo, espaço, inspiração para muito mais. Poderia passar de batoteiro a génio. Precisou de quatro minutos. Voltou a colar a bola ao pé. Fintou. Dois ingleses foram aos bonecos nesse instante. Correu, correu e correu. Uff! Destruiu como uma onda. A mesma que no México se fazia nas bancadas. Foi deixando os adversários pelo caminho. Impotentes, vergados, rendidos. E os argentinos extasiados.

Chegou à área inglesa em poucos segundos. Ainda há instantes estava no seu meio-campo. Viu a glória junto de si. Só Maradona e Terry Fenwick, o mais resistente dos defesas britânicos, antes de Peter Shilton. Nova finta, guarda-redes fora da jogada, golo. O melhor golo alguma vez visto. De la hostia! Que jogada, que momento, que golo, que espectáculo, que obra de arte, que monumento – complete o leitor, se quiser. Uma vénia, urros de vitória, chapéu bem levantado, respiração cortada e imortalidade garantida ali, assim, naquele minuto. Verdadeira ode ao futebol, essência do jogo, pureza da magia, génio à solta, livre e rebelde, para decidir todos os problemas. Maradona fazia-o como ninguém. Fosse com matreirice ou com brilhantismo. Ante a Inglaterra, foi as duas coisas. Mas será sempre um génio. Para muitos um Deus.

O texto original, que serve de base a este, data de Setembro de 2009. Foi revolucionado. Como fazia Maradona com a bola nos pés. A prova está aqui.


Opinião: Vamos ser heróis por Portugal

Dia 19 de Setembro de 2010.

O tempo escreveu a história do Mundo. Os homens ditaram a sorte da Terra. Impérios, nações, caíram bem fundo, desde o começo até à nossa era. Já não há heróis, heróis que consigam levantar o moral dos impérios caídos. Através dos tempos, guerras e impérios acabaram com povos de vida pacífica. (…) Ainda virá o dia em que se levantará um homem muito forte que todos derrotará. Todos se voltarão contra ele mas o Mundo cairá das garras do tirano, é o ódio pela paz. Já não há heróis, heróis que consigam levantar o moral dos impérios caídos. Vamos ser heróis, heróis nesta guerra, acabar com os loucos que destroem a Terra.

O acumular de dias monótonos, sem rasgo e traços de gala, num registo que podia ser brilhante mas se ficou pelo mínimo e foi pintalgado de momentos de polémica acesa, aniquilaram as condições de trabalho de Carlos Queiroz. O seleccionador fechou-se no seu próprio Mundo, isolou-se, desapoiado, ficou entregue à sua sorte. Não teve o escudo que precisava. Ao mesmo tempo foi imprudente: atacou, abusou da sorte, colocou-se a jeito. Fez tudo ao contrário para quem está numa posição delicada, frágil, à mercê de quem o pretende atacar. Os homens revoltaram-se, colocaram o orgulho à frente de tudo, Queiroz perdeu as condições para o futuro e foi teimoso, enquanto a Federação, num pára-arranca inquietante e repulsivo, tardou em tomar uma decisão. Deixaram a selecção entregue à sua sorte. O tempo chegou ao fim.

Dois resultados fizeram corar de vergonha. Alerta máximo, escalada a montanha de problemas, enfim uma decisão a tomar. Impérios, nações, caíram bem fundo, desde o começo até à nossa era. Carlos Queiroz abandonou a selecção. Nem poderia ser de outra forma. O treinador transformara-se num problema: para os patrões, para os jogadores, para os adeptos. Não interessa discutir o passado, as causas, aquele típico diz que disse, as teorias da conspiração. Queiroz não podia continuar à frente de Portugal e ponto final. O império português, antes passando por cima de um completo fracasso asiático para se colocar no bom caminho que iniciara na entrada no novo século, caiu com estrondo. O povo português desligou-se da selecção, tirou a bandeirinha da janela, perdeu a fé. Precisa de um herói com urgência.

Uma mudança, um novo seleccionador, novos ares e siga a tropa. Não é assim tão fácil. Portugal está em baixo. Nos resultados, na confiança e nas perspectivas para o futuro. Gilberto Madail, caminhando para o fim, anunciando eleições, vendo a porta de saída aberta, sendo que muitos a indicam como uma necessidade, tenta um último golpe de asa, procura o tal herói, o tal que seja capaz de levantar o moral e derrotar o tirano. Olha para Espanha, vê lá José Mourinho: é português, é o mais melhor, é o mais especial, por que não? Tem contrato com o Real Madrid, é pago a peso de ouro, nunca aceitará. Insiste-se. Não se perde nada, já está no vermelho. Dois jogos, senhor herói, pode ser? Mourinho nem sim nem sopas, não vira as costas mas não aceita, delega no Real Madrid. A resposta sai forte, pujante, atemorizadora: não!

A ideia de Gilberto Madail tem contornos de desespero. Deixar Portugal, entrar num avião rumo a Espanha, falar com Mourinho, colocar-lhe paninhos quentes e esperar por um entendimento. Mas é uma boa ideia. Portugal e Madail nada têm a perder. Já perderam. Mourinho é o melhor. É o que se necessita. Pode ser o herói que todos derrotará. É essa, pelo menos, a esperança, remota mas uma esperança, do presidente da Federação. A ideia não tem que enganar: José Mourinho seria contratado para dois jogos, nada interferiria com o Real Madrid, porque os campeonatos estarão em pausa… por causa das selecções, Portugal venceria a Dinamarca e a Islândia, ganharia um novo fôlego e o novo treinador, escolhido para completar a caminhada, teria melhores condições e a pressão seria menor. O efeito do herói Mourinho seria óptimo.

Já não há heróis, heróis que consigam levantar o moral dos impérios caídos. Vamos ser heróis, heróis nesta guerra, acabar com os loucos que destroem a Terra. Mourinho não é excepção, não é herói, mas tentaria ser importante. Não pode, o patrão não o deixa, é um assunto demasiado sério para ser encarado como uma equação fácil. Por isso mesmo é necessário que nasçam outros heróis, que unam esforços, que consigam uma força colectiva e forte, para vencer a guerra portuguesa, conseguindo colocar a selecção nacional no trilho certo em direcção ao Campeonato da Europa, passando por cima das dúvidas, das desconfianças e dos ambientes adversos. Limpando, construindo um novo ciclo, proclamando novos heróis, acabando com os loucos destruidores. Paulo Bento é o nome do novo seleccionador. É ele quem terá de ser o herói.


11 de Outubro de 2010.

Depois do jogo com a Dinamarca e antes da jornada decisiva na Islândia. Portugal venceu, jogou com confiança, teve belos momentos de futebol, circulou a bola, exaltou a sua qualidade. Serviu-se de Nani, teve João Moutinho como cérebro, até viu Ronaldo, para sempre vivendo com o estigma de não chegar aos níveis que alcança nos clubes, jogar bem, assistir e fixar o resultado final. Os jogadores sorriram. Soltaram-se, deixaram os abalos do passo, encararam o jogo reconhecendo toda a importância. Não se deixou abater por um percalço no final, afastou os fantasmas e foi forte. Portugal fez por merecer ganhar e conseguiu-o. Antes disso, já o público presente no Dragão enchera os pulmões, puxara pela garganta e gritara pela selecção. Os adeptos e os jogadores estão juntos. De novo. Esse é o primeiro mérito de Paulo Bento. Sem ser herói, devolveu a confiança. É necessário, agora, aproveitar e prolongar o estado.

Opinião: Um Hulk cada vez menos Givanildo



Março. Dia trinta. Campeonato perdido pelo FC Porto, bem encaminhado pelo Benfica, ar de graça do tetracampeão nacional, sem objectivos mas com a honra em jogo, dragão ferido no seu orgulho querendo mostrar o valor que esteve escondido. Hulk regressara de castigo. O FC Porto, com ele na equipa, venceu todos os jogos. De nada valeu: o atraso estava excessivamente alargado. Este texto, com algumas adaptações, data dessa altura. Coloca frente a frente as duas versões do brasileiro: um Givanildo individualista e conflituoso que se transforma num Hulk poderoso e decisivo. É importante recuperá-lo. Hulk está, actualmente, na plenitude dos seus recursos: constrói, ganha em força, carrega a equipa, faz sorrir André Villas Boas, que lhe acena em forma de obrigado, rapaz!, assiste e marca. O FC Porto caminha seguro. Hulk é cada vez mais um jogador de equipa: solidário, empenhado, corajoso. Mas ainda aparece Givanildo. São as duas faces do herói.

Pega na bola, leva-a no pé esquerdo, parte para cima do adversário. Faz fintas sucessivas, troca os olhos a quem o segue, explode para a linha de fundo. É possante, veloz, tem grande capacidade para continuar com a bola controlada. Parece intocável, mais forte do que tudo, capaz de derrubar qualquer muralha que lhe apareça à frente, ganha poderes que só estão reservados a predestinados. Dá bom resultado. Mas, infortúnio, também pode chegar à linha de fundo e cruzar mal. O lance perde-se, o ataque não tem frutos, a baliza não ficou em perigo, o guarda-redes respira de alívio. Nesse momento, Hulk volta a ser Givanildo Vieira de Souza. Deixa os atributos que fazem dele um jogador acima da média, cai na realidade: é um homem sujeito ao erro, nem tudo lhe sai bem, por vezes pode não resultar. Por mais que tente, não dá. Entra numa panóplia errante. Antes, facilmente, era assim. Agora consegue diminuir os erros.

A analogia é sempre a mesma. Imaginemos um barco. Em pleno naufrágio. Onze remadores que se vêem cada vez mais numa situação aflitiva, o tempo passa e não conseguem sair do sítio, a tempestade, o grande adversário, leva vantagem. É preciso agir. Como em tudo, há sempre quem se destaque. Há um remador forte, capaz de incentivar os outros, que sozinho tem atributos que escapam aos dez restantes. Tenta a sua sorte, faz de tudo para mudar a situação, não dá o seu lugar, quer mostrar que é capaz. Todos o sabem, ele precisa de o mostrar a si próprio. Mas, vá lá, quem é que sozinho consegue sempre, em todas as circustâncias, fazer a força de onze? Ninguém. Nem o remador nem o jogador de futebol. São tantos, tantos, tantos os que o querem. Seria melhor unir as forças de onze. Esse é um defeito que se aplica a Hulk. Agora menos.

O brasileiro tem um inegável talento genuíno, é capaz de decidir jogos, mas falta-lhe cabecinha. Precisa de perceber que não pode querer resolver sempre, o apelido não permite a Givanildo segurar a equipa nos ombros, torna-se mais fácil de travar quando pretende enfrentar os onze adversários sem apoio. É um jogador com uma qualidade imensa, sim, mas precisa dos colegas. Tal como o remador. Se assim não for, não conseguirá passar à primeira. Nem à segunda, nem à terceira. Irá tentar, tentar, tentar, enfim, provar que consegue. Começa a ficar com um nervosinho interior, vai aumentando à medida que o rival é mais forte, torna-se inconsequente. O público não gosta, reclama, passa a bola!. Ele mantém-se confiante: há-de conseguir por mais que custe. Hulk está mais trabalhador. E com isso mais decisivo. Percebeu finalmente que só ganha se a equipa ganhar.

Ora, leitor, o invidualismo não é um problema associado a ene jogadores que vão passando pelos melhores relvados? Têm talento, mas não o canalizam para a equipa, antes mostram que consegue fazer tudo bem sozinhos. Resulta nalgumas situações. O público curva-se, agradece a oportunidade. É um regalo para a vista. Noutras não. Perdem-se as oportunidades, os possíveis golos, uma eventual vitória. Tudo causado pela teimosia. Hulk já foi anjo e diabo para os portistas. Destroça os adversários, deixa-os pelo caminho, remata com uma potência descomunal para dentro da baliza. Golo, vitória, glória. Títulos. É anjo o Hulk. Noutras parece que nada o travará, mas não passa pelos defesas, o guarda-redes agiganta-se, perde as ocasiões e reclama. Entra numa ânsia de marcar. É diabo o Givanildo. Neste início de temporada, em 2010-2011, tem sido um… diabo para as defesas contrárias. É aí que se nota a capacidade de ser herói.

Hulk começou a temporada passada como sendo o principal jogador do FC Porto. Hulk-dependência, disse-se que afectava a equipa portista. A pré-temporada deixara indicações de que este seria o ano da sua explosão definitiva. Começou mal, porém. Em Paços de Ferreira apareceu o Hulk individualista, envolvendo-se em picardias constantes, parado por faltas dos adversários, a melhor forma de o travar quando está inspirado, expulso no primeiro jogo. Não pensou na equipa, na falta que poderia fazer, ficou arredado dois jogos. Apareceu mais calmo, ponderado, percebendo que são estas as leis do jogo. Quis justificar os elogios iniciais. Até ao jogo da Luz, com o Benfica. Foi bem anulado nas quatro linhas, não conseguiu soltar-se da teia e deixar o relvado triunfante. Perdeu-se no túnel.

As consequências dos incidentes no final do jogo com o Benfica já são bem sabidos, leitor. Hulk falhou dezoito jogos em Portugal. Pelo meio, apareceu ante o Arsenal. No Dragão e em Londres. Entrou decidido a provar que a paragem não o afectara, que mantinha as qualidades intactas, que tinha sido uma baixa de vulto para o FC Porto. Não conseguiu. Acusou a falta de ritmo, a vontade de querer fazer tudo. Obviamente. Que se poderia esperar de um jogador sem jogo há dois meses? Entre trapalhadas jurídicas, Hulk terminou o castigo. Jesualdo Ferreira utilizou-o à primeira oportunidade. Sinal claro da sua importância na equipa. Jogou no Restelo ao seu melhor nível: duas assistências e um golo de bandeira, devorador de uma defesa tenrinha. Foi uma libertação de raiva pela pausa.

Poderia o campeonato do FC Porto ter sido diferente se Hulk não tivesse entrado no túnel da Luz com os nervos à flor da pele? É uma pergunta incontornável, tão incontornável como olhar para David Seaman, nos tempos do Arsenal, e não reparar no bigode que o imortalizou. Ou Freddie Mercury. A resposta permanece no segredo dos deuses. Ninguém a pode dar, portanto. O melhor Hulk é uma peça fulcral. Não é, contudo, sempre assertivo. Por isso, nunca se saberá o que poderia ter acontecido se o brasileiro tivesse jogado a maior parte do campeonato. Mas é inegável que Hulk, o melhor, a versão genuína em que Givanildo Vieira de Souza se transforma, fez imensa falta a este FC Porto. E ao futebol português. Afinal, os melhores jogadores estão cá para isso. Se foi por isso que a época azul falhou? Não!…